Quando o amor incomoda - 66



66

À meia-noite, o vibro do celular de Marilda acordou Rogério. A luz fina vinda debaixo da porta do banheiro ativou ainda mais a desconfiança de Rogério que levantou-se e se vestiu em silêncio, desceu à garagem e ficou aguardando, rezando para que ela não descesse. Mas então, passos, Rogério escondeu-se no porta-malas do carro dela.
O motor ligando. O cheiro dela no estofado. Marilda dirigiu até o ponto de sempre. Gurizão esperava na sombra, aproximou se e pela janela do carro aproveitando que a rua estava vazia o beijo, longo, úmido e faminto.
_ Que cara é essa?
Pergunta Marilda.
_ Meu irmão, minha mãe acha que aconteceu alguma coisa com ele, o celular não atende, sem postagens…
_ Isso é coisa de mãe, mas provavelmente ele só está em um lugar sem sinal. Mas relaxa eu vou cuidar de você mandar essa tensão para bem longe!
Diz Marilda beijando carinhosamente Gurizão.
_ Mas temos um problema e agora para onde vamos? Não podemos ir ao motel com a ponte quebrada. E na loja tem o sistema de vigilância noturno.
_ Eu tenho uma ideia…
Disse Gurizão e seguiram para uma casa não muito longe dali.
_ O pai do Luiz está viajando, a casa não é grande coisa, mas é melhor que o mato.
Assim que a porta se fechou, as mãos de Gurizão retiraram o vestido de Marilda. Ela empurrou-o contra a parede, beijou-lhe a boca com fome, desceu o zíper, tirou-lhe a camisa. O corpo jovem, duro, sem a flacidez nem os pelos grisalhos. Marilda ajoelhou-se, levou o membro rígido de Gurizão à boca com voracidade, os olhos fechados de prazer real. Depois subiu no jovem, montou-o na cama, as unhas cravadas nas costas largas, o quadril batendo com força, gemendo sem contenção. Gurizão virou-a de quatro, enterrou-se fundo, uma mão no cabelo dela, a outra na cintura, o som da pele batendo ecoando no quarto pequeno. Marilda gozou primeiro, o corpo tremendo, a voz rouca gritando de prazer. Foi nesse instante que a porta se abriu. Rogério estava ali. O rosto branco. Os olhos fixos na cena: a esposa de quatro, o funcionário ainda enfiado nela, o suor, o cheiro, o gemido de prazer de Gurizão gozando dentro de sua esposa. O ar do quarto pareceu rarefazer. Nenhum dos três se moveu por um segundo que durou uma eternidade. Então Rogério avançou. O corpo inteiro tenso, o punho já fechado, a intenção clara de alcançar Gurizão. Os passos pesados ecoaram no chão de cimento queimado. Marilda gritou. Gurizão levantou os braços tentando se defender...
Após mais uma sessão de “exorcismo”, o pastor Ubirajara limpou o suor da testa com o dorso da mão e apontou o queixo na direção dos homens que ainda seguravam Luiz Felipe pelo braço.
— Levem-no para a plantação. Ele precisa aprender o valor do trabalho e o caminho do Senhor.
Os súditos acenaram em silêncio. Arrastaram o rapaz para fora do quarto, passando pelo corredor estreito da construção anexa à igreja. Luiz Felipe ainda sentia o formigamento do choque nas pernas, mas tentava manter o corpo ereto. A noite havia cedido lugar a uma madrugada úmida. O ar cheirava a terra molhada e café.
Atrás da igreja se estendia a fazenda. Os pés de café formavam fileiras longas e escuras sob a luz fraca dos postes. Folhas molhadas brilhavam. O solo estava irregular, cheio de covas e raízes aparentes. Luiz Felipe foi empurrado até o meio de uma das fileiras. Ali, outros jovens trabalhavam em silêncio. Rostos magros, ombros caídos, olhos fundos. Alguns tinham as mãos rachadas e sujas de terra. Outros tossiam baixo, sem erguer a cabeça.
Um dos homens entregou a Luiz Felipe um cesto de vime e um pano amarrado na cintura.
— Colhe. E rápido.
Ele obedeceu. Os dedos ainda dormentes tentavam arrancar os grãos maduros. O cansaço vinha rápido. Ao seu lado, um rapaz de cabelos curtos e rosto pálido murmurou sem olhar para ele:
— Quanto tempo você está aqui?
— Cheguei uns dois ou três dias… acho.
O outro soltou um riso seco, quase sem som.
Responde Luiz Felipe.
— Eu estou há sete meses. Tem gente aqui há mais de um ano.
Luiz Felipe sentia o peito apertar como se alguém lhe tivesse colocado uma mão invisível por dentro das costelas. Cada grão de café que arrancava parecia pesar mais que o anterior. As mãos doíam, mas a dor física era secundária. O que realmente o esmagava era a certeza lenta e fria que se instalava nele: aquilo não era um castigo passageiro. Era um sistema.
Quando o primeiro rapaz murmurou “sete meses”, Luiz Felipe sentiu um frio subir pela espinha. Sete meses. A expressão dele mudou sem que ele percebesse: os olhos se arregalaram por um segundo, a boca se abriu num quase gemido abafado. Ele apertou o cesto com tanta força que as vime cravaram na pele. O coração batia descompassado, alto demais para o silêncio da plantação.
— Como? Não tentaram fugir?
— Fugir? Fugir para onde? Estamos no meio do nada, além disso para onde iriamos?
— Pra casa, nossas famílias devem estar nos procurando, preocupados.
— O jovem riu um sorriso fraco, pálido, triste. Foram meus pais que me jogaram aqui.
Luiz Felipe emudeceu incrédulo.
Outro jovem, mais adiante, aproximou-se fingindo colher os mesmos galhos.
— A gente faz de tudo. Tira leite de madrugada. Cuida do gado. Planta. Colhe café, milho, feijão. Qualquer coisa que o pastor mandar. Não tem saída.
A conversa foi interrompida pelo estalo seco de um chicote no ar. Um feitor de chapéu de aba larga e camisa suada avançou entre as fileiras. O olhar duro varria os trabalhadores.
— Silêncio! Trabalho não é conversa.
O chicote desceu sobre as costas do rapaz que falara por último. O corpo dele se arqueou, mas ele não gritou. Apenas baixou a cabeça e voltou a colher com mais pressa. Luiz Felipe sentiu o estômago revirar. Continuou o movimento mecânico das mãos, o coração batendo alto.
Minutos depois, quando o feitor se afastou para outra fileira, as vozes voltaram, baixas, disfarçadas entre o farfalhar das folhas.
— Eles ficam o tempo todo andando. Se pegarem a gente falando demais, é chicote. Às vezes trancam no celeiro sem comida.
— E de noite?
Questiona Luiz Felipe
— Culto. Todo dia. E as sessões…
O rapaz de cabelos curtos engoliu em seco antes de continuar, quase sem mover os lábios.
— Sessões de rejeição. Eles chamam de “libertação”. A gente tem que repetir que é pecado ser homossexual. Que odeia o ser gay. Que quer mudar. Tem gente que chora. Tem gente que só finge. Mas ninguém escapa.
Luiz Felipe sentiu o suor escorrer pela nuca, frio apesar do calor que já começava a subir. Olhou para os outros rostos ao redor. Por um instante, as fileiras de café ao redor pareceram se fechar sobre ele, como paredes verdes e sufocantes. A ideia de que aqueles rostos magros e cansados já tinham sido como o dele, cheios de vida e de planos, o deixou nauseado. Uma onda de pânico subiu do estômago até a boca. Ele precisou baixar a cabeça e fingir que colhia com mais atenção só para esconder o tremor no queixo.
Nenhum sorria. Todos tinham o mesmo olhar cansado, de quem aprendera a sobreviver em silêncio.
Mais adiante, outro feitor gritava ordens. O chicote voltou a estalar. As conversas morreram de novo. Só restou o som das mãos arrancando grãos e o farfalhar constante das folhas de café sob o vento fraco da manhã.
Marilda machucada, arranhada suja liga para a polícia dizendo que ela e seu marido foram assaltados e que os assaltantes a obrigaram a pular do carro e fugiram com seu marido e o carro.
Gurizão já em casa não conseguiu dormir, Marilda disse para ele ir para casa e não a procurar por um tempo, mas ele estava aflito resolveu sair para ir correr em volta da praça. Ao sair encontra com Gustavo indo comprar pão conversam e tentam se atualizar, mas sem novas informações de Luiz Felipe então Brian e Miguel saem da casa alugada com malas na mão.
_ Fala gente boa, estão indo viajar também?
Pergunta Gurizão enquanto cumprimenta os rapazes.
_ Estamos voltando para Londres, até pensamos em fazer um churrasco de despedida, mas o clima não anda próprio.
Disse Miguel.
_ Sei… Alguma notícia do Kenji? Parece que ele viajou com o Luigi e com o meu namorado.
Pergunta Gustavo.
_ Com o Luigi sim, com seu seu namorado não. Ele ligou ontem a noite a chuva e a estrada estava difícil de sinal, mas estão bem.
_ Quando minha mãe souber…
Resmunga Gurizão. Enquanto Gustavo passa a mão na cabeça nitidamente mais preocupado.
_ O que aconteceu?
Perguntou Miguel.
_ Meu irmão Luiz Felipe está sumido desde o dia em que o pai dele viajou, mandou uma mensagem dizendo que ia viajar com o pai e não temos notícias desde então.
_ Olha sem querer me meter, mas ele não viajou com o pai não, tenho certeza disso.Vimos ele depois que o Luigi e o Kenji já tinham ido. Não foi Brian?
_ Yes com o outro. O Blond.
Diz Brian.
_ Loiro?
Questiona Gurizão.
_ Sim o Eduardo, o seu irmão Luiz Felipe estava bebendo com o Eduardo no bar do Tonho.
_ Filho da puta! Então minha mãe estava certa o Eduardo fez mesmo algo com meu irmão. Mas para onde aquele psicopata levou meu irmão?
_ Não acredito que o meu irmão Eduardo fez isso… e agora Gurizão?
Brian e Miguel se entre olharam e então Miguel se deu conta de uma coisa.
_ Espera o Eduardo é muito amigo do meu primo o Romário certo? E eu ouvi dizer que ele estava frequentando uma igreja certo?
_ Uma tal de palavra da gloria…
Tenta se lembrar Gurizão.
_ Nova Palavra!
Corrige Miguel.
_ Isso, isso mesmo. Minha mãe até estava mais calma pensando que uma religião poderia ajuda lo a se tornar alguém melhor.
Confirma Gustavo.
_ Então corre Gurizão que seu irmão pode estar em perigo. Gustavo essa Nova Palavra é uma seita, ela é antiga, mas tinha sido desfeita a anos atrás, mas pelo jeito voltou e voltou com velhos hábitos.
_ Como assim?
Questiona Gustavo.
_ Antes de eu me mudar para Londres a primeira vez uma parte da minha família começou a frequentar essa seita e quando descobriram que eu era gay tentaram me forçar uma cura gay lá. É tipo uma lavagem cerebral com tortur@ e trabalho escravo por sorte minha avó me tirou de lá e me mandou para Londres, mas outros garotos não tiveram a mesma sorte que eu. Fiquei sabendo que meses depois o lugar foi denunciado, até chegou a ser investigado, mas parece que tinha gente grande por trás e a coisa toda foi abafada.
_ Onde meu irmão se enfiou? E meu namorado? O que o Eduardo fez com o Luiz Felipe ou levou?
_ Calma Gustavo vai dar tudo certo, Miguel você sabe onde fica essa igreja, seita , sei lá o quê?
Questiona Gurizão.
_ Posso fazer um mapa, de onde ela ficava, mas não garanto que ainda seja o mesmo lugar.
Diz Miguel.
_ Já é um começo.

Autor: Mrpr2

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Ficha do conto

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Nome do conto:
Quando o amor incomoda - 66

Codigo do conto:
270102

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
17/08/2026

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