A cidade de Serra Verde respirava um ar pesado naquele dia. O céu permanecia fechado, carregado de nuvens escuras que se arrastavam lentas, e relâmpagos distantes iluminavam o horizonte sem que uma gota de chuva caísse. O calor abafado grudava na pele. No horário do almoço, o jornal local repetia as imagens da destruição deixada pela tempestade da noite anterior: árvores arrancadas pelas raízes, telhados espalhados pelos quintais, a ponte principal da cidade partida ao meio, restos de madeira e concreto flutuando no rio ainda revolto. Era a maior cheia dos últimos vinte anos. Quase ninguém sabia, porém, que todo aquele horror era apenas a ponta do iceberg. Do outro lado da ponte destruída, em uma igreja em meio a uma fazenda isolada, Luiz Felipe tremia dentro de uma banheira de água gelada. A água já estava turva de suor e lágrimas. Ao redor dele, religiosos fervorosos cantavam hinos com vozes roucas, mãos erguidas, olhos arregalados. O pastor Ubirajara, camisa colada ao corpo pelo suor, empostava as mãos sobre a cabeça do rapaz e gritava com autoridade: — Eu determino que o demônio se apresente! Em nome do poderoso, saia! Luiz Felipe chorava, os lábios roxos de frio, a voz quebrada: — Não tem demônio… eu não tenho demônio… por favor… me soltaaaaaaa!!!! Eduardo observava a cena do canto da sala, braços cruzados, um sorriso discreto e satisfeito no rosto. Ao seu lado, Romário mantinha o olhar fixo, sem expressão. A tensão no ar era quase palpável, como o silêncio antes de um trovão. Cada grito do pastor ecoava nas paredes úmidas, misturado ao choro abafado de Luiz Felipe e ao murmúrio obsessivo das orações. Horas se arrastaram. O corpo do rapaz já não tremia com a mesma força; ele desmaiara duas vezes. Quando o pastor Ubirajara finalmente ordenou que o tirassem da banheira, a voz saiu rouca, mas firme: — Levem-no para o quarto. Dêem-lhe um prato de sopa. Eduardo deu um passo à frente, o rosto contraído pela raiva contida: — Pastor, estava quase conseguindo! Ubirajara ergueu a mão, impondo silêncio. Apenas os irmãos autorizados tocaram em Luiz Felipe, carregando-o com cuidado quase cerimonial. Depois, o pastor conduziu Eduardo até o escritório estreito, onde o ar cheirava a mofo e livros antigos. Fechou a porta. Colocou as duas mãos nos lados do rosto do jovem, forçando-o a olhar nos olhos: — Nosso objetivo é tirar o demônio dele, não matá-lo. Ele está sem comida desde ontem. Já desmaiou duas vezes. Tenha calma, garoto. — Calma? — Eduardo rosnou, a voz tremendo de ódio disfarçado. — Meu irmão está influenciado por ele. Sabe-se lá se também não está endemoniado, e o senhor me pede calma? Ubirajara apertou um pouco mais o rosto de Eduardo, os polegares pressionando as maçãs do rosto. — Acha que matá-lo vai libertar seu irmão? E se, em vez de libertar, você envia o demônio direto para ele? Temos que expulsar e mandar o demônio de volta ao inferno. Só assim libertaremos seu irmão. Do outro lado da cidade, na loja de tecidos, Marilda dispensou Luiza com um gesto impaciente olhando o relógio dourado no pulso: — Vai almoçar, menina. Luiza foi em direção as escadas em com intenção de subir ao estoque, o coração já batendo mais rápido. Algo na voz da patroa não soava certo. — O que está fazendo? Perguntou Marilda, os olhos estreitos. — Vou chamar meu namo… o Gurizão para irmos almoçar. — Ele vai depois. — Mas… ele e eu… — Quer deixar a loja sozinha, garota? A frase saiu cortante. Luiza engoliu a resposta, desceu e saiu em direção ao restaurante Comida de Vó. Assim que a loira virou a esquina, Marilda fechou a porta da loja, trancou e subiu as escadas com passos rápidos e decididos. No estoque abafado, sem nenhuma janela aberta, Gurizão estava sem camisa, o peito suado, organizando caixas. Quando virou o rosto e a viu, sorriu de lado. — Nossa, Marilda, tem que colocar janelas que abrem aqui ou um ar-condicionado aqui porque se não… — Cala a boca e me beija. Ela já puxava a própria calcinha enquanto falava. O beijo foi voraz, mãos explorando, corpos colados no calor úmido do ambiente. A respiração ficou pesada, os gemidos baixos e urgentes. O cheiro de suor e desejo se misturou ao pó das caixas de tecido. Luiza, que já vinha desconfiada desde a manhã, voltou sobre os próprios passos. Viu as portas da loja fechadas. Contornou o prédio até a escada de serviço que dava para o segundo andar. Subiu nas pontas dos pés. Através da janela de vidro, o coração parou. Gurizão estava sobre Marilda, o corpo em movimento rítmico, a mão dela cravada nas costas dele. Luiza sentiu o estômago revirar. A tristeza veio primeiro, quente e amarga. Depois veio a decisão fria de se vingar. Enquanto isso, no escritório do pastor, Ubirajara já havia se sentado atrás da mesa. — Romário, Eduardo… é melhor vocês voltarem para a cidade. Eduardo abriu a boca para contestar, mas a voz do pastor cortou qualquer protesto: — Não. Vocês não são úteis aqui por agora. O rapaz precisa descansar. Com a ponte destruída, terão que dar a volta. A presença de vocês na cidade é fundamental para ninguém desconfiar. Quando o Luiz Felipe melhorar, vai agradecer. Mas se nos pegarem antes da retirada do demônio, nós é que seremos julgados por essa justiça injusta e pecaminosa dos homens. Romário assentiu, colocou a mão no ombro de Eduardo e o convenceu a seguir. Os dois partiram sob o céu ainda carregado de relâmpagos. Milena estava ao vivo quando Eduardo entrou no apartamento. O cabelo ruivo liso escovado o sorriso branco, a câmera apontada para o rosto. — Sumiu. Pensei que tinha voltado para a casa dos seus pais — disse ela, sem pausar a live. Eduardo começou a tirar a camisa. — Estava resolvendo umas coisas aí. — Sai. Estou em live. Ela o empurrou em direção ao banheiro. Ele deixou a porta entreaberta de propósito. Milena pausou a transmissão, caminhou até a fresta e perguntou, a voz baixa e irritada: — Arrumou emprego? Eduardo tentou desconversar. Ela listou as contas, a voz subindo a cada item. Ele respondeu que daria um jeito. Milena sugeriu mais conteúdos para o OnlyFans. Eduardo rejeitou de imediato. Ela insistiu, dizendo que os vídeos da live tinham aumentado o fluxo e gerado muito dinheiro. Ele perdeu a paciência: — Foi exatamente isso que fez eu ser mandado embora. A culpa é sua. O silêncio que se seguiu foi cortante. Milena, com o rosto vermelho de raiva, apontou para a porta: — Se é assim, então vai embora da minha casa. Eduardo sentiu o chão sumir. Não tinha para onde ir. Aproximou-se, a voz mudando de tom, as mãos tentando alcançar o rosto dela: — Desculpa… eu não quis… Milena deu um passo para trás, os olhos calculistas. Disse que ia desligar a câmera. Em vez disso, ligou-a novamente e a virou para a porta do banheiro. Depois, sem pressa, começou a se despir no meio do quarto, um strip-tease lento e deliberado, o olhar preso nele. Entrou no banheiro, no lugar de fechar escancarou a porta atrás de si e o puxou para o corpo quente. Eduardo não sabia que a câmera continuava gravando cada gemido, cada movimento, cada segundo daquele sexo carregado de raiva, dissimulação e necessidade. Do lado de fora, o céu de Serra Verde continuava fechado. Os relâmpagos riscavam as nuvens sem fazer chuva. E em algum lugar distante, na casa isolada, Luiz Felipe dormia de exaustão enquanto o pastor Ubirajara preparava a próxima oração. Luiza desceu as escadas do lado de fora da loja com o peito apertado e a mente fervendo. A imagem de Gurizão sobre Marilda ainda queimava em sua mente todas as vezes que piscava olhos. Ela não contaria explicitamente. Preferia tentar abrir os olhos de Rogério de outro jeito. Encontrou o dono da loja chegando de carro. Rogério estranhou a porta da loja fechada abriu e foi direto para o escritório pequeno, atrás da mesa bagunçada de papéis e amostras de tecido. Rogério era um homem de meia-idade, voz grossa e olhar cansado. Luiza fechou a porta atrás de si, aproximou-se devagar e apoiou as mãos na borda da mesa, inclinando o corpo para frente. A blusa abriu um pouco mais no decote. O perfume dela misturou-se ao cheiro de papel e café frio. — Rogério… preciso conversar com o senhor. Disse Luiza, a voz macia, quase doce demais. Ele ergueu os olhos, já irritado com o atraso do dia. — O que foi agora, Luiza? Não tenho tempo para conversa fiada, porque a loja estava fechada, cadê a Marilda e os outros vendedores? Ela contornou a mesa, aproximou-se mais, a mão tocando de leve o ombro dele, deslizando devagar até o peito. — O senhor sempre foi bom comigo… e eu não acho justo o que está acontecendo… Eu estava desconfiada e o senhor também deve se sentir… Vem vamos lá em cima no estoque… quero mostrar uma coisa. Rogério empurrou a cadeira para trás com força, o rosto vermelho de constrangimento e raiva. — Que porra é essa? Sai de perto de mim! Nesse exato momento a porta se abriu. Marilda e Gurizão entraram juntos, pois ao abrir a porta da loja Rogério alertou os amantes que se vestiram rápido. O silêncio que se formou foi pesado como o ar lá fora. Marilda parou no meio do caminho, os olhos saltando da mão de Luiza no peito de Rogério para o rosto aflito do marido. Gurizão abriu a boca, mas não disse nada de imediato. Rogério se levantou de uma vez, a voz explodindo: — Alguém me explica por que a loja estava fechada no horário de almoço?! Marilda não hesitou. A expressão mudou em segundos, do choque para a fúria teatral. Levantou o dedo apontando para Luiza, a voz alta e vibrante, digna de novela mexicana: — A pergunta certa não é essa, Rogério! A pergunta certa é o que você estava fazendo com essa vadia?! Ela avançou dois passos, os saltos batendo no piso de madeira. — Eu trabalhando, subi um minuto para conferir o trabalho do Gurizão e chama lo para ficar na loja e encontro minha funcionária se esfregando no meu marido?! No meu escritório?! Na minha loja?! Gurizão, ao lado dela, cruzou os braços e balançou a cabeça com um sorriso amargo, jogando lenha na fogueira: — Nunca pensei que você faria uma coisa dessas comigo… Depois de tudo que a gente viveu. Que decepção Luiza! Luiza sentiu o sangue subir ao rosto. A raiva que vinha da cena que vira no estoque agora se misturava à humilhação pública. As mãos tremiam. O plano que ela imaginara se desfazia diante dos olhos, virando exatamente o contrário do que pretendia. Marilda continuava a gritar, gesticulando, invocando Deus, o casamento e a dignidade, enquanto Rogério tentava, em vão, colocar ordem na confusão. — Eu não fiz nada! Já vocês… Tentou Luiza, a voz falhando. — Cala a boca, sua safada! Cortou Marilda. O peito de Luiza ardia. Cada segundo ali era mais um peso. Ela olhou para Gurizão, que agora fingia a pose de traído, e para Marilda, que ainda tremia de “indignação” depois de ter acabado de gemer debaixo dele. A hipocrisia era demais. Luiza tirou o seu crachá do pescoço, jogou-o sobre a mesa e falou com a voz cortante, quase sem emoção: — Pode considerar essa minha demissão. Sou uma ótima vendedora, não preciso passar por essa humilhação e quer saber? Tem gente que merece os chifres que tem! Virou as costas e saiu. Os saltos ecoaram pelo corredor e depois pela calçada. Lá fora, o vento quente batia no rosto e os relâmpagos continuavam a riscar o céu fechado de Serra Verde. Ela não olhou para trás. Já era noite quando Eulália chegou do trabalho no hospital, tomou seu banho, fez a janta, sentou se no sofá para assistir a novela. Gurizão veio do quarto usando uma regata e uma Boxer. _ Cadê seu irmão? Não vai me dizer que está nesse tempo zanzando por aqui com aquele moleque? _ O Luiz foi viajar com o pai dele. Diz Gurizão entre uma colherada de sopa e outra. _ Como assim Felipe, você ficou louco? O Luiz Felipe nunca faria isso. _ Mas fez, quer ver a mensagem? _ Que mensagem o que, vou resolver isso agora! Autor Mrpr2
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