A penumbra do quarto do motel carregava uma atmosfera denso e pesada, muito diferente dos encontros em que a sedução se desdobrava com a leveza e o vigor habitual. Na mente de Sexyhot, a ansiedade acumulada ao longo de meses parecia finalmente prestes a dissolver, mas o cenário real trouxe uma nota amarga. A história com o Sr. Wine vinha sendo tecida em um jogo de esperas. Desde maio, quando se viram pela primeira vez, as agendas pareciam conspirar contra eles. A memória daquele primeiro impacto permanecia intacta: o Sr. Wine era a própria tradução do charme e da presença. Tinha lábios grossos e marcantes, uma pele viçosa que emanava saúde e frescor, e um olhar penetrante capaz de desarmar qualquer intenção defensiva. Ele personificava a figura do homem casual definitivo — aquele que entra, incendeia, mas deixa muito claro que não cria laços, não repete enredos e não abre espaço para a permanência. Até que, no meio daquela tarde, o diálogo rápido na tela rompeu a sequência de desencontros: — Está em Porto Alegre? — ele perguntou, direto. — Hoje não, amanhã estarei — ela respondeu, marcando o território. No dia seguinte, por volta das 14h30, o aviso veio sem rodeios: — Sexyhot, está em Porto Alegre? — Sim, vou me liberar às 15 horas. — Eu também. A sincronia atiçou a urgência. Sem perder tempo, ela assumiu a rota: — Estou botando no meu GPS, vou levar como referência o Laçador. Estou indo para lá. Chego em 20 minutos. O trajeto até a região do monumento foi percorrido com o pulso acelerado. Contudo, o reencontro no ponto combinado trouxe um choque repentino. O homem vibrante, de vigor sobriedade e magnetismo que ela guardava na lembrança, parecia ter ficado no passado. O Sr. Wine que se apresentou ali estava visivelmente abatido. A pele já não ostentava o mesmo viço, o olhar perdera aquele brilho penetrante e trazia, em seu lugar, uma tristeza profunda e silenciosa. Faltava-lhe aquele "vício", a energia pulsante de quem domina o próprio desejo. Apesar do baque visual e da estranheza que se instalou, o caminho traçado se manteve: eles seguiram para o motel. Entre quatro paredes, a penumbra e o silêncio da suíte abraçaram os dois. Mas a atmosfera já estava selada por uma hesitação invisível. Conforme as roupas caíam, Sexyhot sentiu o peso de uma trava interna. A imagem daquele homem fragilizado, somada ao eco constante de todas as advertências que ele já fizera — a postura irredutível de ser casual, o desinteresse por criar vínculos ou repetir encontros —, ergueu uma parede entre a vontade e a entrega. O receio de transpassar uma linha invisível, de invadir a dor que ele estampava ou de oferecer uma intensidade que ele não pudesse ou não quisesse acolher, fez com que ela se recolhesse. A prática do sexo aconteceu e seguiu seus ritos de calor e técnica. Ele buscou nela o refúgio, e a dinâmica da pele se fez presente. Houve a intimidade crua do sexo oral, a entrega física e a densidade do sexo anal. Os corpos se movimentaram na cama, trocaram toques e suor, e a experiência, no plano mecânico do prazer, foi boa. No entanto, por dentro, Sexyhot sabia que mantivera a sua essência guardada. Não houve o transbordamento habitual, a ousadia sem amarras que ela costumava entregar. Ela se retraiu, reprimiu o auge do seu fogo e reteve a sua melhor versão. Quando o calor da pele baixou e o tempo do motel se esgotou, restou o contraste entre a expectativa de um reencontro há muito desejado e a realidade de um momento moldado pela prudência, pelo medo e pela sombra do homem que ele costumava ser.
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