Ela não estava ali em busca de amor, romance ou promessas de futuro. O que a levava à Serra Gaúcha era uma fuga programada, uma tentativa deliberada de expurgar de suas entranhas a presença sufocante do Sr. Wine. Não havia sentimentalismo entre eles; havia apenas uma química primitiva, um magnetismo avassalador que atropelava o juízo e fazia o corpo arrebatar antes de qualquer razão.
A primeira parada foi um ritual de precisão. Na Cave Geisse, o escolhido foi o *Terroir Nature Rosé*, um espumante de alma tida e expressiva, cuja ficha técnica parecia espelhar milimetricamente o seu próprio estado de espírito naquele momento:
Aparência e Coloração (Salmão claro e brilhante): Refletia a fachada polida, a classe impecável e o frescor calculado que ela exibia para o mundo ao caminhar entre as mesas e os vinhedos.
Perlage (Fino, intenso e persistente): Traduzia exata e implacavelmente o seu ritmo interno — borbulhas finas que pareciam calmas na superfície, mas que mantinham uma atividade e uma pressão latentes, impossíveis de conter.
Aromas (Frutas vermelhas frescas, notas de panificação e um toque tostado): Ecoavam a complexidade da sua personalidade. O frutado provocante misturado à profundidade madura de quem conhece bem as regras do jogo.
Paladar (Estruturado, seco, de acidez vibrante e final longo): Era a tradução exata de seu temperamento naquele fim de semana. Zero açúcar, sem excessos doces ou ilusões românticas. Uma acidez cortante, marcante, que deixava um retrogosto inesquecível e instigante.
Ao recolher-se à noite, a imersão nos sentidos ganhou contornos ainda mais profundos ao degustar o Churchill da Valmarino. O perfil icônico desse vinho parecia ter sido traçado sob medida para traduzir a dinâmica da sua mente e do seu corpo:
Variedades e Lote Limitado (Corte nobre, exclusivo e sem concessões): Espelhava a sua raridade e independência. Ela não se entregava a qualquer um; seu padrão era elevado, exigente e reservado apenas a momentos de impacto absoluto.
Passagem por Barrica (Carvalho bem integrado e estagiado): Representava a sua casca: o tempo e a vivência que lhe deram firmeza, estrutura e um toque sedutor de densidade, sem perder o equilíbrio da superfície.
Aromas Complexos (Notas de especiarias, especiarias escuras e toque balsâmico):Traduziam o mistério e a aura envolvente que emanavam de sua presença — algo denso, envolvente e levemente tóxico, que atiçava a curiosidade e prendia a atenção de quem tentava decifrá-la.
Estrutura de Taninos e Potencial de Guarda (Firme, marcante e persistente no retrogosto): Refletia a força de sua resolução. Um corpo que resiste, que se impõe com autoridade, mas que guarda dentro de si uma concentração de calor prestes a explodir quando provado na dosagem certa.
No dia seguinte, a travessia até Garibaldi trouxe uma ponta de ironia. Ao caminhar entre os parreirais de uma das mais renomadas vinícolas locais, o vento frio da serra brincava com seus cabelos enquanto o sol começava a rasgar a névoa. Foi sob a luz viva da manhã que veio o vislumbre da Vinícola Vaccaro. Diante do espumante da casa, a taça erguida revelava borbulhas vibrantes, de um frescor vívido e indomável — a tradução exata do momento em que ela se encontrava: desperta, dona absoluta dos próprios passos, consciente do poder avassalador de sua presença, mas tomada por uma impaciência eletrizante. Sabia que ali se plantavam frutos destinados a amadurecer com o tempo, mas sorria com a ironia do contraste: enquanto a terra e o carvalho exigiam paciência, seu próprio corpo pedia urgência.
A jornada sensorial continuava a desvendar rótulos esculpidos para dialogar com sua alma e seus contrastes:
Espumante Teresa Extra Brut Nature (Vinícola Cavaleri): A garrafa trazia a assinatura indelével do Sr. Wine — foi ele quem recomendara este rótulo da Cavalleri com um sorriso enigmático, sabendo exatamente o efeito que provocaria. Degustá-la ali misturava desejo e um mistério quase palpável. Cada gole seco e cortante do Nature pareciam zombar de sua tentativa de fuga, fundindo-se à química brutal que os unia: um choque de forças onde a elegância servia apenas para mascarar a eletricidade pura, a colisão inevitável de dois corpos que se consumiam sem pedir licença.
Espumante Extra Brut da Casa Dom Cândido (Adornado com a icônica pulseira): Ao contemplar a garrafa da Dom Cândido, adornada com sua própria pulseira reluzente, ela viu ali o reflexo exato de sua vaidade impecável. O acessório no vidro espelhou a sua própria necessidade de vestir-se de luxo, de exibir o traço perfeito da maquiagem e a armadura estonteante do salto alto. Era a vaidade em estado puro conversando com o líquido borbulhante e estruturado — uma celebração à sua própria imagem de mulher inalcançável e deslumbrante, que faz questão de brilhar por onde passa, mesmo quando tenta em vão disfarçar o fogo que carrega por dentro.
Chardonnay Quinta Geração (Casa Dom Cândido): A máxima expressão da casta branca revelava a sua maturidade e sofisticação. Passado por madeira com maestria, entregava volume de boca, untuosidade e uma complexidade aromática de baunilha, abacaxi em calda e notas amanteigadas. Era a metáfora exata da sua sensualidade: um corpo denso, envolvente, de presença marcante que preenchia todo o espaço, deixando um rastro inebriante e aveludado por onde passava.
Os olhares de admiração ao redor continuavam a segui-la na degustação. Ela era o próprio centro de gravidade.
Mas o vinho, a sofisticação e os olhares alheios eram apenas uma fachada.
Ao cair da noite, no silêncio luxuoso do quarto, a névoa densa da serra isolava o mundo lá fora, colando-se às vidraças. Ela se deitou sobre os lençóis de cetim branco — um tecido impecável, frio e viscoso que contrastava com a temperatura subindo sob a sua pele ainda úmida do banho. Bastou fechar os olhos para que o castelo de cartas de sua independência desmoronasse, esmagado pelas lembranças vivas do segundo encontro deles.
Lembrou-se com clareza do momento do seu segundo encontro com Sr. Wine, o momente em que cruzou a porta daquele apartamento em Porto Alegre, e o ar pesou instantaneamente. Toda a distância acumulada em semanas de silêncio volatilizara-se no exato segundo em que os olhares se cruzaram. Não houve tempo para conversas banais ou gentilezas sociais. A atração represada simplesmente rompeu qualquer barreira de hesitação.
Ali mesmo, na penumbra da cozinha, o homem enigmático e distante deu lugar a uma presença avassaladora. O contraste entre a postura fria do dia a dia e a urgência daquele momento era hipnotizante. Ele se aproximara com uma determinação sem recuos, envolvendo-a enquanto suas mãos finas e hábeis traçavam os contornos de seu corpo, desatando o ambiente com uma habilidade cirúrgica. A respiração acelerada dele no pescoço, o jogo de posições da bancada ao chão frio, a sensação de ir do chão ao céu, da terra ao inferno — onde a gravidade parecia ter deixado de existir.
Ela conseguia ouvir novamente a voz dele ecoando no quarto, rouca e densa ao pé do ouvido, confessando entre suspiros o quanto aquela necessidade o tinha consumido por dentro. Frases carregadas de um desejo acumulado revelavam que, por trás de cada vácuo no celular, existia uma vontade proporcionalmente gigante de estar ali.
Na penumbra do quarto na serra, envolta no cetim branco, a memória daquelas mãos finas e da intensidade crua daquele encontro fez seu corpo arfar. Entregue ao delírio da própria imaginação, a ausência dele se converteu na presença mais viva e alucinante daquela noite no vale — a certeza de que a química entre os dois era um fogo que nenhuma distância conseguiria apagar.



bom conto gostei