O mês de novembro chegou trazendo um calor intenso. As chuvas haviam cessado, e a terra voltava a rachar sob o sol forte do interior baiano.
Na varanda da casa de Antônio, a carta do primo de Salvador continuava guardada dentro da gaveta da cristaleira.
Todos os dias ele dizia a si mesmo que precisava responder.
Todos os dias adiava.
Miguel foi o primeiro a tocar no assunto.
— Pai... o senhor ainda está pensando em ir embora?
Antônio pousou a colher sobre o prato.
— Estou pensando no que é melhor para vocês.
— Mas o melhor não é ficar aqui?
Davi interrompeu a conversa.
— Eu não quero deixar a madrinha.
Aquelas palavras atravessaram Antônio como uma faca.
As crianças haviam criado raízes naquela casa, naquela rua, naquela família improvisada.
Na manhã seguinte, João apareceu cedo.
Levava apenas uma sacola de pano.
— Trouxe umas sementes de milho. Dizem que essa variedade aguenta melhor a seca.
Antônio sorriu.
— Você sempre aparece com alguma novidade.
Os dois caminharam até a plantação.
O trabalho ocupava as mãos, mas não a cabeça.
Depois de algum tempo, João perguntou:
— Você já decidiu?
Antônio respondeu sem olhar para ele.
— Ainda não.
João respirou fundo.
— Se ficar... vai continuar sofrendo.
— E se eu for... também.
Os dois riram de leve.
Era um riso cansado.
Daqueles que escondem lágrimas.
Naquele mesmo dia, Helena recebeu uma visita inesperada.
Era dona Celina, uma vizinha conhecida por saber de tudo o que acontecia na cidade.
Depois de alguns minutos de conversa, comentou casualmente:
— Seu marido e o compadre vivem juntos, não é? Bonita amizade...
Helena sorriu.
— São amigos desde meninos.
A mulher tomou um gole de café antes de continuar.
— Hoje em dia o povo inventa cada história... Ainda bem que eu não dou ouvidos.
Helena permaneceu imóvel.
— Que histórias?
Dona Celina percebeu que havia falado mais do que devia.
Tentou mudar de assunto.
Mas já era tarde.
Naquela noite, Helena contou a João.
— Estão começando a comentar.
João empalideceu.
— Comentar o quê?
— Ainda são só insinuações.
Mas basta uma pessoa maldosa para transformar isso em escândalo.
Os dois permaneceram em silêncio.
Sabiam muito bem o que significava viver na década de 1970.
Numa cidade pequena.
Durante a ditadura.
Qualquer pessoa considerada "diferente" podia perder o emprego, a reputação ou simplesmente desaparecer da convivência da comunidade.
Dias depois, Antônio foi chamado pelo padre Joaquim.
O velho sacerdote era respeitado por todos.
Recebeu-o na pequena sala ao lado da igreja.
— Meu filho... ouvi dizer que está pensando em deixar a cidade.
Antônio confirmou.
— Talvez seja o melhor.
O padre o observou por alguns segundos.
— Fugir nem sempre resolve.
— Às vezes é a única maneira de proteger quem a gente ama.
O padre não respondeu imediatamente.
Levantou-se, caminhou até a janela e contemplou a praça.
— A vida nos coloca diante de cruzes diferentes. Algumas pesam nos ombros. Outras pesam na alma.
Antônio saiu dali ainda mais dividido.
Naquela noite, reuniu Miguel e Davi na varanda.
Os meninos brincavam com um lampião apagado, fingindo que era um navio.
— Preciso conversar com vocês.
Os dois pararam imediatamente.
— Existe a possibilidade de irmos morar em Salvador.
Miguel abaixou a cabeça.
Davi abraçou o pai.
— A madrinha vai junto?
Antônio sorriu, mas seus olhos estavam marejados.
— Não, meu filho.
— E o padrinho?
Ele demorou para responder.
— Também não.
Davi começou a chorar baixinho.
Miguel, tentando parecer mais velho do que realmente era, apenas perguntou:
— Se a gente for... um dia pode voltar?
Antônio olhou para o céu escuro.
Gostaria de responder que sim.
Mas já aprendera que algumas despedidas não têm data para acabar.
Naquele instante, do outro lado da cidade, João permanecia acordado na varanda de sua casa.
Helena aproximou-se em silêncio e colocou uma xícara de café em suas mãos.
Sem olhar para ele, disse apenas:
— Se Antônio decidir partir... vá até a estação se despedir.
João a encarou, surpreso.
Ela respirou fundo antes de completar:
— Há encontros que mudam uma vida.
Mas também existem despedidas que precisam acontecer para que a vida continue.
João segurou a xícara com as mãos trêmulas.
Pela primeira vez, compreendeu que Helena, mesmo com o coração ferido, estava lhe oferecendo um último gesto de amor: a oportunidade de não deixar que a pessoa que amava partisse sem um adeus.