Inferninho 6

Para Juliana, era só trabalho — e eu sempre soube disso. No início, ela atendia cada desejo meu como se fosse o último: corpo, conversa, fingimento de carinho. Mas o tempo desgasta as máscaras. Aos poucos, ficou claro: eu era só mais um cliente com carteira gorda. A satisfação azedou. Eu precisava de novidade, de risco, de outras bocas que não soubessem meu nome de cor. Juliana sentiu o cheiro da traição antes mesmo de eu falar.
— Como assim não vai querer que eu vá aí hoje? — A voz dela no telefone tremia de raiva contida. Toda sexta-feira ela dormia na minha cama. Eu pagava caro para ter exclusividade: noite inteira, sem pressa, sem outros. Às vezes a gente nem transava — ela deitava no meu peito, falava da vida, e eu fingia que era real. Mas a ilusão pesava. A sensação de ser usado me corroía. Eu queria ser o caçador de novo.
Duas semanas depois, voltei ao inferninho. Camisa social aberta nos três primeiros botões, cabeça raspada brilhando sob as luzes neon, conhaque queimando a garganta.
— Olha só quem ressuscitou — César riu, limpando o balcão com o mesmo pano encardido de sempre. — Cansou da baixinha? Ele falava de Juliana como se ela fosse um produto com prazo de validade.
— Senti falta dessa bagunça — respondi, irônico, apontando para os bêbados curvados nas mesas e as garotas circulando como predadoras seletivas.
Juliana me ensinara o jogo: como elas farejavam o cliente bom (dinheiro + higiene + respeito), como enrolavam o ruim com sorrisos falsos e promessas vazias. Eu me achava no meio do caminho. Não era bonito, mas era limpo, educado. Isso contava pontos. Nunca perguntei a ela qual era a minha nota.
— Já me ofereceram de tudo, Cláudio. Namoro, casamento, vida nova... No fundo, querem só a buceta de graça — ela dizia, rindo amargo, sempre que eu insistia para ela largar tudo.
— Eu sabia que você voltava — César continuou, os olhos brilhando de malícia. — Trouxe novidade fresca. — Ele indicou com o queixo uma japonesa se retocando no espelho perto dos banheiros. — Miyuki. Chegou semana passada. Perfeita, né? O safado coçou a virilha por cima da calça, sem pudor, bem na minha cara.
Miyuki era letal: salto alto estalando, unhas vermelhas sangue, sardas salpicadas nas bochechas, olhos puxados que pareciam engolir a luz. O vestido preto colado subia nas coxas a cada passo. Desejei ela no instante em que nossos olhares se cruzaram.
— Já tem companhia? — perguntei, secando o copo de uma vez.
— Hoje não. Ronaldo tá marcando território, mas... — César encostou o cotovelo no balcão, conspirador. — Experimenta enquanto o ferro tá quente.
Ele deu aquela risada rouca de quem já viu o filme mil vezes e bateu no balcão duas vezes.
— Miyuki! Vem conhecer o cliente VIP que sumiu e voltou arrependido!
Ela virou devagar, sorriso torto prometendo caos. Caminhou até nós com passos calculados, o salto marcando o ritmo do meu coração. Parou colada no meu braço, o perfume doce misturado com cigarro invadindo minhas narinas.
— Oi, gostoso... — sussurrou, voz baixa e rouca. — César disse que você gosta de exclusividade. Sentiu saudade?
Riu da própria ousadia, passou a língua nos lábios vermelhos e, sem aviso, deslizou a mão pela minha coxa. Subiu devagar, apertou de leve sobre a calça, depois mais firme, massageando o pau que já pulsava. A cueca melou na hora, o tecido quente e pegajoso contra a pele.
— Hmm... tá duro pra caralho — murmurou no meu ouvido, hálito de menta e desejo. — Quer que eu termine aqui? Ou prefere me foder lá em cima?
Olhei rápido para o salão. Juliana parou no meio do caminho, copo na mão, olhos cravados em nós. Apertou os lábios, virou o rosto, mas o corpo dela traía: ombros tensos, punhos fechados. Ela via tudo.
— Vamos subir — rosnei, voz falhando.
Miyuki entrelaçou os dedos nos meus e me arrastou pela escada estreita. O barulho do salão ficou distante. O quarto era o de sempre: luz vermelha sangrenta, lençol de cetim vagabundo, espelho gigante refletindo tudo. Ela trancou a porta e caiu de joelhos antes que eu piscasse.
— Deixa eu ver isso direito...
Abriu o zíper com pressa, tirou tudo para fora e chupou com fome: língua rodando, garganta profunda, gemidos vibrando no meu pau. Me levou ao limite ali mesmo, de pé. Depois me empurrou na cama, arrancou o vestido num gesto só e montou. Cavalgou forte, unhas cravando no meu peito, suor escorrendo entre os seios pequenos e firmes. Eu a virava, metia por trás, de lado, com força bruta, saciando o vício que queimava há semanas.
Ela gozou duas vezes gritando sem vergonha, corpo tremendo. Na terceira, já estava mole, ofegante, olhos semicerrados, rindo fraco.
— Caralho... você me acabou, hein? — murmurou, de bruços, cabelo preto espalhado como tinta no travesseiro.
Deitei ao lado, coração martelando, corpo vazio e leve. Satisfeito. Por enquanto.
Lá embaixo, Juliana esperava. O olhar dela ainda queimava na minha memória. Eu sabia que isso não acabaria aqui. O inferninho tinha me puxado de volta — e agora eu estava preso entre duas mulheres que eu nunca teria de verdade.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Inferninho 6

Codigo do conto:
252312

Categoria:
Fetiches

Data da Publicação:
16/01/2026

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