Capítulo I: O Dedo de Deus e a Masturbação do Diabo
O senhor Emílio, aos cinquenta e um anos, homem de saúde robusta e esportes variados, contemplava o teto do quarto de hotel na cidade de Diamantino, Mato Grosso. Ali estava ele, deitado na cama king-size com os pés roçando o tapete felpudo, ao lado de sua filha Nathália. O silêncio entre eles era denso, cortado apenas pela respiração ainda ofegante do ato que acabavam de consumar.
- “Pai, o senhor sabe que não acredito em Deus, mas, se ele existe, tem o dedo dele nisso aqui”
- “Também não acredito no Diabo, mas, se ele existe, deve tá ali no canto, se masturbando”
Riram. Um riso nervoso, cúmplice, que ecoou pelas paredes bege daquele quarto impessoal. Emílio recordou-se de como tudo começara trinta e dois anos antes, quando se casara aos dezenove com a namorada grávida, Helena. Hoje, com cinquenta e um, pai de três filhos (Nathália, a primogênita de trinta e um, casada sem filhos; e os gêmeos mais novos, Augusto e Letícia, de vinte e cinco), ele sempre considerara o incesto uma aberração moral grave. Todos os adultos sabiam como eram vulneráveis na infância e na adolescência. E ainda assim, ali estava.
[...]
No aniversário de cinquenta anos de Emílio, a família reunira-se em sua chácara em Cuiabá. Amigos vieram, a piscina estava iluminada, a música tocava baixo. No meio da festa, ele conversava com Helena sobre as contas do mês quando sentiu um tom áspero que prenunciava briga. Foi então que Nathália o puxou pelo braço para o canto do salão, perto do jardim de inverno.
- “Pai, tenho uma coisa meio desagradável pra te contar”
Emílio franziu a testa, sentindo o cheiro do perfume caro da filha (um francês que ele mesmo lhe dera de Natal).
- “Como assim, filha”
- “Pai, o senhor não desconfia da mãe”
- “Como traição?”
- “Sim” - ela sussurrou, abaixando a voz e olhando para os lados, os olhos castanhos brilhando sob a luz indireta do lustre - “Pai, a mãe tá te traindo com o tio Francisco"
Francisco, o irmão mais novo de Emílio, ex-jogador de futebol aos quarenta e quatro anos, ainda conservava o corpo atlético e a fama de mulherengo. Emílio suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos.
- “Pra dizer a verdade, eu desconfiava ligeiramente” - ele coçou a barba por fazer - “Mas depois de trinta anos de casado, filha, é melhor deixar quieto. Eu também não sou nenhum santo, e assim a família continua unida. Quer dizer, tá tudo em família”
Nathália mordeu o lábio inferior.
- “O senhor está sendo taticamente hipócrita”
Nisso, Helena entrou na sala acompanhada de Francisco, ambos rindo de alguma piada interna. Helena usava um vestido vermelho que Emílio não se lembrava de ter comprado, e Francisco tinha a mão pousada nas costas dela, meio segundo além do que seria apropriado.
Emílio desviou o olhar e tentou mudar de assunto.
- “Mas e aí, Nathália, você está querendo mesmo sair do emprego, filha” - ele gesticulou em direção à janela, como se apontasse para tudo o que ela conquistara - “Depois de tantas coisas materiais que você adquiriu nos últimos três anos: mansão com piscina, casa na praia, carros importados”
- “É, pai, estou pensando em abrir uma franquia, de qualquer coisa”
(A verdade, que Emílio só compreenderia plenamente meses depois, era que Nathália já naquela época financiava seu estilo de vida com o dinheiro da prostituição de luxo). Mas ele, naquele momento, apenas acenou com a cabeça e pediu outra cerveja
[...]
Representante comercial de produtos agropecuários, Emílio passava semanas viajando pelo interior do Mato Grosso. Naquela semana específica, ele visitara clientes em Sorriso, Lucas do Rio Verde e Nova Mutum. Na Quinta-feira à noite, já em Diamantino, ligou para Nathália.
- “Filha, passarei por Cuiabá amanhã à tarde. Posso fazer uma visita”
- “Pai, também estou em viagem” - a voz dela soava abafada, como se estivesse em um carro - “Só vou estar disponível na próxima semana”
- “Tudo bem, depois a gente se vê”
Na Sexta-feira, exausto após fechar três contratos, Emílio jantou sozinho no restaurante do Hotel Villa dos Parecis. Às dezenove horas, terminou um bife com fritas e subiu para o quarto 307. Deitou-se na cama, sentiu o peso do corpo nos lençóis brancos, e pegou o celular. Navegou por alguns minutos até encontrar o número de uma acompanhante que um colega, Ricardo, lhe recomendara meses atrás.
- “Alô” - a voz feminina era macia, ensaiada.
- “Boa noite. Gostaria de marcar para amanhã, Sábado, às oito da manhã”
- “Claro. Qual o hotel e quarto”
- “Diamantino Palace, 307. Qual o valor?”
- “Quinhentos a hora, senhor. Acompanhante é a Morgana”
- “Fechado”
Na manhã de Sábado, Emílio desceu às sete horas para tomar café. Sentou-se numa mesa no canto do restaurante, de onde podia ver a portaria de viés. Bebia seu segundo café quando, às sete e cinquenta, viu uma mulher entrar. Seu coração saltou. Não era Morgana (ou melhor, era, porém sob uma identidade que ele jamais imaginaria). A mulher usava um vestido justo, azul-marinho, que abraçava cada curva de seu corpo. Sandálias de salto alto, cabelos negros soltos caindo pelas costas. Ela se dirigiu ao balcão da recepção, e quando se virou de perfil, Emílio reconheceu o formato do rosto, a maneira como mexia nos cabelos.
Era Nathália.
Seu queixo caiu. O café quase entornou na mão. Ele a viu pegar a chave do quarto (não, não podia ser) e entrar no elevador. Levantou-se, pagou a conta às pressas e correu para o elevador seguinte. As portas se fecharam. Subiu. Dobrou o corredor do terceiro andar e congelou.
Nathália estava parada diante da porta do quarto 307.
Ela o viu. Abriu um sorriso largo, encurvou-se ligeamente para a frente, os olhos brilhando de uma mistura de surpresa e alguma outra coisa que Emílio não conseguiu nomear na hora.
- “Pai?!”
Emílio parou a dois metros de distância.
- “Filha. Que surpresa”
Abriu a porta com a chave magnética. Ela entrou na frente, e ele notou o perfume (o mesmo francês que ele lhe dera). O vestido subia alguns centímetros acima do joelho quando ela se movia. Sentou-se na cama, pesado, as mãos suando.
- “É o que estou pensando?” - ele perguntou, embora já soubesse a resposta.
Nathália inclinou a cabeça, um gesto que ela fazia desde criança.
- “O que o senhor tá pensando, pai?”
- “Uai” - Emílio a observou dos pés à cabeça - “Vestida com essa roupa toda sensual, vestido todo coladinho... a propósito, você está linda. Se eu não fosse seu pai, te namoraria”
Ela deu dois passos em sua direção.
- “Pai, é o que o senhor tá pensando. Mas ter te encontrado aqui foi uma coincidência. Afinal, o Mato Grosso não é tão grande assim”
- “Mas filha, por que?” - a voz dele falhou.
- “Pai, isso é normal” - ela disse com uma calma que o perturbou profundamente - “É comum. E mais... isso não arranca pedaço de mim. Faço porque gosto, e o dinheiro, a grana, vem como um brinde. Não há promiscuidade. É um serviço limpo, desde que eu possa escolher com quem sair, é claro”
Emílio sentiu o estômago revirar. Deveria sentir nojo, repulsa, raiva. Em vez disso, uma onda de calor subiu pelo seu pescoço.
- “Ah, te amo tanto que sou capaz de aceitar tudo”
- “Eu também te amo muito, pai” - Nathália sentou-se ao lado dele na cama. O colchão afundou com o peso dos dois - “Lembra que o senhor, a vida toda, era quem me banhava” - sua mão tocou o braço dele - “Com aquela mãozona do tamanho de uma frigideira”
Ele engoliu em seco.
- “Sinto suas mãos no meu corpo até hoje” - ela continuou, a voz mais baixa, mais íntima - “E ele se arrepia só de lembrar”
- “Nathália...” - ele falou com tom de não acreditar no que ouvia.
- “Eu, com doze anos, ainda sentava no seu colo, lembra” - seus dedos percorriam o antebraço peludo de Emílio - “Até os dezessete anos brincava com o senhor. Quando eu passava, ameaçava pegar em suas partes e o senhor esquivava, dizendo 'para, muleca’”
O quarto parecia ter ficado menor. O ar mais denso.
- “Lembra de manhã, quando eu me levantava só de shortinho de dormir e discutíamos por qualquer coisa, e eu ía descendo o short e te mostrava as nádegas” - ela sorriu, e havia algo de predador naquele sorriso - “Não tenho nem uma lembrança de quando eu me sentava no seu colo e o senhor ficava excitado. Lembro que era uma coisa macia”
Emílio tossiu e falou:
- “Mas quando você tinha essa brincadeira de mostrar as nádegas, você já era bem grandinha”
Ela então o olhou nos olhos. Ousou mudar. A palavra "senhor" sumiu.
- “Mas e aí, você ficava excitado, hein?” - ela inclinou o rosto para perto do dele, os lábios a centímetros de sua orelha - “Ficava?” - a voz era um sussurro quente - “Ficava, né, seu safadão?!”
A mão dela subiu para os cabelos de Emílio. Começou a fazer cafuné, devagar, os dedos escorregando pelos fios grisalhos.
- “Me beija aqui no rosto” - ela apontou a própria bochecha.
Quando ele se virou, ela cravou os lábios nos dele. A boca de Nathália tinha gosto de morango e café. A língua dela invadiu a dele enquanto a mão dela apertava o volume por cima da calça de Emílio. Ele gemeu contra a boca da filha. Ela o deitou na cama. Tirou a camisa dele com movimentos rápidos, os botões saltando. Beijou o peito dele, o abdômen, descendo. Os lábios dela queimavam a pele dele. Abriu o cinto com um puxão seco. Desabotoou a calça. Puxou o zíper.
- “Tcharam” - ela sussurrou, puxando a calça devagarinho.
O pênis de Emílio saltou para fora, ereto, e bateu no queixo dela.
- “Nossa, paizão, que absurdo é esse” - ela riu, e havia adoração naquele riso - “Meu Deus, que rola linda, pai”
- “É a sua cara” - ele disse, também rindo, embora a voz estivesse trêmula - “Por isso você saiu linda assim”
Ela envolveu o membro com as mãos. O líquido cristalino escorreu, e ela passou nos próprios lábios, chupando os dedos com prazer, os olhos fixos nos dele. Começou a masturbá-lo lentamente, o polegar deslizando sobre a glande a cada volta.
- “Te amo, papai” - ela sussurrou, antes de enfiar o pênis inteiro na boca.
Subia e descia devagar, devagar, com ele todo atolado sem tocar a garganta. A língua dela fazia círculos. Emílio arqueou as costas. Sentiu o orgasmo subir como uma onda que não podia conter.
Gozou. Jorrou com uma força que parecia rasgar tudo por dentro. Nathália manteve a boca cheia, os olhos marejados, mas fixos nos dele. Engoliu. Depois, com o dedo mais longo, limpou um pouco de porra que escorria do canto da boca e chupou o dedo com volúpia.
- “Papai, engoli todos os meus irmãozinhos”
Ela foi ao banheiro. Emílio ouviu a torneira abrir e fechar. Ela voltou, deitou-se ao lado dele, nua sob o roupão do hotel.
E ficaram ali. Um olhando para a cara do outro. Falando de Deus e do Diabo.
