Capítulo 23 — O reencontro

Capítulo 23 — O reencontro

Naquela noite, João não conseguiu dormir.

A frase de Helena ecoava em sua mente.

"Escreva uma carta dizendo apenas a verdade."

Sentou-se à mesa da cozinha, acendeu o lampião e puxou uma folha de papel. Pela primeira vez em mais de uma década, não procurou metáforas.

Não falou da ponte.

Não falou das chuvas.

Não falou das colheitas.

Escreveu apenas:

*"Antônio,

O Brasil mudou. Nós também.

Passei anos acreditando que o melhor que eu podia fazer era amá-lo de longe. Hoje já não sei se isso basta.

Se ainda houver espaço em sua vida para um velho amigo, gostaria de vê-lo outra vez.

Não para recuperar o tempo perdido, porque esse ninguém devolve.

Quero apenas olhar nos seus olhos sem o medo que carregamos por tantos anos.

Se puder, venha.

Estarei esperando.

Seu compadre,

João."*

Quando terminou, dobrou cuidadosamente a carta.

Helena entrou na cozinha ainda de madrugada.

Leu o rosto do marido antes mesmo de ver o envelope.

— É essa?

João confirmou.

— É a primeira carta em que não escondo quem eu sou.

Helena sorriu com ternura.

— Então envie.

Dias depois, em Salvador, Antônio voltou do porto e encontrou um envelope sobre a mesa.

Reconheceu imediatamente a letra.

Sentou-se antes mesmo de abri-lo.

Leu cada palavra devagar.

Depois tornou a ler.

E mais uma vez.

As mãos tremiam.

Miguel, agora um homem de vinte e poucos anos, entrou na sala.

— Pai... aconteceu alguma coisa?

Antônio levantou os olhos, marejados.

— Seu padrinho quer me ver.

Miguel sorriu.

— Então vá.

— É mais complicado que isso.

— Não para mim.

Miguel sentou-se ao lado do pai.

— Eu cresci vendo o senhor guardar cartas, fotografias e um bilhete dobrado como se fossem um tesouro.

Nunca perguntei porque sabia que um dia o senhor me contaria.

Hoje eu não preciso mais da resposta.

Só preciso dizer que o senhor merece ser feliz.

Antônio ficou em silêncio.

Pouco depois, Davi chegou da oficina.

Ao saber da carta, abraçou o pai pelos ombros.

— A vida já tirou muita coisa da gente.

Não deixe que tire essa oportunidade também.

Na semana seguinte, Antônio embarcou sozinho.

Quando o ônibus entrou na velha cidade do interior, quase nada parecia igual.

Havia ruas calçadas onde antes existia barro.

Algumas casas tinham sido reformadas.

Outras haviam desaparecido.

Mas a igreja permanecia no mesmo lugar.

E, em frente à estação ferroviária, João esperava.

Os cabelos estavam completamente brancos.

As rugas marcavam seu rosto.

Mesmo assim, Antônio o reconheceu no mesmo instante.

Os dois caminharam lentamente um em direção ao outro.

Pararam frente a frente.

Nenhum dos dois era o homem de 1972.

O tempo lhes levara a juventude.

Mas não levara o afeto.

João foi o primeiro a falar.

— Achei que você não viria.

Antônio sorriu.

— Demorei treze anos.

Mas cheguei.

Os dois se abraçaram.

Sem pressa.

Sem medo.

Sem olhar para os lados.

Pela primeira vez em toda a vida, não havia necessidade de esconder aquele gesto.

Quando se afastaram, ouviram uma voz conhecida.

— Acho que já está na hora de vocês pararem de desperdiçar tempo.

Era Helena.

Ela caminhava em direção aos dois com um sorriso tranquilo.

Os três permaneceram juntos por alguns instantes.

Não como vítimas de um segredo.

Mas como sobreviventes de uma época que lhes roubara muitos anos.

E, enquanto o sol se punha sobre a pequena cidade, Antônio percebeu que algumas histórias de amor não terminam quando os amantes se separam.

Elas apenas esperam o tempo certo para voltar a florescer.


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Ficha do conto

Foto Perfil jauebano
onegrocontador

Nome do conto:
Capítulo 23 — O reencontro

Codigo do conto:
266765

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
10/07/2026

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