Os preparativos para a mudança ocuparam os dias seguintes.
A casa de Antônio começou a mudar de aparência. Os poucos móveis foram vendidos ou doados aos vizinhos. As ferramentas que não caberiam na viagem ficaram com um primo. Restaram apenas as roupas, alguns utensílios de cozinha, fotografias de família e os brinquedos de Miguel e Davi.
As crianças viviam um misto de ansiedade e tristeza.
Miguel fingia coragem.
— Salvador deve ser bonita, pai.
Mas, quando ninguém olhava, ele caminhava até o velho pé de manga no quintal e permanecia ali em silêncio, como quem tentava gravar cada detalhe da infância na memória.
Davi fazia perguntas o tempo inteiro.
— Lá tem rio?
— Tem.
— Tem passarinho?
— Tem.
— E madrinha?
Antônio nunca conseguia responder essa última.
Na casa ao lado da praça, Helena passava as noites costurando.
Pegou um pedaço de tecido azul-marinho e começou a transformá-lo em uma pequena colcha.
Bordou, à mão, dois passarinhos pousados no mesmo galho.
No canto inferior, escreveu apenas uma frase:
"Onde houver amor, haverá sempre um caminho de volta."
Quando terminou, dobrou a colcha com cuidado.
Era seu presente para Miguel e Davi.
Na véspera da viagem, toda a vizinhança se reuniu para um jantar simples.
Levaram bolos, galinha ensopada, farofa, mandioca cozida e café fresco.
O padre Joaquim fez uma oração.
Pediu proteção para Antônio e seus filhos naquela nova etapa da vida.
Ninguém imaginava que, entre os presentes, três corações se despediam em silêncio.
Depois da oração, Miguel aproximou-se de João.
— Padrinho...
— Diga, meu filho.
— O senhor vai visitar a gente?
João sorriu, embora os olhos estivessem marejados.
— Se Deus permitir... um dia vou.
Miguel abriu os braços.
João o abraçou demoradamente.
Depois fez o mesmo com Davi.
Helena observava a cena.
Seu coração doía.
Mas, pela primeira vez desde a confissão, percebeu que a dor já não vinha acompanhada de revolta.
Vinha apenas da saudade antecipada.
Quando todos foram embora, restaram apenas os quatro adultos... e as crianças, já adormecidas sobre um banco da varanda.
Antônio caminhou até João.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Foi Helena quem quebrou o silêncio.
— Amanhã vocês partem antes do amanhecer.
Antônio confirmou com um movimento de cabeça.
— Não quero que as crianças acordem vendo a cidade inteira chorando.
Helena sorriu entre as lágrimas.
— Então deixem que eu me despeça agora.
Ela abraçou Antônio.
Depois segurou seu rosto entre as mãos.
— Obrigada por confiar seus filhos a mim todos esses anos.
— Eles sempre vão lembrar da senhora como uma segunda mãe.
Helena não conseguiu conter o choro.
Em seguida, voltou-se para João.
Os dois permaneceram frente a frente.
— Você não precisa ir à estação amanhã — disse ela.
João balançou a cabeça.
— Preciso.
Ela segurou sua mão.
— Então vá.
Mas volte para casa.
Independentemente do que sentir.
João apenas assentiu.
Naquela madrugada, ninguém dormiu.
Antônio passou horas sentado ao lado das camas dos filhos.
Helena permaneceu olhando pela janela.
E João escreveu apenas uma frase em um pequeno pedaço de papel.
Dobrou-o cuidadosamente e colocou no bolso da camisa.
Ao nascer do sol, quando a carroça começou a seguir lentamente pela estrada de terra em direção à estação ferroviária, João já os esperava.
O apito distante do trem ecoou pelo vale.
Era o som de uma despedida.
Mas também o início de uma história que nenhum dos três ainda sabia como terminaria.