Quando o amor incomoda - 69



No hospital de Serra Verde o ar era denso, carregado do cheiro de antisséptico e de algo adocicado que vinha dos corredores. A luz branca dos fluorescentes batia nas paredes claras, fazendo os azulejos brilharem friamente. Gurizão atravessou a porta do quarto com passos largos, o corpo largo preenchendo o vão. A regata preta colava nos ombros musculosos, nos braços definidos que ainda carregavam a tensão da manhã. Os olhos escuros encontraram Marilda deitada, o rosto pálido contra o travesseiro, o camisolão hospitalar caindo de um ombro.
Ele avançou sem hesitar e a envolveu num abraço firme. Os braços fortes fecharam-se em volta do corpo dela, o peito quente pressionando o dela, o cheiro do seu perfume masculino invadindo o espaço do quarto.
Marilda empurrou o peito dele com as duas mãos. O gesto foi brusco, os dedos trementes, os olhos arregalados. O empurrão, porém, não teve força suficiente para afastá-lo de verdade. Gurizão recuou só o suficiente para olhar no fundo dos olhos dela. A testa se franziu, o sorriso fácil de antes desapareceu por completo.
— Aí… aí… Gurizão? O que você está fazendo aqui?
Ele inclinou a cabeça, a voz descendo para um sussurro quase íntimo:
— Vim te ver… óbvio. Está toda machucada… está doendo? O que aconteceu?
Marilda apertou os lençóis contra o peito, o queixo erguido, a expressão fechada.
— Sai daqui, Felipe. Eu disse para você se afastar.
A porta se abriu de novo. Eulália entrou com o carrinho de medicação, a postura ereta, o olhar clínico varrendo a cena. O cabelo preso, o uniforme impecável, a expressão profissional que não deixava escapar nada.
— Olá… está tudo bem por aqui?
Marilda disfarçou na hora. Um leve sorriso forçado subiu aos lábios pálidos. A voz saiu controlada, educada demais:
— Obrigada pela visita, Felipe. Estou me recuperando, sendo muito bem tratada por essa equipe maravilhosa do hospital. Infelizmente, como você ficou sabendo, meu esposo Rogério faleceu no acidente… e por conta disso a loja vai ficar fechada até eu me recuperar, pensar no que vou fazer. Mas pode ficar tranquilo que seu salário será pago normalmente.
Gurizão balançou a cabeça, os ombros largos se movendo sob a regata. A voz saiu mais baixa, quase ofendida:
— Que isso, Marilda… eu nem estava pensando nisso. Eu só estava preocupado mesmo… com você… com a situação, né?
O celular de Marilda vibrou sobre a mesinha. A tela acendeu com a notificação da live de Milena. Os olhos dela se desviaram por um segundo, a mandíbula se tensionou.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não… é só a piran… a Milena fazendo live. Ela linkou o perfil dela com a loja por conta da última campanha… enfim…
Eulália deu um passo à frente, a voz firme, cortando o ar:
— Bom, você já viu sua patroa, já conversaram sobre o trabalho. Agora deixe ela descansar. Vou aplicar a medicação. Está sentindo dor, Marilda?
— Um pouco.
Gurizão passou a mão pela nuca, o gesto inquieto. Os olhos ainda presos no rosto dela.
— Eu já vou indo então. Melhoras, dona Marilda.
Marilda ergueu a mão acenando. Eulália com a voz saindo mais baixa, quase conspiratória:
— Há, filho… me espere na recepção. Preciso falar com você.
Ele parou no vão da porta. Marilda inclinou o corpo para frente, os olhos brilhando com uma ideia repentina.
— Guri… Felipe, espera. A live da… da Milena me deu uma ideia. Eu vou gravar um vídeo explicando por que a loja física da Elegance de Serra Verde está fechada e sobre a morte do Rogério. Você coloca a placa de luto na porta. E se quiser… não é obrigatório… faz uma live mostrando as roupas, falando das promoções, interage com o público. Assim as vendas não caem tanto. As funcionárias das outras lojas cuidam do envio. E as comissões… eu repasso pra você. Assim não cai muito o seu salário. Mas é só uma sugestão. Eu sei da situação do seu irmão também.
Gurizão assentiu em silêncio, o olhar carregado de algo que não se deixava ler. Saiu do quarto sem olhar para trás.
Assim que a porta se fechou, Marilda virou o rosto para Eulália. A enfermeira já preparava a seringa, os movimentos precisos.
— Notícias do Luiz Felipe?
— Não. Mas estamos investigando.
Marilda apertou os lábios. A voz saiu quase um sussurro:
— Que estranho esse sumiço…
Eulália ergueu o olhar, o tom enigmático, os olhos semicerrados:
— É… Serra Verde anda muito misteriosa ultimamente.
Longe dali, na fazenda da igreja Nova Palavra, o sol já declinava, tingindo a plantação de café com tons de cobre. O ar cheirava a terra quente, folhas molhadas e suor. Luiz Felipe trabalhava curvado, os dedos sujos de seiva, o corpo tenso. Ao lado dele, Gabriel colhia em silêncio, o rosto abatido. Lorenzo, um pouco mais adiante, lançava olhares furtivos para os lados.
Luiz Felipe se aproximou, a voz baixa, urgente:
— Temos que tomar cuidado… além de tudo o que eu já disse, ainda tem outra coisa. Eu acho que tem um dedo duro entre nós.
Gabriel ergueu o rosto, os olhos cansados.
— Pois eu tenho é certeza, bixa! — cortou Lorenzo, o tom afiado, o queixo erguido. — E digo logo: é bem aquela “BrunaSurfistinha” ali.
— Por que acha que é o Bruno?
Pergunta Luiz Felipe.
— A bixa sempre pega os trabalhos mais maneiros. Você já viu ela suja ou sendo xoxada por algum desses palhaços? Eu mesmo nunca vi, querido.
Luiz Felipe franziu a testa.
— É estranho mesmo… e você, Gabriel, o que acha?
Gabriel hesitou, os ombros caindo.
— Pode ser… mas eu aposto no Charles. Ele tem muitas mordomias.
Lorenzo soltou uma risada baixa, quase cínica:
— Tá loka? Claro né, bixa. Olha bem pra ele… tá reconhecendo não? É o filho do prefeito. Por que acha que não baixou polícia aqui em cinco anos?
Luiz Felipe parou de colher. O olhar se arregalou.
— O quê? Isso acontece aqui há cinco anos?
— Simmm, meu amor. Eu mesma já vim pra cá umas três vezes… porque a mamãe aqui é babado!
O rosto de Luiz Felipe se fechou, a voz saindo embargada:
— Estou horrorizado. Eu sempre morei aqui em Serra Verde e nunca fiquei sabendo disso.
Lorenzo se aproximou mais, o tom conspiratório, os olhos brilhando:
— Claro né, amore. Tem gente do alto escalão encobrindo tudo isso aqui. Dizem que o irmão do prefeito também é do babado… mas ninguém confirma. Já a “Charlene" ali foi pega por um paparazzi que fotografou ele beijando um rapaz e vendeu a foto pra um jornaleco da cidade. Mas antes chantageou o prefeito, acredita? Éeeee, boy… enfim, ele achou que daria certo porque não morava aqui. Mas antes de voltar pra capital, no último dia do festival de Serra Verde que ele estava cobrindo, sofreu um “acidente”.
_ E a coisa só piora!
Sussurra Luiz Felipe.
_ Sim queridinho, o jornal publicou a foto, mas misteriosamente recolheu as impressões. Obviamente algumas não foi possível… e desde então o prefeito abafa o caso do filho. O irmão já tem um tempo que não bota os pés em Serra Verde. E que eu saiba essa é a segunda vez dessa seita aqui. Já tinha sido fechada antes… porque saiu na imprensa do estado. Aí não deu pra abafar, né?
Luiz Felipe engoliu em seco.
— Entendi. Pra falar a verdade, quando você falou de dedo duro eu pensei no Wesley… porque eu vi…
— Mentira! Você também já viu? Babaaaadooooo! — Lorenzo interrompeu, os olhos arregalados de excitação.
Gabriel se aproximou, a voz baixa:
— O quê? O que vocês viram?
Antes que alguém respondesse, a voz grossa do vigia cortou o ar. O homem se aproximava com o cacete batendo na coxa, o olhar duro.
— Eu que tititi todo é esse aí? Estão achando que isso aqui é clube do livro? Voltem ao trabalho ou a chibata vai comer!
Lorenzo abaixou a cabeça, mas o sussurro escapou entre os dentes:
— Meu sonho…
O vigia parou na frente dele, o queixo erguido:
— Alguma pergunta, viado?
Lorenzo ergueu o rosto, a voz impostada, quase neutra:
— Não, senhor.
Na recepção do hospital, a luz artificial batia nas cadeiras de plástico. Gurizão estava de pé, os braços cruzados sobre o peito largo, quando Luigi e Gustavo chegaram. Eulália já os esperava. Os quatro saíram juntos e atravessaram a rua até a cafeteria ao lado. Sentaram-se numa mesa do lado de fora, sob a sombra de um toldo gasto. O cheiro de café passado e pão quente pairava no ar quente do fim da tarde.
Gurizão falou primeiro, a voz baixa, os dedos tamborilando na mesa enquanto contava o que acontecera na delegacia. Luigi ouvia em silêncio, os olhos atentos, conectando cada detalhe com as informações que Miguel já lhes dera.
— A polícia deve ter infiltrados da seita — murmurou Luigi. — Sem saber quem, não conseguiremos ajuda.
Gustavo se inclinou para frente, o olhar determinado:
— E se a polícia não puder deixar de encobrir os fatos… e for obrigada a fazer seu trabalho?
Eulália franziu a testa:
— Como assim? Como podemos fazer isso?
— Expondo a seita. Mas precisaremos de provas. E eu sei como conseguir… só que vai ser arriscado.
Luigi apoiou os cotovelos na mesa:
— Qual o plano?
Gustavo olhou para cada um deles:
— Primeiro preciso saber se algum de vocês dois conhece esse pastor Ubirajara… ou alguém dessa seita.
Luigi balançou a cabeça:
— Que eu saiba não. Mas tinha anos que eu não vinha pra Serra Verde.
Eulália completou:
— Eu sempre morei aqui, mas estou sempre trabalhando. Que eu saiba ele nunca foi ao hospital.
Luigi passou a mão pelo cabelo, a voz mais baixa:
— Geralmente esses grupos têm uma ala médica pra evitarem ser expostos. Só mandam pro hospital se for algo bem grave… e duvido que os responsáveis pela seita iriam.
Gurizão franziu o cenho, o olhar desconfiado:
— Pensei que você não conhecia essa seita.
Luigi soltou um suspiro longo, os ombros caindo:
— Essa em específico, não. Havia rumores quando eu morava aqui… mas meus pais eram católicos. Um pouco antes de eu decidir fazer as pazes com meus próprios sentimentos e com a minha verdade… quando eu estava muito confuso, conversando com homens pela internet… eu ouvi umas histórias de alguns que estavam indo pra um retiro de “cura”. Confesso que fiquei tentado a ir. Mas então as coisas foram acontecendo… enfim, isso não importa mais. O que importa é que eu não fui. Depois fiquei sabendo que tinha sido fechado.
Ele pausou, o olhar distante:
— Durante a minha viagem pelo Brasil eu ouvi muitas histórias de homens que já tinham passado por clínicas, seitas, lugares parecidos. Embora por lei seja proibido, existem pais que não entendem… e até as próprias pessoas. Como eu mesmo, por anos, não me aceitei. Casei, tive filho… mas não estava completamente feliz. Estava sempre em conflito entre agradar os outros e a mim. O que eu quero dizer é que a demanda pra exploradores como esses é grande. E onde tem demanda e gente gananciosa…
A voz dele ficou mais firme:
— O padrão deles também não muda muito. Geralmente se disfarçam de entidades religiosas que defendem as famílias e os “desejos do criador”… que criou o macho e a fêmea pra crescerem e multiplicar. Mas por trás usam tortura e doutrinação pra manter as pessoas escravas do medo e da culpa.
Eulália baixou o rosto. Uma lágrima escorreu pela face. A voz saiu embargada:
— Eu não vou mentir… eu não acho isso normal. Não vou dizer que gosto que meu filho namore outro homem. É óbvio que eu preferia que ele se casasse com uma mulher, me desse netos… mas eu nunca, jamais, obrigaria ele a ir pra um lugar desse.
Luigi olhou para ela com doçura e firmeza ao mesmo tempo:
— Sem querer ser cruel… mas essas próprias palavras, a forma de olhar e de agir… já são suficientes pra própria pessoa não se sentir “normal” e querer mudar, se encaixar.
Com a voz embargada Eulália se virou para Gustavo e perguntou:
— E quanto ao plano?
Gustavo com calma explicou sua ideia.
O silêncio que se seguiu foi pesado. O café esfriava nas xícaras. Do outro lado da rua, as luzes do hospital continuavam acesas, indiferentes ao que se tramava sob o toldo da cafeteria.
Gustavo chegou em sua casa e foi direto se trancar no banheiro, a porta com chave para que ninguém apressado entrasse, baixado as calças até os tornozelos e agora estava de quatro no box, encostado na parede fria de azulejo, o chuveiro ligado no morno só pra abafar o barulho. O celular apoiado na saboneteira, tela virada pra ele, reproduzindo um vídeo que ele tinha baixado: dois caras se comendo com vontade no banheiro de academia, gemidos abafados, tapas na bunda ecoando.
Gustavo não aguentava mais a saudade que sentia de seu amado, só bater punheta pensando em Luiz Felipe não estava mais aliviando seu tesão. Hoje o tesão tinha virado outra coisa. Ele cuspiu na palma da mão, passou devagar pelo pau inteiro, depois levou dois dedos molhados pra trás, roçando o cu devagarinho, sentindo o anel apertar e depois ceder um pouquinho.
— Caralho… — murmurou baixo, mordendo o lábio inferior.
Gustavo empurrou o dedo médio até a segunda junta, gemeu rouco, imaginando que era o Luiz Felipe quem estava ali atrás, segurando firme na cintura dele, metendo sem dó. Pensou no jeito que o moreno andava pela rua sem camisa, suado depois do futebol, short marcando tudo. Imaginou o cheiro dele, o pau grosso que ele já tinha visto de relance no vestiário da quadra uma vez.
O segundo dedo entrou junto, abrindo mais. Gustavo empurrou o quadril pra trás, fodendo os próprios dedos com estocadas curtas e rápidas, o pau babando sem nem precisar de toque. Ele pegou o sabonete líquido, despejou um monte na mão e esfregou no cu, deixando tudo escorregadio, facilitando a entrada.
— Isso… mete fundo, porra… — sussurrou pra si mesmo, voz tremendo.
No vídeo, um dos caras virou o outro de costas e meteu com força, o som molhado preenchendo o banheiro pequeno. Gustavo acompanhou o ritmo, enfiando os dedos até o fundo, curvando eles pra acertar aquele ponto que fazia a perna tremer. O pau dele pulsava no ar, babando fio grosso que pingava no chão.
Gustavo não aguentou mais. Virou de lado, uma perna levantada apoiada na parede, e começou a se masturbar com força enquanto continuava fodendo o cu com os dedos. Os gemidos saíam abafados contra o braço, mas o corpo inteiro tremia.
— Luiz Felipe… me fode… me come gostoso… — escapou baixinho, quase sem querer.
O orgasmo veio violento. Ele gozou sem encostar a mão no pau direito, só os dedos no cu e a imaginação fizeram o serviço. Jatos grossos bateram no azulejo à frente, escorreram devagar enquanto ele ofegava, coxas tremendo, cu ainda pulsando em volta dos dedos.
Ficou ali uns segundos, encostado na parede, água morna caindo nas costas, tentando recuperar o fôlego. Imaginando logo estar novamente nos braços de seu amado.

Autor: Mrpr2

Foto 1 do Conto erotico: Quando o amor incomoda - 69


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Quando o amor incomoda - 69

Codigo do conto:
270743

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
25/08/2026

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