— “Tininha, podemos falar?”
Meu coração deu um salto. —“Sobre?”, perguntei, tentando parecer despreocupada. Que seria que ele queria dizer-me? Será que já se cansou desta minha tristeza ambulante?
Ele entrou e sentou-se na ponta do sofá, com um espaço cuidadoso entre nós.
— “Bem, como sabes, estou divorciado…”
Eu sabia. A história resumida, sem detalhes. Uma mulher, uma mudança para o Algarve para recomeçar, uma galeria de arte que ainda não descolara.
— “…no entanto, e tu?”
Não queria falar. A ferida do Filipe, três anos depois, ainda era um nó cego no estômago. Mas as palavras saíram, como se tivessem estado à espera precisamente dele para se libertarem.
— “O Filipe já era. Acabámos há três anos… pois é, uma porra. E eu estou com 33 anos e sozinha outra vez.” A voz soou mais amarga do que eu queria.
Ele inclinou-se para a frente, os olhos sérios.
— “Não estás sozinha. Tens-me a mim, Tininha.”
Aquela simplicidade. Aquela afirmação direta, sem rodeios. Foi como se uma comporta se abrisse.
— “Oh… não me tentes!”, disse, fitando-o, desafiando-o a ver o turbilhão que havia por trás da minha fachada cansada.
— “Já não estás zangada?”, perguntou ele, um fio de esperança na voz.
— “Bobo”, sussurrei, o desafio a derreter-se. — “É preciso dizer mais? Não vês que quero trepar contigo?”
Ele pareceu surpreendido, depois aliviado. — “Mas…”
— “Sim”, interrompi, a coragem a crescer com a sua reação. — “Já não estou menstruada. Iniciei hoje a pílula.” Era mais do que uma informação. Era uma permissão. Um mapa aberto.
Aquilo foi o sinal. Não houve mais palavras. Deixei-me ir, e os nossos lábios encontraram-se. Era um beijo lento, profundo, que sabia a sal e a promessas. Em poucos segundos, o meu corpo, adormecido há tanto tempo, despertou em fúria. A minha “passarinha”, como ele uma vez a brincar chamou, estava aos saltos, um bater de asas desesperado contra as minhas cuecas.
— “Aqui não”, consegui dizer, separando os lábios. — “Leva-me para o quarto. Estava com saudades…”
Ele levantou-me nos braços como se eu não pesasse nada. E passámos a noite a fazer amor. E os dias seguintes também. Era fome. Era cura. Era um redescobrir do meu próprio corpo através das suas mãos, da sua boca, do seu peso sobre mim. Era como se eu estivesse a regressar a casa depois de uma longa viagem.
Um dia cheguei da livraria, com um cheiro a papel novo e tinta, e ao entrar em casa, atirei-me para os seus braços que me esperavam na entrada.
— “Que foi?”, perguntou ele, surpreso pelo ímpeto.
Sorri, enterrando o rosto no seu pescoço. — “Idiota. Vamos dar uma fodinha?”
Ele riu-se, um som grave e quente, e levou-me para o quarto. Despir-nos foi uma tarefa apressada, a roupa atirada para o chão num rasto de urgência.
— “Não”, disse eu, quando ele se moveu para me virar. — “Fica por cima. Quero ver os teus olhos enquanto fazemos amor.”
Ele obedeceu, e por momentos foi lento, profundo, os seus olhos castanhos fixos nos meus, reflectindo o meu próprio desejo ampliado. Mas a necessidade crescia, tornava-se imperativa.
— “Fode-me com força…”, sussurrei, depois gritei. “Cabrão… força!”
Imediatamente ele obedeceu. O ritmo acelerou, tornou-se potente, primordial. As estocadas mais fortes faziam a cama bater contra a parede com um barulho que devia ecoar por todo o prédio. Eu não me importava. Era a foda do século, uma tempestade perfeita de prazer e entrega. Foi tão intenso que o orgasmo chegou como uma onda gigante, arrasando tudo no seu caminho. Gemi, gritei, e depois… algo mais. Algo novo. Um tremor profundo, uma libertação intensa e húmida que me fez gritar mais alto. Um “squirt”. O prazer não parecia parar, era uma série interminável de contrações e de luz branca a explodir atrás das pálpebras. O mundo estreitou-se até àquele ponto de fogo na minha barriga, até aos seus olhos arregalados de espanto e êxtase.
E depois… nada.
Apaguei.
O que João me contou depois…
— “Bolas… que é isto!”, gritou o João, o seu rosto de prazer transformado instantaneamente em pânico puro. O meu corpo, que há segundos estava em êxtase, agora sacudia-se no colchão, rígido, os olhos revirados. — “Parece uma convulsão epilética!”
O seu treino de primeiros-socorros, algo obscuro do tempo do liceu, veio à tona num turbilhão de adrenalina. Procurou freneticamente na mesa-de-cabeceira, as mãos a tremer, até encontrar um lenço limpo.
— “Vamos… reage…”, dizia, a voz a fracturar-se, enquanto me virava de lado com cuidado e colocava o lenço enrolado entre os meus dentes, para eu não morder a língua. Com a outra mão, já pegava no telemóvel.
— “Por favor, podem trazer uma ambulância para a Rua das Flores, número 12? É urgente, é uma convulsão!”
Passaram cinco minutos que lhe pareceram uma eternidade, com ele a segurar-me, a murmurar palavras de conforto que eu não ouvia, até que as sirenes rasgaram o silêncio da noite.
No hospital, na entrada das urgências, um médico de bata verde barrou-lhe o caminho.
— “Desculpe, mas não posso deixar entrar. Já venho chamar. Espere aqui.”
Ele esperou. Uma hora. Parado no corredor frio, com o cheiro a antisséptico a queimar-lhe as narinas, vestido apenas com uns jeans e uma t-shirt manchada, o cabelo desalinhado. Até que o mesmo médico regressou.
— “Bem… ela está estável. Já subiu para a enfermaria. Se quiser, pode acompanhar-me.”
— “Obrigado”, disse o João, a voz rouca.
No elevador, o médico olhou para ele.
— “É o marido?”
— “Sou amigo.”
— “Como?”
O João respirou fundo. — “Bem… um amigo muito especial.”
O médico assentiu, compreensivo. Ao chegarem ao corredor silencioso da enfermaria, parou e virou-se, a expressão séria.
— “Vou ser franco. Não fique com muitas expectativas. Não vai poder falar com ela.”
O coração do João gelou. — “Então?”
— “É que… ela ficou em coma. Mas está tudo controlado. Os sinais vitais são bons. É uma questão de horas, provavelmente.”
Mas acabou por ser três dias. Setenta e duas horas durante as quais o João não saiu do hospital. Dormitou numa cadeira desconfortável ao pé da minha cama, segurou-me a mão mesmo quando eu não reagia, falou-me das cores do pôr-do-sol em Olhão, dos seus planos para a galeria, de tudo e de nada. As enfermeiras, comovidas, traziam-lhe sandes e café. Ele agradecia, com os olhos sempre fixos no meu rosto pálido e nos monitores que bipavam suavemente.
A primeira coisa que vi foram os seus olhos. Vermelhos de cansaço, mas iluminados por um alívio tão profundo que me doeu o peito.
— “Cristina?”, disse ele, suavemente, quando os meus olhos se focaram nele.
Tentei sorrir, mas os músculos do rosto estavam pesados. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o médico entrou e chamou-o para o corredor.
— “Quero falar consigo.”
— “Diga, doutor. É algo grave?”
O médico cruzou os braços. — “Por acaso sabia que a sua amiga está grávida?”
A palavra ecoou no corredor silencioso. — “Grávida?”, repetiu o João, a voz um sopro.
— “Sim. Testes confirmaram. Terá de ter alguns cuidados especiais, claro.”
O João passou uma mão pelo rosto. — “Desculpe… eu… não sabia. Nem sabia que ela tinha epilepsia.”
— “Pode ter-se manifestado apenas na idade adulta. É mais raro, mas acontece. Tem tratamento, é perfeitamente controlável. Mas agora, o mais importante é descanso. Muito descanso.”
Alguns dias depois, tive alta. O João veio buscar-me de carro, conduzindo com uma cautela exagerada, como se eu fosse de porcelana fina. Em casa, tomou conta de tudo. Deitou-me na nossa cama – agora *nossa* cama – e trouxe-me chá.
Sentou-se na beira do colchão, a brincar com os meus dedos.
— “Tininha…”, começou, hesitante. — “Queres vir comigo para Leiria?”
Levantei as sobrancelhas, surpresa. — “Quê? Deixar Olhão? O mar… a luz…”
— “Claro”, disse ele, um sorriso tímido a brilhar-lhe no rosto.
— “Arranjo uma galeria lá. Um espaço só teu, onde as pessoas possam ver os teus quadros. Onde tu possas pintar à vontade. Longe das memórias más. Para começarmos de novo. Os três.” Os seus olhos desceram suavemente para a minha barriga ainda plana.
Olhei para ele. Para o homem que me tinha visto no meu momento mais íntimo e mais vulnerável, e que não fugiu. Que esperou. Que me segurou. Que agora me propunha um futuro, não uma fuga.
As lágrimas vieram, quentes e silenciosas.
— “Acho…”, engoli em seco. “Acho que estás completamente doido.”
Puxei-o para mim, enterrando o rosto no seu cabelo.
— “Meu doido”, sussurrei, as palavras dissolvendo-se no seu ombro. “Te amo.”
Era um amor diferente de todos os outros. Não era paixão cega, embora a tivesse. Não era apenas conforto, embora o trouxesse. Era uma escolha consciente, feita no rescaldo do caos. Era promessa. Era o primeiro rascunho do nosso futuro, escrito a três, com tinta indelével.




