Epifania Entre Mãe e Filho

Eu tinha cinquenta e seis anos quando a verdade me atravessou como uma lâmina fria.

Não foi uma briga. Não foi uma traição. Foi pior: o silêncio. Aquele silêncio doméstico de Pinheirinho, Paraná, onde o café esfriava na mesa e o marido — homem bom, trabalhador, de mãos calejadas e palavras poucas — continuava sendo exatamente o que sempre fora. Correto. Previsível. Ausente de qualquer tremor.

Eu olhei para ele uma manhã e percebi que nunca o havia desejado de verdade. Nunca. O segundo casamento era uma construção bem-feita, um teto sobre a cabeça, um nome na conta de luz. Mas amor? Amor era uma palavra que eu pronunciava por hábito, como quem reza sem fé.

Naquela manhã o sol entrava obliquo pela janela da cozinha, riscava a mesa de formica, iluminava a xícara rachada e o pão que ele mastigava sem pressa. Eu o observava como se fosse a primeira vez. As mãos, grossas, seguras no cabo da faca. O pescoço, já um pouco curvado. A boca que nunca dissera uma coisa imprevisível. E de repente compreendi — não com a cabeça, mas com algo mais fundo, mais antigo — que eu havia vivido ao lado da ausência. Não da ausência dele, mas da minha própria. Eu estava ali, e ao mesmo tempo não estava. Existia por contágio, por inércia, por uma espécie de gentileza para com o mundo que exige de nós uma forma.

Pedi o divórcio numa terça-feira. Ele não gritou. Só assentiu, como se já soubesse. Eu não chorei. Senti apenas um vazio estranho, quase aliviado, como se tivesse arrancado um peso que carregava há anos sem notar. O peso não era ele. O peso era a mentira quieta de que aquela vida bastava.

Nos dias seguintes a casa ficou ainda mais silenciosa. Ele dormia no quarto, eu no sofá. Às vezes, de madrugada, eu acordava e ouvia a respiração dele do outro lado da parede — regular, animal, inocente — e pensava: este homem nunca me feriu. E, precisamente por isso, nunca me alcançou. Havia uma pureza cruel na sua bondade. Uma bondade que não pedia, não cobrava, não desejava. E eu, que sempre fora feita de fome, me afogava nela.

Meu filho, o único, tinha vinte e nove. Foi criado pela avó no interior de Santa Catarina. Eu o vi crescer em visitas espaçadas, em feriados, em noites em que ele dormia no sofá da sala e eu ficava acordada ouvindo a respiração dele do outro lado da parede. Havia algo nele — um jeito de olhar, uma quietude que não era inocência — que sempre me perturbava. Eu nunca admitia. Guardava. Guardava como se guarda uma pedra no bolso, um peso secreto que aquece a mão.

Naquela época ele havia se separado. Veio passar uns dias. Eu ainda morava com o marido. Uma noite, depois que o homem dormiu, sentamos na varanda. O ar cheirava era tenso e carregado . Ele falou da solidão, do corpo que já não reconhecia no espelho da outra. Eu falei do casamento que se dissolvia sem drama. Nossas mãos se tocaram por acaso ao pegar o mesmo copo. Ficamos assim, dedos encostados, sem falar. O calor subiu devagar, como uma febre baixa. Foi a descoberta de que o silêncio entre nós não era vazio — era cheio de algo que eu não ousava nomear.

Naquela noite eu não dormi. Fiquei deitada no sofá olhando o teto rachado, e o teto me devolveu a imagem de mim mesma aos vinte anos, grávida, assustada, com o pai do menino já desaparecido. Eu havia entregado o filho à minha mãe porque não sabia ser mãe. Porque o corpo ainda pedia o mundo e o mundo pedia o corpo, e a criança era um peso doce demais para carregar sozinha. Agora ele estava ali, homem feito, e eu, pela primeira vez, o via sem a névoa da culpa. Via o maxilar, a forma da boca, a maneira como os olhos se demoravam nas coisas. E sentia — não desejo ainda, mas a possibilidade do desejo. Uma fenda.

No dia seguinte ele foi embora. O caminhão engoliu a estrada de terra e desapareceu atrás das árvores. Eu fiquei na porta, o marido ao meu lado, e pela primeira vez em anos o coração bateu forte demais. Não de medo. E sim de incertezas.

A separação oficial foi rápida, quase burocrática. Assinamos papéis num cartório de piso frio. Ele me olhou uma última vez e disse apenas: “Cuida de ti”. Eu respondi: “Tu também”. E foi isso. Uma vida de vinte e dois anos reduzida a duas frases e um carimbo.

Voltei para a casa da minha mãe, no interior de Santa Catarina. A mesma casa onde meu filho crescera. O cheiro de madeira velha, de café passado demais, de cupin comendo a madeira . Minha mãe, já quase oitenta, me recebeu sem perguntas. Ela sempre soubera que eu voltaria. As mulheres da minha família voltavam. Era uma espécie de gravidade.

Nas primeiras noites eu caminhava pela casa como quem reaprende o próprio corpo. Tocava as paredes, os móveis, as fotografias antigas. Em uma delas, meu filho aos sete anos, de pé na frente de um caminhão. O mesmo olhar quieto. Eu passava o dedo sobre o vidro e sentia, sob a pele, uma corrente subterrânea.

Ele passou a vir a cada quinze dias. Trazia café, notícias da estrada, o cheiro de diesel e sol. A cada visita a distância entre nós encolhia. Conversávamos até tarde. Ele contava das noites sozinho na cabine. Eu confessava o quanto o corpo ainda pedia o que o casamento nunca dera. Uma noite ele se aproximou e beijou minha testa. Fiquei imóvel. O beijo foi leve, quase filial, e ao mesmo tempo não era. Havia nele uma hesitação, uma pergunta. Eu não respondi. Só fechei os olhos e deixei que o calor daquele gesto descesse pelo meu pescoço, pelo peito, até o lugar onde a solidão se acumulava há décadas.

Outra noite, sentados na cozinha sob a lâmpada amarela, nossas mãos se tocaram de novo. Desta vez não foi acaso. Foi deliberado. Seus dedos se fecharam sobre os meus. Eu olhei para ele e vi — pela primeira vez sem medo — o homem que ele era. Não o filho. O homem. E algo em mim, algo que eu julgava morto, se moveu.

Não falamos daquilo. Ainda. Mas o silêncio entre nós mudara de qualidade. Já não era o silêncio de Pinheirinho, o silêncio da ausência. Era um silêncio denso, carregado, quase palpável. Um silêncio que embrulhava o estômago.

Eu começava a entender que a verdade não chega de uma vez. Ela se infiltra. Gota a gota. E quando finalmente se reconhece, já se está molhada até os ossos.

Naquela noite, deitada no quarto de infância, ouvi o caminhão partir de novo. O motor longe, depois o silêncio. E no silêncio, a certeza de que algo havia começado.

As visitas começaram a cada quinze dias, como se a estrada tivesse aprendido o caminho sozinha.

Ele chegava no fim da tarde, o caminhão ainda quente do asfalto, o cheiro de diesel grudado na pele e na camisa. Eu ouvia o motor de longe, antes mesmo de ver a poeira se levantando na estrada de terra. O corpo reagia antes da mente: um aperto baixo no ventre, uma secura na garganta, a sensação de que o ar da casa ficava mais denso. Minha mãe fingia não notar. Continuava na cozinha, mexendo alguma panela, e eu saía para recebê-lo no terreiro como se fosse apenas o filho voltando para casa.

Mas já não era apenas o filho.

Nas primeiras visitas ainda mantínhamos uma distância cuidadosa. Conversávamos na sala, depois na varanda, depois na cozinha sob a lâmpada amarela que zumbia. Ele falava da estrada: das noites sozinho na cabine, do sono interrompido pelo barulho de outros caminhões, do corpo que já não reconhecia no espelho dos postos de gasolina. Eu falava do divórcio sem drama, do vazio que restara, da maneira como o silêncio de Pinheirinho ainda ecoava dentro de mim. As palavras eram um pretexto. O verdadeiro diálogo acontecia no espaço entre as frases, no modo como nossos olhares se encontravam e se desencontravam, no calor que subia quando as mãos se tocavam por acaso ao passar o mesmo prato.

Uma noite, depois que minha mãe dormiu, ele se levantou da cadeira e veio até mim. Beijou minha testa. O beijo foi leve, quase reverente, e ao mesmo tempo carregado de uma hesitação que me atravessou. Fiquei imóvel. O calor da boca dele desceu pelo meu pescoço, pelo peito, até o lugar onde a solidão se acumulava há décadas. Não disse nada. Só fechei os olhos e deixei que aquele gesto existisse.

Na visita seguinte o beijo desceu. Estávamos na varanda. O ar tinha omcheiro do hálito dele misturado à jasmim que minha mãe plantara anos atrás. Ele se aproximou sem pressa, como quem reconhece um território proibido e mesmo assim avança. A boca tocou a minha. Foi lento. Quase experimental. Eu tremi. Não por medo. Por fome. Uma fome antiga, que eu julgara morta e que agora se levantava, faminta e sem nome. O beijo durou pouco. Quando nos separamos, ele apoiou a testa na minha e murmurou apenas o meu nome. Não “mãe”. O nome. E aquilo me quebrou por dentro de uma maneira que eu não sabia ser possível.

A partir daí a distância entre nós encolheu de forma irreversível. A cada quinze dias ele vinha. Eu inventava desculpas para minha mãe: que precisava de ajuda com alguma coisa no quintal, que íamos buscar remédio na cidade, que ele me levaria para ver uma amiga. Mentiras pequenas, frágeis, que ela aceitava em silêncio. Talvez soubesse. As mulheres da minha família sempre souberam mais do que diziam.

Conversávamos até tarde. Eu confessava o quanto o corpo ainda pedia o que o casamento nunca dera. Ele contava das noites em que acordava com o desejo batendo forte e não tinha para onde levá-lo. As mãos se tocavam com mais frequência. Os olhares se demoravam. Havia uma vergonha doce, ardente, que só aumentava a tensão. Éramos pecaminosos e livres ao mesmo tempo, e o paradoxo nos mantinha suspensos, quase flutuando.

Foi num baile de interior que a coisa se precipitou.

A festa era na sede da comunidade, uma construção simples de madeira e telha, com luzes coloridas penduradas no teto e o cheiro grosso de suor, cachaça e comida frita. Música alta, sanfona misturadas, gente dançando apertada no centro do salão. Eu não queria ir. Minha mãe insistiu. “Faz tempo que você não sai”, disse. Ele estava de visita. Acabamos indo juntos.

Dançamos perto demais. O corpo dele contra o meu, o calor subindo entre nós apesar da multidão. A cada volta a mão dele descia um pouco mais pelas minhas costas. Eu sentia o desejo dele pressionado contra a minha coxa e não me afastava. Pelo contrário: me aproximava. O ar estava denso. A música entrava pelos ouvidos e saía pelo corpo. Em algum momento ele murmurou no meu ouvido: “Vamos embora”. Eu apenas acenei.

O caminhão estava estacionado na estrada de terra, longe o suficiente das luzes da festa. A escuridão era quase absoluta. Só o farol fraco de algum carro distante e o brilho fraco das estrelas. Eu entrei primeiro. Ele subiu atrás de mim e fechou a porta. O silêncio dentro da cabine era diferente do silêncio de antes. Era um silêncio carregado, quase sólido.

Eu me incline sobre ele. Não houve palavras. Abri o zíper da calça. Tirei-o para fora, já duro, já quente. O cheiro dele — diesel, suor, homem — me atingiu com uma força que quase me fez gemer. Envolvi os lábios nele. Chupei devagar, sentindo o gosto salgado, o tremor das coxas dele sob minhas mãos. Ele gemeu o meu nome — de novo só o nome — e aquilo me atravessou como uma lâmina doce. Eu subia e descia a cabeça com uma fome que não reconhecia como minha, e ao mesmo tempo era a coisa mais minha que eu já sentira. Quando engoli, ele me puxou para o colo com uma urgência que não admitia hesitação.

Levantou a saia. A calcinha foi empurrada para o lado. Ele entrou em mim de uma vez. O caminhão balançou. Eu mordia o ombro dele para não gritar. Foi rápido, urgente, sujo de desejo acumulado por anos. O corpo se abria como se esperasse exatamente por aquilo. Cada estocada parecia desfazer uma camada de mentira que eu carregara a vida inteira. O casamento. A casa. A vida correta. Tudo se dissolvia no suor, no gemido abafado, no cheiro de nós dois misturado ao do diesel.

Depois ficamos quietos. Suados. A respiração ainda agitada. Ele me abraçou por trás, a boca no meu pescoço, e eu senti o coração dele batendo contra as minhas costas. Não falamos. Não precisávamos. O silêncio agora estava cheio. Cheio daquilo que eu não ousava nomear e que, no entanto, já era a única coisa verdadeira.

A partir daquela noite as visitas mudaram de natureza.

A cada quinze dias ele vinha. Eu inventava desculpas. No caminhão, na beira de alguma estrada, no mato, no motel barato de beira de rodovia. Ele me comia de todas as formas. De quatro, com a face pressionada no banco. Sentada nele, rebolando enquanto ele mordia meus seios. Deitada de costas, pernas abertas, olhando nos olhos enquanto ele entrava fundo e falava coisas baixas, obscenas e ao mesmo tempo ternas. “Você é minha.” “Eu te quero pra sempre.” Eu respondia com a boca e com o corpo. A vergonha existia, sim — uma vergonha doce, ardente, que só aumentava o prazer. Éramos pecaminosos e livres ao mesmo tempo.

Às vezes, no meio do ato, quando ele estava fundo dentro de mim e eu segurava o rosto dele com as duas mãos, pensava: isto é a única verdade que sobrou. O resto foi ilusão. O casamento. A casa. A vida correta. Isto aqui — o suor, o gemido, o cheiro de nós dois, o amor proibido que se recusava a morrer — era o que restava quando se rasgava a máscara.

E eu não queria voltar.

As noites se estendiam. Conversávamos depois, ainda suados, o corpo um contra o outro na cabine estreita. Falávamos do passado. Da avó que o criara. Do pai que eu nunca soubera nomear direito. Do desejo que nascera torto e virara o único lugar onde ambos respirávamos de verdade. Ele dizia que me olhava desde adolescente e sentia algo que não compreendia. Eu confessava que o olhar dele sempre me perturbara, que eu guardara aquela perturbação como se guarda uma pedra no bolso.

Havia momentos em que a culpa tentava subir. Uma onda fria, rápida. Mas bastava ele me tocar — a mão na minha coxa, a boca no meu ombro — para que a onda se dissolvesse. O corpo sabia mais do que a moral. O corpo reconhecia a fome e a saciava sem pedir licença ao mundo.

Minha mãe nunca perguntou. Mas certa noite, quando ele já dormia no sofá e eu passava pela sala, ela me olhou de cima dos óculos e disse apenas: “Cuidado com o fogo, filha. Ele queima dos dois lados.” Eu não respondi. Apenas continuei andando. Porque o fogo já estava aceso. E eu já estava dentro dele.

Os meses passaram. As visitas se tornaram o eixo da minha existência. O resto — a casa, a mãe, as tarefas domésticas — era apenas o intervalo entre uma chegada e a próxima. Eu aprendia o corpo dele como se aprende uma língua nova: a textura da pele, o gosto do suor, a maneira como ele tremia quando eu o tocava de determinado jeito. Ele aprendia o meu. E juntos, no escuro da cabine ou no mato ou no quarto de motel com parede fina, construíamos uma vida paralela, secreta, mais real do que qualquer outra que eu já tivera.

Uma noite, depois de um encontro particularmente intenso, ele me olhou e disse: “Um dia a gente vai embora de verdade.” Eu não perguntei para onde. Apenas apoiei a cabeça no peito dele e escutei o coração batendo. Porque eu já sabia. A estrada estava esperando. E nós dois já estávamos nela, mesmo ainda parados.

O desejo não diminuía. Pelo contrário: crescia, se refinava, se tornava quase cerimonial. Cada encontro era uma epifania. Cada orgasmo uma pequena morte e um renascimento. Eu, aos cinquenta e seis anos, descobria que o corpo ainda era capaz de se abrir completamente, de se entregar sem reserva, de gritar sem vergonha. E ele, aos vinte e nove, me olhava como se eu fosse a única coisa sólida no mundo.

Às vezes, no meio da noite, acordávamos ao mesmo tempo e nos olhávamos no escuro. Não havia necessidade de tocar. A presença bastava. O silêncio entre nós agora era uma casa. Uma casa que construíramos juntos, tijolo por tijolo de desejo e de reconhecimento.

E eu, que passara a vida inteira tentando caber em formas que não eram minhas, finalmente cabia. Cabia naquele corpo, naquela estrada, naquele amor torto e verdadeiro.

Não havia volta. E eu não queria que houvesse.

Três anos se passaram.

Hoje vivemos na estrada. Eu aprendi a dirigir o caminhão. Às vezes ele dorme enquanto eu conduzo pela BR, e eu olho para o perfil dele — a boca entreaberta, o maxilar relaxado, a mão pesada sobre a coxa — e sinto um amor tão grande que dói. Um amor que não pede licença, que não se justifica, que simplesmente existe, denso e inevitável como o asfalto sob as rodas.

A casa da minha mãe ficou para trás. Não houve discussão. Um dia eu disse que ia viajar com ele por uns tempos. Ela me olhou por cima dos óculos, demorou-se no meu rosto, e apenas assentiu. “Vai”, disse. “Mas lembra que o fogo queima dos dois lados.” Eu beijei a testa dela e subi na cabine. Não voltei.

Agora o Brasil é a nossa casa. As BRs são corredores longos, quentes, sem fim. Paramos onde der: em postos de gasolina no meio do nada, em beiras de estrada com o cheiro de capim molhado, em motéis baratos de parede fina e ar-condicionado barulhento, no mato quando a urgência não admite espera. Eu me deito sob ele, ou por cima, ou de joelho no chão da cabine. Ele me fode com a mesma urgência do primeiro dia, e depois me abraça como se eu fosse a única coisa sólida no mundo.

A urgência não diminuiu. Pelo contrário. Cada encontro parece carregar o peso de todos os anos em que nos olhamos sem tocar. Quando ele entra em mim, ainda sinto o corpo se abrir como se fosse a primeira vez. O suor escorre entre nós. O cheiro de diesel se mistura ao cheiro do sexo. Eu seguro o rosto dele com as duas mãos e penso — sempre penso — que isto é a única verdade que sobrou. O resto foi ilusão. O casamento. A casa. A vida correta. Isto aqui — o suor, o gemido, o cheiro de nós dois, o amor proibido que se recusa a morrer — é o que resta quando se rasga a máscara.

Conversamos sobre tudo. Sobre o passado. Sobre o que o sangue não consegue apagar. Sobre o desejo que nasceu torto e virou o único lugar onde ambos respiramos de verdade. Ele me conta das noites em que, adolescente, me via chegar nas visitas e sentia algo que não compreendia, uma inquietação baixa no ventre, uma vontade de se aproximar e ao mesmo tempo de fugir. Eu confesso que o olhar dele sempre me perturbara, que eu guardara aquela perturbação como se guarda uma pedra no bolso, um peso secreto que aquece a mão.

Às vezes, no meio do ato, quando ele está fundo dentro de mim e eu seguro o rosto dele, vejo o menino que foi e o homem que é, sobrepostos. A quietude do olhar nunca mudou. Só o que ela contém. Agora contém desejo. Contém reconhecimento. Contém a certeza de que somos um ao outro da única maneira possível.

Aprendi a dirigir o caminhão numa estrada reta do Mato Grosso. Ele me ensinou com paciência, a mão sobre a minha no câmbio, a voz baixa explicando os marchas. Eu sentia o peso do veículo, a vibração sob os pés, o poder bruto da máquina. E ao mesmo tempo sentia a mão dele, quente, firme, e o desejo subindo de novo. Paramos no acostamento. Não aguentamos chegar ao próximo posto. Ele me puxou para o banco de trás, levantou a saia, entrou em mim com a mesma fome de sempre. O caminhão balançava levemente. Eu mordia o ombro dele para não gritar. Depois, ainda ofegantes, ele me ensinou a engatar a marcha de novo. Eu ri. Ele riu. O riso era tão íntimo quanto o sexo.

Viajamos o Brasil inteiro. Passamos por cidades que eu só conhecera de nome. Dormimos sob o céu de Goiás, com as estrelas tão baixas que pareciam tocáveis. Fodemos numa praia deserta do Nordeste, a areia grudada nas costas, o barulho do mar entrando pelos ouvidos junto com os gemidos. Em Minas Gerais, num motel de beira de rodovia, ele me comeu de quatro enquanto eu olhava pela janela a chuva caindo fina sobre o asfalto. Em São Paulo, no meio do trânsito parado, ele deslizou a mão entre minhas pernas e me fez gozar em silêncio, a respiração presa, os olhos no retrovisor para que ninguém notasse.

A cada lugar o corpo aprendia uma nova nuance do outro. Eu descobria que ele gemia mais baixo quando eu o chupava devagar, quase devocional. Ele descobria que eu tremia inteira quando ele mordia o lóbulo da minha orelha e murmureva obscenidades. “Você é minha.” “Desde sempre.” “Só você.” Eu respondia com a boca e com o corpo. A vergonha ainda existia, às vezes — uma onda rápida, doce, que só aumentava o prazer. Éramos pecaminosos e livres ao mesmo tempo. E a liberdade era o que restava quando se abandonava tudo o que o mundo chamava de certo.

Às noites, quando paramos, conversamos longamente. Eu falo do marido, do silêncio de Pinheirinho, da maneira como nunca o desejei de verdade. Ele fala da solidão da cabine, das mulheres passageiras que nunca preencheram o vazio, do dia em que me beijou pela primeira vez e sentiu o chão se mover. Falamos do sangue. Do fato de que somos mãe e filho e, ao mesmo tempo, já não somos apenas isso. O sangue não apaga. Mas o desejo o atravessa, o ignora, o transforma em outra coisa. Uma coisa nossa.

Há momentos em que a realidade externa tenta invadir. Um olhar mais demorado de um frentista. Uma pergunta inocente de alguém num posto. “É sua mãe?” Ele responde com um sorriso curto: “É.” E a mão dele, sob a mesa ou no banco, aperta a minha coxa com uma posse quieta. Eu sinto o calor subir. Depois, no primeiro lugar isolado, ele me puxa e me fode com uma intensidade quase feroz, como se precisasse marcar novamente o território, lembrar o corpo de quem ele pertence.

Eu também marco. Com a boca, com as unhas, com o modo como o chamo pelo nome — só o nome — no momento do orgasmo. Não há “filho”. Não há “mãe”. Há apenas nós. Dois corpos que se reconhecem além de qualquer nome.

Às vezes, dirigindo pela madrugada, eu olho para ele dormindo e penso no tempo. Nos anos em que o vi crescer de longe. Nas visitas espaçadas. Na quietude do olhar que sempre me perturbara. Tudo fazia sentido agora. O desejo nascera torto, sim. Mas torto como as raízes de uma árvore que encontra o caminho mesmo sob a pedra. E agora a árvore estava de pé. Nós estávamos de pé.

O amor dói. Dói de tão grande. Dói porque carrega o peso do proibido e, ao mesmo tempo, a leveza de ser a única coisa verdadeira. Quando ele está dentro de mim e eu seguro o rosto dele, sinto que o mundo inteiro poderia acabar e eu não notaria. Só restaria aquilo: o suor, o gemido, o cheiro de nós dois, o ritmo antigo e novo dos corpos.

Não queremos voltar. Não há para onde voltar. A estrada é o único lugar onde cabemos. O caminhão é a nossa casa. O desejo é a nossa linguagem. E o silêncio entre nós — aquele silêncio que um dia foi vazio e agora está cheio — é a nossa oração.

Às vezes, no meio de uma BR qualquer, sob um céu baixo de nuvens, ele desliga o motor, me puxa para o colo e me beija como se o mundo fosse acabar. Eu abro a boca, abro as pernas, abro tudo o que ainda resta de mim. Ele entra. O caminhão balança. Eu mordo o ombro dele. E por um instante — um instante eterno — não existe passado, não existe sangue, não existe culpa. Existe apenas a verdade crua e quente de dois corpos que se encontraram do único jeito possível.

E eu, que aos cinquenta e seis anos rasguei a máscara, agora vivo sem ela. Vivo suada, ofegante, livre. Vivo com ele dentro de mim e ao meu lado. Vivo na estrada.

E não quero voltar.

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Ficha do conto

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Nome do conto:
Epifania Entre Mãe e Filho

Codigo do conto:
269646

Categoria:
Incesto

Data da Publicação:
11/08/2026

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2

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