Quando o amor incomoda - 63

63

Os olhos foram abrindo devagar se acostumando com a luz do sol filtrada pelas frestas da cortina, desenhando faixas douradas sobre o peito nu. Ele se espreguiçou erguendo os braços e bocejando, os músculos alongando-se sob a pele ainda quente do sono. Levantou-se e foi ao banheiro, com a cueca apresentando a tradicional ereção matinal. O chuveiro foi ligado e água quente deslizou pelo corpo de pele clara, escorrendo pelas costas, pela curva da cintura, pelos quadris após o sabonete, novamente a água deslizou suavemente por seu corpo. Alcançou a toalha e com ela se secou, macia, cheirosa, os movimentos lentos, quase sensuais, enquanto escolhia a roupa para o trabalho: uma camisa justa que realçava os ombros e calças que marcavam as pernas longas. Antes de sair do quarto, pegou o celular. Gustavo sorri ao ver que uma notificação de seu namorado Luiz Felipe piscava.
*Tavinho, estou indo viajar com meu pai. Desculpa não me despedir direito, mas decidi de última hora. Beijos!*
Gustavo franziu a testa por um segundo. Respondeu com a voz ainda preguiçosa de sono:
— Já estou com saudades. Aguardo muitas fotos e divirta-se com seu pai… meu sogro.
Após enviar a mensagem de voz curta, mas carregada de carinho, foi para a cozinha, onde o cheiro de café fresco e pão quente o esperava junto aos pais.
No Studio, Gustavo chegou primeiro. Poucos minutos depois, o carro de Diego estacionou em frente. Maria Eduarda desceu do banco do passageiro, deu a volta e beijou demorado o namorado e se despediu com um sorriso que ainda carregava o gosto da noite anterior.
Gustavo a observou com um sorriso de canto.
— Hummmm, que gracinha, amiga. Então já estão assim, é?
Manu riu, os olhos brilhando, e se aproximou, a voz baixa e confidente:
— Aí, amigo… cada dia me encanto mais, sabia? Forte, atraente, fode bem e ainda sabe cozinhar! Haaaaaaaa!
Gustavo soltou uma risada cúmplice, o tipo de risada que só existe entre quem se conhece de verdade.
— Fico feliz por você. Mas e aí, conta tudo.
Ela se sentou no banco na frente do Studio ao lado de Gustavo, cruzando as pernas, a voz ganhando aquele tom de fofoca íntima:
— Ontem fui para a casa dele, né. Assistimos filme com pipoca… ele, eu, o Marcelo e o George. Quase te liguei, mas achei meio assim, sabe?
— Eu entendo, amiga. Já tinha duas velas gays, imagina chegar mais um ainda mais sendo o irmão do seu ex? Aí não dá realmente. Kkk
Os dois riram e Manu continuou.
— Daí, do nada, estou sentindo um cheiro delicioso vindo da cozinha e advinha? O Diego tinha feito pizza. FEITO, amigo. E para acompanhar um vinho delicioso. Aí já sabe, né… dormi lá. Quer dizer, passei a noite. Porque dormir…
Os dois riram juntos, o riso baixo, malicioso e cúmplice, o tipo de riso que carrega histórias não contadas e confiança absoluta. Oswaldo e Valquíria chegaram abriram o Studio e todos entraram para mais um dia de trabalho com o ar leve de quem compartilha segredos sem precisar explicar demais.
Na loja Elegance, Marilda entrou com o salto batendo firme no piso. O olhar já vinha afiado.
— Cadê o Luiz Felipe?
Gurizão, irmão dele, ergueu os ombros.
— Meu irmão me mandou mensagem dizendo que viajou com o coroa dele.
Marilda parou. A expressão endureceu.
— Assim do nada? Sem me avisar? Estranho. Seu irmão nunca fez isso.
— Também estranhei. Mas deve ser coisa do pai dele. Aquele ali nunca bateu bem das ideias, não, segundo minha mãe.
Marilda cruzou os braços, o tom ácido escorrendo pelas palavras:
— Enfim, ele merece. Mas quando falar com ele, manda ele me ligar.
— Por que você não liga para ele?
Ela arqueou uma sobrancelha, o sorriso fino e cortante:
— Porque sou a patroa dele, Gurizão. Ele é quem tem que me avisar. De qualquer maneira, não quero ser invasiva. E você já arrumou o estoque?
Gurizão engoliu em seco, sem entender de início o que a patroa realmente queria.
— Mas sem o Luiz aqui, quem vai atender a loja?
Marilda deu um passo à frente, a voz baixa e afiada:
— A Luiza e claro Eu. Ou esqueceu que eu, antes de ser a dona, também sou vendedora?
— Jamais, dona Marilda. Já estou indo agora para o estoque.
Ele passou por Luiza fazendo caretas discretas. Luiza sorriu de canto, tentando disfarçar.
Marilda virou o rosto lentamente, o olhar cravado na loira.
— Posso saber a graça, Luiza?
Luiza manteve o sorriso, mas a voz saiu um pouco tensa:
— Nada, Marilda. Me lembrei de um meme aqui.
— Hã. Certo.
Marilda respondeu com a cara de poucos amigos, o silêncio que se seguiu pesado o suficiente para fazer o ar da loja ficar mais frio.
Um coral de vozes parecia ecoar de longe. A visão de Luiz Felipe ainda estava turva, as formas se formando aos poucos no meio da névoa.
— Ele acordou, viu? Eu falei que ia dar certo!
A voz era conhecida. Romário, mais agitado que o normal, os olhos brilhando de uma excitação estranha.
Luiz Felipe desperta babando, a cabeça pesada. Estava sentado numa cadeira, as mãos amarradas nas costas com cordas ásperas. O corpo inteiro dentro de uma espécie de bacia enorme cheia de água fria. Estava molhado até os ossos, vestindo apenas uma cueca branca que se colava à pele, fios elétricos saindo de dentro dela e se perdendo na água escura. À sua volta, várias pessoas mulheres, homens de todas as idades, rezavam em voz baixa, os rostos sérios, os olhos fechados ou fixos nele com uma intensidade que gelava.
— Me tire daqui… o que estão fazendo?
Pastor Ubirajara se aproximou, os passos lentos, a expressão serena demais para o que o ambiente sugeria. Olhou para o rapaz com uma calma que parecia falsa.
— Tudo bem, meu filho. Estamos aqui com você e por você.
Luiz Felipe piscou, tentando focar o rosto do homem. A água gelada subia até a cintura. Os fios vibravam levemente contra a pele.
— Quem é você? Eu não te conheço… por que está fazendo isso comigo?
A voz ainda saía grogue, embargada, mas o medo já começava a atravessar a confusão. As velas ao redor tremeluziam. Alguém murmurava mais alto. Romário sorria de um jeito que Luiz Felipe nunca tinha visto.
E a água… a água parecia mais fria a cada segundo.
A água gelada subia até a cintura de Luiz Felipe. Cada respiração fazia o peito tremer. Os fios finos que saíam de dentro da cueca branca vibravam de leve, como se carregassem uma corrente quase imperceptível. Ele puxou os braços com força, mas as cordas só apertaram mais, marcando a pele dos pulsos.
— Me soltem… — A voz saiu rouca, ainda embargada pelo torpor. — Isso não é brincadeira…
Pastor Ubirajara ajoelhou-se ao lado da bacia. As mãos grandes e quentes pousaram nos ombros molhados do rapaz. O toque era firme, quase paternal, mas os olhos do pastor não piscavam.
— Não é brincadeira, meu filho. É libertação. Você carrega algo… sujo. Algo que precisa sair.
Romário circulava atrás das pessoas que rezavam, o rosto iluminado por um sorriso nervoso demais. As mãos não paravam quietas. Ele se aproximou e falou baixo, quase para si:
— Ele vai limpar. Vai limpar de verdade dessa vez.
Luiz Felipe virou o rosto, a visão ainda turva. Reconheceu alguns rostos. Mulheres de meia-idade com panos na cabeça e livros nas mãos. Homens de camisa social claras, calças sociais pretas. Uma jovem de olhar vazio que repetia orações sem parar. Ninguém olhava para ele como se olhasse para uma pessoa. Olhavam como se olhassem para um problema, um demônio.
— Onde está o Eduardo? — Perguntou, a voz já mais clara, o pânico começando a subir. — Ele… ele me trouxe aqui?
O pastor sorriu de canto.
— Seu amigo nos procurou. Disse que você andava diferente. Que algo… estava te desviando.
A palavra “algo” saiu carregada de veneno.
Luiz Felipe engoliu em seco. A água ao redor dele parecia mais escura agora. Os fios vibraram de novo, e uma corrente fraca percorreu a parte interna das coxas e seu membro. Ele arqueou as costas, um gemido escapando entre os dentes, não de prazer, mas de choque e medo misturados.
— Para… para com isso…
Romário se aproximou da bacia, os olhos brilhando.
— Não luta, Luiz Felipe. Quanto mais lutar, pior fica.
Do outro lado da cidade, o Studio já estava em pleno movimento. Gustavo retocava a maquiagem de uma cliente quando o celular vibrou no bolso. Nenhuma mensagem nova de Luiz Felipe. Só o silêncio.
Maria Eduarda se aproximou por trás, o perfume doce contrastando com o cheiro de produtos de beleza.
— Ainda pensando nele?
Gustavo soltou um suspiro curto e se virou, o olhar cansado.
— Ele nunca some assim, Manu. Nunca. Nem quando a gente briga.
Ela puxou uma cadeira e sentou-se de frente para ele, as mãos cruzadas sobre os joelhos. O tom era o de sempre: sem julgamento, só escuta.
— Conta. O que tá te incomodando de verdade.
— A mensagem. “Decidi de última hora.” Luiz Felipe não decide nada de última hora. Ele planeja até o horário do café.
Manu ficou em silêncio por alguns segundos, só observando o amigo. Depois estendeu a mão e apertou a dele por cima da mesa.
— Então a gente descobre. Eu te ajudo. Se precisar, a gente liga pro Gurizão de novo, ou pra Marilda… ou a gente vai até a casa da mãe dele se for preciso.
Gustavo apertou a mão dela de volta. O gesto era simples, mas carregava anos de cumplicidade.
— Obrigado. Sério, mas talvez eu só esteja pirando né? As vezes ele está na estrada sem sinal é só isso né?
Manu sorriu.
— Deve ser isso mesmo. Agora termina essa cliente antes que ela perceba que você tá com a cabeça em outro lugar. Depois a gente vê isso com calma
Na Elegance, o ar continuava pesado.
Marilda organizava uma prateleira de bolsas com movimentos precisos e irritados. Luiza passava perto, carregando caixas, tentando parecer ocupada demais para conversar.
— Você andou estranha hoje.
Disse Marilda, sem olhar para ela.
Luiza parou.
— Estranha como?
Marilda virou o rosto devagar. O sorriso era fino, ácido.
— Jeito de quem está armado algo, jeito de quem sabe de alguma coisa e finge que não sabe. Acha que eu nasci ontem, Luiza?
A vendedora engoliu em seco.
— Não estou entendendo Marilda. Sabendo do quê? Eu não sei de nada, Marilda. Juro.
— Claro que não sabe.
Marilda deu um passo à frente, a voz baixa o suficiente para não ser ouvida pelos clientes.
— Porque se soubesse e estivesse escondendo de mim, a gente teria um problema. Um problema bem maior do que o estoque desorganizado.
Luiza baixou o olhar e continuou andando. As mãos tremiam levemente segurando as caixas.
Marilda ficou parada, observando a jovem se afastar. O olhar dela era o de alguém que já desconfiava de muita coisa e estava só esperando a confirmação.
De volta à bacia, a temperatura da água parecia ter baixado ainda mais.
Luiz Felipe tremia. Os lábios já estavam roxos. O pastor se levantou e fez um sinal com a mão. Duas mulheres se aproximaram carregando um jarro de água mais fria ainda e começaram a derramar sobre a cabeça dele.
A água gelada escorreu pelo rosto, pelo peito, pela barriga. Os fios vibraram com mais força. Uma corrente mais intensa percorreu o corpo, forçando-o a arquear as costas de novo. Um grito preso na garganta saiu abafado.
Um telão na frente de Luiz Felipe passavam imagens de casais, quando eram héteros nada acontecia, mas quando aparecia imagens de homens se abraçando ele levava choque.
— Em nome de tudo que é sagrado… — o pastor começou a rezar em voz alta — …nós expulsamos o que não pertence a este corpo. O que o está desviando. O que o está manchando.
Romário se ajoelhou ao lado da bacia, os olhos fixos no rosto de Luiz Felipe.
— Fala o nome. Fala seu nome demônio! Saia agora!
Luiz Felipe balançou a cabeça, a respiração ofegante.
— Não… não tem nome… porque eu não tenho nenhum demônio, vocês estão loucos…
O pastor se inclinou mais perto. O hálito quente contrastava com a água gelada.
— Tem sim. E a gente já sabe. Só precisa que você confesse. Que você peça para ser liberto.
As vozes ao redor subiram de volume. O coral de orações ficou mais forte, quase histérico. As velas tremeluziam com violência. Alguém começou a chorar. Outro bateu as mãos no peito.
Luiz Felipe sentiu a consciência vacilar de novo. A visão escurecia nas bordas. A última coisa que viu antes de a cabeça cair para frente foi o sorriso de Eduardo largo, satisfeito, e completamente errado.
E, no fundo da mente ainda nublada, uma única certeza: Alguém tem que me tirar daqui.

Autor: Mrpr2

Foto 1 do Conto erotico: Quando o amor incomoda - 63


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Quando o amor incomoda - 63

Codigo do conto:
269322

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
07/08/2026

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