HUMANIDADE: O PRIMEIRO PECADO (E O PRIMEIRO PRAZER)

No princípio, o Jardim do Éden não era exatamente o que os hinos e os vitrais das igrejas faziam parecer. As árvores davam frutos em profusão, é verdade, e o clima era uma eterna primavera de vinte e três graus, mas havia também um tédio profundo (uma chatice metafísica que só quem já passou uma eternidade sem Netflix consegue compreender). Deus, naqueles dias, estava em uma de suas fases mais sarcásticas. Criara o cosmos em seis dias e no sétimo não descansou, apenas ficou olhando para a obra com a expressão de quem terminou um quebra-cabeça de dez mil peças e percebeu que faltava uma.
Foi nesse contexto que surgiu o primeiro humano. Adão, um sujeito esguio, de pele cor de argila recém-amassada, olhos curiosos e uma costela flutuante que parecia incomodá-lo desde o primeiro minuto. Deus o moldou com barro e um toque de deboche, soprando-lhe as narinas com um "vai, atrapalha" resmungado. O Jardim era vasto, mas Adão, coitado, não sabia o que fazer consigo mesmo. Andava entre as acácias e os ipês, nomeava os animais ("Preguiça", "Capivara", "Tamanduá-bandeira”, etc.) e sentia uma falta. Uma falta que não sabia nomear.

- “Adão, meu filho, o que você está sentindo” - perguntou o Senhor, aparecendo em uma nuvem baixa, com os braços cruzados e um olhar de quem já sabia a resposta.

- “Não sei, Senhor. É como se... como se houvesse um vazio aqui” - Adão tocou o próprio peito, rente ao esterno.

- “Isso se chama solidão existencial. Mas não se preocupe, tenho um plano. Vou fazer uma parceria. Só vai doer um pouquinho”

E assim, de uma costela de Adão (extraída com um estalar que ele descreveria depois como "pior que acordar com cãibra na panturrilha”) Deus esculpiu Eva. A primeira mulher saiu da mão divina com uma expressão de quem já estava cansada da criação antes mesmo de abrir os olhos. Cabelos escuros como a terra molhada, curvas que nenhuma fruta do Éden podia igualar, e um sorriso no canto da boca que prometia problemas.
Adão a viu e, pela primeira vez, sentiu algo que não era fome nem sono. Seu corpo reagiu de maneira inédita: um calor subiu pela espinha, um aperto na garganta, e uma região que ele ainda não sabia ter função ficou subitamente pesada e alerta.

- “Senhor, o que é isso” - sussurrou Adão, envergonhado.

- “Isso, meu caro, é o chamado instinto de preservação da espécie. Mais conhecido como libido. Divirtam-se, mas com moderação. E por favor, não comam a maçã”

Dito isso, o Senhor se retirou, não sem antes lançar um olhar de "já sei o que vai acontecer" e desaparecer em um fumaça que cheirava a incenso e ironia.
Eva, por sua vez, esticou os braços, alongou a coluna (aquela costela emprestada se encaixara perfeitamente) e avaliou o companheiro com um olhar clínico. Adão era... bonitinho, pensou. Mas tinha a postura de quem nunca fez uma flexão. Ela, ao contrário, já se sentia dona de cada músculo, cada curva, cada centímetro de pele que Deus lhe dera.

- “Então você é Adão” - ela disse, andando em torno dele como um predador circularia uma presa desavisada.

- “Sou. E você é... Eva” - ele respondeu, com a voz trêmula.

- “Muito prazer. Você sabe o que a gente faz agora?"

- “O Senhor disse para administrarmos o jardim. E não comer uma maçã”

- “Administrar o jardim” - Eva repetiu, com um riso seco - “Isso é o que ele te disse? Porque eu, quando ainda estava sendo esculpida, ouvi ele falando com os querubins: 'Vamos ver se dessa vez dá certo'. Dessa vez. Você já foi feito antes?"

- “Não que eu me lembre” - respondeu Adão.

- “Pois eu tenho a impressão de que esse jardim já viu outros casais. E todos falharam no mesmo teste”

Eva apontou para uma árvore no centro do pomar, carregada de frutos vermelhos e brilhantes. A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Era proibida. Mas, curiosamente, era também a única árvore que Adão nunca tinha conseguido nomear. Todas as vezes que tentava, as palavras se embaralhavam em sua língua.

- “Não devemos nem chegar perto” - disse ele, recuando um passo.

- “Claro que não” - respondeu Eva, com um sorriso que mostrava os dentes - “Mas eu quero chegar perto. Só para sentir o cheiro”

Ela caminhou lentamente em direção à árvore, e Adão, contra todos os seus instintos de sobrevivência (e a favor de outros, mais primitivos), foi atrás. O tronco era retorcido, as folhas brilhavam como metal polido, e os frutos exalavam um aroma doce e intoxicante. Eva esticou o braço, colheu um, e mordeu.
A casca estalou. O suco escorreu por seu queixo, pingando entre os seios. Adão engoliu em seco.

- “Experimenta” - ela ofereceu, com a polpa branca ainda marcada por seus dentes.

- “Mas o Senhor disse...”

- “O Senhor disse muitas coisas. Como nomear os animais. Você nomeou a capivara. Ela parece um capivara para você?"

Adão hesitou. Eva mordeu mais um pedaço, os lábios se fechando com um ruído úmido. Seus olhos se arregalaram. O fruto era amargo e doce ao mesmo tempo, e uma sensação elétrica percorreu seu corpo desde a língua até o baixo-ventre. Ela sentiu um formigamento entre as pernas, uma umidade que nunca antes existira. Olhou para as próprias mãos, para os seios, para o ventre, e de repente viu tudo com outros olhos: não como partes de um corpo funcional, mas como territórios de prazer.
Adão pegou o fruto das mãos dela e mordeu. O suco escorreu por sua barba ainda rala. E então, o mundo se abriu. Ele viu Eva. Não a companheira dada por Deus, não a costela ambulante, mas Eva. A curva de seu pescoço, o movimento de sua respiração, a linha da cintura descendo até o quadril. E viu, também, seu próprio corpo reagindo de modo incontrolável.

- “O que está acontecendo comigo” - ele sussurrou, com a voz grave.

- “Conhecimento” - respondeu Eva, com a voz igualmente alterada - “Ele não queria que a gente tivesse isso”

Nesse momento, uma folha de parreira, deslocada por uma brisa repentina, roçou o ombro de Eva. Ela estremeceu como se tivesse levado um choque. A folha era macia e áspera ao mesmo tempo, e o contato com sua pele nua (que até então ela nunca notara como nua) produziu uma sensação que não tinha nome no vocabulário edênico. Ela tocou o próprio ombro, depois o colo, e percebeu que cada toque gerava uma resposta, uma pequena morte e ressurreição de nervos.

- “Adão” - ela chamou, com uma entonação que ele nunca ouvira antes.

- “Eva” - respondeu ele, aproximando-se como um animal atraído por um chamado que não podia desobedecer.

Ela pegou a mão dele e a colocou sobre seu próprio peito. O coração batia rápido sob a pele. O calor da palma de Adão era desconhecido e arrebatador. Adão sentiu a textura da pele de Eva, o relevo do esterno, e abaixo dele o coração galopante. Seus dedos, hesitantes a princípio, começaram a explorar. Movimentos involuntários, guiados por algo mais antigo que o próprio Éden.

- “Não para” - ela disse, entre um suspiro e outro.

Adão não parou. Sua mão desceu pelo torso de Eva, passou pela cintura, chegou ao ventre. Ali, o calor era maior. Uma penugem fina recobria a pele abaixo do umbigo. Ele tocou, e Eva arqueou as costas, pressionando-se contra ele. As duas peles se encontraram: o barro seco de Adão contra a argila úmida de Eva. Um som escapou da boca dela (não uma palavra, mas algo mais primitivo).
O Senhor, de algum lugar distante, suspirou.

- “Já era” - murmurou, acionando um querubim para tomar notas.

No chão macio de musgo, sob a sombra da árvore proibida, Adão e Eva se deitaram. O fruto ainda estava entre eles, suas cascas espalhadas ao lado. Eva olhou nos olhos de Adão e viu não o companheiro subserviente, mas o igual, o parceiro, o outro lado de uma moeda que Deus havia cunhado e depois escondido.

- “Você está com medo” - perguntou ela, sentindo os dedos dele tremendo sobre sua coxa.

- “Não sei o que é isso. Medo. Sinto uma coisa... como se a gente não devesse estar fazendo isso, mas ao mesmo tempo, como se fosse a única coisa certa”

- “Bem-vindo à humanidade” - Eva sorriu, e seu sorriso era pecado e bênção ao mesmo tempo.

Ela tomou a iniciativa. Sentou-se sobre ele, seus cabelos formando uma cortina em torno dos rostos. Adão sentiu o peso dela sobre seus quadris, o calor concentrado onde os corpos se tocavam. Eva moveu-se, um leve deslizar, e uma onda de prazer tão aguda e repentina percorreu os dois que Adão soltou um gemido grave e Eva mordeu o lábio inferior.

- “O que é isso” - perguntou ele, sem esperar resposta.

- “Acho que é isso que Ele não queria que a gente soubesse” - respondeu ela, repetindo o movimento.

A partir daí, o relato perde a ordem cronológica. O tempo, que no Éden era circular e morno, tornou-se elástico e quente. Houve mãos onde antes só existia ar. Houve bocas exploradoras, dentes que mordiam ombros, línguas que desenhavam caminhos úmidos pela coluna. Houve o momento em que Adão descobriu que o umbigo de Eva, quando beijado, fazia ela se contorcer como uma cobra. Houve o momento em que Eva descobriu que a nuca de Adão, quando mordida de leve, produzia nele um arquejo de felino.
Eles rolaram pelo musgo, sujos de terra e suco de fruto, rindo e gemendo em intervalos irregulares. Eva montou Adão, e ele segurou seus quadris, guiando-a em um ritmo que nenhum anjo havia coreografado. Depois, Adão a deitou de costas, ergueu suas pernas, e mergulhou nela como se buscasse o centro do mundo. Eva enterrou as unhas nas costas dele, e ele sentiu o ardor misturado ao prazer, e entendeu que dor e delícia eram irmãs gêmeas.

- “Não vai parar” - ela ordenou, e não era pergunta.

- “Não vou” - ele respondeu, e acelerou.

O som do ato (o impacto úmido das peles, os ofegos, os nomes sussurrados) ecoou pelo jardim, fazendo os animais se afastarem por instinto. Até o próprio fruto proibido, ainda espalhado no chão, pareceu brilhar mais intensamente, como uma testemunha satisfeita.
A culminação veio como uma pequena morte e ressurreição simultâneas. Adão sentiu todo o seu corpo se contrair e depois se soltar em ondas que partiam do centro de seu ser e se irradiavam para os dedos dos pés. Eva, sob ele, arqueou as costas com tanta força que por um instante pareceu uma ponte, e de sua garganta saiu um som que não era grito nem suspiro, mas algo entre os dois (o primeiro orgasmo humano, ou pelo menos o primeiro registrado).
Eles ficaram imóveis por um longo tempo, ofegantes, a pele coberta de musgo e folhas e suor e fluidos cujo nome ainda ignoravam. O sol, que nunca antes se punha, pareceu hesitar no horizonte.

- “Adão” - Eva disse, finalmente, com a voz rouca.

- “Hum?"

- “Acho que a gente quebrou alguma coisa”

- “Valeu a pena”

Ela riu, um riso cansado e feliz. Deitou a cabeça no peito dele, escutando o coração que ainda batia acelerado. Ele acariciou seus cabelos, e pela primeira vez na história, dois seres se sentiram simultaneamente completos e imensamente perdidos.
Foi então que ouviram o som: passos. Passos pesados, que não pertenciam a nenhum animal do jardim. Uma voz familiar, carregada de uma paciência que já se esgotava há uns três mil anos.

- “Adão. Eva. Onde vocês estão"

Os dois olharam um para o outro com a expressão de crianças flagradas com a mão no pote de mel.

- “Esconda aí em baixo” - sussurrou Eva.

- “O quê? Não tem como esconder, isso aqui está... reagindo” – reclamou Adão.

- “Então dá as costas. Rápido”

Adão virou-se, tentando cobrir com as mãos o que a natureza insistia em deixar à mostra. Eva, por sua vez, arrancou algumas folhas de parreira e amarrou-as na cintura, criando o primeiro modelo de biquíni da história. Não era elegante, mas cumpria a função básica de esconder o que de repente se tornara íntimo.

- “Senhor” - Adão disse, sem se virar - “Estamos aqui. Só... só estávamos... administrando o jardim"

- “Administrando o jardim?” - a voz divina tinha um toque de deboche - “Com as roupas de folha? E por que estão ofegantes?"

- “É que... fizemos cooper. É uma nova atividade física. O senhor recomendou manter a forma”

Eva cobriu o rosto com as mãos, rindo em silêncio.
O Senhor apareceu, finalmente, em toda a sua glória irônica. Usava uma túnica branca imaculada e sandálias que pareciam de marcas esportivas. Olhou para os dois, para as folhas de parreira, para a árvore descascada, para os restos do fruto no chão. E suspirou. Um suspiro que fez as folhas das árvores tremerem.

- “Vocês comeram a maçã” - disse, mas não era uma pergunta.

- “Foi ela” - Adão apontou, em um reflexo tão antigo quanto a própria humanidade.

- “Foi ele que me deu a maçã” - Eva retrucou, sem hesitar.

O Senhor olhou para o céu, como se buscasse paciência em algum astro distante.

- “Sabem o que eu vou fazer? Vou amaldiçoar a terra. Vão ter que trabalhar com suor. Vou multiplicar as dores do parto. E para vocês, mulher, o desejo e a submissão. Para você, homem, o suor e o espinho. E vão morrer. No final, todo mundo morre. Isso serve?"

- “Parece justo” - disse Eva, com um encolher de ombros.

- “Não parece não” - disse Adão - “Era só uma maçã”

- “Era uma maçã” - respondeu o Senhor - “Mas vocês tiveram que ir lá e morder. Sabem quantos querubins apostaram contra vocês? Cem por cento. Eu perdi minha aposta. De novo”

E, sem mais explicações, Deus os expulsou do Jardim. Na saída, colocou um querubim com uma espada flamejante que rodopiava para todos os lados. Mas, curiosamente, a espada não impedia a entrada (impedia o retorno). O Éden ficou ali, visível, mas inacessível.
Adão e Eva, nus sob as folhas improvisadas, caminharam pela primeira vez em terreno áspero. Pedras, espinhos, poeira. O sol queimava diferente, e uma noite começava a cair. Eles se olharam. Estavam sujos, cansados, expulsos. Mas ele ainda sentia o gosto dela em sua boca. Ela ainda sentia as marcas das unhas dele em suas costas.

- “E agora” - perguntou Adão.

- “Agora a gente inventa o resto” - respondeu Eva.

E ele a puxou para um pequeno abrigo sob uma rocha, onde os dois (agora com o gosto amargo da mortalidade na língua) se amaram de novo. Não por obediência a nenhum mandamento, não por instinto cego. Por escolha. Porque, no meio daquele deserto recém-criado, a única coisa que ainda fazia sentido era o calor do outro corpo.
E ali, entre espinhos e pedras, a humanidade começou a aprender o que nenhum deus poderia ensinar: que o prazer é uma forma de resistência. Que o sexo é um dialeto que dispensa tradução. E que, expulsos do paraíso, o que nos restou foi o único paraíso portátil que conhecemos (o corpo do outro, oferecido e recebido, em um ato tão antigo quanto a primeira costela quebrada).

Epílogo
Foi assim que a humanidade deu início. Não com uma maçã, como contam as escrituras distorcidas, mas com um orgasmo mal dado sob uma árvore proibida, seguido de uma discussão sobre quem tinha culpa, seguido de outro orgasmo só para provar que o primeiro não tinha sido acidente. As religiões insistem no pecado original, na queda, na vergonha. Mentira. A vergonha veio depois, quando algum sujeito neurótico inventou a roupa íntima e a culpa. No começo, havia apenas dois seres pelados rindo de nervoso enquanto Deus procurava uma vara de amendoeira para bater neles. O sexo não foi a punição. Foi a recompensa antecipada, o adiantamento de prazer num contrato que previa apenas trabalho e morte.
E desde então, cada vez que dois corpos se encontram na escuridão (na cama, no carro, no banheiro do escritório) eles estão repetindo o gesto original: desobedecer, sentir, durar mais um dia. A humanidade não nasceu do barro e do sopro. Nasceu do suor e do gozo. E ainda bem. Porque sem isso, amigos, a gente já teria desistido lá pelo segundo capítulo do Gênesis.


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Ficha do conto

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bethlolita

Nome do conto:
HUMANIDADE: O PRIMEIRO PECADO (E O PRIMEIRO PRAZER)

Codigo do conto:
264033

Categoria:
Fantasias

Data da Publicação:
08/06/2026

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