A garoa fina caía sobre Serra Verde como um véu cinza, molhando as calçadas e os ombros das pessoas. Marilda saiu do hospital com a alta na mão e o corpo ainda dolorido sob a blusa larga. O médico tinha sido claro: o quadro já não apresentava risco, e ficar ali só aumentava a chance de infecção. Ela chamou um Uber, pediu para parar na farmácia e comprou pomadas, analgésicos e anti-inflamatórios sem olhar o farmacêutico nos olhos. Nas ruas, os sussurros a acompanhavam. Olhares de lado, sorrisos maldosos, fofocas disfarçadas de preocupação. Ninguém dizia em voz alta, mas todo mundo já tinha uma versão da noite em que Rogério morreu.
Perto de Serra Dourada, Gurizão estava parado do lado de fora do posto de gasolina, o celular na mão, o polegar deslizando pelo perfil de Marilda nas redes. Ele se controlava para não mandar mensagem. Foi então que viu a fila de viaturas passando pela estrada, sirenes apagadas, faróis baixos, todas no mesmo sentido: a fazenda. Dentro do posto, Eulália, Gustavo e Luigi receberam a ligação do jornalista Diogo ao mesmo tempo.
— A polícia vai agir agora.
Os três saíram correndo. Portas batendo, cinto de segurança puxado com pressa. Gurizão dirigia rápido engolindo a estrada atrás das viaturas.
Na sede da igreja Nova Palavra, o pastor Ubirajara terminava a sessão de readequação. A voz ainda saía baixa e cansada quando mandou os internos para os quartos. No escritório, o celular vibrava sem parar. Dezenas de ligações perdidas e mensagens do policial Rodrigues. Ubirajara começou a discar de volta quando um vigia bateu na porta, o rosto pálido.
— Pastor… a polícia está entrando.
Ele desceu as escadas com o peito apertado. Havia temor, sim. Preocupação. Mas também a certeza de que os comparsas ainda o protegeriam. Na entrada da igreja, o sorriso já estava no lugar, a voz mansa preparada.
Em Serra Verde, o apartamento de Milena ainda cheirava a sexo e testosterona. Romário saiu sem olhar para trás, o orgulho ferido, o corpo ainda quente da rejeição de Eduardo. Milena recebeu a ligação do dono do imóvel enquanto ainda secava o suor do pescoço.
— Não quero confusão no meu prédio. Amanhã você sai.
Irritada, ela empacotou as roupas de Eduardo numa mala e jogou no corredor.
— Volta pra casa dos seus pais. Agora!
Eduardo pegou a mala sem responder. O olhar dele era uma mistura de raiva e vergonha.
Na fazenda, o delegado Nogueira, de Serra Dourada, já esperava no salão de entrada. Ubirajara o recebeu de braços abertos, a voz melosa.
— Delegado, deve haver um grande engano. Nós somos uma comunidade de fé, de recuperação…
Foi nesse momento que a família de Luiz Felipe entrou. Eulália entrou primeiro, o rosto marcado de lágrimas secas. Luigi logo atrás. Gustavo vinha por último, o corpo inteiro tenso.
— Não tem engano nenhum — disse Luigi, a voz firme. — Temos provas. Tem rapazes sendo mantidos contra a vontade aqui dentro.
Ubirajara mudou o tom na hora. O sorriso endureceu.
— Nesse caso, vou chamar meus advogados. Sem mandado, ninguém entra.
Luigi deu um passo à frente dizendo:
— Não precisa de mandado. O crime está acontecendo agora.
— Quem é você? Creio que não é quem diz que é… um engodo do maligno?
O delegado Nogueira olhou para o colega de Serra Verde, que acabara de chegar, e assentiu. As imagens que já tinham visto não deixavam dúvida.
— Entrem!
Os policiais invadiram a fazenda e a igreja ao mesmo tempo. Portões arrombados, gritos, o som de botas no corredor. Não demorou. Os vigias foram rendidos um a um. E então os rapazes foram encontrados.
Luiz Felipe apareceu no meio do grupo, magro, os olhos fundos, mas vivos. Gustavo foi o primeiro a correr. O abraço foi tão forte que os dois quase caíram. Gustavo enterrou o rosto no pescoço do namorado, o corpo inteiro tremendo, as lágrimas escorrendo sem controle.
— Me perdoa… eu deveria ter te ouvido. Me perdoa, meu amor…
Luiz Felipe apertou-o de volta, as mãos nos cabelos de Gustavo, a boca colada à orelha dele.
— Eu tô aqui. Tô aqui agora.
Eulália chegou logo depois, os braços envolvendo os dois. Luigi se juntou, o peito grande fechando o círculo. A mãe beijou a testa do filho várias vezes, as mãos tremendo no rosto dele.
— Te maltrataram, meu menino… nossa, como você está magro. Vamos pra casa. Eu faço uma comida especial só pra você. Do jeito que você gosta.
Luiz Felipe sorriu pela primeira vez em semanas. O sorriso era cansado, mas verdadeiro. Ele beijou a mão da mãe, depois a de Luigi, e voltou a se aninhar no abraço de Gustavo, como se quisesse gravar o cheiro dele na memória.
Mesmo diante do flagrante, Ubirajara ainda tentou.
— Esses jovens estão sob tratamento psiquiátrico autorizado pelos responsáveis. Tenho a documentação…
O delegado de Serra Verde não deixou terminar. Todos foram conduzidos à delegacia: pastor, vigias, internos.
Para garantir que o caso não fosse abafado, algumas imagens, fotos e trechos de vídeo vazaram na internet naquela mesma noite. O jornalista Diogo começou as entrevistas ao vivo, a voz calma e cortante. O prefeito tentou intervir, mas a documentação da igreja Nova Palavra foi reavaliada em tempo recorde. A igreja foi dissolvida. O pastor e os vigias, presos.
A investigação sobre o que aconteceu especificamente com Luiz Felipe ganhou novos contornos. Eduardo, Romário e o policial Rodrigues foram convocados a prestar depoimento.
E, no banco de trás do carro que os levava para casa, Luiz Felipe ainda segurava a mão de Gustavo com força, os dedos entrelaçados, a cabeça apoiada no ombro dele.
Em casa Eulália após muitos abraços e beijos no rosto e testa do filho o orienta a ir tomar banho. Eulália pede a Gurizão que vá comprar os ingredientes para fazer lasanha, Gurizão vibra em saber o prato da noite.
Luigi toma a frente e diz a Gurizão que não precisa se preocupar que ele e Kenji vai ao supermercado. O rapaz não se ofende e se joga esparramado no sofá ligando a tv. Eulália vai a cozinha adiantando as coisas para o jantar, Kenji e Luigi vão ao mercado e Luiz Felipe vai para o banho puxando o namorado.
Dentro do banheiro, o ar cheirava a sabonete de lavanda e a pele quente. Luiz Felipe ficou de costas para Gustavo enquanto puxava a camiseta pela cabeça. O tecido subiu devagar, revelando primeiro a curva da coluna, depois as marcas.
Gustavo sentado na beira da cama, parou de respirar.
As mãos de Luiz Felipe carregavam calos duros, rachaduras recentes, marcas do trabalho pesado na fazenda. Nas costas, linhas finas e rosadas se cruzavam como lembranças de chicote. A pele que antes era firme e dourada agora se esticava sobre um corpo mais magro. O tônus muscular tinha diminuído. Os ombros ainda largos, mas a cintura mais fina, as costelas um pouco mais visíveis quando ele se mexia.
Gustavo sentiu o peito apertar. Os olhos arderam.
— Eu… — a voz saiu falhada. — Eu deveria ter te escutado.
Luiz Felipe se virou, ainda de bermuda, o cabelo úmido de suor grudado na testa. Viu o namorado com os olhos marejados e o queixo tremendo.
Gustavo se levantou de súbito, deu dois passos e agarrou o rosto de Luiz Felipe com as duas mãos.
— Foi o Eduardo. Foi o meu irmão que te enganou. Que te levou para aquela igreja. Eu sabia que ele era capaz… e mesmo assim não fiz nada. Não denunciei. Não prendi. Eu fui covarde. Desculpa. Desculpa, meu amor…
As lágrimas escorriam pelo rosto de Gustavo. Luiz Felipe não deixou que ele continuasse. Segurou o rosto dele com firmeza, os polegares acariciando as maçãs do rosto molhadas, e o beijou. Primeiro um beijo lento, depois outro mais fundo, a língua entrando com cuidado, como se quisesse engolir toda a culpa.
— Calma — Murmurou contra a boca dele. — Eu te amo mesmo você sendo um cabeça dura. Eu entendo. É o seu irmão. Não era fácil. Não quero mais falar disso. Acabou. Tá resolvido. Agora eu tô livre e ele não… e eu quero usar essa liberdade pra coisas muito mais interessantes.
Luiz Felipe empurrou Gustavo de leve até a cama. O corpo mais leve caiu sobre o colchão. Luiz Felipe se ajoelhou entre as pernas dele e puxou a bermuda para baixo, levando a cueca junto. O pau de Gustavo já estava semi-duro, latejando. Luiz Felipe passou a língua devagar pela extensão, de baixo até a cabeça, sentindo o gosto de pele limpa e desejo.
Gustavo arqueou as costas, gemendo baixo.
Luiz Felipe se levantou só o suficiente para tirar a própria bermuda. O pau grosso e já totalmente duro saltou para fora. Ele se inclinou sobre Gustavo, beijando-lhe o pescoço, a clavícula, o mamilo, enquanto a mão descia e espalhava saliva generosa entre as nádegas do namorado. Um dedo circular, depois entrando devagar. Gustavo soltou um suspiro longo, as pernas se abrindo mais.
— Olha pra mim — Pediu Luiz Felipe.— Eu estava morrendo de saudades de você. De nós, assim…
Gustavo abriu os olhos. Os dois se encararam enquanto o segundo dedo entrava. Luiz Felipe abria e fechava os dedos com paciência, alongando, preparando. Quando sentiu o corpo de Gustavo relaxar de verdade, retirou os dedos, alinhou o pau e empurrou.
A entrada foi lenta, intensa. Gustavo prendeu a respiração, as unhas cravadas nos ombros de Luiz Felipe. O pau grosso abria caminho centímetro por centímetro, até estar completamente dentro. Luiz Felipe ficou parado alguns segundos, deixando o namorado se acostumar, beijando-lhe a boca com fome contida.
_ Eu estava enlouquecendo aqui sem você.
Diz Gustavo enquanto Luiz Felipe começou a se mover. Primeiro estocadas profundas e cadenciadas. O som molhado da pele batendo na pele encheu o quarto. Gustavo gemia a cada investida, a cabeça jogada para trás, o pescoço exposto. Luiz Felipe mordeu de leve aquele pescoço e acelerou o ritmo. As estocadas ficaram mais fortes, mais profundas. Uma das mãos de Luiz Felipe desceu e envolveu o pau de Gustavo, masturbando no mesmo compasso das penetradas.
— Isso, vai… Luiz…
— Eu te amo Gustavo — Respondeu Luiz, a voz tremendo de tesão, o suor escorrendo pela testa. — Eu te amo tanto.
Gustavo gozou primeiro, jatos quentes entre os corpos dos dois, o canal se contraindo forte em volta do pau de Luiz Felipe. Isso foi o bastante. Luiz Felipe enterrou-se até o fundo, gemeu alto e gozou dentro dele, pulsando, preenchendo-o. Os dois ficaram unidos por longos segundos, ofegantes, a testa de Luiz Felipe apoiada na de Gustavo.
Depois, beijos lentos. Carícias. O silêncio confortável de quem finalmente está em casa. Os dois foram para o banheiro e com carinho um lavou o corpo suado e gozado do outro.
A algumas quadras dali, o supermercado cheirava a pão fresco e frutas maduras. Luigi empurrava o carrinho enquanto escolhia os frios para a lasanha. Queijo mussarela, presunto. Kenji tinha ido até a seção de refrigerantes.
Um rapaz de cabelos loiros curtos e pele pálida estava parado na frente do freezer, o olhar distante, quase vazio. As olheiras profundas contrastavam com o rosto magro. As roupas estavam desgastadas e manchadas. O corpo fino sumia dentro da camiseta larga.
Kenji se aproximou.
— Está tudo bem? Precisa de ajuda?
O rapaz piscou, como se voltasse de longe.
— Estou bem… e você, o que precisa?
— Dois refrigerantes de dois litros de cola.
O jovem abriu o freezer, pegou as garrafas e entregou. Kenji agradeceu e observou melhor. O rapaz não usava uniforme.
— Trabalha aqui?
— Não. Na verdade estou meio que perdido… quer dizer, não perdido de perdido, sabe? Desculpa, deve estar me achando um maluco. Meus pais me mandaram para um lugar e…
Kenji franziu a testa. A memória veio rápido.
— Ah, me lembrei. Você estava na igreja. Com os outros rapazes.
O loiro baixou os olhos.
— Sim. Meus pais me mandaram pra lá. A polícia me tirou. Agora… eles me receberam em casa, mas quando olham pra mim… eu não quero ficar lá. Não tenho emprego, não tenho dinheiro. Não sei o que fazer da minha vida.
A voz falhou. Lágrimas escorreram. Kenji não hesitou. Abriu os braços e o puxou para um abraço firme. O corpo magro tremeu contra o seu.
Luigi se aproximou com o carrinho, as sobrancelhas erguidas.
— O que houve?
Kenji explicou em voz baixa. Luigi ouviu em silêncio. Depois olhou para o rapaz — Gabriel — e sua expressão suavizou de um jeito que Kenji conhecia bem.
— Vem jantar conosco. Na casa da Eulália. Ela é mãe do Luiz Felipe.
Os olhos de Gabriel se arregalaram.
— O Luiz? Eu o conheço. Estávamos juntos na fazenda da igreja.
Luigi sorriu, os olhos brilhando de uma forma calorosa e intensa.
— Eu sou o pai dele. Fico feliz que meu filho tenha encontrado alguém como você naquele lugar. Tenho certeza que deve ter sido mais fácil com um amigo.
Disse Luigi colocando a mão suavemente nos ombros de Gabriel.
Kenji observou o olhar de Luigi observando o rosto pálido e o corpo de Gabriel. Aquele olhar. Kenji já tinha visto aquele olhar antes.
Autor Mrpr2