Ainda nesse mesmo dia, Roberta precisou sair para trocar alguns mantimentos. Era sempre o momento de maior apreensão de Kiara, que sempre pensava o pior com invasões e outros riscos. Coisa que sua anfitriã sempre dizia ser impossível de ocorrer em seu território. Porém, retornando mais rápido que o convencional, Roberta foi direto ao porão e ao abrir a porta de uma vez pegou sua visitante de surpresa, algo que a assustou, mesmo ela não fazendo nada demais.
- O que é isso? - quis saber Roberta jogando um papel com traços desenhados definindo o rosto de Kiara. Falou em um tom imperioso, ríspido, como se tivesse sido traída.
Kiara pegou o papel com paciência e se espantou ao ver um rosto similar ao dela. Ao redor havia a inscrição de que os Falesianos pagavam uma boa recompensa por sua captura e entrega viva. Escrito à mão, na lateral, outra frase que dizia "lhe damos o que quiser" com o brasão dos Comerciantes indicando o interesse mútuo.
- Onde você achou? - quis saber Kiara.
- Está por todo o vilarejo, e falaram que não só aqui, mas até em Lisboa há fotos suas com a mesma informação.
Kiara sentiu-se com a garganta apertada. Seu olhar demonstrou um desespero jamais visto antes.
- Mas eu falei pra você que eles me procuravam! Não menti. - falou choramingando, preocupada com o que sua amada poderia imaginar ou pensar que estivesse mentindo.
- Mas ao ponto de espalhar sua foto? Eles estão loucos por você. O que você fez? Não é qualquer um que chega a ter esse nível de interesse por eles. - foi perguntando de forma mais bruta, puxando Kiara para ser aprisionada nas algemas das paredes demonstrando medo e preocupação.
- E imaginar que ontem eu estava transando e me colocando em risco ao seu lado. - dizia Roberta enquanto Kiara era presa sem esboçar reação.
- Mas eu não fiz nada! - respondia Kiara chorando.
- Como não? Olha pra isso! Se alguém sonhar que estou com você aqui, eles me matam junto e dirão que sou traidora! Não tem ideia do risco que corro com você aqui dando sopa.
Kiara então pediu para contar mais detalhes de sua ida à Falésias. Contou o ocorrido na prisão e a trama de Jarbas. Também contou sobre seu envolvimento com a rainha local e Marcela. Mas aquilo tudo pareceu piorar mais ainda sua situação com Roberta, que não acreditou na história.
- Você não está contando toda a história. Porque nesse mesmo dia que diz ter ido lá não só a rainha como Jarbas também morreu, ele era o número 3 do império falesiano. Houve até o interesse de alguns do nosso vilarejo em invadir Falésias, mas isso não aconteceu porque não tinham noção do que poderiam encontrar na defesa daquela cidade. Mas ninguém falou como ocorreram essas mortes. Pra mim, você matou os dois e fugiu! Eu não conhecia, até agora, alguém capaz de estar tão próximo da alta cúpula falesiana e sair de lá perambulando por tantos lugares, dando de cara com os Comerciantes. Isso explica como caiu aqui e porque a armadilha não te decepou, deve estar aqui com algum objetivo mesquinho também! Para quererem você por tanto e por sua beleza, com certeza é uma Soberana! Deve seguir lendo a mente de todos e eu aqui, apaixonada por uma víbora! - saiu Roberta revoltada.
Kiara então ficou presa no porão, chorando, sentindo o peso dos braços erguidos nas algemas. Sentiu-se diminuída percebendo mais uma vez que tudo convergia para não ter ninguém. Se em um dia estava apaixonada por usar uma coleira e ser submissa de uma mulher poderosa por uma noite, no outro tinha virado ameaça ao ponto de sua Dominante nem mesmo querer conversar contigo. Ela se sentiu amarga, entristecida e convencida de que o melhor mesmo era seguir seu rumo, sem interagir com mais ninguém. Mas agora ela também sabia que seu rosto estava por uma grande região e que ir à Lisboa seria um altíssimo risco.
Também pensou sobre o fato de Jarbas ter morrido. Isso não seria possível. A não ser que Marcela ou algum traidor do império falesiano aproveitou a oportunidade. Quem seria o número dois local? E porque os Falesianos a queriam se seu maior acusador teria morrido? Seria porque Marcela lhe atribuiu as mortes? E quem teria lhe desenhado com tamanho detalhamento se teve contato com pouquíssimas pessoas?
Mas as acusações de Roberta ainda lhe doíam o coração. Kiara tentava se firmar nas dúvidas para não sentir o martírio da inconveniência que sentia por não ser mais confiável para sua amada, mas não era possível. Ela logo lembrava do paraíso que tinha se envolvido na noite anterior e depois na raiva em que Roberta estava.
Ficou presa por quase dois dias, pouco ouviu os movimentos de Roberta na casa. Ela agora não lhe dava nenhuma satisfação. O tempo parecia ser maior do que antes até que sua anfitriã reabriu a porta levando alguns alimentos. Soltou-lhe uma das mãos e colocou a comida perto o suficiente para se servir sozinha.
- Se não sente mais nada por mim, me solte, eu vou embora e não lhe causo mais preocupações. - disse Kiara enquanto Roberta só ouvia sem reagir.
- Eu..
- Coma antes que eu me arrependa e saia daqui. - cortou Roberta.
Kiara lanchou e então voltou a ser presa por Roberta.
- Meus braços doem, não me deixa assim tanto tempo. - disse Kiara.
Roberta então tirou o outro pulso de Kiara, a imobilizou por trás com cuidado e medo de ser surpreendida e prendeu sua visitante na cama, deitada, com pernas e braços afastados. Ela notava que o clima era sempre pacífico e não havia nenhuma tentativa de dificultar as coisas. Isso lhe encucou, mas não quis conversar. Saiu dali.
É que se sua versão estivesse correta, como Kiara teria matado duas pessoas poderosas, fugido, passando por Comerciantes e entre vilarejos perigosos? Se ela fosse Soberana e lesse mentes, teria se associado a alguém, todo mundo sempre tem uma vulnerabilidade. E se fosse mesmo tão poderosa, Kiara teria lhe convencido a fazer outras coisas durante o sexo de dias atrás. Ela era muito dócil pra ter feito tantas coisas.
Roberta então saiu pelos bares do vilarejo para saber se alguém tocaria no assunto da mulher da foto para sondar e saber mais sobre o que era dito por aí. Andou nas áreas mais visitadas e embora tivesse foto de Kiara por toda a parte, ninguém parecia querer contar sobre ela. Foi só quando estava no Bar do Gelo encarando a foto com um ar de curiosidade que o dono do local finalmente tocou no assunto.
- Uma mulher linda, né? - disse Gelo.
- Oi, como é que é? - disse Roberta demonstrando surpresa.
- A moça da foto, é bem linda, todo mundo fica admirado quando a vê - falou limpando algumas canecas, próximo à pia do balcão.
- Sim. Nunca vi algo parecido. Como chegou aqui, a foto?
- Os comerciantes quem trouxeram... Veja, eles arrumaram uma forma de fazer cópias, não é tinta de pincel, caneta ou grafite de lápis. - disse entregando a foto para Roberta que recuperou as imagens de sua mente vistas no vilarejo. A posição das escritas era bem similar e não havia diferenças tão grandes.
- Então são eles que a querem?
- Sim. Os Falesianos não viriam tão longe e saberiam que não teríamos interesse no comércio.
- Mas ouvi dizer que há fotos até Lisboa!
- Balela, os Comerciantes jamais iriam pra lá. E os Falesianos, pra quê se indispor com Lisboa por uma mulher. Sem dizer que permitir que Lisboa soubesse que uma mulher fez o que fez com eles seria um problema, Lisboa os atacaria e pegaria a região.
- E o que será que ela fez?
- Ah! Dizem que ela é Soberana e fez um estrago em Falésias antes de fugir. Mas não acredito nisso, se fosse verdade, ela morreria antes de sair da cidade.
- E o que o Senhor acha?
- Eu acredito na versão em que diz que ela é Astros, a última dos Astros, a mais furtiva do grupo. Olha a altura dela na inscrição. Nunca vi uma Soberana medir abaixo de 1,60. Fora que a última Soberana que acharam acabou sendo problema pros Comerciantes não porque ela lia mentes, mas era justamente porque não lia mais e não obedecia ninguém. Essa moça aí está com cara de bode expiatório que passou por lá no momento certo para outra pessoa fazer o que fez.
- Mas os Comerciantes quererem tanto ela? Mais até que os Falesianos...
- Comerciantes são um povo que não dá muito pra confiar. E os Falesianos, não gosto deles, mas são guerreiros demais pra ficar procurando alguém por tanto tempo. Devem ter achado ela bonita e devem querer ela pra comércio grande. Eu esconderia ela pra mim, em meu porão, e daria tudo que ela quisesse, sem ninguém desconfiar de mim. Seria a mais bela submissa de alguém. E se algum mal se avizinhasse, eu a protegeria com a vida. - respondeu Roberta dando a entender que ela estava querendo saber demais sobre o assunto, levantando sua suspeita.
- Realmente, se eu tivesse uma chance dessas, nem sairia mais de casa, Senhor Gelo. - e riu naturalmente dando a entender que não tinha nada a esconder.
Em seguida, o próprio Senhor Gelo puxou outro assunto referente ao vilarejo e os dois ficaram por mais um bom tempo conversando. Gelo era uma das poucas pessoas que Roberta tinha maior intimidade, mas ela sabia que isso não significava amizade. Não no vilarejo. Ela então saiu e retornou para casa de forma habitual, sem demonstrar receio ou correr. Tinha notado que chamou atenção demais e mesmo Gelo não tendo interesse em conferir, ela era observada por outros Donos igualmente ou mais poderosos. Um passo em falso e poderiam invadir sua casa.
Ela chegou e foi direto ao porão. Pensava que às vezes alguém a teria raptado. Mas ela estava lá, com um rosto triste.
- Desculpa, desculpa! Eu estava errada. Você não é uma Soberana. - disse retirando as amarras dando um pouco de esperança para Kiara.
- Mas você também não pode ficar mais aqui. - disse cortando o ânimo.
- Na verdade até eu vou ter que pensar na possibilidade de sair daqui.
- O que aconteceu? - perguntou Kiara confusa.
- Acho que vacilei. Eles virão aqui mais cedo e mais tarde. Vão te raptar e me matar. Precisamos de um plano de fuga.
Continua...