Os meses que se seguiram àquela noite épica na Fazenda Estevão foram de uma calmaria densa e deliberada. O triângulo perverso que se solidificara na cama larga da casa grande precisava de tempo para respirar, para assimilar o que haviam se tornado.
Na cidade, Aline e Henrique mantiveram uma fachada impecável. Henrique, aproveitando o conhecimento de logística e contatos adquiridos em seus negócios anteriores, fundou uma transportadora de cargas especiais. "Via Ágil - Encomendas com Discrição e Velocidade" era o nome discreto na placa. Os caminhões, sempre impecáveis, transitavam entre capitais com cargas que não constavam em planilhas comuns: obras de arte sem procedência, equipamentos sensíveis, pacotes que nunca eram abertos. O negócio prosperava na zona cinzenta do comércio, e Henrique descobria um prazer sutil no poder de mover coisas (e segredos) de um lugar para outro.
Aline, por sua vez, canalizou sua energia feroz para um negócio de cosméticos artesanais e óleos essenciais. Sua linha mais famosa chamava-se "Lenda", com frascos de vidro âmbar e fragrâncias que prometiam "libertar a fera interior". As mulheres da alta sociedade compravam avidamente, sentindo uma centelha de perigo inofensivo nas essências criadas pelas mãos que, meses antes, dirigiam um ritual de prazer coletivo. Curiosamente, foi a Via Ágil de Henrique quem assumiu a logística de distribuição nacional da "Lenda", garantindo que os frascos de desejo embalado chegassem intactos e pontuais a seus destinos.
A casa na serra tornou-se seu santuário. Não o refúgio pacato que imaginavam inicialmente, mas um palco privado para reencenar, a dois, os ecos daquela festa. As memórias eram combustível. Às vezes, Henrique sussurrava detalhes do que fizera com Estevão enquanto Aline se contorcia sob seus toques. Outras, era ela quem narrava, com riqueza de detalhes cruéis, cada homem, cada momento, enquanto observava o ciúme e o desejo dançarem nos olhos do marido.
Estêvão permanecia uma presença constante, porém à distância. Suas mensagens agora se camuflavam no fluxo de trabalho:
· Uma carga prioritária e sem remetente para a transportadora, contendo apenas um engradado de cachaça da fazenda e um cravo vermelho solto.
· Um pedido de frete para a fazenda, com especificações de coleta tão detalhadas que soavam como um poema cifrado.
· E, claro, a assinatura "E. S. T." em documentos de embarque duvidosos.
Era a maneira dele de dizer: "Estou aqui. Lembro. E uso seus novos caminhos."
A paz deles era ativa, não passiva. Era a escolha consciente de metabolizar a experiência, de integrar aquele lado selvagem e cúmplice ao cotidiano. O sexo entre eles nunca foi tão profundo, tão carregado de história e conivência. A sombra do terceiro os unia mais do que qualquer promessa de fidelidade convencional jamais poderia.
Mas Aline, em seus momentos de silêncio na varanda, sentia um vazio estranho. Não era arrependimento. Era a sensação de um apetite que, uma vez saciado daquela forma monumental, agora exigia algo novo, algo mais. O prazer comum parecia insosso. A adoração silenciosa dos homens na cidade era tediosa. Ela tinha sede de um novo nível de jogo.
E então, uma tarde, enquanto checava os romaneios de carga da Via Ágil, Henrique parou em uma linha. Um pedido de fretamento de um caminhão baú com isolamento térmico e escolta armada. A carga: "Espécimes Biológicos - Alto Valor". O destino final: um laboratório particular em um vale remoto. O contratante: "Fazenda São Estevão - E. S. T.".
O valor era astronômico. As exigências, extremas. E o campo para "Descrição Real da Carga" estava em branco.
Henrique mostrou a planilha a Aline naquela noite, durante o jantar. Ela olhou, passou um dedo sobre o logotipo da fazenda impresso no documento e disse, com um brilho familiar e faminto nos olhos:
"Parece que a calmaria chegou ao fim. E ele tem um novo presente para transportar."
O que você acha? Eles devem:
1. Aceitar o frete, mergulhando de cabeça no novo jogo e no que quer que Estevão esteja realmente transportando?
2. Recusar com uma desculpa comercial, tentando cortar o elo logístico que os reconecta a ele?
3. Aceitar, mas planejar uma interceptação para descobrir a verdadeira natureza da carga antes que ela chegue ao destino?
A bola está com você. O próximo destino dessa história é sua decisão.
henriquecasadomg