A calmaria na casa do penhasco era uma coisa viva, pulsante. Mas Aline sentia um novo tipo de vazio, diferente daquele que sentira após a fazenda. Era a vontade de dar um presente. Não um presente comprado com o dinheiro que repousava, inútil, nas contas offshore. Um presente vivo, suado, que custasse algo a ela. Um presente que fosse, em si, um ato de adoração ao seu corno.
A oportunidade surgiu numa terça-feira cinzenta, na vila pesqueira. Henrique estava imerso na engrenagem da van, suas mãos negras de graxa, sua concentração absoluta. Aline, de shorts curtos e um casaco largo de homem que era dele, caminhava pelo cais, observando.
Foi então que viu Jorge e seu irmão, Júlio. Dois pescadores de meia-idade, cor de ébano polido pelo sol e pelo sal, braços calejados e grossos como toras de árvore. Trabalhavam consertando as redes, rindo baixo, com uma cumplicidade que falava de anos de mar e esforço compartilhado. O olhar deles pousou nela, não com a curiosidade desconfiada dos outros, mas com uma apreciação crua, direta, de homem que sabe o valor de um corpo bem formado.
Aline não sorriu. Apenas segurou o olhar de Jorge, o mais velho, por um segundo a mais do que o convencional. Depois, virou-se e andou devagar em direção à saída do cais, sentindo o peso daquele olhar nas suas costas. Era o convite.
No dia seguinte, ela voltou, sozinha. Desta vez, usava um vestido leve que colava ao corpo com o vento úmido. Parou perto do barco deles.
"Preciso de uma ajuda", disse, sua voz um fio de seda rouca no ar salgado. "Tem uma caixa pesada lá em casa, no penhasco. Meu marido tá com a coluna ruim hoje." A mentira saiu fácil, doce.
Jorge ergueu os olhos da rede, estudando-a. Júlio parou de trabalhar. Houve um silêncio carregado, onde só se ouvia o bater das ondas.
"Penhasco é longe", disse Jorge, sua voz grave como o ronco de um motor antigo.
"Eu pago bem", disse Aline. "E... faço um café forte. O melhor que já tomaram."
Os olhos dos dois irmãos se encontraram. Uma comunicação silenciosa, ancestral, passou entre eles. Júlio deu um leve aceno.
"Que caixa é essa?", perguntou Júlio, seus olhos escorrendo pelo corpo dela de forma tão aberta que era quase um insulto cortês.
"A que vocês quiserem carregar", ela respondeu, e seu sorriso então não tinha doçura. Tinha a promessa de algo muito mais pesado do que madeira.
A caminhonete velha deles subiu a estrada de terra até a casa isolada. Aline os guiou, não para a porta da frente, mas para uma entrada lateral, que dava direto para a sala de estar, ampla e com vista deslumbrante para o mar.
Não havia caixa.
Aline trancou a porta suavemente. O clique do trinco pareceu ecoar na sala. Ela se virou para os dois homens, que pareciam ainda maiores dentro daquele ambiente limpo e austero.
"O café pode esperar", ela disse, e começou a desabotoar o vestido. A renda preta da lingerie contrastava violentamente com sua pele leitosa. "Vocês trabalham duro. Merecem uma... gratificação."
Jorge soltou um som baixo, entre um riso e um grunhido. "O marido... a coluna..."
"A coluna dele está perfeita", Aline cortou, aproximando-se. Seu cheiro, doce e selvagem, invadiu o espaço pessoal de Jorge. "Ele está na garagem. Ele sabe. E ele quer que vocês me façam de verdade. Até não sobrar nada."
A revelação não os assustou. Pareceu, estranhamente, acertar algo neles. Era um jogo, sim, mas um jogo que eles entendiam nos ossos: posse, uso, troca. Júlio foi o primeiro a tocar, sua mão enorme envolvendo a nuca dela, puxando-a para um beijo profundo, brutal, que sabia a sal e tabaco.
Foi rápido, depois disso. Roupas rasgadas, não tiradas com delicadeza. A humilde lingeria de Aline foi arrancada, os botões do macacão de trabalho de Jorge estouraram. O sofá grande de couro virou altar.
Jorge tomou-a primeiro, por trás, enquanto ela se apoiava no braço do móvel, seu rosto virado para a imensidão cinza do mar. Ele era lento, mas profundo, cada investida uma estocada certeira que fazia Aline gemer, não com performance, mas com um prazer real e avassalador. Ele a chamava de "patroa" num sussurro rouco, num contraste absurdo e excitante.
Júlio, mais jovem e impaciente, guiou sua cabeça para o seu membro, e ela o aceitou, engolindo-o com uma fome que vinha das profundezas de seu personagem. Ela era usada por duas forças da natureza, e em seu êxtase, uma parte dela observava, colecionando sensações para o presente final: o cheiro de suor e peixe deles, o som dos grunhidos guturais, a visão das mãos negras e ásperas marcando sua pele branca.
A troca foi violenta, primal. Aline foi virada, levantada, empalada novamente. Beijou um, chupou o outro. Em um momento, Jorge a colocou de quatro no chão de madeira e Júlio a tomou pela boca, enquanto o irmão a possuía por trás. Foi o ápice, uma dupla penetração que a fez gritar em um orgasmo dilacerante, seu corpo um arco tenso entre os dois irmãos.
Eles gozaram nela, nela e sobre ela. Jorge na sua boca, Júlio nas suas costas. Marcas de posse tribal.
Quando terminaram, exaustos, suados, Aline ficou deitada no chão por um minuto, sentindo o corpo latejar, as marcas queimarem. Depois, ergueu-se com uma dignidade estranha. Caminhou até uma estante, pegou um envelope gordo em dinheiro vivo e o entregou a Jorge.
"Agradeço a ajuda dos senhores", ela disse, sua voz serena, apenas um pouco rouca.
Os homens se vestiram em silêncio, o olhar deles nela agora diferente: não mais de desejo, mas de um respeito confuso. Eles tinham sido usados tanto quanto a usaram, e todos sabiam.
Quando a caminhonete sumiu na estrada, Aline foi até o pequeno tripé no canto da sala, onde um smartphone discreto ainda gravava, a luzinha vermelha piscando. Ela parou a gravação.
À noite, depois de um banho longo, ela vestiu uma camiseta limpa dele. Preparou o jantar. Quando Henrique entrou, sujo de graxa e com aquele olhar cansado e vigilante, ela não disse nada. Apenas o levou até o sofá, ligou a TV grande e colocou o vídeo.
As primeiras imagens, dela guiando os homens para dentro, fizeram seu corpo ficar rígido. Quando Júlio a puxou para o beijo, Henrique soltou um som rouco. Ele assistiu, imóvel, os punhos cerrados, a mandíbula tensionada, enquanto o filme de 47 minutos se desenrolava. Ele viu cada toque, cada submissão, cada gemido genuíno de prazer que ela derramou para aqueles dois estranhos. Viu o momento final, a dupla posse, o corpo dela arqueado entre os irmãos como um sacrifício glorioso.
Quando a tela escureceu, o silêncio na sala era absoluto, quebrado apenas pelo rugido distante do mar.
Aline ajoelhou-se no chão, entre as pernas dele. Olhou para cima, seu rosto lavado, seus olhos enormes.
"Um presente", ela sussurrou, sua voz finalmente quebrada. "Para o meu corno. Para provar que a sua puta... ainda é a melhor. Que ainda é sua."
Henrique olhou para ela, e o que ela viu em seus olhos não era raiva pura. Era uma tempestade: ciúme sim, mas também uma admiração aterradora, uma gratidão perversa, um desejo renovado e avassalador. Ele a puxou pelo cabelo, não com violência, mas com posse absoluta, e enterrou o rosto no pescoço dela, respirando fundo, como se buscasse nela o cheiro dos outros homens, o cheiro da sua traição consagrada.
"Minha puta", ele gemeu contra sua pele, a voz carregada de uma emoção brutal. "Minha puta gloriosa e nojenta."
E naquela noite, na cama deles, com o vídeo rodando em loop mudo no canto da tela, Henrique reivindicou cada centímetro do corpo que ela havia oferecido. Foi um ritual de reconquista, de purificação através da posse. E Aline recebeu cada toque, cada palavra suja, cada investida como a recompensa final.
O presente fora dado. E aceito. O ciclo de adoração estava completo, e mais forte do que nunca. A fortaleza de dois estava intacta, suas paredes reforçadas pela areia e sal dos corpos alheios que, por uma tarde, haviam sido permitidos entrar no templo.
henriquecasadomg