Marianne estava encostada no balcão escuro, o rosto apoiado na mão e o olhar perdido no reflexo do granito. Ela vestia um moletom cinza curto, com três listras brancas nas mangas, que deixava uma fina faixa de sua barriga à mostra. Sua mente, no entanto, estava a quilômetros dali.
O sino da porta tocou. Marianne se sobressaltou, endireitando a postura com uma ansiedade súbita, os olhos buscando avidamente a entrada. Mas era apenas um engravatado qualquer. Os ombros dela caíram, o desapontamento amargo tomando conta.
"Oh, ainda não é ela", pensou Marianne, virando-se para trás com um suspiro irritado. "Mas que merda eu estou fazendo? Esperando por alguma estranha essa semana inteira só porque ela disse que deve ter algum trabalho para mim."
— Olá! — disse o cliente.
— Olá, o que eu posso fazer por você? — ela respondeu no piloto automático, a voz monótona e vazia.
Ela se virou para as máquinas, sua figura desenhada contra os equipamentos metálicos, exatamente como em 6bc092ea-a860-4df7-ae0a-8cc80f0aef3b. As calças escuras e justas que ela vestia abraçavam suas curvas generosas enquanto ela operava a máquina de café, operando como uma máquina, mas com a mente fixada na ausência daquela mulher.
O tempo se arrastou. Ela continuou trabalhando, servindo pedidos mecânicos, a esperança diminuindo a cada cliente.
Até que, de repente, uma voz aveludada e inconfundível soou do outro lado do balcão:
— Olá novamente, Miss.
O coração de Marianne deu um salto tão violento que ela quase derrubou o copo de papel que segurava. Era a mulher.
Lá estava ela, exibindo a mesma aura de confiança predatória. Vestia uma blusa regata em tom de ferrugem que destacava seu busto e deixava à mostra os braços, revelando intrincadas tatuagens coloridas que subiam pelo braço esquerdo. O cabelo curto e estilizado emoldurava o rosto maduro, e os lábios vermelhos se curvaram em um sorriso conhecedor.
— Posso pedir o de sempre? Desta vez é para viagem, eu tenho lugares para ir — disse a mulher, o tom casual contrastando com a tempestade que causava em Marianne.
Marianne virou-se para ela, visivelmente ansiosa e, por um segundo, genuinamente assustada por ter seus pensamentos materializados ali na sua frente.
A mulher estreitou os olhos, percebendo a reação atípica.
— Jovenzinha, você está bem? Você parece que viu um fantasma.
— Yeah, Yeah. Eu estou bem — Marianne gaguejou levemente, tentando recuperar a compostura. — Nada errado comigo. Neste caso, eu vou preparar o de sempre. Você se lembra dele, certo?
— Yeah, de fato eu me lembro dele. Então, uhm...
Um silêncio constrangedor pairou no ar. O cérebro de Marianne havia entrado em curto-circuito. Ela não se lembrava de absolutamente nada.
— O que eu posso pegar para você hoje? — Marianne finalmente perguntou, derrotada.
A mulher soltou uma risada anasalada, apoiando as mãos no balcão.
— Eu já te disse. Meu pedido de sempre que você alegou se lembrar.
— Yeah, eu lembro que você pediu isso um monte de vezes... — Marianne divagou, desviando o olhar.
A mulher inclinou a cabeça, analisando-a com uma curiosidade afiada.
— Você tem certeza que você está bem? Tem algo acontecendo com você. Você está muito fora de si, encarando o vazio. Onde está a minha latina de cara amarrada que eu conheço?
"Merda, Marianne, diga alguma coisa!", ela gritou mentalmente para si mesma.
— Então... — a mulher continuou, a voz baixando para um tom provocante. — Como você tem estado ultimamente? Você tem estado alta, meu amor?
— Não, eu não estou alta! — Marianne rebateu, na defensiva.
— Diga-me. Qual é o seu veneno? Anestésicos, talvez?
— Não, não. Não é nada disso.
A mulher se aproximou um pouco mais do vidro do balcão, os olhos brilhando com malícia.
— Você não tem olhos avermelhados, e nem as pupilas dilatadas. Você está apaixonada?
— Eu juro que eu não estou alta e nem estou apaixonada, apenas...
— Ah, você encontrou algum príncipe encantado bem aqui, não é? — a mulher interrompeu, ignorando os protestos de Marianne, saboreando cada palavra. — E agora você está pensando sobre ele o dia inteiro enquanto você trabalha. E mais tarde, à noite, enquanto você tem um encontro quente com o seu chuveiro... Você pensa em como ele penetra aquela grande ferramenta dentro de você...
O rosto de Marianne ardeu. Uma mistura de vergonha e excitação indesejada percorreu seu corpo.
— Pare com isso! Não é nada disso! — ela disparou, a indignação finalmente quebrando a sua paralisia.
A mulher jogou a cabeça para trás e riu abertamente.
— Esta é a minha Latina mal-humorada! É bom ter você de volta.
— Ei, vai se fuder! — rosnou Marianne, embora a raiva não tivesse o mesmo veneno de antes.
— Haha. Como isso é divertido — a mulher sorriu, ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Mas eu realmente tenho que ir para um lugar onde eu preciso estar. Se você não se importa, pode me dar o meu pedido de sempre agora?
Marianne abaixou a cabeça, encarando o balcão. Suas mãos tremiam levemente.
"Por que diabos é tão difícil? Eu nunca me senti paralisada dessa forma."
Percebendo a mudança genuína na postura da garota, a mulher suavizou a expressão.
— Você está tendo uma dor de cabeça?
Marianne respirou fundo, puxando todo o ar que seus pulmões conseguiam suportar, e ergueu os olhos, encontrando o olhar direto e penetrante da mulher.
— Ouça. Eu estou um pouco nervosa. A verdade é que... estou esperando por você aparecer essa semana inteira. E agora que você está aqui, eu meio que perdi as palavras.
A mulher piscou, surpresa por um breve momento, antes de abrir um sorriso encorajador.
— Fala logo de uma vez, jovenzinha. Por favor, me diga o que está em sua cabeça.
— É uhm...
— Sim?
Marianne umedeceu os lábios, o coração martelando contra as costelas.
— Aquela coisa que você falou alguns meses atrás... Que você tinha algum trabalho para mim... A oferta continua em pé?
Os lábios vermelhos da mulher se curvaram em um sorriso predatório e vitorioso.
— Não. A oferta ainda não passou.
— Você tem algo para mim?
— Sim. Certeza absoluta — a mulher confirmou, a voz carregada de promessas. — Apesar de que... eu tenho uma baita memória. Eu acredito que você me disse para me foder. E fez comentários pouco lisonjeiros sobre minha bunda velha e enrugada.
Marianne arregalou os olhos, a vergonha batendo forte.
— Bem, isso foi apenas...
— Eu deixo você saber — a mulher a cortou, batendo o dedo indicador no balcão — que mesmo que a minha bunda não seja a mesma de quando eu tinha a sua idade, ainda é uma bunda de primeira.
Marianne não conseguiu evitar um pequeno sorriso culpado.
— Mas o mais importante — a mulher continuou, o tom voltando a ser sério e analítico. — Por que essa mudança de ideia tão de repente?
Marianne cruzou os braços sobre o moletom cinza, sentindo-se exposta.
— Realmente isso importa, o porquê de que eu mudei de ideia?
— Não. Não importa — a mulher deu de ombros, prática. — Você já tem 18 anos, certo? Eu estou assumindo que você tem.
— Eu tenho 20. — Marianne endireitou as costas, afirmando sua maioridade. — Você pode me dizer agora o que é tudo isso? Ou você ainda vai continuar sentada nessa informação?
— Da última vez, eu disse que é um assunto bastante amplo e que seria melhor se conversássemos sobre isso em privacidade. Você está livre no final do seu turno ou você tem algum grande plano para a sexta-feira?
— Eu estou livre hoje. Eu sairei às três da tarde.
— Perfeito. Quer saber? Pegue o meu telefone e ponha o seu número nele. Eu vou mandar uma mensagem com o meu endereço e nós nos encontraremos lá.
A mulher deslizou um smartphone sofisticado pelo balcão. Marianne o pegou, seus dedos ágeis digitando o próprio número.
— Tudo bem.
— Eu irei definitivamente estar na minha casa na hora que o seu turno terminar — garantiu a mulher.
— Você pode me dar as direções para sua casa? Tenho que ir de bicicleta até lá.
A mulher a avaliou de cima a baixo com um olhar apreciativo.
— Uma garota saudável como você não deve levar mais de quinze a vinte minutos pedalando.
Marianne terminou de digitar e parou na tela de contato.
— Quando você me enviar uma mensagem, o que eu ponho no meu telefone? Como... qual é o seu nome?
A mulher sustentou o olhar de Marianne, um brilho intenso e indecifrável em suas pupilas.
— Sienna. E o seu?
— Marianne. Okay, aqui está.
Marianne devolveu o telefone. Sienna pegou o aparelho, olhando para o visor iluminado com o nome recém-salvo.
— Maravilha. E prazer em te conhecer formalmente, Marianne — disse Sienna, a voz carregando um peso que soava como o selar de um contrato. — Pois bem... O meu pedido de sempre. Você sabe, café com creme e stevia para viagem.
O alívio lavou a mente de Marianne ao finalmente recordar o pedido que originou tudo aquilo meses atrás. Ela virou-se para a máquina, um novo tipo de adrenalina substituindo o tédio em suas veias.
— Yeah, eu sei o pedido de sempre. Já saindo.