O dia 24 de janeiro de 41 d.C. amanheceu nublado sobre Roma. O Palácio do Palatino ainda cheirava a sangue. Nas primeiras horas da manhã, os pretorianos haviam encontrado o corpo de Calígula em um corredor secundário, enrolado em um lençol manchado de vinho e pus. O assassino, Cássio Quereia, estava orgulhoso, mas também apavorado: matar um imperador não era como matar um homem comum. Calígula, afinal, havia se declarado deus. E os deuses, mesmo mortos, podiam amaldiçoar.
A reação do povo romano foi ambivalente. Os pobres, que haviam recebido generosos donativos durante o reinado de Calígula (quando ele não estava confiscando suas propriedades), lamentaram a morte. Os ricos, que haviam sido humilhados, torturados e executados por capricho, comemoraram nas ruas. Houve quem tentasse queimar as estátuas do imperador, mas os pretorianos intervieram: estátuas de ouro eram estátuas de ouro, e Roma precisava de dinheiro.
Agripina, escondida em uma domus na encosta do Monte Palatino, acompanhou os acontecimentos por meio de espiões. Ela mantinha Nero no colo, amamentando-o (apesar de já ter mais de três anos, ela o fazia para acalmá-lo), enquanto Livila, ao lado, olhava pela janela fechada.
- “Clácio? Aquele mole?” - perguntou Livila, referindo-se a Cláudio, que os pretorianos haviam encontrado tremendo atrás de uma cortina e imediatamente aclamado imperador - “O que ele sabe governar?"
- “Nada” - respondeu Agripina, seca - “E é por isso que é perfeito. Um imperador fraco é um imperador controlável. E eu, Livila, sou muito boa em controlar homens fracos"
Ela não sabia, naquela manhã, que Cláudio era menos fraco do que aparentava. O "idiota" que tropeçava nas próprias palavras, que babava e gaguejava, que era o objeto de chacota da família imperial, era, na verdade, um homem inteligente e culto, que usava a aparência de débil mental como uma armadura. Mas isso Agripina descobriria mais tarde, quando já fosse tarde demais.
O corpo de Calígula foi cremado às pressas, em uma pira improvisada nos jardins de Lúculo. Suas cinzas foram enterradas em um túmulo sem nome, para que ninguém pudesse venerá-lo como mártir. Mas as histórias sobre ele — as orgias, os assassinatos, o incesto com as irmãs — floresceram como ervas daninhas. Suetônio, Tácito, Dião Cássio, todos eles escreveriam sobre Calígula como o arquétipo do tirano pervertido. E as acusações de incesto, sejam verdadeiras ou não, se tornaram a marca registrada de sua loucura.
Livila, na vila da Campânia, teve acesso a alguns desses relatos anos depois. Leu sobre si mesma como se lesse sobre uma estranha: "Júlia Livila, a mais moça, foi violada pelo irmão em inúmeras ocasiões", escreveu um historiador obscuro. Ela não contestou. Estava cansada demais para contestar.
Agripina, por sua vez, ascendeu ao poder como jamais imaginara. Casou-se com Cláudio em 49 d.C., tornando-se sua quarta esposa. Convenceu-o a adotar Nero como filho, em detrimento de Britânico, o filho biológico do imperador. E, quando Cláudio morreu envenenado (muito provavelmente por ela) em 54 d.C., Nero se tornou imperador aos dezessete anos.
E Nero repetiu os erros do tio. Ele também se apaixonaria por uma irmã? Não exatamente. Mas se casaria com uma amante chamada Popeia Sabina, a quem supostamente teria chutado até a morte quando grávida. E, em seus últimos anos, se casaria com um homem chamado Esporo, um eunuco que ele castrara e vestira como esposa (uma paródia grotesca do amor impossível de Calígula por Drusila).
O ciclo da loucura não terminou. Apenas mudou de rosto.
Quanto a Livila, ela viveu o suficiente para ver Nero assassinar a própria mãe, Agripina, em 59 d.C. Quando a notícia chegou à vila da Campânia, Livila estava sentada em um banco de pedra, olhando o mar. Ela não chorou. Não sorriu. Apenas disse:
- “Ela avisou que controlaria homens fracos. Mas não avisou que os fracos, quando se cansam de ser controlados, se tornam os mais perigosos" - e continuou olhando o mar, até que a noite a engoliu.
Livila morreu no ano seguinte, 60 d.C., sem filhos, sem marido, sem herdeiros. Seus bens foram confiscados por Nero, que precisava de dinheiro para suas próprias orgias. O túmulo dela, na Via Latina, foi encontrado séculos depois, vazio. Roubaram as cinzas, ou talvez elas se tenham misturado ao vento, como as cinzas do irmão cruel.