O sol nasceu pálido, arrastando uma luz cinzenta e doentia pelas janelas de pedra do castelo. Mas para James, não existia manhã. Ele não tinha pregado o olho por um único maldito segundo.
Sentado na beira da cama, ele encarava as cinzas frias da lareira do seu quarto. A ereção absurda, que o torturou durante metade da noite com uma dor lancinante e pesada, finalmente tinha cedido. O que sobrou no lugar não foi alívio, foi um vazio gélido. Uma clareza psicopata que ele nunca tinha sentido antes. O tesão, o ciúme e a fúria tinham cozinhado o cérebro dele em fogo lento a madrugada inteira, evaporando qualquer resquício de moralidade, medo ou inocência. O moleque covarde que espiava pelas frestas tinha sido cremado vivo debaixo dos próprios lençóis. O que levantou daquela cama era um predador faminto, pronto para tomar o que era seu.
Quando os criados entraram no quarto para vesti-lo, James não disse uma única palavra. O silêncio dele era tão pesado e denso que os servos tremiam enquanto amarravam os laços de couro do gibão. Ele não era mais o garoto que o veludo negro engolia. Hoje, o tecido escuro, grosso e opressor parecia ser a sua própria pele. Ele estufou o peito. A coroa de ouro, que antes pesava como uma bigorna, agora parecia ter nascido grudada no seu crânio.
Antes de sair, ele foi até o velho baú de carvalho do pai. Abriu a tampa de ferro e tirou de lá uma adaga de caça. A lâmina era de aço valiriano escuro, grossa, afiada o suficiente para rasgar o couro de um urso com um único golpe, com o cabo entalhado em osso e ouro. James pesou a arma na mão. O metal frio pareceu cantar contra a pele dele. Ele prendeu a bainha no cinto, escondida sob a capa de veludo, e marchou para fora do quarto.
O castelo estava prestes a virar um matadouro.
A Sala do Conselho fedia a cera velha, pergaminho mofado e hipocrisia.
Os lordes já estavam reunidos ao redor da gigantesca Mesa Redonda de carvalho. Eles murmuravam entre si como velhas fofoqueiras na praça da cidade baixa. Lorde Thorne estava na cabeceira, ajeitando os anéis de ouro nos dedos grossos. Ele trocava olhares cúmplices e nojentos com Lorde Vance, que estava sentado duas cadeiras à direita, pálido, mas sustentando um sorrisinho de alívio. Eles exalavam a arrogância de quem achava que o jogo de xadrez já tinha acabado. Na cabeça podre deles, o "reizinho frouxo" já estava encurralado e domado.
As portas duplas se abriram sem aviso, mas não foi o Rei quem entrou.
Foi Catherine.
A sala inteira prendeu a respiração. A Rainha Mãe deslizou para dentro do salão como uma sombra letal. Ela estava impecável no seu luto de fachada. O vestido de renda preta abraçava cada curva do corpo dela com uma sensualidade agressiva, um lembrete visual de que ela era intocável para qualquer um daqueles vermes, mas dona dos pensamentos de todos eles. O rosto dela estava completamente coberto por um véu escuro e espesso.
Ela não cumprimentou ninguém. Não abaixou a cabeça. Caminhou com a elegância de uma divindade entediada e sentou-se na cadeira de espaldar alto, exatamente à direita do trono vazio do Rei. Ela cruzou as pernas, o roçar da seda soando alto no silêncio, apoiou as mãos perfeitas no colo e aguardou. Ela sabia que o monstro estava solto. Ela só queria o camarote VIP para assistir ao show de carnificina que tinha encomendado.
Dois minutos depois, as portas bateram de novo. Com violência extrema.
BUM.
James cruzou a soleira. A passada dele era dura, militar, agressiva. As botas de couro batiam nas pedras com um estrondo que fez Lorde Vance pular na cadeira de susto. O Rei caminhou até a cabeceira e sentou-se pesadamente no trono de carvalho maciço.
Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçou os dedos e varreu a sala com um olhar tão sombrio, injetado e vazio de piedade que a temperatura do salão pareceu cair dez graus.
Antes que qualquer abutre pudesse abrir o bico, um dos conselheiros menores, o Mestre dos Correios, limpou a garganta, trêmulo, segurando um pergaminho com um selo vermelho.
— Vossa Majestade... — o homem começou, a voz fina. — Antes das pautas locais... chegou um corvo esta manhã. Um convite oficial dos lordes do Vale do Sul. O povoado mais próspero da fronteira enviou saudações e exige... digo, implora... pela honra de receber o novo Rei para um banquete de boas-vindas. Querem jurar lealdade pessoalmente a Vossa Graça.
Lorde Thorne franziu a testa, já abrindo a boca para descartar a ideia. Uma viagem tiraria o Rei do castelo, o que atrasaria seus planos de controle.
Mas James não deixou a raposa velha falar.
— Aprovado — a voz de James ecoou, grossa, grave, absoluta. Ele não olhou para o conselheiro menor, seus olhos estavam cravados em Thorne. — Mande avisar o Mestre dos Estábulos. Quero a carruagem real preparada e escoltada por cinquenta dos nossos melhores homens. Minha mãe, a Rainha, virá comigo. Nós partimos hoje. Assim que eu terminar de limpar a sujeira desta sala.
A palavra "sujeira" pairou no ar como uma sentença de morte.
Thorne forçou um pigarro, tentando retomar as rédeas da situação. O convite para o sul parecia a desculpa perfeita para o plano dele. Ele arrumou a postura e abriu aquele sorriso condescendente e meloso que revirava o estômago do Rei.
— Uma decisão sábia e diplomática, Vossa Majestade — Thorne começou, espalmando as mãos na mesa. — Mostrar a força do novo Rei no Sul é vital. No entanto... uma viagem longa e desgastante não é lugar para uma viúva em luto profundo. A dor da Rainha Mãe é visível.
Thorne empurrou um pergaminho com o selo de cera quebrado pelo meio da mesa.
— Enquanto Vossa Majestade viaja para receber os louros do Sul, o Conselho elaborou um decreto para proteger a Rainha. A transferência imediata de Vossa Graça, a Rainha Catherine, para a Ala das Viúvas. Lá, ela ficará isolada, em paz, rezando pela alma do grande Rei Alistair. É o melhor para ela. E o melhor para o seu reinado não ter... distrações.
Ele esperou. A sala inteira esperou. Todos achavam que James ia gaguejar. Que ia bater na mesa num ataque de pelanca de adolescente frustrado. Que ia tentar gritar e perder a compostura, provando que Thorne estava certo.
Mas James fez algo infinitamente pior.
Ele sorriu.
Foi um sorriso torto, lento, que não chegou aos olhos sombrios dele. Um sorriso doentio, carregado de uma loucura perversa que gelou a espinha de todos os homens sentados ali.
James descruzou os dedos e levantou-se da cadeira em silêncio. A madeira arrastou na pedra com um chiado agudo. Ele não olhou para o pergaminho. Ele começou a caminhar, devagar, ao redor da imensa Mesa Redonda.
Touc. Touc. Touc.
O barulho das botas ecoava compassado. Ele passou pelas costas de dois conselheiros, que se encolheram em suas cadeiras, suando frio. James não estava com pressa. Ele caminhou até chegar ao outro lado da mesa. Ele parou exatamente entre as cadeiras de Lorde Thorne e Lorde Vance.
Thorne engoliu em seco, tentando manter a pose de intocável. Ele olhou para cima, mas James não estava olhando para ele. James virou o rosto para Vance.
O Rei se inclinou, apoiando uma das mãos pesadas no encosto da cadeira de Vance. Ele aproximou o rosto do conselheiro mais novo e sussurrou, a voz baixa, rouca, mas alta o suficiente para que apenas Vance e Thorne, que estava do lado, escutassem perfeitamente.
— Como estavam os mapas debaixo do seu peito ontem à noite, Vance? — James sussurrou, o hálito quente batendo na orelha do conselheiro. — A quina da escrivaninha de mogno arranhou muito o seu rosto enquanto ele fodia você?
Lorde Vance travou. O cérebro dele desligou. Os olhos se arregalaram a ponto de quase saltarem das órbitas. O sangue sumiu completamente do rosto dele, deixando-o com a cor de um cadáver. Ele soltou um engasgo miserável, como se tivesse engolido vidro moído. Começou a tremer incontrolavelmente, as mãos agarrando a beirada da mesa em pânico absoluto.
Lorde Thorne paralisou. O velho virou a cabeça devagar, o terror puro finalmente rachando a máscara de arrogância dele. Ele percebeu, num milésimo de segundo que parecia durar uma eternidade, que o plano estava morto. O moleque sabia. O moleque estava do lado de fora da porta.
James se ergueu devagar e deu um passo para o lado, ficando exatamente atrás da cadeira de Thorne. O Rei colocou as duas mãos nos ombros do velho conselheiro. Um aperto firme, possessivo, violento.
— Sabe, Lorde Thorne... — James falou, dessa vez com a voz alta, clara, estalando como um chicote nas paredes da sala para que todos escutassem. — Você disse coisas muito interessantes na calada da noite. Disse que eu era um frouxo. Um ratinho assustado. Disse que a coroa não servia na minha cabeça.
O resto do conselho murmurou em confusão e pavor. Ninguém sabia o que diabos estava acontecendo, mas o cheiro de morte já estava empesteando o salão.
— V-Vossa Majestade... eu não... isso é um mal-entendido terrível... — Thorne tentou gaguejar, suando bicas, sentindo os dedos do Rei cravarem nos ossos dos seus ombros como garras de urso.
— E você também falou sobre a minha família — James cortou, a voz engrossando num rugido reprimido. O garoto puxou a cabeça de Thorne para trás pelos cabelos grisalhos com um solavanco brutal, expondo o pescoço flácido do velho para o teto. Thorne soltou um grito abafado de dor, as mãos batendo no ar.
— Você chamou o meu pai de corno, seu pedaço de merda inútil — James rosnou, a fúria psicopata transbordando. — Você fofocou sobre a minha linhagem! E você ousou abrir a porra dessa sua boca suja, a mesma boca que você usa pra foder seus subalternos em cima dos decretos do meu reino, pra pronunciar o nome da minha Rainha. Você a chamou de vadia. Disse que o sangue divino que corre nas veias dela era uma abominação!
A sala explodiu em caos. Lordes se levantaram de supetão, cadeiras caíram para trás com estrondos. O pânico era generalizado.
— Guardas! — James berrou, a voz estourando como um trovão, poderosa e inquestionável.
As pesadas portas se abriram de uma vez e meia dúzia de Guardas Reais, vestidos com armaduras completas e capas vermelhas, invadiram a sala com as espadas desembainhadas e lanças em punho.
— Prendam esses dois porcos na porra da mesa! — James ordenou, apontando para Thorne e Vance.
Os guardas não hesitaram. Eles eram homens de sangue, obedeciam ao Rei e à Rainha, não a burocratas engravatados. Dois soldados agarraram Vance, que chorava copiosamente e implorava por piedade, jogando-o de cara no carvalho. Outros três agarraram Lorde Thorne. O velho tentou lutar, chutando e gritando num desespero animal.
— Você tá louco?! — Thorne berrava, cuspindo saliva enquanto os guardas esmagavam o rosto dele contra a mesa redonda, bem em cima do pergaminho que pedia o exílio de Catherine. — Eu sou o líder do Conselho! Imunidade diplomática! Você não pode fazer isso! As Casas do Norte vão se rebelar! Isso é tirania!
— Tirania? — James soltou uma gargalhada fria, áspera e doentia, enquanto dava a volta na mesa, parando bem na frente da cara esmagada de Thorne. — Eu sou a porra da lei neste castelo. Eu sou o começo e o fim da sua existência patética.
James não delegou a tarefa. Ele queria o sangue nas próprias mãos. Ele precisava entregar o sacrifício para provar que a Deusa dele era intocável.
Num movimento rápido e fluido, James levou a mão sob a capa de veludo negro e sacou a pesada adaga de caça de Alistair. O som metálico da lâmina saindo da bainha fez o salão inteiro prender a respiração coletivamente. Era aço negro. Gélido. Feroz.
— Você acha que o meu pai era um monstro, Thorne? — James sussurrou, se inclinando sobre a mesa, os olhos cravados no velho que soluçava de terror. — O velho Alistair não passava de um brutamontes sem classe. Eu vou mostrar pra você o que a Linhagem Pura faz de verdade com quem cospe nela.
James olhou para o capitão da guarda que segurava a cabeça do velho.
— Abram a boca dele.
— Não! Pelo amor dos deuses, não! Vossa Majestade, piedade! Misericórdia! — Thorne gritava, se debatendo como um boi no matadouro, as veias do pescoço grossas prestes a estourar.
O capitão, um brutamontes com cicatrizes no rosto, não piscou. Ele puxou a cabeça de Thorne pelos cabelos com mais força e enfiou os dedos grossos, cobertos por luvas de couro duro, na mandíbula do velho, forçando a boca dele a abrir num escancarar grotesco e torturante.
— Quem fala o nome da minha mãe sem a minha permissão — James disse, a voz num sussurro cortante e sádico. Ele subiu na cadeira e colocou o joelho em cima da mesa de carvalho para ter uma alavanca perfeita. — Não precisa de língua.
James não hesitou. Não desviou o olhar. Ele não piscou. Ele enfiou a mão esquerda e agarrou a língua velha, molhada e escorregadia de Thorne com os dedos, apertando firme para não escapar. O velho tentou morder, grunhindo num pânico de revirar o estômago, os olhos arregalados de horror absoluto.
Com a mão direita, James desceu a adaga de aço valiriano.
O corte não foi cirúrgico, foi brutal. Carniceiro. Ele cravou a lâmina pesada na base da carne e cerrou através do músculo com ódio puro. O som foi nauseante. Um barulho úmido e molhado de carne sendo rasgada misturado com o grito gargarejante, sufocado e medonho de Thorne.
O sangue esguichou. Escarlate, quente e absurdamente espesso.
O corte jorrou como um chafariz arrombado. O sangue voou pela mesa, ensopando os mapas de guerra, apagando as letras dos decretos e manchando a manga de veludo negro de James. Em três segundos de força ignorante e assassina, a lâmina atravessou o resto do músculo.
James puxou a mão para trás com um solavanco. O pedaço de carne sangrenta pingava por entre os dedos trêmulos de adrenalina dele.
Lorde Thorne estava tendo espasmos violentos na mesa. Ele gargarejava no próprio sangue, engasgando profusamente, os olhos revirados, o fluido escuro escorrendo pelas bochechas e inundando o tampo de madeira. Vance soluçava histericamente do outro lado, mijando nas próprias calças, uma poça quente se formando debaixo da cadeira dele. Os outros lordes estavam petrificados em um transe de horror. Alguns tapavam a boca para não vomitar o desjejum ali mesmo; outros caíram de joelhos, rezando e chorando para não serem os próximos.
James ficou de pé, pisando em cima da mesa de carvalho que agora era o seu altar de abate.
O peito dele arfava pesadamente. A respiração saía em nuvens ofegantes pelo nariz. A pulsação batia nos ouvidos dele como tambores de guerra enlouquecidos. As mãos dele estavam lavadas em sangue morno e pegajoso. A lâmina da adaga pingava no chão de pedra com um som rítmico de plic, plic, plic. Ele abriu os dedos e deixou a língua decepada cair no meio da mesa com um som molhado de nojo.
Ele se sentia um deus. O tesão que aquela carnificina gerou nele era infinitamente maior do que qualquer punheta frustrada. A covardia tinha sido arrancada a golpes de faca.
James não olhou para o velho agonizando e se engasgando na madeira. Não olhou para os lordes chorando de terror no chão, jurando lealdade aos prantos.
Ele virou o rosto, a respiração pesada, os olhos injetados, escuros e transbordando uma possessividade sombria, e olhou diretamente para a outra ponta da sala.
Catherine ainda estava lá. Sentada no camarote do inferno. Imóvel.
O véu negro da Rainha Mãe não conseguia esconder a aura de triunfo monstruoso que exalava do corpo dela. Através da renda escura, James pôde ver. Os lábios pintados de vermelho dela se curvaram para cima de forma definitiva. Um sorriso lento, afiado, carregado de uma luxúria sádica. O peito dela, apertado no espartilho de luto, subia e descia em um ritmo acelerado. Ela não estava com nojo da poça de sangue. Ela estava ensopada de excitação por causa dela.
Ela levantou a mão direita, com movimentos incrivelmente lentos e graciosos, e tocou com a ponta do dedo indicador os próprios lábios por cima do véu. Um beijo mudo. Uma promessa absoluta.
O sacrifício foi aceito. O fantasma do pai e o fantasma do tio chifrudo tinham sido obliterados. O Rei era o único homem daquela linhagem agora.
James desceu da mesa num pulo ágil, a bota chapinhando na poça vermelha, ignorando os guardas e a confusão grotesca que dominava o salão. Ele embainhou a adaga suja sem sequer limpá-la. Ele não precisava dar mais nenhuma ordem. O decreto de poder do novo Rei estava escrito em sangue e carne na mesa do Conselho.
Ele caminhou com a coluna reta em direção à porta do salão. A mente dele não estava na burocracia do reino, não estava nas fofocas, não estava nem no banquete que teriam que suportar no Sul. Ele só pensava no quarto trancado no fim do corredor.
A carruagem estava sendo preparada, a fera tinha sido solta da coleira e rasgado a garganta do inimigo, e agora, com os punhos manchados de sangue e a alma vendida, o Rei marchava para o próprio quarto. Ele ia cobrar a recompensa da sua Deusa. O caminho para a cama da Rainha estava brutalmente escancarado.
CONTINUAÇÃO DE O Rato, a Raposa e o Segredo de Sangue