- “És um fantasma, Livila” - disse Calígula certa vez, após usá-la - “Um fantasma que respira. É quase tão bom quanto a original"
- “Obrigada, César” - respondeu Livila, com uma voz tão mecânica que até ele estranhou.
Os abusos de Calígula não se limitavam às irmãs. Ele impôs impostos absurdos (sobre prostitutas, sobre carregadores de liteira, sobre alimentos vendidos no mercado), declarou guerra ao deus Netuno (mandando seus soldados atirarem lanças no mar) e proclamou-se cônsul eterno. Em 40 d.C., anunciou que partiria para uma campanha militar na Germânia, mas, ao chegar ao Canal da Mancha, mandou seus soldados coletarem conchas na praia e as levou para Roma como "troféus de guerra".
O Senado, humilhado, começou a se articular. A nobreza, exausta, procurava assassinos. E os pretorianos, a guarda pessoal do imperador, estavam cada vez mais insatisfeitos com os caprichos e as execuções sumárias que atingiam até mesmo oficiais graduados.
Agripina sabia de tudo. Ela mantinha contato com vários senadores por meio de mensageiros secretos, e um nome surgia repetidamente: Caio Cássio Quereia, um tribuno dos pretorianos. Quereia era um homem de meia-idade, de poucas palavras, mas Calígula o humilhava constantemente, chamando-o de "afeminado" e fazendo gestos obscenos em sua direção. O ódio de Quereia era uma bomba-relógio.
- “Quando?” - perguntou Agripina a um mensageiro, em um encontro clandestino nas termas de Agripa.
- “O tribuno diz que não há data. Mas ele está recrutando outros"
- “Diga a ele que eu não quero saber dos detalhes. Apenas que me avise com uma hora de antecedência, para que eu possa tirar meu filho do palácio"
Agripina não se importava com Livila. Não se importava com Calígula. Importava-se apenas com o pequeno Nero e com o trono que ele um dia ocuparia. Por isso, na noite de 23 de janeiro de 41 d.C., quando um escravo lhe sussurrou: "Senhora, hoje será a noite", ela agiu rapidamente.
Pegou Nero no colo, acordou Livila com um tapa e disse:
- “Vem. O palácio vai pegar fogo"
- “Que fogo?” - perguntou Livila, confusa.
- “O fogo da vingança. Calígula morrerá antes do amanhecer"
Livila olhou para a irmã e, pela primeira vez em anos, um lampejo de vida brilhou em seus olhos.
- “Tu tens certeza?"
- “Certa, não. Mas é a única chance"
As duas irmãs, com a criança, desceram por uma passagem secreta que Agripina descobrira anos atrás, quando ainda brincava com Calígula. A passagem levava diretamente ao exterior do Palácio, perto do Circo Máximo.
Enquanto fugiam, ouviram gritos. Primeiro distantes, depois cada vez mais próximos. E, finalmente, um grito que reconheceriam para sempre: o de Calígula, surpreendido, tentando se defender. Houve o som de metal contra metal, um grunhido, um gemido. Depois, silêncio.
[...]
No dia seguinte, a notícia se espalhou como pólvora: Calígula fora assassinado por um grupo de pretorianos liderados por Cássio Quereia. Ele levou mais de trinta punhaladas. Cesônia, sua esposa, foi morta ao lado dele. A filha pequena, Júlia Drusila, teve a cabeça esmagada contra uma parede.
Cláudio, o tio de Calígula, um homem tido como débil mental, foi proclamado imperador pela guarda pretoriana. Agripina e Livila, ao saberem, não sabiam se riam ou choravam.
- “Cláudio?” - disse Livila, incrédula - “Aquele que os escravos chamam de 'idiota'?"
- “Exatamente” - respondeu Agripina, com um sorriso lento - “Um idiota no trono. Um idiota que eu posso manipular"
Ela já estava traçando planos. Casaria Cláudio. Seria sua imperatriz. E Nero, seu filho, seria adotado por Cláudio e se tornaria herdeiro. O que acontecera com Calígula e Drusila (o incesto, a loucura, as orgias) seria enterrado, transformado em lenda negra, enquanto ela, Agripina, escrevia a própria história.
Quanto a Livila, Agripina a enviou para uma vila isolada na Campânia, com uma pensão generosa e a ordem de nunca mais pisar em Roma.
- “Sabes demais” - disse Agripina, na despedida - “E eu não posso correr o risco de que alguém descubra que também me deitei com Calígula. Por isso, viverás em silêncio. Como uma morta"
- “Já sou uma morta há muito tempo” - respondeu Livila, subindo na liteira - “Desde que Drusila morreu"
Ela partiu sem olhar para trás. Viveu até os 42 anos, em relativo conforto, mas jamais se casou novamente. Morreu de uma doença no peito, sozinha, em 60 d.C., durante o reinado de Nero (o filho de Agripina, que também se tornaria um tirano incestuoso e cruel). A história, ao que parece, adora repetir-se.