AS SOMBRAS DO MANTO - Capítulo I: O Sangue Dividido

Os passos de Calígula ecoavam pelas galerias do Palatino como martelos em carne viva. A noite romana envolvia o monte em uma bruma espessa, mas dentro daquelas paredes de mármore e pórfiro, o novo imperador não dormia. Três anos se passaram desde que assumiu o trono, e o povo ainda o aclamava como a esperança após a loucura de Tibério. Mas Caio César Augusto Germânico, o pequeno que crescera entre legionários e que ganhara o apelido de "Calígula” (botinha militar), agora sentia o peso do império como uma coroa de espinhos invisível.
Naquela noite, porém, o que o mantinha acordado não eram os impostos da Gália ou as emboscadas na Germânia. Era o perfume de jasmim que vinha do quarto ao lado. Era o som abafado de uma risada feminina que escapava pelas frestas da porta de cedro. Júlia Drusila, sua irmã do meio, estava ali, a apenas vinte passos de distância.

- “Entra, Caio. Sei que estás a escutar como um cão farejador"

A voz de Drusila atravessou o silêncio, doce e venenosa. Calígula empurrou a porta com os nós dos dedos. O triclínio privado estava iluminado apenas por duas lâmpadas de óleo, lançando sombras dançantes sobre os afrescos de Vênus e Marte. Drusila repousava em um lectus de marfim, vestida apenas em uma stola de linho tão fino que a luz desenhava as curvas de seu corpo.

- “Não me chames de cão, Drusila” - disse ele, fechando a porta atrás de si - “Sou teu imperador, teu deus nesta terra"

- “És meu irmão primeiro” - ela respondeu, sem se mover - “E é por isso que não consegues parar de me olhar"

Calígula aproximou-se do leito. Os olhos dela eram verdes como o mar da Campânia, e ele sabia que os próprios eram de um azul gélido, herdados do pai Germânico. O imperador tinha vinte e cinco anos, ela vinte e dois. Entre eles, uma história de infância roubada pelos exílios de Tibério, de noites partilhadas em cavernas durante conspirações, de um afeto que se tornara algo que nenhum dos dois ousava nomear.

- “Drusila, ordenaste que teu marido, Lúcio Cássio Longino, fosse enviado para a Síria. Porquê?"

- “Porque me entediava” - ela sentou-se, deixando que a stola escorregasse sobre um ombro - “E porque tu o detestavas. Ou preferias que eu dormisse com ele enquanto penso em ti?"

O imperador arfou. Aquilo que começara como um jogo de poder entre irmãos, meses antes, havia se tornado uma chama que consumia qualquer senso de decoro. Suetônio escreveria mais tarde que Calígula mantinha relações incestuosas com as três irmãs, mas a verdade, naquela noite, era mais simples e mais terrível: ele amava Drusila com uma devoção que beirava a loucura, e ela usava esse amor como uma faca.

- “Vem cá” - ordenou ele, apontando para o leito.

- “Não me ordenas, Caio. Sou tua irmã, não tua escrava. Nem mesmo tu podes legislar contra o sangue"

Ele riu, um riso seco que fez as lâmpadas tremeluzirem.
- “Eu posso fazer o que quiser. Com as minhas irmãs, com o Senado, com os próprios deuses. Acreditas que o divino Augusto não possuía Lívia como esposa e irmã em espírito? Sou mais deus do que ele"

Drusila levantou-se e caminhou até a janela. Lá fora, as tochas da Via Sacra pareciam pequenas estrelas caídas. Ela se virou lentamente.

- “E as outras? Agripina e Livila sabem que me preferes" - ela disse.

- “Agripina é ambiciosa demais, cheira a conspiração desde o útero. Livila... Livila é apenas uma menina assustada” - Calígula aproximou-se por trás dela, enroscando um fio de seus cabelos ruivos no dedo - “Mas tu, Drusila, és a minha alma partida. Quando te vejo, vejo o melhor de mim"

- “Vês o que queres ver” - ela afastou a mão dele, mas sem violência - “E se eu te disser que não quero mais este jogo? Que quero voltar para Longino?"

- “Mentira” - cuspiu o imperador - “Tu gostas de me ver arder. E eu ardo, irmã. Queimo por ti como se fosse o próprio Etna"

Drusila sorriu. Era o sorriso de quem sabia exatamente o poder que possuía. Ela desatou o broche da stola, deixando-a cair no chão de mosaico.

- “Então prova, César. Mostra a teus deuses que és digno de uma deusa"

[...]
Na manhã seguinte, o Palácio inteiro sussurrava. Os escravos, sempre atentos, haviam visto Calígula sair do quarto de Drusila ao amanhecer, com a túnica amarrotada e o olhar de quem havia tocado algo proibido. A notícia chegou a Júlia Agripina enquanto ela tomava seu café de mel e figos em seus aposentos.
Agripina era a mais velha das três irmãs, nascida em 15 d.C., dois anos antes de Calígula. O rosto já trazia as marcas da astúcia que mais tarde a tornaria imperatriz-mãe de Nero. Seus olhos eram escuros, quase negros, e haviam visto o pai Germânico ser envenenado, a mãe Agripina, a Velha, morrer de fome no exílio, e o próprio Calígula sobreviver às facas de Tibério. Ela não acreditava no amor, apenas no poder.

- “Então é verdade” - disse ela à sua aia favorita, uma grega chamada Clélia - “Meu irmão transformou Drusila em sua concubina"

- “Senhora, os rumores...” - Clélia hesitou.

- “Rumores são a única verdade neste lugar” - Agripina quebrou um figo ao meio, deixando o mel escorrer entre os dedos - “Mande chamar Livila. Quero que ela veja o que acontece quando se é a irmã favorita"

Livila, a caçula, chegou minutos depois, com apenas dezessete anos e o ar atordoado de quem ainda não compreendia as regras do jogo imperial. Seu cabelo era loiro como o de Augusto, e seu nariz arrebitado lembrava os retratos de Lívia Drusila, sua trisavó.

- “Agripina, que se passa? O palácio está em alvoroço"

- “Nosso irmão passou a noite com Drusila” - Agripina não usou rodeios - “E não foi para rezar aos penates"

Livila empalideceu.
- “Isso é... é um crime. As leis romanas contra o incesto..."

- “As leis não se aplicam a Calígula” - Agripina levantou-se e foi até a janela, de onde se via o fórum fervilhando - “Ele já se autoproclamou deus. Para um deus, tudo é permitido. Lembras do que Suetônio escreverá? 'Posso fazer o que quiser, até mesmo com minhas irmãs'. Ele disse isso publicamente no último banquete, bem bêbado"

- “E nós? O que seremos para ele?” - Livila tremia.

- “Instrumentos” - Agripina sorriu, mas era um sorriso frio - “Ou amantes, se ele nos desejar. A questão, irmã, não é se Calígula vai nos levar para a cama. A questão é como vamos usar isso"

Livila recuou.
- “Usar? Agripina, falas como uma prostituta"

- “E tu falas como uma tola” - a irmã mais velha se virou, os olhos flamejando - “Drusila agora tem o ouvido do imperador. Enquanto ela sussurrar na cama dele, nós seremos nada. Ou achas que ele nos dará terras, títulos, poder? Não, Livila. Ele nos dará desprezo. A menos que aprendamos a jogar o mesmo jogo"

- “Nunca me deitarei com meu irmão” - Livila cruzou os braços.

- “Veremos” - Agripina voltou a quebrar figos - “Veremos quando ele ameaçar teu marido, teus filhos, tua vida. Calígula não pede permissão. Ele toma"

Naquela tarde, o imperador convocou as três irmãs para o que chamou de "conselho familiar" na sala de trono. Era um espaço imenso, com estátuas de deuses e heróis, e no centro um trono de ouro e ébano onde Calígula se sentava com uma coroa de louros e um cetro de marfim. Drusila estava à sua direita, num banco mais baixo. Agripina e Livila foram colocadas à esquerda.

- “Irmãs” - começou Calígula, com voz de quem ensaiava uma peça - “Vivemos tempos gloriosos. Roma me aclama, o povo me adora, e o Senado... bem, o Senado me chama de 'pai da pátria' enquanto treme como varas verdes..." - ele pausou, passando os olhos pelas três - “Mas uma família unida é o esteio do império. Por isso, decidi que vocês viverão todas no Palácio, permanentemente. Seus maridos... serão dispensados"

Livila ofegou. Ela havia se casado havia apenas um ano com Marco Vinício, um homem bom e gentil.

- “Dispensados, César?” - perguntou Agripina, com um tom de falsa inocência - “Como assim?"

- “Divorciados, exilados, promovidos a províncias distantes... o que for necessário” - Calígula acariciou o queixo - “A partir de hoje, minha família é minha corte. E minhas irmãs são minhas rainhas"

- “Rainhas?” - Drusila sorriu, e pela primeira vez Agripina viu nela um lampejo de crueldade - “Somos mais que rainhas, somos deusas. Não é verdade, Caio?"

- “Verdade” - ele se inclinou e beijou a mão de Drusila - “Júlia Drusila será a primeira entre iguais. Uma Vênus encarnada"

Agripina cerrou os punhos sob as dobras da stola. Ela sabia que aquele gesto não era apenas afeto, mas uma declaração de guerra contra ela.
- “E nós, César?” - perguntou, forçando a voz a não tremer - “Que deusas seremos?"

- “Tu, Agripina, serás Minerva. Sábia, estratégica, perigosa quando contrariada” - ele riu - “E Livila será Diana. Pura e virgem... ou pelo menos tentará"

Livila corou até as orelhas.

Naquela noite, um banquete foi organizado para celebrar a "nova ordem familiar". Calígula mandou preparar uma mesa triangular, onde ele se sentaria no vértice superior, e cada irmã em um dos lados. Os convidados eram os senadores mais influentes e suas esposas, mas todos sabiam que estavam ali para testemunhar uma humilhação pública.
O jantar começou com ostras do Lago Lucrino e ouriços-do-mar, regados com vinho de Cós. Calígula bebia sem parar, e quanto mais bebia, mais soltas ficavam suas língua e mãos. Em certo momento, ele colocou a mão sobre a coxa de Drusila, bem à vista de todos.

- “Este é o amor verdadeiro” - declarou, alto - “Não esse fingimento de casamentos arranjados. Drusila e eu partilhamos o mesmo sangue, a mesma alma. O que há de mais puro do que isso?"

Um silêncio constrangedor caiu sobre a sala. O senador Gneu Domício Enobarbo, pai do futuro Nero, pigarreou e pediu mais vinho. Sua esposa, Agripina? Não, essa era a mãe de Nero. Na verdade, Enobarbo estava ali ao lado de Agripina, a irmã, que mais tarde se casaria com ele. Mas o tempo ainda não era de Nero.

Drusila ergueu a taça.
- “Bebo ao meu irmão e senhor” - disse - “Ao homem que me fez sentir o que nenhum marido jamais conseguiu"

Agripina quase engasgou com uma azeitona. Livila apenas baixou a cabeça.

- “E tu, Agripina?” - Calígula virou-se para ela, os olhos vidrados - “Não tens nada a dizer sobre a felicidade de tua irmã?"

- “Desejo a Drusila toda a... alegria que o incesto pode proporcionar” - respondeu Agripina, com um sorriso que não chegava aos olhos.

O imperador bateu na mesa.

- “Incesto? Que palavra feia! Os deuses do Olimpo não eram irmãos e irmãs? Júpiter casou-se com Juno, sua irmã. Eu sou Júpiter, Drusila é Juno. E vocês duas... são minhas amantes secundárias"

Livila deixou cair uma taça de murra, que se estilhaçou no chão de pórfiro. Os escravos correram para limpar.

- “Não temas, Livila” - Calígula falou num tom que tentava ser doce - “Não te forçarei esta noite. Ainda não. Mas não me canso de olhar para teu pescoço, tão branco, tão fino..."

A caçula começou a tremer. Agripina colocou a mão sobre a dela, apertando forte.

- “Irmão, estás cansado” - disse Agripina, em voz baixa - “Talvez devêssemos encerrar o banquete"

- “Não me digas o que fazer” - rosnou Calígula, e por um segundo o véu de loucura se ergueu, deixando ver a fúria - “Lembra-te de quem te deu a vida, Agripina. Fui eu que intercedi por ti junto a Tibério. Fui eu que te tirei da ilha de Ponza, onde apodrecias. Eu. Ninguém mais"

Agripina sentiu o sangue gelar. Era verdade. Durante os anos do exílio, ela havia sido enviada para aquela ilha rochosa, após a queda da mãe. Calígula, ao se tornar imperador, libertou-a. Mas agora ele usava aquilo como uma corrente.

- “Sou grata, César” - murmurou ela, olhando para o chão.

- “Então mostra tua gratidão” - ele se levantou, cambaleante, e foi até ela - “Beija minha mão, como os senadores beijam"

Agripina obedeceu. A mão do imperador estava fria e úmida.

- “Agora beija minha boca" - ele rdenou.

Houve um suspiro coletivo na sala. Livila soluçou baixinho. Drusila observava tudo com um sorriso enigmático.
Agripina ergueu os olhos. Enfrentou o olhar de Calígula, tão parecido com o dela. E então, lentamente, inclinou-se e tocou os lábios nos dele. Foi um beijo rápido, seco, mas diante de todo o Senado.

- “Bom” - Calígula voltou ao trono, satisfeito - “As três são minhas. Agora, comam, bebam. Amanhã começaremos uma nova Roma. Uma Roma onde o sangue não é tabu, mas sagrado"

Naquela noite, depois que os convidados se retiraram, Livila trancou-se em seu quarto e chorou até o amanhecer. Agripina ficou acordada, traçando planos sobre como sobreviver (e como um dia vingar-se). Drusila foi para os aposentos de Calígula, onde ele a esperava com um colar de esmeraldas e uma promessa:

- “Juro por todos os deuses que te farei minha imperatriz assim que me divorciar de Cesônia"

- “Não precisas te divorciar” - respondeu Drusila, despindo-se - “Tua esposa é apenas um nome. Eu sou a realidade"

E enquanto Roma dormia, o incesto deixava de ser rumor para se tornar o alicerce mais secreto e mais podre do palácio de Calígula.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
AS SOMBRAS DO MANTO - Capítulo I: O Sangue Dividido

Codigo do conto:
264027

Categoria:
Incesto

Data da Publicação:
08/06/2026

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