O Diario de Tininha



O diario de Tininha!
O Diário de Tininha**

**Querida Natália,**

Lembraste de mim? Cristina. Mas, quando éramos jovens, todos me conheciam por Tininha, não por Cristina. Há dias, no sótão, encontrei meu velho diário. Vou partilhar contigo, vou tentar resumir… o mais relevante foi o último verão que João passou em Olhão, na casa dos tios.

Sua tia insistia que eu tinha de acompanhá-lo nas idas à praia da ilha de Armona. Ele era um ano mais novo, de apenas 22 anos, tímido, com olhos castanhos que pareciam perdidos no mundo. Eu, com os meus vinte e três anos já vividos, sentia-me uma mulher perante aquele rapaz que ainda cheirava a adolescência. Quando terminou o verão, fazia mais frio, já não havia carreiras regulares e a água estava horrivelmente fria. Por isso, depois do jantar, eu, Tininha, convidei o João para ir tomar sorvete e passear no jardim municipal.
— Eu vou — disse ele, com uma seriedade que me fez sorrir por dentro.
Achamos um banco no jardim, sob uma árvore cujas folhas já começavam a amarelar. Estávamos a fazer contas às nossas vidas. Ele voltaria para Coimbra, eu ficaria em Olhão. Possivelmente nunca mais veria o João. Isso deixava-me com um nó na garganta. Um nó doce e amargo, porque estava a ter um fraquinho por ele. Um fraquinho que crescia na quietude das nossas tardes na praia, nos silêncios que não eram desconfortáveis.
— Tu já beijaste alguém na boca? — perguntei, de repente, a coragem vinda não sei de onde.
Ele arregalou os olhos. — Como assim, Tininha? Na boca, com língua?

— As raparigas da universidade, algumas já têm trinta anos ou mais, e vão rir de ti se não fizeres isso bem… caso namores com alguma.
O rosto dele ficou sério. — E como faço?
— Arranja uma namorada!
— Sabes que sou tímido?
— Vais ter de desencravar!
Daí, ele fez-me rir. Pegou nas costas da sua própria mão e tentou demonstrar, beijando-a com ar concentrado.
— Assim?
— Se fizeres isso, vão fugir todas, ah ah!
— Então que faço!
Respirei fundo. O coração batia-me tão forte que eu temia que ele ouvisse.
— Bem, excepcionalmente… isto se não fores contar à tua tia… eu dou um beijo desses.
— Vais beijar-me? —Ele ficou imóvel. —
— Com a condição de abrires a boca ligeiramente e nada de tocar na minha língua… é o que tu tens de fazer nelas…
— Ok.
João abriu aquela boca inocente, os lábios um pouco trémulos. Eu já tinha praticado no colégio com uma amiga de confiança, por isso estava à vontade. Inclinei-me e beijei-o. Foi suave, um toque de lábios que rapidamente se aprofundou. Lamberam-se os contornos, senti a textura da sua língua. Fazia cócegas, pensou ele em voz alta, e riu-se, nervoso.
— Assim desisto — disse eu, afastando-me um centímetro.
— Está bem, eu comporto-me bem agora. De novo.

E beijei-o de novo. Desta vez, deixei-me ir um pouco mais. Lambi cada nervura, explorei aquele território desconhecido com uma curiosidade que era metade maternal, metade outra coisa que não queria nomear. Fiquei de olhos brilhantes, excitada pela descoberta e pela sua entrega. Contudo, fiquei frustrada ao ver o seu ar patético, de quem não compreende bem o que se passa, mas quer agradar.
— Bem, hoje é o penúltimo dia no Algarve e já não tenho tempo para mais explicações — disse, recuando.
Ele olhou para mim, os olhos ainda vidrados.
— Tininha, e quando um casal pode passar para, por exemplo, toques… sexo oral?
Ri-me, um riso que soou mais tenso do que deveria. — Calma, rapaz. Só tens de te preocupar com a língua. Depois, a mulher vai dando sinais…
— Podíamos experimentar atrás do coreto?
— Ah ah ah… Tonto! Isso não é assim. Além disso, se fizesse isso contigo, poderia gostar também. E depois, sabes, uma mulher é um fogão a lenha. Depois de acesa, precisa de muita e muita manobra para ficar fria de novo.
— Isso quer dizer o quê? —Ele franziu a testa, confuso.
Quis ser cruel para o proteger. De mim? Dele?
— Quer dizer que, a sério, a gente teria de praticar sexo mesmo, com pénis dentro da xotinha.
Vi o choque nos seus olhos. E, ao mesmo tempo, tive pena dele. Embora eu já não tivesse os meus pais, João tinha, mas eles eram esquisitos. O pai dele devia falar destas coisas com o filho. Estavam sempre a proibir um rapaz de vinte e dois anos de ir a festas. Fui-me deitar nessa noite com um arrependimento doce e pesado.
No dia seguinte, ainda fui ao quarto dele. A minha tia adotiva sabia que a gente se respeitava… mas eu queria dizer algo.
— Logo, não vou despedir-me de ti na estação como de costume.
— Porquê? — A voz dele era pequena.
— Porque eu, no fundo, queria mesmo ter transado contigo.
— Juras?
— Mas isso é loucura. Tu és bonzinho, e eu amo-te muito… Quero que encontres alguém a valer! Por isso, é melhor ignorares o que te disse.
Mas arrependi-me. Não do que disse, mas de não ter feito. Nos anos seguintes, para tapar o vazio da minha vida sem o João, acabei por conhecer o Filipe, que virou meu namorado. Ele era bem diferente: nada romântico, queria só sexo. Incluindo coisas que eu nunca tinha imaginado. Acabámos por fazer de tudo, incluindo sexo anal. Era mecânico, era vazio, era um preenchimento agressivo de uma ausência.
Se o João aqui tivesse, teria sido bem diferente. Sinto-me suja, Natália. Não pelo sexo, mas pela falta de amor nele. Pela falta daquele beijo no jardim, que era uma pergunta, não uma exigência.
O João casou-se, soube depois. Com uma rapariga de Coimbra. Espero que ela lhe tenha ensinado o resto. Espero que ele tenha sido feliz.
Eu fiquei com a memória de um verão, de uma língua que fazia cócegas, e da mulher que poderia ter sido se tivesse tido a coragem de acender aquele fogão, sabendo que nunca mais o apagaria.
Beijos da tua amiga de sempre,**Tininha (Cristina)**


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Ficha do conto

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Nome do conto:
O Diario de Tininha

Codigo do conto:
264744

Categoria:
Confissão

Data da Publicação:
18/06/2026

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