A ressaca daquela noite com os angolanos trouxe um silêncio revelador. A vitória sobre Estevão não sabia a triunfo, mas a um capítulo terminado de um livro que já não queriam mais ler.
Foi na varanda da cobertura, olhando para o mar agora monótono, que a decisão nasceu. Não de um discurso dramático, mas de um cansaço mútuo e profundo.
"Vendamos tudo", disse Aline, sua voz clara cortando o ar salgado. "Tudo que nos prende a esses personagens. A ‘Lenda’, o ‘Diretor de Transportes Especiais’. Tudo."
Henrique olhou para ela, e nos seus olhos ela viu o mesmo alívio antecipado. "E compramos o quê?"
"Nosso anonimato. E nosso tempo", ela respondeu, um sorriso verdadeiro, não performático, tocando seus lábios. "Lembra do que éramos? Antes de tudo virar um jogo corporativo ou um ritual de fazenda?"
"O corno e a puta", ele disse, a frase soando não como um insulto, mas como um mantra sagrado e sujo.
A execução foi fria, brilhante e lucrativa. Henrique, com sua experiência no mercado cinza, e Aline, com seu instinto de sobrevivência, tornaram-se negociadores impiedosos:
· A Via Ágil Transportes foi vendida não como uma simples transportadora, mas como uma "empresa de logística discreta com carteira de clientes VIP e know-how em navegação de zonas regulatórias cinzentas". O conglomerado asiático que a comprou pagou uma fortuna, ávido pelos canais e pela discrição que Henrique construíra.
· A marca "Lenda" e sua linha de cosméticos não foram liquidadas, mas licenciadas para uma grande holding de beleza. Aline negociou direitos autorais vitalícios e um pagamento global significativo. A essência que ela criou agora seria produzida em massa, enquanto ela se distanciava do mito.
· As propriedades—a casa na serra, a cobertura—foram colocadas no mercado no momento exato de alta, rendendo lucros substanciais.
Quando a poeira baixou, eles não eram apenas anônimos. Eram confortavelmente ricos. Tinham capital mais que suficiente para nunca trabalhar de novo, para viverem várias vidas em quietude luxuosa, se quisessem.
E foi exatamente essa opção que rejeitaram.
Com uma conta bancária gorda e documentos novos em nomes simples, mudaram-se para o extremo sul. Não para um resort ou uma comunidade fechada, mas para uma casa de pedra e madeira, sólida e isolada, no topo de um penhasco com vista para um mar bravio e gelado. A casa era grande o suficiente para se perderem, mas o que importava era o que eles colocaram dentro: quase nada. Mobília robusta, uma cozinha profissional (para os guisados que ela aprendeu a fazer), uma cama enorme no centro do quarto principal, e um sótão vazio que ecoava.
Aqui, o dinheiro não comprava status. Comprava isolamento. Comprava a liberdade de regredir.
Henrique não pegou mais um caminhão. Ele comprou uma van antiga, robusta, e passou os dias consertando-a, melhorando-a, em uma oficina que montou na garagem. Trabalho manual, sujo, de suor real. Ele dirigia para a vila pesqueira mais próxima, 20km de estrada de terra, para comprar peças e provisões. Tornou-se "o homem da casa no penhasco", um tipo solitário e quieto que os locais cumprimentavam com um aceno cauteloso.
Aline assumiu o papel com uma devoção de atriz finalizando sua obra-prima. Encomendou roupas online: não lingerie cara, mas camisetas justas e rasgadas, shorts curtíssimos desbotados, macacões largos que caíam de um ombro. Roupas de personagem, da personagem "Puta Doméstica". Ela mantinha a casa imaculada, não por obrigação, mas como parte da encenação. Passava o dia preparando-se para ele. Tomava banhos longos, depilava-se com cuidado, perfumava-se com um óleo barato e adocicado que ele adorava.
À noite, ela o recebia. Às vezes na porta, apenas de avental. Outras vezes, já na cama, fingindo estar dormindo. Ela alimentava-o com histórias: o entregador do mercado que a ajudou com as sacolas, o pescador mais velho que a cumprimentou na estrada. Mentiras ou verdades ampliadas, pouco importava. Eram combustível. Ela observava o ciúme acender uma chama escura e familiar nos olhos de Henrique, e seu próprio corpo respondia, molhado e pronto.
O sexo era a única moeda que importava nessa economia particular. Era brutal, lento, criativo, consensualmente degradante. Ele a tomava contra as vidraças frias, com o mar rugindo lá embaixo. Ela o usava no chão da lareira, ordenando, insultando, adorando. O Corno e a Puta. Não mais como papéis forçados por um terceiro, mas como identidades finais, abraçadas por escolha. O dinheiro no banco era apenas o alicerce que permitia que este templo perverso fosse construído, longe do mundo.
Eles tinham tudo o que o dinheiro podia comprar e nada do que ele costuma simbolizar. Tinham apenas um ao outro, e os espectros que invocavam na privacidade daquela casa à beira do abismo. Era um equilíbrio perfeito e instável. Um paraíso particular, construído sobre as cinzas de todos os jogos que já jogaram.
Fim deste arco.
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(Próxima provocação possível - caso deseje continuar):
Aparentemente, eles alcançaram o ápice do controle. Mas o isolamento total é uma ilusão. O que pode ameaçar esta fortaleza de dois?
henriquecasadomg