A reação de Elisa foi uma mistura de choque e curiosidade. Seus olhos percorreram o corpo de Vanessa, hesitantes mas não resistentes.
—"Como assim?"
—"Podíamos ir até aos banheiros femininos e fazia-te ver as nuvens..."
A sedução foi rápida e eficiente. Vanessa usou não apenas suas habilidades vampíricas, mas também uma compreensão profunda da solidão humana. Elisa, claramente uma mulher à deriva, agarrou-se à atenção como um náufrago à tábua de salvação. Vanessa sentiu uma pontada de desprezo—era tão fácil manipular os mortais quando estavam vulneráveis.
O banheiro feminino cheirava a desinfetante barato e perfume. As luzes fluorescentes piscavam, lançando sombras irregulares nas paredes de azulejos sujos. Vanessa escolheu a última cabine, afastando Elisa para dentro antes de fechar a porta com um clique suave.
Os primeiros momentos foram de carícias intensas—Vanessa usou suas mãos e lábios com precisão cirúrgica, mapeando o corpo de Elisa enquanto observava suas reações. A mulher mortal respirava pesadamente, perdida na sensação, completamente inconsciente do perigo.
Então, o momento mudou.
Vanessa puxou um saco plástico transparente de dentro de sua jaqueta. Antes que Elisa pudesse reagir, ele estava sobre sua cabeça, o plástico colando-se ao seu rosto com cada exalação.
—"Vamos ver como lidas com o saco," sussurrou Vanessa, sua voz agora fria como o mármore de uma lápide.
Elisa lutou, suas mãos batendo contra Vanessa com força desesperada. O plástico inflava e murchava rapidamente.
—"Vamos, quero nomes," insistiu Vanessa, apertando o saco mais firmemente.
—"Hummm, por favor, tem misericórdia..." a voz abafada de Elisa emergiu, fraca e cheia de pânico.
Vanessa não respondeu. Em vez disso, apertou novamente, observando com olhos clínicos enquanto Elisa começava a sufocar. Sangue escorreu do nariz da mulher, manchando o plástico transparente. Seus movimentos tornaram-se fracos, espasmódicos.
Então, Vanessa agiu. Com um movimento rápido, puxou o saco apenas o suficiente para expor o pescoço de Elisa. Sua cabeça inclinou-se, seus caninos alongaram-se plenamente, e ela mordeu.
O sangue que entrou em sua boca tinha um sabor peculiar—metálico, mas com um subtono químico amargo. Vanessa reconheceu o sabor imediatamente: veneno de caçador de vampiros, provavelmente misturado ao sangue de Elisa como uma forma de proteção ou talvez como parte de algum ritual.
Felizmente, ela havia se preparado. A injeção de antídoto que tomara horas antes agora circulava em seu sistema, neutralizando as toxinas enquanto ela bebia. O sangue de Elisa continha memórias—fragmentos de conversas, imagens de rostos, endereços. Vanessa viu Luis sendo atacado por três figuras, viu Elisa observando de uma distância segura, viu a troca de dinheiro depois.
Quando finalmente se separou, Elisa estava inconsciente, mas ainda viva. Vanessa deixou-a cair no chão da cabine, o saco ainda parcialmente sobre seu rosto.
A vingança não seria rápida, como prometera a si mesma. Agora tinha nomes: Marco, Silvia e o misterioso "Aranha". Elisa era apenas a primeira peça, uma mensageira, uma testemunha. Os verdadeiros responsáveis ainda estavam por aí.
Vanessa limpou o sangue de seus lábios, seus olhos refletindo a luz fluorescente como dois pedaços de âmbar congelado. A caça continuava, mas agora com direção. Cada gota de sangue que bebesse a levaria mais perto daqueles que ordenaram a morte de Luis.
E quando os encontrasse, sua vingança seria, de fato, uma obra de arte—lenta, dolorosa e eternamente memorável.
Saindo do banheiro, Vanessa desapareceu na noite, deixando para trás apenas Elisa inconsciente e a promessa silenciosa de que mais sangue seria derramado antes que sua fome de justiça fosse saciada.
A noite estava fria e húmida quando Elisa percebeu o primeiro sinal. Um tremor nas mãos, tão sutil que poderia ser confundido com o frio. Ela olhou para as próprias palmas, pálidas como mármore sob a luz fraca da lua que entrava pela janela do sótão. Duas semanas. Era o tempo que lhe restava.
Vanessa apenas beberá umas gostas de sangue de Elisa. O ataque fora brutal, e Vanessa estaría disposta a oferecer a única cura possível: seu próprio sangue vampírico. Apenas algumas gotas, o suficiente para selar as feridas e manter Elisa viva, mas não o bastante para completar a transformação. Agora, Elisa estava presa em um limbo perverso — nem humana, nem vampira. Uma criatura dependente de um elixir que não ousava buscar.
Os primeiros dias foram de negação. Elisa acordava todas as manhãs esperando sentir fome por comida, pelo cheiro de café fresco ou pão quente. Em vez disso, seu estômago se contraía ante o aroma metálico que vinha do cortume distante. Sua pele, antes rosada, adquirira uma translucidez inquietante. Os sons da cidade chegavam a seus ouvidos amplificados — sussurros a quarteirões de distância, batidas de coração atrás das portas fechadas.
A noite estava fria e húmida sobre a marginal, com o rio escuro refletindo as luzes distantes da cidade. Vanessa caminhava em passo acelerado, os saltos altos ecoando no asfalto molhado. Ela sentia o cheiro da água poluída, misturado com o aroma doce de seu próprio perfume. Não havia ninguém por perto, apenas o som ocasional de um carro passando na distância. Foi então que os faróis cegaram seus olhos—um jipe preto, surgindo do nada como um predador silencioso.
Antes que pudesse reagir, mãos fortes a agarraram por trás. Um capuz de tecido grosso cobriu sua visão, e o mundo virou de cabeça para baixo quando foi arremessada na parte de trás do veículo. O cheiro de gasolina, suor e medo encheu suas narinas. Vanessa lutou, mas as amarras imobilizavam seus pulsos. A escuridão do capuz era absoluta, mas seus outros sentidos se aguçaram—ouviu risadas baixas, sussurros cruéis. Conhecia aquelas vozes. Marco, Piranha e Silvia. Elisa. O bando que jurou caçá-la desde que descobriram o que ela era.
Quando o capuz foi removido, ela estava em um armazém abandonado, com paredes de concreto cobertas de grafites e o chão sujo de óleo. Uma única lâmpada pendurada balançava, projetando sombras dançantes. Sua boca estava forçada aberta por uma bola de mordaça de couro, tão apertada que suas mandíbulas doíam. Ela tentou gritar, mas só saíram sons abafados. Seus olhos se ajustaram à luz fraca, e ela viu Marco à sua frente, um sorriso torto em seu rosto marcado.
— “Vamos, coloquem-lhe o torno no joelho,” ordenou Marco, erguendo um instrumento de metal enferrujado…era uma tortura conhecida como esmagamento de joelho…
— “Vamos torturar essa vampira…
Se eles apertassem muito, poderiam desfazer-lhe aquela bonita perna.
—” Seus olhos brilhavam com uma crueldade que Vanessa conhecia bem—era a mesma que ela via em caçadores há séculos. Piranha segurava suas pernas, enquanto Silvia a observava com um olhar de triunfo. Elisa, a mais nova do grupo, ficava um pouco afastada, seus dedos tremendo.
Vanessa sentiu o metal frio contra sua pele. O torno começou a apertar, lentamente, esmagando sua rótula. A dor foi uma explosão branca, tão intensa que sua visão escureceu.
— “Arggg, hummm…” ela gemeu, as lágrimas escorrendo por seu rosto. Seus ossos rangiam, mas seu corpo imortal já começava a lutar contra o dano, uma dor lacerante e insuportável sob a pele enquanto os tecidos em vão se tentavam reconstruir. Marco riu.
— “Dizem que vocês se curam rápido. Vamos testar até onde vai a tua resistência.”
— “Elisa,” Marco chamou, sem tirar os olhos de Vanessa.
— “Vê se a mordaça de Vanessa está bem apertada. Não quero que ela grite e atraia atenção.” Elisa hesitou, seus pés arrastando-se no chão. Ela se aproximou, seus olhos encontrando os de Vanessa. Havia algo ali—um brilho de dúvida, de cansaço. Vanessa, através da dor, manteve o contato. Mas Vanessa pode notar um ar cúmplice nos olhos de Elisa, sua repulsa crescente pelos métodos brutais que eles usavam ela estava disposta a ajudar a sua inimiga Vanessa. Elisa estendeu a mão, fingindo ajustar as tiras da mordaça. Seus dedos, porém, trabalharam rápido e discretamente, afrouxando o nó na parte de trás da cabeça de Vanessa. Foi um movimento quase imperceptível, mas o alívio foi instantâneo—a pressão em suas mandíbulas diminuiu.
Marco voltou sua atenção para o torno, apertando-o mais um pouco. Vanessa gritou por trás da mordaça, mas desta vez o som foi mais alto. Silvia riu, inclinando-se para perto.
— “Parece que está gostando, criatura.” Foi então que Elisa agiu. Com um impulso repentino, ela empurrou Silvia com força, fazendo-a tropeçar e cair diretamente sobre Vanessa. A mordaça, já solta, caiu da boca de Vanessa. Sem pensar, movida por séculos de instinto de sobrevivência, Vanessa abriu a boca e enterrou seus caninos no pescoço exposto de Silvia.
O sabor do sangue—quente, metálico, cheio de vida—inundou sua boca. Silvia gritou, tentando se debater, mas as mãos de Vanessa, ainda amarradas, a seguravam com força sobrenatural. Ela drenou, sugando a vida, a energia, a própria essência de Silvia. O corpo da caçadora convulsionou, seus membros se contorceram, e sua pele começou a murchar e rachar. Em menos de um minuto, o que restou foi apenas um punhado de cinzas e tecido desintegrado, caindo no chão como pó. O armazém ficou em silêncio, exceto pela respiração ofegante de Vanessa e pelo choque paralisante de Marco e Piranha.
Vanessa quebrou as amarras com um único movimento, os pulsos sangrando por um instante antes de se fecharem. Seus olhos, agora completamente negros, fixaram-se em Piranha. Ele tentou correr, mas ela foi mais rápida. Agarrou-o pelo cabelo, e com uma torção brutal, arrancou sua cabeça do corpo. O sangue jorrou, quente e escarlate, pintando o chão. Ela deixou o corpo cair, virando-se para Marco, que recuava, tropeçando em ferramentas.
Mas ela não o tocou. Em vez disso, levou seu próprio braço à boca e mordeu profundamente, rasgando a carne. O sangue escuro e viscoso de vampiro escorreu. Ela se virou para Elisa, que estava encostada na parede, pálida e tremendo, os olhos arregalados de horror e fascínio.
— “Vamos, idiota,” Vanessa disse, sua voz rouca da mordaça e da sede recente. Ela estendeu o braço sangrando. “Esta é a tua cura. Bebe, se não quiseres morrer.” Ela sabia o que significava. Marco não deixaria Elisa viver após essa traição. Beber seu sangue não a transformaria instantaneamente—era um processo—mas daria a Elisa uma chance, uma centelha da imortalidade que a salvaria de uma morte certa e brutal.
Elisa olhou para Marco, que agora sacava uma faca, seu rosto distorcido por ódio e traição. Ela olhou para o sangue escuro escorrendo pelo braço pálido de Vanessa. Havia uma escolha: a morte nas mãos de seu líder, ou um pacto com a criatura que ela deveria caçar. Elisa fechou os olhos por um segundo, e então, com uma decisão que vinha de um cansaço profundo de uma vida de violência sem sentido, inclinou-se e prendeu os lábios no ferimento.
O sabor era estranho—amargo, elétrico, como cinzas e tempestade. Uma onda de frio percorreu seu corpo, seguida por uma sensação de poder cru. Ela bebeu, e enquanto o fazia, viu Marco avançar, a faca erguida. Vanessa, com um sorriso sombrio, interceptou-o. O confronto final foi rápido e brutal.
Quando Elisa afastou-se, cambaleando, o mundo ao seu redor parecia mais nítido, os sons mais altos, o cheiro do sangue e do pó enlouquecedor. Vanessa limpou o sangue do braço, a ferida já fechando. “Agora,” sussurrou a vampira, pegando a mão de Elisa, “você pertence à noite. Vamos.”
Elas deixaram o armazém, desaparecendo nas sombras da marginal, enquanto o primeiro raio de sol começava a colorir o horizonte de laranja—um novo dia para uma nova criatura, e o fim de uma longa noite de terror.
O despertar das sombras
O vento noturno sussurrava segredos antigos pelas ruas de pedra da cidade, enquanto duas figuras emergiam da loja de roupas finas como borboletas saindo de casulos escuros. Vanessa observou Elisa com um sorriso que refletia sua beleza com as luzes de néon…decidiram entrar num grande shopping especialista em roupas femininas…
— “Agora precisamos comprar umas roupas dignas de duas divas,” dissera Vanessa.
Elisa movia-se com uma hesitação que rapidamente se transformava em confiança, cada passo dos sapatos de salto alto vermelho com tiras e fivelas ecoando como um metrônomo no silêncio da rua deserta. As meias de cinto ligas vermelhas com renda no topo contrastavam com a palidez sobrenatural de suas pernas, quase luminosas sob a luz da lua. A saia vermelha de couro, com botões ao meio, sibilava a cada movimento, enquanto a blusa branca e o casaco de couro vermelho completavam a imagem de uma fera elegantemente contida.
— “Estás um espanto,” disse Vanessa, sua voz um fio de seda envenenada.
Vanessa própria era a escuridão personificada. As mini botas de salto alto com fecho de lado pareciam fundir-se às sombras, as meias-calças pretas tornando suas pernas extensionais da noite. A saia preta de couro, a camisa branca com colarinho e a gravata preta davam-lhe um ar de executiva de um negócio macabro. O casaco de couro preto abria-se como asas quando ela se movia, e os óculos escuros ocultavam olhos que haviam testemunhado séculos de fome.
Agora estavam por conta própria. Vanessa cortara os últimos laços com o clã de vampiros que a mantivera em rédeas curtas por décadas. A hierarquia, as regras, a necessidade de permissão para cada gole de vida—tudo isso pertencia ao passado. Juntamente com Elisa, sua mais recente e mais dedicada conversa, fariam o que lhes daria na real gana. O pensamento era intoxicante, mais do que qualquer sangue.
— “Sentes?” perguntou Vanessa, parando sob um poste de luz cujo brilho amarelo parecia recuar diante delas.
Elisa respirou fundo, não por necessidade, mas por hábito mortal recentemente abandonado.
— “Sinto… espaço. Ar. Possibilidade.”
— “Mais do que isso,” corrigiu Vanessa, removendo os óculos. Seus olhos, de um âmbar quase luminoso, fixaram-se na rua à frente.
— “Sente-se o medo. Está no ar, como perfume barato. Eles sabem, mesmo sem saber. Os animais sempre sentem quando os predadores mudam de território.”
Um casal riu ao virar a esquina, envolvido em sua própria bolha de normalidade. Pararam abruptamente ao ver as duas mulheres. O riso morreu. A mulher apertou a mão do companheiro. Não havia nada explicitamente ameaçador naquelas duas figuras elegantemente vestidas, e ainda assim cada fibra de seus corpos mortais gritava para fugir.
Vanessa sorriu, mostrando apenas os dentes superiores. O casal desviou os olhos e apressou o passo, desaparecendo na próxima rua.
— “Veem apenas a roupa,” sussurrou Elisa, um fio de desprezo em sua voz suave. “Veem o couro, o salto, a gravata. Pensam que é uma fantasia. Não veem o que está por baixo.”
— “E é assim que deve ser,” assentiu Vanessa, recolocando os óculos. “A elegância é a melhor camuflagem. Quem suspeitaria de divas?”
Caminharam, seus passos sincronizados. A cidade se estendia diante delas—um bufê ilimitado, um parque de diversões de pulsos saltantes e pescoços expostos. Podiam morder quase tudo sem ter que dar satisfações a ninguém. Nenhum ancião do clã para ditar alvos, nenhum tratado frágil com outros grupos sobrenaturais para respeitar, nenhuma necessidade de esconder os corpos. Apenas fome e vontade, dançando uma valsa nova e perversa.
— “Por onde começamos?” perguntou Elisa, sua língua passando sobre os caninos que agora se alongavam suavemente, pressionados pela antecipação.
Vanessa parou em frente a um clube noturno. A música pulsante vazava pelas portas, um batimento cardíaco artificial para a noite. Dentro, corpos suados se agitavam, corações acelerados pelo álcool e pela proximidade. Sangue quente, rápido, cheio de adrenalina e emoção.
— “Aqui,” disse Vanessa, sua voz quase perdida no som.
— “No meio da multidão. Onde o desaparecimento é apenas mais uma pessoa que foi para casa mais cedo. Onde o grito é apenas mais uma nota na música.”
Elisa estremeceu de prazer. A liberdade tinha um gosto agridoce, metálico. Era o gosto do sangue, sim, mas também o gosto do poder puro, não filtrado, não diluído.
Vanessa abriu a porta do clube, e uma onda de calor, som e cheiro de humanidade atingiu-as. Centenas de vidas, centenas de histórias, centenas de veias cheias de líquido escarlate. Elas trocaram um olhar—um entendimento completo que não precisava de palavras.
Um novo capítulo começara. Não o capítulo de sobreviventes escondidos nas sombras, vivendo de migalhas e permissões. Este era o capítulo das divas do crepúsculo. Vestidas com o couro da rebelião e o cetim da ambição, elas adentraram a massa de corpos, e a noite engoliu-as, transformando-as em mais duas figuras dançantes, duas silhuetas elegantes.
Mas enquanto se moviam, a música parecia abrandar para seus sentidos aguçados. Conseguiam ouvir o ritmo individual de cada coração ao seu redor—uma sinfonia tentadora de ta-ta-tum, ta-ta-tum. Conseguiam sentir o calor irradiando da pele, o cheiro doce e salgado do suor misturado ao perfume e ao medo latente.
Vanessa encostou os lábios no ouvido de Elisa, seu sussurro cortando o ruído como uma lâmina.
— “Lembra-te, querida. Não é apenas sobre a fome. É sobre o sabor. O sabor da liberdade.”
E quando seus olhos, ocultos pelos óculos escuros ou não, pousaram na primeira vítima—uma jovem de pescoço longo e desprotegido, rindo muito alto perto do bar—ambas souberam que este não era um simples banquete.
Era uma declaração.
O clã poderia eventualmente ouvir falar. Outros poderes na cidade poderiam notar a perturbação no equilíbrio frágil. Mas isso era um problema para outra noite. Esta noite, e todas as noites que se seguiram, pertenciam apenas a elas.
As divas haviam chegado. E a cidade, inconsciente e despreparada, estendia seu pescoço para a lâmina…
Vanessa já estava habituada a alimentar-se de sangue contudo para Elisa tinha sido uma extreia…Vanessa para não a preocupar tinha omitido os primeiros efeitos secundários de beber sangue, para Elisa a sua experiencia como vampira não seria fácil…assim alimentadas por um tempo deixaram aquele bar…
A noite estava densa, envolta em um manto de névoa fria que se agarrava à estrada deserta. O carro preto e elegante de Vanessa deslizava como uma sombra sobre o asfalto húmido, o ronco do motor um zumbido discreto no silêncio. No banco do passageiro, Elisa encolhia-se, as mãos pálidas apertadas contra o estômago. O banquete havia sido… generoso. Demasiado generoso, talvez, para um sistema ainda em adaptação…
Vanessa, séculos de experiência esculpidos em sua postura impecável, lançou um olhar lateral à sua companheira. Via a palidez que não era a habitual, o suor frio na testa, a mandíbula apertada. Conhecia os sinais. Tinha visto tantas, ao longo dos séculos, passarem por aquela provação inicial.
— Estou a sentir-me mal, encosta o carro! — a voz de Elisa saiu entrecortada, um sussurro urgente carregado de pânico.
Sem uma palavra, Vanessa reduziu a velocidade e guiou o veículo para a berma, os pneus esmagando gravilha. Mal o carro parou, Elisa arremessou a porta aberta e cambaleou para fora, apoiando-se na lateral fria do metal. O mundo girava. As luzes das estrelas acima pareciam manchas borradas, e o cheiro do sangue — seu sangue agora, mas ainda com o eco metálico e doce das vítimas — subia-lhe à garganta com uma força avassaladora.
— Blurp… blurp…
O som foi horrível, húmido e convulsivo. Seguiram-se vários jatos de vómito, um líquido escarlate e espesso que jorrou no asfalto escuro, brilhando sob o fraco luar. Não era o conteúdo de um estômago humano, mas uma regurgitação do próprio poder que a sustentava. Cada convulsão era uma rejeição violenta, o corpo imortal de Elisa lutando para assimilar a essência vital que lhe fora forçada. Ela caiu de joelhos, ofegante, os dedos enterrados na terra fria da berma, enquanto ondas de náusea e uma fraqueza profunda a inundavam.
Vanessa saiu do carro com uma calma sobrenatural. Aproximou-se e ficou parada a uma distância respeitosa, observando não com desdém, mas com uma compreensão amiga. O vento noturno agitou-lhe os cabelos negros como ébano.
— Bem, isso vai passar — disse a voz de Vanessa, suave mas firme, cortando o som dos gemidos de Elisa. — É o preço da iniciação. O corpo precisa de aprender a reter, a transformar. É como um músculo que nunca usaste.
Elisa ergueu um rosto manchado de vermelho, os olhos — ainda com um brilho demasiado humano de terror — fitando a veterana. — Sinto… sinto que estou a morrer. De novo.
— Não estás a morrer — Vanessa corrigiu, um fio de impaciência na voz. — Estás a mudar. E a mudança dói. Agora, levanta-te. Temos de procurar um sítio para dormir. O sol não vai esperar pela tua convalescença.
Com um esforço hercúleo, Elisa arrastou-se de volta para o carro, o corpo tremendo, o vestido manchado. O interior do veículo cheirava a couro caro e a um leve traço do perfume de Vanessa — jasmim e algo mais antigo, terroso. Enquanto Vanessa retomava a estrada, Elisa encostou a cabeça no vidro frio, observando as árvores escuras passarem como espectros. O vómito deixara uma sensação de vazio, mas também um certo… alívio. Como se tivesse expelido um último resquício da sua humanidade frágil.
O hotel mais próximo era um edifício antigo e sombrio à beira da estrada, com um letreiro de néon piscando erraticamente: "Hotel Hot Star". Ironicamente apropriado, pensou Vanessa com um sorriso interior. Estacionou atrás do edifício, longe dos olhares curiosos.
O rececionista era um homem magro e sonolento, com olhos que não se fixavam em nada por muito tempo. Vanessa abordou-o com um charme glacial, os olhos cintilando por um instante sob a luz fraca do balcão. O homem pareceu ficar um pouco mais vago, um pouco mais complacente.
— Um quarto. O mais isolado. Sem visitas da limpeza — ordenou Vanessa, a voz uma melodia hipnótica.
O homem anuiu, entregando uma chave pesada sem perguntar por documentos ou cartão de crédito. O quarto 13, no final de um corredor escuro e com um cheiro a mofo e a desinfetante barato. Era sombrio, com papel de parede descascando e uma única lâmpada fraca, mas as grossas cortinas de veludo vermelho escuro prometiam segurança contra o amanhecer que se aproximava.
Mal a porta se fechou, Elisa desmoronou-se sobre a cama dura, um suspiro profundo escapando-lhe dos lábios.
— Como é que… como é que suportaste isto, no início? — perguntou, a voz rouca.
Vanessa, que inspecionava as janelas, virou-se. No fraco luzir do quarto, os seus traços pareciam esculpidos em mármore pálido.
— Suporta-se porque não há alternativa. A fome ensina, a dor disciplina. Amanhã à noite, estarás mais forte. E com fome outra vez. O ciclo repete-se, até que um dia, deixas de vomitar. Deixas de te sentir mal. E começas a sentir… prazer.
A palavra pairou no ar, carregada de uma promessa sinistra. Elisa fechou os olhos, a imagem do sangue vomitado na estrada ainda vívida na sua mente, misturando-se com a memória do sabor doce e vital que o precedera. Era um horror. Mas também era poder. Um poder que a arrastara para fora da sepultura da sua vida mortal.
Vanessa aproximou-se da cama e pousou uma mão gelada na testa de Elisa, num gesto que poderia ser interpretado como maternal, se não fosse a frieza absoluta do toque.
— Dorme agora. O quarto está seguro. E quando acordares… o mundo será ainda mais escuro, e ainda mais teu.
Enquanto Elisa caía num sono inquieto e sem sonhos, o corpo a recuperar das convulsões, Vanessa sentou-se numa poltrona junto à janela. Ficou imóvel, vigiando as primeiras faixas cor-de-rosa do amanhecer riscarem o horizonte lá fora, para além das cortinas seguras. Para ela, a noite tinha sido rotineira. Para Elisa, tinha sido um novo degrau na escada infinita da escuridão. E Vanessa sabia, com a certeza dos séculos, que os vómitos de sangue eram apenas o prelúdio. A verdadeira fome, a sede que nunca se saciava completamente, era o que estava por vir. E ela estaria lá para guiar a sua nova irmã na noite, através de cada novo e horrível banquete.
Uma paixão escondida
O despertar deveria ter sido suave, envolto no calor do corpo de Elisa ao meu lado. O sol da manhã filtrou-se pelas persianas, pintando listras douradas sobre a pele nua dela. Passei a mão pelo seu rosto, comovida por uma onda de ternura tão profunda que doía.
— “Sabes, te amo muito”, sussurrei, as palavras saindo como uma confissão sagrada no silêncio do quarto.
Elisa abriu os olhos, um sorriso lento e sonolento curvando seus lábios.
— “Eu também te amo”, respondeu, a voz ainda rouca do sono. E então nos beijamos. Não era o beijo habitual, rápido e doce. Era profundo, lento, uma exploração. Dessa vez, fui eu quem iniciou, mas Elisa tomou a frente com uma fome que me surpreendeu. Sua língua deslizou contra a minha, e havia uma técnica nela, uma insistência quase cirúrgica em roçar cada nervura, cada curva do meu paladar. Um arrepio percorreu minha espinha, não totalmente desagradável, mas intenso, quase demasiado. Quando nos separamos, meus lábios formigavam, e o ar parecia mais frio.
Elisa me puxou para mais perto, suas mãos deslizando pelas minhas costas com uma posse que era ao mesmo tempo familiar e, naquele momento, ligeiramente opressiva. Seu toque desceu, e eu ri, um som nervoso e estridente no quarto silencioso.
— “Isso faz cócegas”, protestei, tentando me contorcer, mas seus braços eram como cipós.
— “Shhh”, ela sussurrou contra meu pescoço, e sua mão continuou seu caminho. O riso morreu em minha garganta quando dois dedos dela, súbitos e decididos, entraram na minha buceta. Estremeci, uma sacudida violenta de surpresa e prazer agudo. Foi como um choque elétrico, doce e penetrante.
— “Tudo bem?” ela perguntou, seu hálito quente em meu ouvido.
Eu tentei encontrar ar.
— “Sim… só que…” Hesitei, tentando articular a sensação estranha e intrusiva que acompanhara o prazer.
— “As tuas unhas… pareciam raspar meu útero. Foi uma sensação… estranha.”
Elisa ficou imóvel por um segundo. Depois, riu baixinho, um som que não chegou aos seus olhos, que permaneciam fixos em algum ponto sobre meu ombro.
— “Desculpa, amor. Devo ter me esquecido de apará-las ontem.”
Ela retirou a mão e a levou aos lábios, como se estivesse provando algo. Um calafrio, diferente de qualquer outro, percorreu-me.
O segundo beijo ainda ecoava em meus lábios, uma fusão doce e salgada, quando os dedos de Elisa encontraram os contornos de meus seios.
—Hum —solto um gemido abafado, uma vibração que senti em minha própria boca. Afastei-me apenas o suficiente para observar meus mamilos endurecidos com fome de mais… Quando meus lábios envolveram um dos seus seios, Elisa arqueou as costas, um suspiro escapando-lhe como um fio de voz.
—Delícia…humm…era gelado, como mármore sob a lua, mas pulsava com uma vida própria. Chupei, saboreando a ausência de calor, a textura única. Enquanto o fazia Elisa gemeu baixinho, uma melodia antiga e quebrada, enquanto minhas mãos desciam, traçando o caminho de seu torso esguio até encontrar seus pelos púbicos. Meus dedos deslizavam como seda em sua pele. Minhas pontas dos dedos tocaram a carne mais íntima, e uma humidade fria e espessa me recebeu…
—Nossa que gostosa você tá! — sussurrei contra sua pele, e Elisa se contorceu toda, um tremor percorrendo seu corpo como o de uma corda de violino muito apertada…
Deitei-me a seu lado puxando-a suavemente para cima de mim.
— “Vem,” ordenei, minha voz um rosnado suave. Elisa entendeu, posicionando-se sobre meu rosto, suas coxas de alabastro enquadrando minha visão. O aroma era intoxicante, um perfume de jasmim noturno e terra húmida. Mergulhei minha língua naquela fenda melada, bebendo o néctar gelado que escorria dela. Era doce e metálico, o sabor da vida suspensa. Ela se movia, esfregando-se contra meu rosto num ritmo frenético, seus gemidos crescendo em volume e desespero.
Suas mãos se enterraram em meus cabelos, depois desceram para as laterais de meu rosto. De repente, suas coxas se fecharam como uma armadilha de aço ao redor de minha cabeça, pressionando com uma força sobrenatural.
— “Mais,” Elisa gritou, uma palavra rouca e imperiosa.
— “Enterra tua língua. Bebe tudo.” A pressão aumentou. A visão escureceu nas bordas, e o ar faltou. Mas eu não lutava. Aceitava. Engolia cada gota daquele “caldinho branco”, esse elixir vital e gelado que sustentava a existência e agora alimentava meu próprio êxtase. Finalmente, um tremor cataclísmico a percorreu. Elisa soltou meu rosto e desmoronou ao meu lado, ofegante, suas pernas tremendo visivelmente.
Ajudei-a a se levantar, seus passos vacilantes. Nosso próximo beijo foi lento, profundo, e ela saboreou, com um sorriso cansado e lascivo, o próprio sabor de sua essência em meus lábios. Ficamos abraçadas na luz ténue que entrava pela janela alta, a poeira dançando nos raios de luz moribundos.
Foi Elisa quem quebrou o silêncio carnal. Sua voz, normalmente uma suave cantoria, soou como um comando.
— “Vanessa. Abre bem as pernas.”
E eu obedeci, com olhos vítreos fixos em Elisa. Começamos novamente, um triângulo de desejo ancestral. Enquanto Elisa beijava minha boca, minhas mãos refizeram a jornada explorando seu corpo. Desci pelo pescoço, onde as veias azuladas pulsavam sob a pele translúcida, pelos seios que mordiscava e lambia, deixando marcas vermelhas que desapareciam em segundos. Desci pela barriga lisa, pelo umbigo, beijando e mordiscando leve a carne fria, até me ajoelhar novamente no vão divino entre suas pernas.
Desta vez, fui mais lenta, mais cruel. Lambi, sim, mas também mordi os lábios vaginais externos, puxei com meus dentes, suguei o grelo até ele ficar inchado e vibrante como um coração. Ela se contorcia, uma marionete em meus fios de saliva e prazer.
— “Que delícia… sou todinha sua… vai… Ooooh… Não para… Ai, ai, ai…” Seus gritos ecoaram naquele quarto de hotel. Quando a segunda onda a atingiu, mais forte que a primeira, seu gozo jorrou em minha boca, uma cascata gelada e abundante. —Que delícia de vampira, pensei, engolindo com devoção.
Enquanto jazia ofegante nos lençois, Elisa me recolheu em seus braços, acariciando-me o rosto suavemente, sussurrando palavras lascivas, até o tremor cessar e meus olhos recuperarem o foco.
Então olhei para Elisa. Não era um olhar de gratidão, mas de retribuição selvagem. Sem uma palavra, inverti as posições. Minha boca encontrou agora os seios de Elisa, sugando-os com uma ferocidade que a fazia estremecer. Fui descendo, numa peregrinação de beijos e mordidas, até chegar ao destino. A “bucetinha” de Elisa não estava apenas melado; parecia fumegar, uma brasa de desejo contido em uma forma gelada. Sem piedade ataquei-o com maestria, minha língua um instrumento de tortura sublime, focando no ponto mais sensível até fazer Elisa tremer como uma folha ao vento, até o “branco néctar”, leitoso e espesso, jorrar e escorrer pelos cantos de minha boca satisfeita.
Foi então que encontramos uma nova sinuosidade. Entrelaçamos, pernas com pernas, num abraço íntimo que colocou nossas fendas húmidas uma contra a outra. Esfregavamos, num movimento lento e depois frenético, trocando fluidos, gemidos e energia. O atrito da carne fria contra carne fria produziu um som húmido e obsceno, a trilha sonora de nosso orgasmo simultâneo, um duplo suspiro rouco que se transformou em um grito abafado.
Assim exaustas, mas insaciáveis, ainda encontraram forças para uma última volúpia. Em uma posição de “meia nove” entrelaçada, onde cada uma podia alcançar os segredos da outra, não negligenciaram nenhum território. Lambidas exploratórias, promessas sussurradas, até que a atenção se voltou, com curiosidade e posse, para o cuzinho, um anel de músculo contraído que também recebeu sua homenagem de língua e dentadinhas leves.
Não demos pelas horas pasar e o sol já se esconderá atrás das montanhas, pintando o céu de roxo e laranja. No interior daquele quarto de hotel, entre o amontuado de roupa espalhada no chão e o cheiro de veludo e sexo, transamos mais… quatro vezes? ou talvez cinco? O tempo perdeu o significado. Aquela fora o desabrochar de uma paixão escondida uma variação sobre o mesmo tema de fome e entrega, uma exploração de corpos que não conheciam cansaço mortal, apenas a saciedade temporária do desejo…Elisa se descobrira como vampira e amante e eu Vanessa com meus 120 anos descobrira minha “bixessualidade”…
Quando a última faixa de luz desapareceu, ficamos entrelaçadas no chão, um emaranhado de membros pálidos e cabelos escuros. Não havia calor para compartilhar, apenas o frio companheiro de nossa natureza. O banquete havia terminado. Por enquanto. O silêncio da noite, nosso verdadeiro reino, descia sobre nós, e em seus ouvidos mais aguçados, o fraco e rítmico bater de um coração humano ecoava, distante, da vila ao pé da colina. Era um som que prometia que a fome, mais cedo ou mais tarde, sempre retornaria.
