- “Tens medo de mim, Livila?” - perguntou Calígula certa tarde, enquanto ela se vestia após uma dessas danças.
- “Tenho medo de tudo, César” - respondeu ela, sem coragem de olhá-lo no rosto.
- “Não deverias. Sou teu irmão. Deverias me amar como Drusila me ama"
- “Drusila te ama como uma cadela ama seu dono” - a voz de Agripina chegou da porta (ela entrou sem ser convidada, vestindo uma túnica dourada que a fazia parecer uma sacerdotisa) - “Ou melhor, como uma serpente ama o calor do corpo que vai matar"
Calígula riu, mas seu riso tinha uma aresta perigosa.
- “Cuidado, Agripina. Tuas metáforas podem te cortar a língua"
- “As metáforas são o que nos resta, irmão, quando a verdade é proibida” - ela sentou-se em um banco de marfim, cruzando as pernas com uma elegância calculada - “Dizem que vais declarar Drusila tua co-Imperatriz. Que juntos reinarão como Júpiter e Juno"
- “Dizem bem” - Calígula acariciou a barba mal feita - “E, como Juno, ela será ciumenta. Tenho que me preocupar com isso?"
- “Não sou ciumenta” - Drusila apareceu na outra porta, carregando um leque de plumas de pavão - “Sou apenas... seletiva. Agripina pode ser tua concubina, se quiser. Livila pode ser tua... passatempo. Mas o trono ao teu lado é meu"
Agripina ergueu uma sobrancelha.
- “E onde fica o trono de Agripina, a mãe de Nero? Pois sim, pois sim... um dia terei um filho que será imperador"
- “Sonhos de mulher histérica” - Calígula levantou-se e foi até uma mesa repleta de pergaminhos - “Tenho notícias melhores. O Senado aprovou a construção de um templo em minha homenagem, com direito a sacerdotes, sacrifícios e estátuas de ouro. E não apenas para mim: Drusila também será cultuada como 'Deusa da Virtude'"
- “Virtude?” - Agripina riu com gosto - “Que ironia deliciosa"
- “Cala-te” - ordenou Calígula, mas sem força (Ele parecia distante, olhando para algo que apenas ele via) - “Esta noite haverá um banquete ainda maior que o anterior. Quero todas as três vestidas como deusas. Drusila como Juno, Agripina como Minerva, Livila como Vesta. E quero que os senadores nos sirvam de joelhos"
O banquete daquela noite entraria para a história (e para as páginas mais sórdidas de Suetônio) como a "Ceia dos Incestos". Calígula mandara construir uma sala de jantar giratória, inspirada nas lendárias mesas de Nero (embora Nero ainda não tivesse nascido). O tecto era de marfim e madrepérola, e dele caíam pétalas de rosa em quantidade tão imensa que alguns convidados quase se afogaram.
As três irmãs entraram em uma liteira aberta, carregada por eunucos núbios. Drusila usava um diadema de ouro e uma stola púrpura, aberta dos dois lados para mostrar as coxas. Agripina vestia uma armadura de couro dourado, com os seios à mostra, empunhando uma lança de madeira pintada. Livila, relutante, usava apenas um véu branco, quase transparente, como as virgens vestais (mas as virgens vestais não dançavam para irmãos incestuosos).
- “Aqui estão minhas deusas!” - bradou Calígula, batendo palmas - “Ajoelhem-se, senadores! Ajoelhem-se e adorem!"
Os senadores hesitaram. Alguns, como Lúcio Vitélio (pai do futuro imperador Vitélio), caíram de joelhos imediatamente, na esperança de ganhar favores. Outros, como Júlio Sabino, cruzaram os braços e desafiaram.
- “César, somos romanos, não persas” - disse Sabino, um homem de barba grisalha - “Não nos ajoelhamos diante de mulheres"
Calígula ergueu a mão. Dois guardas pretorianos agarraram Sabino pelos braços.
- “Romanos, dizes? Pois eu te mostrarei o que é um romano” - o imperador desceu do trono, pegou uma taça de vinho e a jogou na cara do senador - “Agora ajoelha-te, ou morrerás como um persa"
Sabino ajoelhou-se. E ao fazê-lo, viu Drusila sorrir para ele com um sorriso de pura maldade. Ela desceu da liteira e colocou o pé sobre a cabeça do senador.
- “É assim que gosto” - disse ela - “Homens poderosos sob meus pés. Não é, Agripina?"
- “É o que merecem” - respondeu a irmã mais velha, secamente.
O banquete prosseguiu entre orgias e humilhações. Calígula mandou que as esposas dos senadores se deitassem no chão e servissem de mesa para os pratos. Mandou que os jovens patrícios dançassem nus. E, no auge da noite, ordenou que Drusila e Agripina se beijassem diante de todos.
- “Um beijo de irmãs” - pediu, com os olhos brilhando de excitação - “Mostrai ao povo romano o que é o amor verdadeiro"
Drusila aproximou-se de Agripina. Os olhos delas se encontraram: naquele olhar havia ódio, rivalidade, mas também uma estranha cumplicidade. A favorita tocou os lábios nos da mais velha, e Agripina correspondeu. Foi um beijo longo, lento, que fez os convidados prenderem a respiração.
- “Mais!” - gritou Calígula, e ele mesmo começou a despir sua túnica - “Agora quero ver as três"
Livila, a mais jovem, recuou até a parede.
- “Não, Caio. Isso eu não faço"
- “Não?” - o imperador avançou em sua direção, e a expressão mudou de excitação para fúria - “Não dizes 'não' a um deus, Livila. Lembra-te de que tua vida está em minhas mãos"
- “Então mata-me” - respondeu ela, com uma coragem que surpreendeu a todos, inclusive a si mesma - “Prefiro a morte a me tornar tua boneca de prazer"
Silêncio absoluto. Agripina prendeu a respiração. Drusila abriu um leque para esconder o sorriso.
Calígula ficou parado, imóvel, por um longo minuto. Então, inesperadamente, começou a rir. Riu tanto que lágrimas escorreram pelo rosto.
- “Corajosa. Muito corajosa” - disse, finalmente - “Gosto disso. Não te matarei hoje, Livila. Mas viverás com a certeza de que, a qualquer momento, posso mudar de ideia"
Ele voltou para o trono, e o banquete continuou como se nada tivesse acontecido. Mas Livila, naquela noite, ao voltar para seus aposentos, encontrou uma adaga de prata debaixo do travesseiro. Não sabia se era um aviso ou uma permissão. Guardou-a debaixo da cama, sem coragem de usá-la.
[...]
Os dias seguintes foram de terror psicológico. Calígula desenvolveu uma obsessão por humilhar Agripina e Livila em público, enquanto tratava Drusila com uma devoção quase religiosa. Certa manhã, convocou as três para a arena particular do palácio, onde gladiadores treinavam.
- “Hoje teremos um pequeno jogo” - anunciou, apontando para dois homens armados com redes e tridentes - “Vocês três vão escolher um gladiador. O que vencer, ganha uma noite comigo. O que perder, será chicoteado"
Drusila escolheu rapidamente um gigante da Gália. Agripina escolheu um hispano magro, mas de olhar mortal. Livila recusou-se a escolher.
- “Então escolho eu por ti” - disse Calígula, apontando para um homem maneta - “Vamos ver se a sorte te favorece"
A luta foi brutal. O gigante da Gália matou o hispano em poucos minutos, mas o homem maneta, para surpresa de todos, matou o gigante com uma facada nas costas enquanto ele comemorava. Drusila ficou pálida. Agripina sorriu. Livila sentiu náuseas.
- “Vitória para Agripina e Livila” - anunciou Calígula, fingindo entusiasmo - “Drusila perdeu. Portanto, Drusila será chicoteada"
- “O quê?” - a irmã favorita ergueu a voz - “Tu não me chicotearás, Caio"
- “Uma aposta é uma aposta” - ele fez sinal para os guardas - “Dez açoites. Leves. Apenas para te lembrar de que, mesmo sendo minha Juno, ainda sou teu Júpiter"
Drusila foi curvada sobre um poste, e um guarda aplicou os açoites. Ela não gritou, mas seus olhos, quando se viraram para Calígula, continham uma promessa de vingança que nem mesmo ele percebeu.
Agripina, ao ver a irmã sendo humilhada, sentiu um prazer amargo. A favorita caíra. Mas sabia que, amanhã, tudo poderia ser diferente. Em Roma, sob Calígula, o amor e o ódio eram a mesma moeda.
Naquela noite, sozinha em seu quarto, Agripina escreveu uma carta para um velho conhecido de Tibério, um homem chamado Gneu Domício Enobarbo. Ele era nobre, rico e tão cruel quanto ela.
A carta dizia apenas:
"Casar-me-ei contigo. Teremos um filho. E esse filho será imperador."
Ela assinou, selou com cera vermelha e entregou a um escravo de confiança. Depois, apagou a luz e dormiu o sono dos que planejam, não dos que temem.