O telefone vibrou no bolso da calça de Eulália no exato instante em que o corredor do hospital parecia mais frio. As luzes fluorescentes piscavam de forma irregular, projetando sombras longas e distorcidas nas paredes esverdeadas. O cheiro de álcool e desinfetante misturava-se ao aroma metálico do sangue que ainda impregnava o ar da emergência. Ela atendeu com a voz baixa, quase um sussurro.
— Alguma notícia do seu irmão?
Do outro lado da linha, a respiração de Gurizão era pesada. Ele estava parado na calçada estreita em frente ao bar do Tonho, o vento da mãe trazia o barulho das folhas secas quebrando o silêncio que pesava.
— Descobri que o Luiz não foi viajar com o Luigi. Viram ele bebendo com o Eduardo. Estou no bar do Tonho e ele confirmou. Disse que os dois tomaram uma cerveja, conversaram e foram embora de boa, sem briga, sem confusão. Mas a senhora não acha estranho isso?
Eulália apertou o telefone com força. Os dedos tremeram. Ela já sabia. Aquele moleque de olhar duro carregava algo podre por baixo da pele.
— Eu sabia que aquele moleque estava envolvido nisso… mas para onde ele levou meu filho?
— Descobri que a igreja que o Eduardo está frequentando é uma seita anti-gay. Provavelmente ele o levou pra lá. Tenho o endereço. Vou lá investigar.
— Sozinho não. Eu vou com você.
— A senhora está trabalhando, mãe. E eu não vou sozinho. Vou com o Gustavo.
Eulália riu, um som seco, sem humor. O cansaço nos olhos era tão profundo que parecia ter envelhecido dez anos em uma noite.
— Não quero você envolvido com esse aí, foi por causa dele que seu irmão sumiu. Acha mesmo que estou com cabeça para trabalhar, garoto?
Houve um silêncio. Depois, a voz de Gurizão baixou ainda mais.
_ Mãe para de implicância com o Gustavo ele é gente boa, o Eduardo que é um psicopata preconceituoso, mas mudando de assunto… Mãe… a Marilda está por aí?
Eulália olhou para o lado. No banco de espera, Marilda estava sentada, coberta por um cobertor fino. O rosto esfolado, os braços cheios de arranhões recentes, os olhos vermelhos e vazios. Mas havia algo no jeito como evitava o olhar de todo mundo.
— Sim. Apareceu de madrugada, toda esfolada. Disse que foi assalto, mas… Felipe Luiz, você está envolvido com isso?
— Eu? Eu não, mãe. Só fiquei sabendo por alto. E ela é minha patroa, né.
— Sei… e ficou sabendo que o seu patrão morreu?
O silêncio do outro lado da linha foi absoluto. Gurizão sentiu o sangue gelar.
— Quem? O seu Rogério? Como assim morreu? Morreu de que?
— Não sei os detalhes ainda. Mas os bombeiros acabaram de trazer o corpo.
— Bombeiros? Teve algum incêndio? Passei perto da loja e lá não foi…
— Não. Parece que tiraram ele do rio… Filho, preciso desligar agora. Não vai sozinho. Fiz um boletim online de desaparecimento do seu irmão. Talvez a polícia, com suas informações, te acompanhe até esse lugar. Me dê notícias.
Longe dali, sob o céu pesado nuvens escuras e relâmpagos cortando o ceu da fazenda, os rapazes trabalhavam em silêncio. A terra vermelha grudava nas botas. O cheiro de esterco e grama cortada misturava-se ao suor. O pastor Ubirajara observava tudo do alto da varanda de madeira, as mãos cruzadas atrás das costas, o olhar frio como a lâmina de uma faca.
Um dos homens se aproximou, voz baixa.
— Pastor… o irmão Rodrigues, da polícia de Serra Verde, disse que chegou uma denúncia de desaparecimento do novato.
Ubirajara não virou o rosto. Continuou observando os corpos curvados no campo.
— Algum detalhe? Informação relevante?
— Não. Foi feito online pela mãe. Há menção de suspeitas sobre o Eduardo, mas nada que o ligue ao desaparecimento.
— Ok. Obrigado. Que a luz o guie.
Assim que o homem se afastou, Ubirajara tirou o celular do bolso e discou. A voz saiu baixa, controlada, mas carregada de uma ameaça velada.
Eduardo atendeu no meio da praça, ainda ofegante da corrida. A academia o havia suspenso. A cidade parecia pequena demais para esconder o que ele carregava no peito.
— Fique longe da igreja por enquanto — ordenou Ubirajara. — Tem um B.O. e você é suspeito, fique aí e disfarça na cidade.
Eduardo tentou contestar. A voz saiu rouca.
— Pastor, mas eu quero…
Ubirajara foi certeiro com as palavras o que fez Eduardo recuar e acatar o conselho.
Mais tarde, na casa dos pais, a tensão explodiu. Gustavo estava de pé na sala estreita, o rosto vermelho, as mãos fechadas em punhos. Eduardo, encostado na parede, respirava fundo, tentando manter a calma.
— Você estava com ele no bar e mentiu.
Acusou Gustavo, a voz tremendo de raiva contida.
— Eu sei. Você tem algo a ver com o desaparecimento do meu namorado.
Eduardo ergueu o queixo.
— Menti, menti mesmo pra quela velha, encontrei com o Luiz Felipe, conversamos. Tomamos uma cerveja. Nada mais.
— Mentira.
— Estou tentando ser uma pessoa melhor. A igreja Nova Palavra está me ajudando nisso.
Gustavo deu um passo à frente, o olhar ardendo.
— Eu sei o que é aquela seita. Homofóbica, preconceituosa, acha que isso é ser melhor?
— Não é nada disso!
Contesta Eduardo. Mirian entrou no meio dos dois, as mãos erguidas, a voz quebrada de cansaço e medo.
— Basta. Os dois. Agora.
Gustavo recuou, ainda ofegante.
— Eu vou trabalhar.
A porta bateu atrás dele com um estrondo seco.
Na fazenda, o sol já baixava, tingindo o horizonte de um vermelho sujo. O ar estava quente, pesado de poeira e suor. Os dois rapazes trocaram um olhar rápido no meio do trabalho. Um aceno quase imperceptível de cabeça. O outro compreendeu.
Um a um, eles se afastaram, fingindo ir buscar água. O banheiro de madeira era pequeno, úmido, cheirando a mofo e terra. A porta rangia. Lá dentro, a luz fraca de uma lâmpada suja mal iluminava as paredes descascadas.
No segundo em que a porta se fechou, o primeiro empurrou o segundo contra a parede. A boca encontrou a boca com urgência, língua quente, dentes arranhando. As mãos sujas de terra e suor desceram, abrindo o zíper da calça com pressa. O cheiro de corpo suado, de trabalho, de dor nos músculos e nos machucados recentes só aumentava o tesão.
— Rápido — sussurrou um, a voz rouca de medo e desejo.
O outro ajoelhou. A boca envolveu o pau já duro, engolindo fundo, a língua pressionando a veia latejante enquanto a mão apertava a base. O gemido abafado ecoou baixo. Dedos se enroscaram no cabelo suado. A boca subia e descia com fome, saliva escorrendo pelo queixo, o sabor de suor e pré-gozo misturados.
Depois, o que estava de pé o virou de costas, puxando a calça até as coxas. Cuspiu na própria mão, passou os dedos entre as nádegas, abrindo, preparando. Empurrou o pau grosso de uma vez, fundo, sem cerimônia. O outro mordeu o próprio braço para não gritar. A penetração era brusca, dolorida e deliciosa ao mesmo tempo. Cada estocada fazia o corpo bater contra a madeira úmida. O som molhado de pele contra pele, o cheiro de sexo e terra, o medo constante de alguém abrir a porta.
Mãos se agarravam às paredes. Gemidos abafados. O ritmo acelerava. Um se masturbava enquanto era fudido, o pau latejando na própria mão. O orgasmo veio em ondas quentes, o gozo escorrendo pelos dedos e pelo chão sujo. O outro gozou fundo, o corpo travando, o pau pulsando dentro do cu apertado, enchendo-o de porra quente.
Eles ainda respiravam ofegantes, colados, quando a porta se abriu com violência.
Membros da Nova Palavra entraram. Olhos frios. Rostos sem expressão.
Arrastaram os dois para o pátio, sob o olhar de todos os outros rapazes. Ali, na terra vermelha, sob o céu que escurecia, o castigo foi público. Chutes. Socos. Xingamentos que ecoavam como chicotes. “Abominação.” “Imundos.” “Exemplo.” O sangue misturou-se à poeira. Os corpos caíram, se ergueram, caíram de novo. Ninguém interveio. O silêncio dos demais era pior que os gritos.
Na delegacia de Serra Verde, as paredes amareladas cheiravam a café. Gurizão falava rápido, a voz carregada de urgência. O policial que o atendia anotava. Quando Rodrigues apareceu na porta e ouviu o nome da fazenda e da igreja, seu rosto mudou por um segundo, mas rápido demais para ser notado por quem não estivesse prestando atenção.
Ele se aproximou, ajeitou a farda e falou baixo ao colega:
— Eu dou andamento nessa denúncia.
Colheu tudo o que pôde de Gurizão. Endereço. Nomes. Detalhes. Depois, ergueu o olhar, firme.
— Mas o senhor não vai acompanhar. Fique longe da fazenda. Não atrapalhe as investigações.
Gurizão saiu da delegacia com o gosto amargo na boca e a certeza de que algo muito maior e mais escuro estava se movendo nas sombras de Serra Verde.
Autor: Mrpr2