As histórias de incesto de Calígula sobreviveram por dois mil anos. Foram repetidas em crônicas, pinturas, peças de teatro, filmes e séries de televisão. Mas até que ponto são verdade? Os historiadores modernos, como Anthony Barrett e Aloys Winterling, apontam que nenhuma fonte contemporânea a Calígula (nem Sêneca, nem Filo de Alexandria) menciona qualquer relação incestuosa. Suetônio, que escreveu décadas depois, era um fofoqueiro talentoso, não um juiz imparcial. E seus relatos serviam a um propósito: justificar o assassinato de um imperador que desafiou o Senado.
O incesto, para os romanos, era o crime definitivo, a prova de que um governante havia perdido toda a humanidade. Ao acusar Calígula de se deitar com as irmãs, os historiadores o transformavam em um monstro mitológico, como Édipo ou como os deuses que ele tentava imitar. Talvez a verdade seja mais prosaica: Calígula amava Drusila com um amor obsessivo, sim, mas talvez não carnal. Talvez ele fosse apenas um homem doente, cercado por inimigos que escreveram a história.
No fim, o que importa não é a verdade, mas a lenda. E a lenda de Calígula e suas irmãs (de Drusila, a amada; de Agripina, a ambiciosa; de Livila, a vítima) permanece como um aviso sobre o poder, o sangue e os limites que os homens (e as mulheres) estão dispostos a quebrar. Porque não há incesto mais perigoso do que o incesto entre o poder e a impunidade. E desse, Roma foi apenas o primeiro laboratório.
FIM
* Essa história postei, para mostrar que não é de hoje que o incesto é praticado, e não apenas por pessoas como Calígula.
Estou pensando em escrever com os personagens bíblicos, que envolvem incesto, em que as filhas de Ló embebedam o pai para engravidar dele (Gênesis 19:30-38).