O salão principal estava às moscas, com apenas alguns clientes perdidos nas mesas do fundo. Aproveitando a calmaria, as duas amigas se sentaram no chão, escondidas atrás do balcão maciço de madeira escura. Marianne, vestindo uma blusa preta esportiva de mangas compridas, segurava seu celular, enquanto Kate, de regata preta e shorts jeans curtos, apontava para a tela, ambas completamente absortas e dando risadas abafadas de alguma postagem nas redes sociais.
Enquanto isso, a realidade acima delas exigia atenção. Um homem de meia-idade, com entradas pronunciadas no cabelo e vestindo uma camisa polo azul-marinho e calças claras, aproximou-se do caixa. Ele parou em frente ao balcão vazio, coçando a cabeça com uma expressão confusa. Ele olhou para um lado e para o outro, esperando ver um atendente, mas a área parecia deserta.
Foi só quando ele se inclinou ligeiramente sobre o vidro que percebeu as duas funcionárias escondidas lá embaixo, completamente alheias ao mundo exterior, com os olhos vidrados na tela brilhante do telefone de Marianne.
O homem pigarreou alto, o som ecoando no salão quase vazio.
Marianne e Kate pularam de susto, escondendo o celular rapidamente e levantando-se em um salto desajeitado.
— Oh! Desculpe, senhor! O que posso fazer por você? — Marianne tentou disfarçar, mas o sorriso sem graça não convenceu.
O cliente não achou a menor graça. A reclamação dele não apenas chegou ao gerente, como Marianne acabou tomando uma reprimenda severa naquele dia, o que apenas afundou ainda mais o seu ânimo.
Nos dias seguintes, foi mais do mesmo. O alarme do celular tocava impiedosamente de manhã, ela acordava arrastada para trabalhar, e o ciclo se repetia, dia após dia, sem nenhuma perspectiva de mudança.
Até que chegou uma modorrenta quarta-feira.
Marianne estava novamente no balcão, desta vez em pé, mas com a cabeça apoiada nas mãos, os olhos fixos na superfície de granito escuro, perdida em seus próprios pensamentos sombrios. A exaustão física e mental a deixava com um mau humor crônico, uma nuvem escura que a acompanhava por toda parte.
De repente, o som de saltos batendo no piso a fez olhar para cima de relance.
Parada do outro lado do balcão, estava ela. A mulher do beco. A suposta cafetina.
Ela parecia ainda mais deslumbrante e confiante do que da última vez. Vestindo um cropped branco de mangas longas que acentuava o seu busto generoso, ela exibia o mesmo cabelo curto repicado e os lábios pintados. Ao encontrar o olhar surpreso de Marianne, a mulher abriu um sorriso largo e acenou alegremente com a mão esquerda, como se estivesse cumprimentando uma velha amiga.
O coração de Marianne deu um salto inesperado, uma mistura de indignação e uma curiosidade perigosa que ela se recusava a admitir. No entanto, naquele dia específico, o cansaço e o mau humor falaram mais alto.
Marianne apenas a encarou de volta, a expressão fechada e defensiva, preparada para outra rodada de provocações. Mas, para sua surpresa, a mulher não fez nenhuma proposta indecente. Ela apenas pediu um café simples para viagem, pagou, lançou um último olhar enigmático para Marianne e foi embora, deixando a jovem com a cabeça cheia de perguntas e o silêncio sufocante da cafeteria parecendo ainda mais pesado do que antes.