Primeiro vocês precisam saber uma coisa: eu descobri que era puta de metrô num vagão da Lilás, há uns dois meses. Lotação de manhã, um homem colado nas minhas costas, e eu senti o pau dele endurecendo devagar contra minha bunda, aquele crescimento quente atravessando o tecido da calça, centímetro por centímetro, até ficar inteiro. Ele não se afastou. Eu também não. Ficamos assim, o pau dele deitado no meu rego, umas seis estações, e eu passei o tempo todo com o coração na garganta esperando ele me agarrar. Ele não agarrou. Desceu e sumiu. E eu desci do trem com a cueca molhada e a cabeça fervendo de vontade dele ter me agarrado, falado alguma coisa.
Foi ali que entendi. Ninguém ia me agarrar no trem, ta todo mundo no aperto, tentando não invadir demais o outro. Então eu que venho tendo coragem...
Faço isso todo dia útil, duas vezes por dia. De manhã, da Vila das Belezas até a Berrini, baldeando na Santo Amaro pra CPTM. E de volta à noite. E a noite é outra coisa, deixa eu te contar: a noite é quando o bicho solta a corrente. O macho das seis já vendeu o dia inteiro pro chefe, já aguentou sol, cobrança, ônibus lotado, e desce da CPTM na Santo Amaro com o corpo todo pedindo pagamento. Suado. Cansado de fingir. Aquele homem não quer romance, quer um buraco. E eu atravesso a estação escolhendo qual deles vai me usar.
Mais alto que eu, mais forte que eu, de preferência aliança no dedo, homem casado goza e some, é o melhor tipo que existe, não é dificil encontrar, mas é dificil subir no mesmo vagao, geralmente vai no que dá certo. Aí é só deixar a maré trabalhar. A lotação me empurra dois passinhos pra trás, minha bunda encosta na frente da calça dele, e eu fico parado. Parado como quem não sabe de nada, cara de escritório, pasta no peito, um funcionário qualquer voltando pra casa. Só que a minha bunda fica exatamente onde o pau dele vai crescer. E muitas vezes cresce. E eu não me mexo nem um milímetro, é isso que enlouquece eles. Um homem duro encostado numa bunda que não foge, não esfrega, não pede. Só fica. A bunda mais paciente de São Paulo. Eles ficam ali, duro, apertado contra mim, morrendo de vontade e morrendo de medo, e o trem vai andando, e eu vou sentindo o pau deles latejar na minha fenda como um segundo coração.
A maioria desce e leva a vergonha embora. Semana passada, um não levou.
Terça, fim de tarde, a leva da CPTM caindo dentro da Lilás na Santo Amaro, e eu vi ele atravessando a plataforma: moreno, camisa polo escurecida de suor nas costas, braço de pedreiro, aliança de ouro, e aquele cheiro, cimento, cigarro, dia inteiro de homem, na mesma fila que eu um pouco pra frente. Meu cu apertou sozinho de vontade. Deixei a maré me levar pra ele, encaixei, e em dois minutos o pau dele tava duro na minha bunda. Grosso. Mesmo pela calça eu sentia o tamanho, a curva dele subindo pelo meu rego, e eu parado, olhando pro nada, babando por dentro.
Aí a mão dele chegou. Cintura. Bunda por cima do tecido, apertando, medindo o quanto eu tinha pra dar. E então ele meteu a mão dentro da minha calça, sem cueca, nunca uso cueca pra caçar, e encontrou meu cu pelado, quente, esperando. Um dedo entrou. Grosso, de calo, seco, abrindo caminho na força. Eu quase gemi na boca de duzentas pessoas e virei gemido em bocejo, tremendo por dentro, e ele ficou ali, dedando meu rabo devagar no ritmo do trem, três estações inteiras, me abrindo como quem testa a mercadoria antes de comprar.
Aí ele chegou no meu ouvido e falou, baixinho:
— Você desce onde?
— Vila das Belezas.
— Eu também.
Mentira. Eu soube que era mentira na hora, e foi a mentira mais bonita que já me contaram.
Descemos juntos. Ele me segurou pelo braço, firme, dono, e me levou pro banheiro masculino perto da saída, estação de fim de linha às sete da noite, vazio, escorrendo de mijo, sabonete rosa derretendo na pia. Me empurrou pra cabine, trancou a porta, me virou de costas pro vaso.
— Tira a calça.
Tirei. Ele olhou meu rabo pelado com cara de quem avalia peça, cuspiu na própria mão, passou no pau umas duas vezes, e foi tudo o que eu ganhei de gentileza. Aí encostou a cabeça no meu cu e empurrou.
Entrou tudo de uma vez. Tudo. Eu tentei gritar de verdade, o cu apertado, o pau grosso, curvo pra cima, e o cuspe sozinho não abre ninguém, e antes do grito a mão dele tava na minha boca, tapando minha cara inteira, palma larga com gosto de cimento.
— Cala a boca, falou no meu ouvido, baixo, Você não tava se esfregando em mim no trem? Tava, né? Então agora aguenta feito puta.
E aguentar eu aguentava, porque ele tava certo, e é disso que eu mais gozo na vida: eu escolhi, eu encaixei, eu fiquei sentindo o pau dele crescer na minha bunda como se fosse meu. Aquilo não era presente. Era cobrança. E eu paguei em dia.
Ele fodeu como quem cobra juros de agiota. A mão nunca saiu da minha boca, eu respirava pelo nariz, chorando manso, e a cada choramingo ele apertava mais, me calando como se cala uma puta. A outra mão cravada no meu quadril, força de deixar marca roxa, me puxando contra cada bombada. E cada bombada era funda, sem carinho, sem ritmo de amante, ritmo de castigo, o pau curvo batendo num ponto lá no fundo que me arrancava a alma do corpo. Doeu do jeito que eu merecia.
Entrou alguém lá fora lavar a mão. Ele parou, enterrado em mim até o talo, quieto, o pau pulsando dentro do meu cu, os dois ouvindo a torneira correr, e eu ali esticado, cheio, esperando. O homem saiu. E ele voltou a foder, mais devagar agora, mais fundo, e devagar era pior, porque devagar dava tempo de sentir cada centímetro me possuindo.
Gozei sem ninguém tocar em mim. O pau dele martelando em cima da próstata e eu gozei no chão do banheiro, tremendo, o cu piscando apertado em volta dele, e ele sentiu, e riu pelo nariz:
— Puta mesmo.
Gozou logo depois. Cravou até o fundo, parou, e eu senti o calor enchendo meu cu, golfada por golfada, o pau dele pulsando dentro de mim, me marcando por dentro. Tirou devagar, arderam os dois, e o cuspe e a porra escorreram pelo meu saco, escorrendo pelas pernas. Ele arrumou a calça, e na porta, sem nem olhar pra trás, saiu. Eu fiquei agachado sobre o vaso um minuto, o cu ardendo, vazando leite de desconhecido, e sorrindo. Me limpei com papel, me vesti, e caminhei os dez minutos até casa com a porra dele escapando de mim a cada passo, o cu ardendo na calça, e cada vez que sentia escorrer mais um pouquinho eu tinha que morder o lábio na rua escura pra não rir sozinho.
Isso foi semana passada. Terça, 29 de setembro. Na quarta de manhã eu tava na plataforma da Vila das Belezas às 8h20, esperando o primeiro trem cheio, porque eu sou o que eu sou.
E se você pega a Lilás no fim do dia e sente uma bunda parada encostada no seu pau, sem esfregar, sem pedir, só esperando, mete a mão nela antes de descer.
Porque pode ser eu.