Pela janela, Miguel e Davi viam rios, plantações de cana, pequenas estações e cidades que nunca tinham conhecido. A cada parada, vendedores ofereciam cocadas, amendoins e café em garrafas de vidro.
Para as crianças, tudo era novidade.
Para Antônio, cada quilômetro significava deixar uma parte de si para trás.
No bolso da camisa, o bilhete de João parecia pesar mais do que a própria mala.
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Ao chegarem a Salvador, foram recebidos por Augusto, o primo que havia enviado a carta.
Era um homem de fala rápida, mãos calejadas e sorriso acolhedor.
— Seja bem-vindo, primo. A cidade é grande, mas a gente aprende a viver nela.
Miguel olhava para os bondes.
Davi apontava para os prédios altos.
— Pai... isso tudo é Salvador?
Antônio sorriu.
— É só o começo.
A casa era simples.
Dois quartos, uma sala pequena, cozinha e um quintal estreito onde mal cabia um pé de mamão.
Não era a casa da roça.
Não havia o cheiro da terra molhada.
Não havia o canto dos galos ao amanhecer.
Mas havia um futuro.
Na segunda-feira, Antônio começou a trabalhar no porto, descarregando sacas de cacau e café dos navios que chegavam de vários lugares do mundo.
Era um serviço pesado.
Ao fim do dia, voltava com as mãos machucadas e as costas doloridas.
Mesmo assim, fazia questão de jantar com os filhos todas as noites.
Miguel passou a estudar em uma escola pública próxima.
Davi, ainda pequeno, fazia amizade com todas as crianças da rua.
A adaptação foi lenta.
Mas aconteceu.
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Enquanto isso, no interior...
João continuava acordando antes do amanhecer.
Instintivamente, olhava para a estrada que levava à casa de Antônio.
Só então se lembrava de que ela estava vazia.
A casa permanecia fechada.
As janelas, cobertas de poeira.
O quintal, tomado pelo mato.
Helena o observava da janela.
Sabia exatamente o que ele fazia todas as manhãs.
Nunca comentou.
Em vez disso, preparava o café e o chamava com a mesma delicadeza de sempre.
— João...
Ele se virava.
— O café está pronto.
Ela nunca tentou apagar as lembranças dele.
Apenas o ajudava a continuar vivendo.
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Um mês depois, uma carta chegou pelo correio.
Era de Miguel.
A letra ainda era torta, mas caprichada.
> "Madrinha Helena,
A escola daqui é muito grande. Fiz amigos. Davi vive dizendo que a senhora faz falta porque ninguém faz bolo igual ao seu.
Papai trabalha muito. Às vezes chega cansado, mas sorri quando a gente fala da senhora e do padrinho.
Quando puder, escreva pra gente.
Com saudade, Miguel."
Helena leu a carta duas vezes.
Depois a entregou a João.
Ele sorriu pela primeira vez em semanas.
Naquela noite, os dois responderam juntos.
Helena escreveu quase toda a carta.
No final, entregou a caneta ao marido.
João ficou alguns segundos olhando o papel.
Por fim, escreveu apenas uma linha.
> "Diga ao seu pai que a ponte sobre o riacho continua firme."
Quando Helena leu aquela frase, entendeu seu verdadeiro significado.
Não falava da ponte de madeira.
Falava do laço que continuava unindo dois homens separados pela distância.
Ela dobrou a carta sem dizer nada.
Na manhã seguinte, caminhou até o correio.
Ao depositar o envelope na caixa, sorriu discretamente.
Talvez a vida tivesse levado Antônio para longe.
Mas havia coisas que nem a distância, nem o tempo, nem o medo conseguiriam destruir.
E, pela primeira vez desde a partida, a esperança voltou a morar no coração dos três.