AS SOMBRAS DO MANTO - Capítulo III: A Deusa Mortal

O ano de 38 d.C. começou com augúrios sombrios. Uma coruja pousou no telhado do Palácio na noite de Ano-Novo. Um trovão sem nuvens ecoou sobre o Fórum. E Drusila, a irmã favorita de Calígula, adoeceu com uma febre que nenhum médico conseguia explicar.
Ela havia sido homenageada como nunca. Calígula mandara cunhar moedas com o rosto dela ao lado do dele, uma honra reservada apenas a imperatrizes. Deram-lhe o título de "Augusta" e o direito de usar o pálio púrpura, que era privilégio exclusivo do imperador. Mas nada disso impediu que, em meados de maio, ela tossisse sangue durante um jantar.

- “Chamem todos os médicos do império!” - gritou Calígula, carregando Drusila nos braços até o quarto dela, como se ela fosse uma noiva - “Se ela morrer, mato cada um de vocês"

Os médicos vieram da Grécia, do Egito, da Judeia. Trouxeram poções de mandrágora, sangrias com sanguessugas, incensos de mirra. Nada funcionava. Drusila definhava a olhos vistos, e Calígula, sentado ao lado da cama, segurava sua mão e chorava como uma criança.

- “Não podes me deixar” - sussurrava ele, noite após noite - “Sem ti, sou apenas Caio, o pequeno que todos odiavam. Tu me fazes grande. Tu me fazes deus"

- “Os deuses não morrem, Caio” - respondeu Drusila, com a voz fraca - “Talvez eu nunca tenha sido uma deusa. Apenas tua irmã"

- “És mais que minha irmã. És minha esposa, minha alma, minha razão de viver"

- “Então vive por mim” - ela tocou o rosto dele, e pela primeira vez seus olhos verdes pareciam sinceros - “Mas não sejas cruel, Caio. Não te esqueças de que fomos crianças juntos"

Calígula não ouviu. Ou ouviu e esqueceu no mesmo instante.
Drusila morreu na noite de 10 de junho de 38 d.C., aos 22 anos. A febre subiu tanto que ela começou a delirar, chamando pelo pai Germânico, pela mãe Agripina, por um cão que tivera na infância. Calígula tentou dar-lhe vinho com ópio, mas ela não conseguia engolir. Nos últimos momentos, ela abriu os olhos, olhou para ele e disse:

- “Lembra-te do que te pedi" - e então se foi.

O imperador emitiu um grito que ecoou por todo o Palácio, um grito de animal ferido. Ele se jogou sobre o corpo de Drusila, abraçando-a com tanta força que os guardas tiveram que arrancá-lo à força.

- “Tragam os unguentos! Tragam os embalsamadores! Ela não está morta, está apenas dormindo"

Mas estava morta. E Roma inteira soube na manhã seguinte.
O luto de Calígula foi uma das exibições mais bizarras da história romana. Ele decretou luto oficial por um ano inteiro: todas as atividades públicas foram suspensas, os tribunais fecharam, os casamentos foram proibidos, e ninguém podia rir, tomar banho ou jantar em família. Aqueles que desobedecessem eram executados na hora.

- “Vou transformar Roma num grande túmulo” - anunciou Calígula ao Senado, com os olhos vermelhos de chorar - “Até que eu decida que o luto acabou"

Pior ainda: ele ordenou que Drusila fosse deificada. Um templo foi construído em seu nome, com sacerdotes e sacerdotisas. Sua estátua de ouro foi colocada no templo de Júpiter Capitolino, ao lado da estátua do próprio Calígula como deus. E, em um gesto que chocou até mesmo os mais cínicos, ele forçou o Senado a aprovar uma lei que tornava crime "desrespeitar a memória da divina Drusila”, sob pena de crucificação.

- “E Agripina e Livila?” - perguntou um senador, imprudentemente.

Calígula virou-se para ele com uma expressão assassina.

- “Agripina e Livila são apenas sombras. Drusila era o sol. Sem o sol, as sombras não existem"

As duas irmãs sobreviventes sentiram o peso dessas palavras. Durante o luto, elas foram praticamente confinadas em seus aposentos. Calígula não queria vê-las, pois a simples lembrança de que existiam outras irmãs o atormentava. Agripina, no entanto, usou esse isolamento para fortalecer seus contatos.

- “O luto dele vai passar” - disse Agripina para Livila, em um sussurro - “E quando passar, ele vai precisar de novas amantes. Tu e eu somos as únicas opções"

- “Não quero ser opção de ninguém” - respondeu Livila, ainda magoada com a indiferença do irmão.

- “Não se trata de querer. Trata-se de sobreviver" – Agripina concluiu.

Ela tinha razão. Três meses após a morte de Drusila, Calígula saiu do luto tão repentinamente quanto entrara. Um dia, simplesmente anunciou que o luto acabava e que Roma deveria voltar à vida. Mas ele mesmo não voltou à vida. Algo se quebrara dentro dele.
Os abusos se intensificaram. Agora, sem a presença moderadora de Drusila (que, apesar de cruel, às vezes o acalmava), Calígula entregou-se a todos os excessos. Mandou executar senadores por olhá-lo torto. Construiu um navio-palácio no lago Nemi, onde realizava orgias com jovens de ambos os sexos. E, finalmente, voltou sua atenção para Agripina e Livila com uma intensidade que beirava o sadismo.

- “Vocês são tudo o que me resta de Drusila” - disse ele, uma noite, convocando as duas para seus aposentos - “Portanto, vocês serão Drusila para mim. Agripina, tu serás Drusila quando eu quiser uma deusa. Livila, tu serás Drusila quando eu quiser uma virgem"

- “Sou casada, César” - lembrou Livila, pensando em Marco Vinício, a quem Calígula mantinha exilado na Gália.

- “Teu casamento é uma piada. Eu anulo todos os casamentos que não me agradam"

Calígula ordenou que elas se despissem e se deitassem em camas separadas, mas visíveis uma para a outra. Ele então apagou todas as lâmpadas, exceto uma, e caminhou de uma cama a outra, ora acariciando Agripina, ora beijando Livila. Era uma tortura psicológica tanto quanto física.

- “Drusila gemia assim” - murmurava ele, quando Agripina se mexia - “Não, não era bem assim. Era mais alto. Tenta de novo"

Agripina suportou aquela noite e muitas outras, sempre com os olhos fixos no teto, planejando, calculando. Livila, mais frágil, começou a definhar como Drusila definhara, mas não de febre: de desespero.
[...]
Uma noite, Livila tentou o suicídio. Usou a adaga de prata que ainda guardava debaixo da cama e cortou os pulsos. Mas um escravo a encontrou a tempo, e os médicos a salvaram. Quando Calígula soube, sua reação foi inesperada.

- “Como ousa?” - gritou ele, entrando no quarto de Livila como um furacão - “Como ousa tentar me deixar também? Vocês três são minhas. Se uma morre, as outras duas pagam. Se duas morrem, eu mesmo me mato. Mas ninguém sai dessa vida sem minha permissão"

Ele ordenou que Livila fosse acorrentada à cama, vigiada dia e noite por quatro guardas.

- “Viverás, irmã. Viverás para me servir. E para que eu possa te odiar por não seres Drusila"

Agripina, ao ver a irmã acorrentada, sentiu um nó no estômago. Ela era dura, ambiciosa, mas não era monstro. Aproximou-se da cama de Livila na calada da noite.

- “Vou te tirar daqui” – sussurrou Agripina - “Mas preciso de tempo. Calígula está perdendo o controle. O povo o odeia, o Senado o teme, os pretorianos começam a cochichar. Em breve... em breve alguém fará alguma coisa"

- “Que coisa?” - perguntou Livila, com os olhos vazios.

- “Não sei. Mas quando acontecer, quero estar do lado certo"

Agripina beijou a testa da irmã e saiu. Naquela mesma noite, escreveu outra carta, desta vez para o prefeito do pretório, um homem chamado Quinto Récio. A carta dizia:
"Os loucos não devem governar por muito tempo. Roma precisa de mãos firmes. Espero que as tuas estejam dispostas."
Récio não respondeu. Mas guardou a carta.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
AS SOMBRAS DO MANTO - Capítulo III: A Deusa Mortal

Codigo do conto:
264029

Categoria:
Incesto

Data da Publicação:
08/06/2026

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