A neblina já começava a descer sobre Serra Verde quando Luigi estacionou o carro em frente à casa de Eulália. O cheiro de terra molhada misturava-se ao das sacolas de supermercado. Kenji saiu primeiro, carregando os refrigerantes, seguido por Gabriel, o rapaz loiro de cabelos curtos, pele pálida e olheiras profundas. As roupas dele ainda carregavam o aspecto surrado daqueles dias ruins. Luigi fechou a porta do porta-malas com o ombro e guiou os dois para dentro.
Eulália apareceu na porta da sala. O olhar dela percorreu Gabriel, registrou o corpo magro, as mãos inquietas, o jeito de quem ainda não sabia se merecia estar ali e depois desceu para as sacolas. Não fez pergunta nenhuma. Apenas estendeu os braços, pegou as compras e desapareceu na cozinha. Kenji a acompanhou sem hesitar, já abrindo as embalagens e organizando a bancada.
Na sala, Gurizão estava esparramado no sofá grande, uma perna jogada sobre o encosto, a regata jogada no chão. Quando ouviu a porta, se ajeitou rápido, sentou direito e puxou a regata pela cabeça, o tecido descendo sobre o peito largo e peludo. Luigi e Gabriel se acomodaram no sofá de dois lugares. O filme na televisão continuava baixo; os dois começaram a comentar as cenas, a voz de Gabriel ainda um pouco trêmula, a de Luigi firme e acolhedora.
Luiz Felipe e Gustavo entraram juntos na sala. O cabelo de Luiz Felipe ainda úmido do banho, a camiseta colada no corpo mais magro. Gustavo olhou na direção da cozinha, viu o movimento de Kenji e Eulália, e sentiu aquele impulso quase automático de ajudar. Entrou na cozinha. Eulália ergueu o olhar e, por um instante, o semblante endureceu, a mesma cara de poucos amigos que usava quando alguém atrapalhava o ritmo dela no hospital. Depois os olhos dela deslizaram até a sala, onde Luiz Felipe sorria de lado enquanto conversava com os outros. O rosto de Eulália suavizou. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, apareceu. Ela passou a faca para Gustavo e começou a orientar:
— Corta o queijo em fatias finas. O molho já está no fogo. Não deixa queimar.
A campainha tocou. Os pais de Gustavo e Eduardo entraram um pouco envergonhados, cada um carregando uma travessa, empadão de frango e pudim de leite. Logo atrás vieram Diego, Marcelo e Maria Eduarda, com sacolas de refrigerante, cerveja e mais comida. A casa encheu de vozes, abraços e o cheiro misturado de comida caseira. A volta de Luiz Felipe era celebrada com a alegria barulhenta de quem finalmente podia respirar.
Tarde da noite, Serra Verde dormia sob uma neblina densa que engolia os postes e as calçadas. Na casa de Marilda, o silêncio foi cortado por um barulho baixo, como se alguém tivesse esbarrado em um móvel. Ela acordou de um salto, o coração disparado. Ficou alguns segundos parada na cama, ouvindo. Depois deslizou as pernas para fora, pegou a tesoura de costura que sempre deixava na mesa de cabeceira e desceu a escada descalça, o corpo colado à parede, cada degrau calculado.
Uma sombra se moveu no corredor.
— Não se aproxime. Estou armada!
A voz dela saiu firme, apesar do tremor nas mãos.
— Calma, meu amor. Sou eu. Felipe. Seu Gurizão.
Ele deu um passo para a frente. Marilda encontrou o interruptor e acendeu a luz. A sala clareou de uma vez. Felipe estava ali, cabelo bagunçado, camiseta preta colada no peito largo, um sorriso enorme no rosto enquanto abria os braços.
Marilda parou na base da escada, a tesoura ainda erguida.
— O que você está fazendo aqui? Eu não disse pra você ficar longe? Pra não me procurar?
— Vim ver como você estava. Fiquei sabendo que recebeu alta do hospital. Fiquei preocupado. Estou com tanta saudade…
Ele tentou se aproximar. Ela recuou, a mão no ar impedindo o abraço.
— Já viu. Estou bem. Agora sai. Vai embora e toma cuidado pra ninguém te ver saindo daqui.
— Marilda… o que está acontecendo? Seu marido morreu. A gente está livre. Meu irmão foi encontrado. Está lá em casa com o Gustavo, sorrindo de orelha a orelha.
Ela franziu a testa.
— O Luiz Felipe foi encontrado? Que bom. Fico feliz.
— Você não soube? Não viu na TV? Só se fala nisso.
— Eu não estou acompanhando noticiário. Já não aguento mais as insinuações, as fofocas…
Marilda se deixou cair no sofá, a mão cobrindo o rosto. Felipe se ajoelhou na frente dela, as mãos grandes subindo pelos braços até os ombros, acariciando com o polegar.
— Eu estou aqui.
— Você não entende. Você não pode estar aqui. Todo mundo já está insinuando que eu matei o Rogério. Se eu assumo você agora, é como se eu confirmasse tudo.
Ele ergueu o rosto, os olhos escuros fixos nos dela.
— Mas não foi isso que aconteceu. Você não matou seu marido… matou?
Marilda se levantou de súbito, o corpo inteiro tenso de fúria.
— Claro que não, Felipe! Você enlouqueceu? Está duvidando de mim?
— Eu? Óbvio que não. Mas o que de fato aconteceu naquela noite? Você me mandou embora e eu realmente não sei o resto.
Ela respirou fundo, sentou de novo e, como se o ar tivesse engrossado, começou a falar. A voz baixa, quase um sussurro, enquanto a memória voltava nítida.
Rogério abriu a porta do quarto. Estava a menos de um metro deles. Marilda e Felipe ainda enroscados na cama, o suor brilhando na pele. O peito de Rogério se contraiu de forma visível. O rosto se contorceu. O braço direito falhou no ar. Ele tropeçou, agarrou a beira da cama, os olhos cheios de ódio e de algo mais, pânico. Saiu cambaleando, sem olhar para trás.
Marilda foi atrás, ainda seminu, tentando explicar. Ele não falava. Entrou no carro. Ela tentou abrir a porta da frente do passageiro mas Rogério a puxou de volta impedindo a de abrir. Ágil Marilda abriu a porta de trás e entrou no carro. O motor já rugia. Rogério acelerou com lágrimas escorrendo pelo rosto. Marilda explicava, ou tentava, Rogério se quer olhava para ela, as ruas iam sendo percorridas cada vez mais rápido, sem cuidado, sem pudor, alguns passeios foram invadidos, gatos e cachorros quase atropelados. Mas Rogério não se importava, a dor no peito da traição e algo mais, cada vez mais forte, mais aguda seu braço esquerdo formigava de repente sua própria boca já não seguia seu comando e entortava. A rodovia se abria à frente. A ponte interditada se aproximava rápido demais. A velocidade subia. Marilda gritava para ele parar. De repente ele fez uma careta, urrou de dor, a mão foi ao peito. O carro não desacelerava. A poucos metros da ponte quebrada, Marilda olhou para o lado, um monte de areia molhada pela chuva. Um último pedido, Marilda ignorada pensou rápido. Abriu a porta, gritou mais uma vez e pulou.
O corpo rolou na areia molhada. Dentro do carro, Rogério caiu sobre o volante. A buzina gritou. O veículo continuou, atravessou o vão onde a ponte deveria estar, bateu contra a margem e foi engolido pelas águas agitadas.
Algum tempo depois, suja, arranhada e machucada, Marilda encontrou Felipe correndo em sua direção. Ela só conseguiu gritar para ele ir embora, não contar nada a ninguém, não a procurar mais.
De volta à sala, Marilda ergueu o olhar para Felipe, ainda ajoelhado.
— Então está tudo certo. É só você contar a verdade pra polícia e…
— Ficou louco, Gurizão? E eu vou dizer o quê? Que o corno do meu marido me flagrou com o amante, saiu dirigindo feito um louco comigo dentro do carro tentando matar os dois? Imagina o que a polícia vai achar. O que as pessoas vão dizer. Eu lutei uma vida inteira pra construir a Elegance. Acha que o que vende são as roupas? São milhões de lojas por aí. O que vende é a reputação. O boca a boca. A cliente satisfeita contando pra amiga que foi bem atendida, pra mãe que o preço é justo, pro vizinho que foi fácil e cômodo comprar e receber em casa. Agora imagina ouvir que é a loja de uma adúltera que pega os funcionários mais novos… assassina de maridos. Acha que minhas lojas vão durar quanto tempo?
A voz dela tremia de raiva contida.
— Mas não foi isso que aconteceu — tentou Felipe. — O Rogério morreu de infarto.
— Quem vai acreditar? E mesmo que acreditem, o que vão dizer sobre quem provocou esse infarto?
Ele ficou em silêncio. Ela continuou, mais baixa agora:
— Eu me culpo? Um pouco. Mas o que ele estava fazendo no porta-malas do meu carro? Por que ficava dias viajando sem me dar atenção? Eu sou uma mulher viva, fogosa, cheia de tesão. Eu preciso de atenção. De sexo. De um homem bonito e quente do meu lado.
— Eu sei. E por isso estou aqui.
— O Rogério não era assim no começo. Era trabalhador, bonito. Quando a loja começou a dar certo, ele largou o emprego e veio me ajudar. No início era bom. Depois quis ir nas viagens de compra. Eu acabei ficando mais na loja e ele na estrada. Em uma dessas viagens conheceu uma dona de loja em Serra Dourada, comprou o ponto sem me consultar. Dívidas, local insalubre. Foi quando eu contratei seu irmão. Ele pegou o jeito rápido. Depois eu mesma fui reformar a loja de Serra Dourada e a de Venda Nova. Pintei, troquei piso, fiz layout, treinei as vendedoras. Eu construí a Elegance. Eu não vou deixar isso desmoronar.
Felipe passou a mão pelos cabelos dela.
— Eu entendo. Mas e a gente?
— Me dá um tempo. Deixa a investigação terminar. O inventário não deve demorar. Depois disso eu sou a única herdeira. Aí eu te procuro. Pode viver sua vida. Se quando eu estiver pronta você ainda estiver livre… a gente continua.
Ele respirou fundo, aceitando.
— Ok. Você venceu. Mas antes…
A mão grande de Gurizão desceu pela cintura de Marilda e a puxou com força. A boca de Felipe encontrou a da patroa num beijo faminto, língua exigente, dentes roçando o lábio inferior. Ela gemeu contra a boca dele, as mãos subindo pelo peito largo, apertando os músculos firmes sob a camiseta.
Felipe a ergueu do sofá como se ela não pesasse nada e a carregou até a parede mais próxima. As costas de Marilda bateram de leve na pintura. Ele ajeitou uma das pernas dela na lateral do próprio quadril e esfregou o pau já duro contra o tecido fino da calcinha. O calor do contato sentido de imediato.
— Eu senti sua falta todos os dias — Disse ele no ouvido dela, enquanto a mão subia pela coxa e puxava a calcinha para o lado.
Dois dedos longos entraram nela de uma vez. Marilda arqueou, a cabeça jogada para trás, um gemido longo escapando. Felipe masturbou aqueles dedos dentro dela com ritmo firme, o polegar pressionando o clitóris em círculos apertados. Quando ela já estava escorrendo, ele retirou os dedos, abriu o zíper, baixou a bermuda só o suficiente e empurrou o pau grosso de uma só vez.
O gemido dos dois se misturou. Felipe enterrou-se até o fundo, parou um segundo para sentir o aperto quente, depois começou a foder com estocadas profundas e fortes. Cada investida fazia o corpo de Marilda bater de leve na parede. Ele segurou o queixo dela, obrigando-a a olhar nos olhos enquanto a penetrava.
— Olha pra mim, Eu te amo!
Ela obedeceu, os olhos vidrados de prazer. Felipe acelerou. O som molhado da pele batendo encheu a sala. Uma das mãos dele desceu entre os corpos e esfregou o clitóris com o polegar no mesmo ritmo das estocadas. Marilda gozou primeiro, o canal se contraindo forte em volta do pau dele, as unhas cravadas nos ombros largos. Felipe não parou. Continuou fodendo através do orgasmo dela até sentir o próprio ápice chegar. Enterrou-se até o fim, gemeu baixo e jorrou dentro dela, pulsando longamente.
Eles ficaram unidos, ofegantes, a testa de Felipe apoiada na dela. Depois ele a beijou de novo, mais lento, mais profundo, ainda dentro dela, como se quisesse marcar cada segundo.
Lá fora, a neblina continuava engolindo as ruas de Serra Verde. Dentro da casa, o silêncio voltou a ser só o som da respiração dos dois.
No dia seguinte, enquanto o sol ainda não havia rompido completamente a neblina da manhã, Luigi, Kenji e Gabriel subiam juntos no carro preto de vidros escuros. O motor ronronou baixo, carregando consigo o cheiro de couro novo e a tensão contida de quem acabara de atravessar uma tempestade. Gustavo ainda dormia na cama de Luiz Felipe quando este voltou para dentro após se despedir do pai e da mãe que foi para seu turno no hospital. Luiz Felipe se acomodou fazendo a conchinha externa para o namorado que tinha ganhado folga para aproveitar sua volta.
Enquanto isso, do outro lado da cidade quase na fronteira com Serra Dourada, o metal pesado das grades da penitenciária tilintava pelos presidiários.
Romário caminhava pelo corredor estreito, o uniforme bege colado ao peito largo e aos ombros marcados de quem sempre treinou para parecer indestrutível. O ar era denso, misturado com suor, desinfetante barato e aquele cheiro metálico de ferro enferrujado. Luzes fluorescentes piscavam irregularmente, projetando sombras longas nas paredes descascadas. Cada cela que ele passava parecia o observar, sussurrando histórias que ninguém queria ouvir em voz alta.
A porta da cela coletiva se abriu com um estrondo seco.
— Ora, ora, priminho… você por aqui?
A voz de Ezequiel veio primeiro — grave, arrastada, carregada de um sorriso que não chegava aos olhos. Ele estava encostado na parede do fundo, braços cruzados sobre o peito musculoso, a calça do uniforme baixa o suficiente para mostrar a linha profunda do V abdominal. Negro, a cabeça raspada, cheio de tatuagens, o olhar escuro e lento que percorria Romário de cima a baixo como se já o estivesse despindo. Atrás dele, três outros homens permaneciam em silêncio, corpos pesados, expressões impassíveis, apenas observando.
Romário parou no meio da cela, os ombros tensos, a mandíbula travada.
— Nada. O filho da puta do Eduardo foi fazer gracinha e me puxou junto.
Ezequiel soltou um riso baixo, deu um passo à frente. O chão de concreto frio rangia sob os pés descalços.
— Hummm… me lembro desse playboizinho. Loiro, cheio de marra, metido a valente…
— Esse mesmo. Otário da porra.
Confirmou Romário. Ezequiel aproximou-se mais. O cheiro dele de suor e sabonete barato invadiu o espaço de Romário. A mão grande e calejada desceu lentamente e pousou sobre o volume já semi-duro entre as próprias pernas, acariciando por cima do tecido grosso com uma calma deliberada. Os dedos se moviam em círculos lentos, apertando, mostrando a grossura e o peso daquilo.
— O que foi? Brigou com o namoradinho? — A voz saiu quase um sussurro. — Me lembro que você pagava maior pau pra aquele branquelo… fala a verdade, priminho. Tu dava o rabo pra ele, não dava?
Romário recuou um passo, abrindo os braços em defesa, o peito subindo e descendo mais rápido.
— Tá maluco, primo? Sou macho. Eu gosto é de mulher, pô.
Ezequiel sorriu de lado, os dentes brancos contrastando com a pele negra. Continuou a acariciar o próprio pau por cima da calça, agora com mais pressão, o olhar predador fixo no rosto de Romário. Os três homens atrás dele trocaram olhares rápidos, um deles lambendo o lábio inferior sem disfarce.
— Qual é, Romário… tu pensa que me engana? Eu sei que tu tem essa marra toda. Curte falar que treina o corpo pra atrair mulher… mas já te peguei altas vezes tu manjando minha rola.
A mão de Ezequiel se moveu mais devagar, provocante. O volume crescia visivelmente sob o tecido. Romário engoliu em seco; a garganta seca, o corpo traidor reagindo ao calor da cela e à proximidade perigosa.
— Qual é, Ezequiel… tá me tirando?
Ezequiel deu mais um passo. Agora estavam quase peito a peito. A respiração quente dele bateu no pescoço de Romário.
— Tu sabe que aqui dentro o dinheiro é diferente. Cada um dá o que tem.
— Tô ligado… mas eu cheguei hoje. Não tenho nada. Posso te arranjar o que você quiser. É só pedir. Eu peço pra minha mãe trazer.
Ezequiel soltou um riso baixo e sínico. A mão que acariciava o próprio membro desceu até a base e apertou com força, fazendo o contorno da cabeça grossa ficar ainda mais evidente.
— Tá ligado que mulher é difícil aqui, né? A gente fica muito estressado… precisando aliviar.
Os olhos escuros de Ezequiel desceram pelo corpo de Romário, peito largo, cintura estreita, as coxas fortes marcadas pelo tecido. O olhar era explícito, faminto. Os outros três homens se aproximaram um pouco mais, formando um semicírculo silencioso. Um deles tinha a mão dentro da própria calça, movimentos discretos e ritmados.
Romário sentiu o suor frio escorrer pela coluna.
— Olha… eu tenho uma nega lá fora. Ela tem umas amigas… eu vou falar com ela e…
— É bom mesmo — Cortou Ezequiel, a voz agora mais baixa, mais perto. O dedo indicador subiu e pressionou o peito de Romário, logo acima do mamilo. — Porque logo você vai perceber que aqui é um lugar perigoso. Eu vendo segurança, tá ligado? E eu posso te oferecer meus serviços…
Romário engoliu de novo. Fez muque, os bíceps saltando sob o uniforme, tentando recuperar alguma postura.
— Valeu, primo. Tamo junto. E se você quiser, eu posso trabalhar pra você também. Se liga como eu sou forte.
Ezequiel olhou o músculo com interesse deliberado, depois ergueu o olhar de volta para o rosto de Romário. O sorriso agora era mais lento, mais perigoso.
— Tô ligado. Mas antes preciso ver se tu é firmeza. Te conhecia lá fora… já faz tempo. Tu nunca veio visitar o primão aqui. Preciso ver se tu ainda é de confiança.
— Eu sou. Eu sou super de confiança.
Ezequiel inclinou a cabeça. A mão que ainda segurava o próprio pau apertou mais uma vez, devagar, provocante, antes de soltá-lo. O volume permanecia pesado e visível.
— É o que vamos ver…
Ele ergueu o dedo e colocou bem na frente do rosto de Romário, quase tocando o lábio inferior.
— Quanto à sua proposta… eu aceito. Se as piranha comparecerem, tá tudo nos conformes. Se não, priminho… quem vai rodar na chapa… vai ser tu.
A frase saiu baixa, carregada. Os três homens atrás riram, um riso curto, seco, que ecoou nas paredes úmidas da cela. Ezequiel deu um passo atrás, mas o olhar continuou cravado em Romário, pesado, esperando.
Romário ficou ali, o peito arfando, o corpo tenso, a mente girando entre orgulho ferido e o calor indesejado que subia pela barriga.
Enquanto isso, duas celas adiante, Eduardo ocupava o canto mais escuro da sua própria cela. As costas apoiadas na parede fria, pernas abertas de forma deliberadamente relaxada, mas o olhar era qualquer coisa menos relaxado. Os olhos claros observavam cada movimento dos outros internos com uma quietude calculada. Ninguém se aproximava. Ninguém falava. Só encaradas longas, carregadas, que diziam mais do que qualquer ameaça verbal.
O silêncio ali era diferente, mais denso, mais pesado. Eduardo não baixava o olhar. Apenas esperava. E era observado de volta, como um animal selvagem que todos ainda não sabiam se deviam temer ou desejar.
O metal das grades continuava a ranger a cada passo no corredor. O dia na penitenciária ainda estava só começando.
Autor: Mrpr2