A imagem não me causava mais náusea. Causava um calor baixo, constante, na base da minha espinha. O peso esmagador, o cheiro de terra e suor, a dor que se transformava em submissão absoluta... meu corpo, traidor e sábio, lembrava não do horror, mas da liberação. De ter sido, finalmente, reduzido à minha função mais básica no jogo: a de objeto. E ter encontrado, naquele fundo do poço, uma estranha paz.
Observava a Aline, agora radiante e centrada, e admirava sua força. Mas em meu íntimo, uma inveja doentia crescia. Ela havia se entregado ao longo de toda a jornada, desde o primeiro boquete no estádio até a blitz. Ela havia colhido prazer, poder, transcendência. Eu entregara minha mente, meu ciúme, meu orgulho. Mas no estábulo, entregara meu corpo, e aquilo... aquilo havia sido diferente. Era uma linha que, uma vez cruzada, pedia para ser revisitada. Não por violência, mas por escolha.
A confissão veio numa noite calma, semanas depois da blitz. Estávamos na varanda, o silêncio da noite nos envolvendo.
"Aline", comecei, a voz mais firme do que eu esperava. "Preciso te falar uma coisa que nem eu mesmo entendia até agora."
Ela virou-se para mim, os olhos verdes reflexivos na penumbra. "Fala, amor."
"O Estêvão...", vi um leve alerta surgir nela, mas continuei. "Não é um fantasma que me assombra. É uma sombra que... me atrai. Quando penso naquela noite, não sinto mais só medo ou raiva. Sinto... saudade."
Ela franziu a testa, confusa. "Saudade? Da dor? Da humilhação?"
"Da entrega", corrigi. "Da entrega total. Você sempre se entregou, Aline. De corpo e alma. Em Luanda, no canteiro de obras, na blitz. Você se abriu e colheu o mundo. Eu... eu só assisti. Ou fui arrastado. Mas no estábulo, com ele... pela primeira vez, eu também me entreguei. Por completo. E foi horrível, foi aterrador, mas foi... real. Foi o fim da linha. E agora, sabendo que sobrevivi, quero voltar lá. Não como a vítima. Como... o voluntário."
Ela ficou em silêncio por um longo momento, estudando meu rosto como se lesse um mapa novo.
"Você está dizendo que quer sentir ele de novo. Que quer que eu marque. Mas que, dessa vez, você não vai estar lá para ser humilhado... você vai estar lá para se oferecer."
"Exatamente", respirei aliviado, como se tivesse tirado um peso do peito. "Quero que seja minha escolha. Quero sentir o peso dele sabendo que é o que eu busco. Quero que ele me coma, e quero sentir prazer nisso. Não o mesmo prazer que você sente. Um prazer... de rendição. De serviço. E quero que você veja. Quero que você testemunhe o momento em que seu marido, o corno, se torna de fato o boi do rebanho. De livre e espontânea vontade."
Os olhos dela se iluminaram. Não com preocupação, mas com uma centelha de fascínio profundo, quase maternal. Era a mesma centelha que via quando ela encarava um novo tabu a ser transposto.
"Você quer transformar o trauma em ritual", ela concluiu, sua voz um sussurro carregado. "Quer ressignificar a marca dele em você. Não como uma cicatriz, mas como um... sinal de pertencimento."
"Sim. E quero que você seja a sacerdotisa. Que você me apresente a ele. Que você me entregue. E que depois... você me recolha."
Aline sorriu. Era um sorriso lento, poderoso, cheio de amor distorcido e compreensão absoluta.
"Então vamos fechar o círculo, Henrique. Vamos voltar à terra. Mas desta vez, você vai cavar a própria cova e se deitar nela, porque é o lugar que você escolheu."
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A fazenda do Estêvão parecia menor, ou talvez eu estivesse maior. Desta vez, não havia tensão de negócio, apenas a clareza solene de um acordo pessoal. Estêvão nos recebeu na varanda, com a mesma solidez imponente. Seus olhos escuros passaram de Aline para mim, e ele deve ter visto a diferença. Não havia medo no meu olhar. Havia consentimento. Uma antecipação quieta.
"Voltaram", ele disse, sua voz um rugido baixo. "A mercadoria quer revisitar o curral?"
"O rebanho quer se realinhar, Seu Estêvão", Aline respondeu, com uma formalidade que era parte do ritual. "Desta vez, o boi conhece o caminho. E quer ser conduzido até o cocho."
Estêvão soltou uma risada curta, genuinamente impressionado. "Isso é novo. O bezerro que virou churrasco agora pede o fogo. Interessante." Ele se aproximou de mim, seu cheiro de terra e autoridade envolvendo-me. "E você, Henrique? É isso mesmo? Veio aqui porque quer, ou porque ela mandou?"
Fiz algo que nunca tinha feito: ergui o olhar e mantive seu olhar. "Vim porque quero, Seu Estêvão. Quero sentir de novo. Dessa vez, estando presente. Em corpo e... em desejo."
Ele estudou meu rosto por uma eternidade. Então, um aceno de cabeça, quase respeitoso. "Tá certo. Homem que sabe o que quer, mesmo que seja ser menos homem, merece respeito. Vamos pro estábulo."
O local era o mesmo. O cheiro de feno limpo, animal, o chão de pedra. Mas a energia era outra. Aline se posicionou ao lado de uma pilha de feno, sua postura de observadora ativa, a arquiteta daquela cena.
Estêvão não me ordenou que me ajoelhasse. Ele simplesmente parou no centro do espaço e me olhou. E eu, sabendo o que fazer, comecei a me despir. Cada peça de roupa que caía era uma camada de resistência que eu escolhia remover. Quando fiquei nu, não me ajoelhei. Fiquei de pé, diante dele, oferecendo minha vulnerabilidade.
Ele se aproximou, lento, e sua mão grande e calejada pegou meu queixo, forçando meu olhar para o dele.
"Tá vindo por sua conta. Isso muda tudo. A dor vai ser a mesma. A posição vai ser a mesma. Mas o gosto... o gosto vai ser de vitória sua, não minha. Entende?"
"Entendo", minha voz saiu firme.
Ele então me virou, com a mesma força de antes, mas desta vez eu não resisti. Curvei-me sobre a pilha de feno, oferecendo-me. Aline, da sua posição, deu um passo à frente. Seus olhos encontravam os meus, e neles vi amor, orgulho e uma excitação intensa e compartilhada. Ela estava me vendo escolher nosso destino mais sombrio.
Quando Estêvão entrou, a dor foi aguda, violenta, exatamente como eu lembrava. Mas por cima da dor, como uma corrente elétrica, veio o prazer. O prazer profundo e perverso da entrega consentida. De saber que cada empurrão, cada grunhido baixo dele, cada tremor do meu próprio corpo, era uma afirmação da minha vontade. Eu não era um boi sendo marcado à força. Era um homem que havia desenhado o próprio ferro e agora o pressionava contra a própria carne, com um propósito.
Gemi. Não um grito de dor, mas um gemido de realização. Meus olhos, marejados, permaneceram fixos na Aline. Ela assistia, respirando fundo, uma mão no próprio pescoço, a outra estendida em minha direção, como se pudesse tocar a corrente de energia que nos unia naquele momento. Ela via. Ela entendia. Ela possuía aquele momento tanto quanto Estêvão me possuía.
Foi mais longo do que da primeira vez. Mais metódico. Estêvão parecia saborear a diferença, a aceitação ativa, e explorava cada centímetro dessa nova submissão. Quando seu clímax chegou, foi com um rugido mais profundo, quase de respeito. Ele despejou-se em mim com uma posse que, desta vez, senti como uma consagração.
Quando ele se retirou, eu desabei no feno, ofegante, dorido, mas incrivelmente são. Estêvão se arrumou e olhou para Aline.
"Esse aí agora é feito. Não quebra mais. Pode usar como quiser."
Ele saiu, nos deixando sozinhos no cheiro denso do ato.
Aline veio até mim. Não com um lenço, mas com as próprias mãos. Ajoelhou-se no feno e começou a limpar minhas costas, meus flancos, com uma ternura infinita.
"Meu homem", ela sussurrou, a voz embargada. "Meu homem bravo e corajoso. Você foi lindo. Você se tornou... você mesmo. Por completo."
Ela me ajudou a me levantar e me abraçou, nosso suor e o dele se misturando entre nós. O beijo que demos foi o mais doce, o mais complexo e o mais puro de todos. Era o beijo de dois sobreviventes que haviam, juntos, atravessado o espelho mais escuro e voltado, não intactos, mas inteiros.
Naquele estábulo, na terra do Estêvão, eu não havia apenas revisitado um trauma. Havia renascido dele. A entrega não fora um fim; fora um batismo. E Aline, minha ruiva, minha sacerdotisa, minha puta, minha esposa, segurava minha mão, pronta para o que quer que viesse depois, porque sabia que o elo entre nós agora era indestrutível. Forjado no fogo, temperado na humilhação e polido na aceitação mais profunda e amorosa que dois seres humanos poderiam compartilhar.
henriquecasadomg