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CONTINUAÇÃO DO CONTO MALANDRO É MALANDRO... MANÉ É MANÉ...

O ar-condicionado do Hotel Fasano não gela; ele anestesia. Era aquele tipo de frio artificial, com cheiro de lírios frescos e cera de assoalho cara, feito sob medida para que os engravatados esquecessem a poluição, o trânsito e a miséria lá fora. O lugar respirava dinheiro velho, heranças incontestáveis e negócios sujos fechados em tons de voz civilizados.
Eu estava sentado numa poltrona de couro legítimo que devia custar mais do que a casa onde eu cresci. O terno azul-marinho de corte italiano, comprado com o dinheiro da velha Zulmira, caía bem no meu corpo, mas o colarinho me enforcava como uma forca de seda. Eu me sentia um vira-lata que tinha conseguido pular o muro de uma mansão. A qualquer momento, um garçom engomadinho ia me pedir os documentos e me chutar de volta pra sarjeta.
Mas aí eu olhava para Andressa.
Puta que pariu, a loira parecia ser a dona da porra do hotel. Ela estava usando um vestido tubinho preto, simples, mas que desenhava cada curva daquele corpo monumental com a precisão de um escultor tarado. Não tinha decote escandaloso, não tinha maquiagem pesada. Ela exalava um poder silencioso, a perna cruzada com uma elegância letal, segurando uma taça de água com gás que tinha custado o preço de um pneu novo. Ninguém ali desconfiaria que, poucas horas antes, ela estava suada num galpão abandonado, enfiando os dedos nos meus músculos e me ensinando a anatomia da chantagem.
— Para de mexer nessa porra de gravata, Eduardo — ela murmurou, sem nem olhar para mim. A voz dela mal passou por cima da música ambiente suave de um piano ao fundo. — Você tá parecendo um agiota de porta de bingo. Fica confortável. O dinheiro que você tá vestindo é seu.
— Fácil falar quando não é você que tá com o pescoço amarrado num pedaço de pano de mil contos — resmunguei, soltando o nó um milímetro. Peguei minha xícara de café expresso. Amargo pra caralho.
— Foca no que interessa — Andressa virou o rosto para mim, os olhos escuros brilhando com aquela mesma frieza clínica que ela usou no galpão. — Lê o salão, Edu. Usa o que eu te ensinei. Acha o nosso primeiro degrau. Acha o patrocinador do Santuário.
Dei um gole no café, engoli o gosto de asfalto moído e comecei a varrer o ambiente.
A princípio, era só um mar de ternos cinzas e vestidos de grife. Mas, aos poucos, fui desligando o malandro de rua que olhava para os relógios e carteiras, e liguei o radar que a Andressa tinha enfiado na minha cabeça a marretadas. Comecei a ler a carne.
Descartei os peixes pequenos em questão de segundos. Na mesa perto da janela, um herdeiro com cara de fuinha, rindo alto demais para impressionar duas loiras plastificadas; a postura dele era solta, molenga, inútil. Perto do bar, um gerente de banco suando o lábio superior, a perna tremendo num ritmo frenético debaixo da mesa; um merda endividado, foda-se ele.
Então, meu olhar travou. Mesa de canto, visão estratégica de todo o saguão, mas meio isolada por uma coluna de mogno.
— Ali — murmurei, inclinando a cabeça milimetricamente. — Três horas. Cabelo grisalho, terno risca de giz.
Andressa não virou o pescoço. Ela pegou o celular de dentro da bolsa da Prada, ligou a câmera frontal como se fosse checar o batom e usou o reflexo da tela para analisar a mesa que eu indiquei. Um sorriso predatório desenhou-se na boca dela.
— Marcos Valadares — ela sussurrou, o nome saindo como veneno. — Um dos maiores empreiteiros do estado. Esse filho da puta pavimenta metade das rodovias do país. E fatura o triplo com os aditivos fraudulentos que os políticos assinam pra ele.
Continuei encarando Valadares. O cara era uma montanha de carne bem alimentada e arrogância. Ele bebia uísque às nove da manhã como quem bebe suco de laranja. Mas, ao contrário dos engravatados desesperados que eu imaginava que seriam nossos alvos, Valadares não demonstrava um pingo de tensão.
Ele estava esparramado na cadeira, as pernas abertas, o maxilar solto, mastigando o gelo da bebida. Ele ria, falava alto no celular, gesticulava. Não havia ombros rígidos, não havia tiques nervosos.
— A leitura tá errada, Edu — Andressa pontuou, bebendo um gole d'água. — O cara é de teflon. A sujeira não gruda nele. Ele não sente culpa pelas propinas ou pelos operários que morrem nas obras superfaturadas dele. Ele dorme como um bebê. A carne dele é mole porque a alma dele é podre e ele adora isso.
— Não, a leitura tá certa — rebati, me inclinando sobre a mesa, os olhos fixos na presa. — Valadares é a parede de concreto, beleza. Mas eu não tô olhando pra ele. Tô olhando pra cadela que tá segurando a coleira do sistema dele. Olha a mulher na frente dele.
Andressa ajustou a tela do celular.
Sentada de frente para o tubarão, estava uma mulher de uns trinta anos, usando um terninho feminino azul-marinho de corte impecável. O cabelo castanho estava preso num coque apertado, os óculos de armação fina davam a ela um ar de eficiência pura. Ela não era feia, muito pelo contrário, mas estava tão engessada numa postura robótica que a beleza se perdia.
— A assistente — Andressa observou.
— Lê a carne dela, loira — instruí, sentindo uma onda de orgulho misturada com adrenalina.
A mulher segurava um tablet com a mão esquerda e uma caneta com a direita. Mas o corpo dela gritava, berrava por socorro. O trapézio dela estava tão tenso, tão repuxado em direção às orelhas, que o pescoço parecia ter sumido. Ela estava sentada na beirada da cadeira, as costas eretas como se tivesse engolido um cabo de vassoura. Por debaixo da mesa de vidro escuro, eu conseguia ver o salto do scarpin preto dela batendo no chão de mármore num ritmo alucinado.
— Ela tá segurando a respiração — Andressa analisou, os olhos estreitando. — O peito mal sobe.
— O chefe é o dono da sujeira, mas é ela quem limpa a merda. É ela quem faz as planilhas, quem paga o advogado, quem esconde o dinheiro. Ela é a caixa-preta viva do Valadares — concluí, dando o último gole no meu café. — Ela tá prestes a explodir.
Valadares desligou o telefone. Fez um sinal com os dedos, estalando no ar como se chamasse um cachorro. A assistente engoliu seco, guardou o tablet na bolsa, levantou de forma mecânica e entregou a ele um casaco. Valadares se levantou, jogou uma nota de cem dólares na mesa — só de sacanagem, pra não ter que esperar o troco — e caminhou em direção aos elevadores que levavam à garagem subterrânea. A assistente o seguiu, exatos dois passos atrás.
— Vai — Andressa ordenou. Não foi um pedido. Foi o estalar de um chicote tático. — Segue os dois. Descobre o tamanho do buraco negro que tem na vida dessa mulher.
Levantei, abotoei o terno e caminhei no ritmo de quem não tem pressa, mas não perde o alvo de vista.
O saguão do Fasano era um palco iluminado; a garagem VIP no subsolo era os bastidores, onde as máscaras caíam. O cheiro de flores caras deu lugar ao aroma de concreto úmido, borracha queimada e gasolina. O som dos meus sapatos ecoava no vazio do estacionamento de pé-direito alto.
Me escondi atrás de uma pilastra de sustentação larga o suficiente para cobrir minha sombra, há uns vinte metros da vaga onde um monstro estacionado descansava: um Porsche Cayenne preto, blindado, brilhando sob a luz fluorescente amarela do teto.
O motorista, um brutamontes de terno preto barato, abriu a porta traseira. Valadares entrou primeiro, esparramando-se no banco de couro. A assistente entrou logo em seguida, a porta pesada de aço blindado se fechando com aquele som surdo de cofre de banco.
O motorista nem fez menção de entrar no banco do motorista. Ele conhecia a rotina. Tirou um maço de cigarros do bolso, acendeu um e começou a caminhar em direção à rampa de saída, dando as costas para o carro, garantindo a "privacidade" do chefe.
A luz interna do banco de trás do Porsche não apagou. Fiquei imóvel, prendendo a respiração, observando pela fresta do vidro que Valadares havia deixado uns dois dedos aberta para o ar circular, ou talvez só pela arrogância de quem sabe que ninguém tem coragem de olhar pra dentro.
O que rolou ali dentro não teve nada a ver com o sexo selvagem e visceral que eu e Andressa tínhamos na cama dela. Não tinha tesão. Não tinha gemido, não tinha suor, não tinha pele esfregando na pele. Tinha apenas o mais puro, sujo e absoluto exercício de poder.
A assistente não se despiu. Ela nem sequer tirou os óculos. Valadares continuou encostado no banco, mexendo no celular, com a mesma cara de tédio de quem lê a cotação do dólar. Ele apenas afastou as pernas.
A mulher se abaixou. Vi a silhueta dela mergulhar no vão entre os bancos. O zíper do empreiteiro foi aberto com um som seco.
Ela começou a masturbá-lo e a usar a boca. Era um movimento metódico, rápido, frio. Valadares não fez um carinho nela. Ele não puxou o cabelo dela de um jeito sexual. A mão livre dele, pesada, repousava no cangote da assistente, empurrando a cabeça dela para baixo num ritmo que ele ditava, não para dar prazer, mas para reafirmar quem mandava naquela porra toda.
Fiquei observando, o estômago embrulhando não por puritanismo — eu já tinha visto de tudo nas zonas de Alvorada e nos becos de São Paulo —, mas pela brutalidade psicológica da cena. A mulher era um pedaço de carne utilitário. Um guardanapo de luxo que ele usava para descarregar o estresse de uma reunião e jogaria fora se manchasse.
Valadares não demorou muito. O corpo gordo dele deu um leve tranco, ele soltou um grunhido baixo, grave, e acabou. O prazer do tubarão era rápido e sem emoção.
Ele a empurrou de leve para trás. Através do reflexo, vi o rosto da assistente emergir da escuridão do banco. Ela puxou um lenço de papel da bolsa com as mãos trêmulas e limpou a boca. A expressão dela era um misto de nojo absoluto, ódio contido e uma exaustão que parecia vir do fundo da alma. Ela não olhou para o rosto do chefe. Ela ajeitou a saia, engoliu em seco e assumiu de novo a postura de robô.
Valadares fechou o zíper, abriu a porta do carro e saiu. Bateu a porta do blindado, gritou algo para o motorista, que jogou o cigarro no chão e correu para assumir o volante.
A assistente ficou lá dentro. O carro ligou, o motor rugiu e o Cayenne subiu a rampa em direção à luz da rua.
Dei as costas para a pilastra. Minha cabeça fervia. A teoria de Andressa sobre ler a carne tinha se provado a arma mais letal que eu já tive nas mãos. Eu tinha acabado de achar a rachadura na represa de Marcos Valadares.
Subi pelo elevador de serviço, ajustei a gravata, limpei a expressão de surpresa do rosto e voltei pro saguão. Andressa continuava na mesma posição, a taça de água intocada, uma esfinge observando o império ruir.
Sentei de frente pra ela. Puxei o ar com força.
— Você tinha razão — falei baixo, inclinando o tronco sobre a mesa de vidro. — O Valadares não vai quebrar nunca. O filho da puta tava lendo e-mail enquanto a assistente engolia a sujeira dele no banco de trás do blindado. Ele usa a mina como vaso sanitário mental.
Andressa apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos. Um brilho escuro tomou conta do olhar dela.
— O corpo dela? — ela perguntou, indo direto ao ponto, exigindo o diagnóstico clínico.
— Quebrado. Humilhado. Ela limpou a boca com a expressão de quem queria vomitar os próprios órgãos. A tensão dela não é de medo de ser presa com ele. A tensão dela é ódio. Ela carrega o peso do império do cara e o pagamento é ser tratada pior que lixo. Ela é uma bomba-relógio, Andressa. A mulher sabe os códigos do cofre, os contatos da prefeitura, os laranjas...
— E tudo o que ela precisa... — Andressa completou, um sorriso diabólico rasgando os lábios pintados de nude. — É de um lugar seguro para desmoronar. Se a gente der a ela o toque certo, o alívio que esse porco tira dela todos os dias... ela entrega a chave do reino dele na nossa mão.
— Exato — concordei. — A gente não ataca o rei, loira. A gente recruta o peão. Mas como a gente chega nela? O carro foi embora.
Andressa balançou a cabeça, o olhar fixo em um ponto atrás de mim.
— O carro foi embora com ele, Edu. Valadares não vai levar o vaso sanitário para uma reunião com o governador.
Virei o rosto devagar.
Lá estava ela. A assistente de Valadares acabava de passar pelas portas giratórias do hotel. Ela estava sozinha, carregando a pasta de couro pesado e o tablet. A postura ainda era rígida, mas os ombros estavam ligeiramente caídos. O nojo da garagem ainda pairava sobre a pele dela, invisível para todos os engravatados, mas gritante para mim e para Andressa. Ela caminhou em direção ao balcão de serviços, provavelmente para solicitar um carro do aplicativo ou resolver alguma burocracia que o chefe tinha esquecido.
Andressa se levantou. O movimento foi fluido, como o de uma leoa saindo da grama alta.
— Aprende como se fisga um coração desesperado, malandro — ela sussurrou, piscando para mim antes de cruzar o saguão.
Fiquei ali, imóvel, observando a mestra trabalhar.
Andressa não andou apressada. Ela caminhou com a autoridade de quem espalha calma. Aproximou-se da assistente por trás, mas de um jeito que a garota percebesse sua presença no espelho do balcão. Não houve susto.
Vi quando Andressa levantou a mão direita. Seus dedos finos e precisos repousaram exatamente na base do pescoço da assistente, ali onde o trapézio se encontrava com a nuca — o ponto de tensão máxima que tínhamos mapeado.
Foi apenas um toque. Leve, porém profundo.
Até do outro lado do saguão, eu consegui ver a reação física. O corpo da assistente reagiu instintivamente. Ela fechou os olhos. Um longo, cansado e profundo suspiro escapou de seus lábios, como se aquele único segundo de toque humano decente, despido de abuso ou poder, tivesse rachado o concreto da armadura dela. O ombro cedeu, apenas um pouco, mas o suficiente.
Andressa se inclinou. O rosto dela ficou a milímetros do ouvido da mulher. Vi os lábios da minha loira se moverem numa coreografia que eu sabia ser sussurrada num tom aveludado e letal.
A assistente abriu os olhos. Choque. Pânico. E, logo depois, o brilho aquoso do puro alívio.
Andressa não ficou para dar explicações. Com a mesma fluidez com que chegou, ela retirou a mão do pescoço da mulher, deslizou um cartão retangular, de um preto fosco absoluto, para cima do balcão de mármore, bem na frente do tablet. Sem nome. Sem logo. Apenas um número de telefone impresso em baixo-relevo prateado.
A loira deu as costas, o vestido tubinho desenhando sua vitória, e voltou para a minha mesa, sem olhar para trás para ver se a isca tinha sido engolida. Ela sabia que tinha.
— O que você disse pra ela? — perguntei, sentindo meu próprio sangue acelerar enquanto Andressa pegava a bolsa e deixava a xícara vazia na mesa.
Andressa deu aquele meio sorriso de quem já ganhou a guerra na primeira batalha.
— Eu disse a ela: 'É exaustivo ter que limpar a sujeira dos outros de joelhos, não é, querida? Quando você quiser que o mundo fique de joelhos pra você... liga pra esse número. O primeiro alívio é por minha conta.'
Olhei para o balcão. A assistente de Marcos Valadares estava paralisada. Ela olhava para o lugar onde Andressa a havia tocado e, com a mão trêmula, deslizou o cartão preto para dentro do bolso do paletó, guardando-o como se fosse a única boia de salvação num mar de merda.
O anzol estava preso. O Santuário tinha acabado de ganhar sua primeira fiel.
— Puta que pariu, Andressa — sussurrei, me levantando para acompanhá-la. — Nós vamos ficar ricos.
— Ricos, Eduardo? — Ela riu, caminhando rumo à saída, o som dos saltos batendo como um martelo de juiz. — Nós vamos ser deuses.

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Ficha do conto

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neymarodrigues

Nome do conto:
Novos Jogadores...

Codigo do conto:
262080

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
14/05/2026

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