Os dias seguintes passaram lentamente.
Antônio finalmente respondeu à carta do primo. Não prometeu que iria para Salvador, apenas disse que estava considerando a mudança e perguntou se ainda havia trabalho e uma pequena casa para alugar.
Enquanto aguardava a resposta, tentou manter a rotina.
Acordava antes do sol.
Cuidava da roça.
Levava Miguel e Davi até a escola.
À tarde, os meninos quase sempre corriam para a casa da madrinha.
Helena fazia questão de que nada mudasse para eles.
Naquela quarta-feira, ensinava Miguel a resolver contas de divisão, enquanto Davi desenhava passarinhos em uma folha de papel.
— Madrinha... — perguntou Davi. — Salvador é muito longe?
Helena parou por um instante.
— É longe o bastante para sentir saudade... mas perto o bastante para voltar um dia.
O menino pareceu satisfeito com a resposta.
Mas ela sabia que nem toda distância era medida em quilômetros.
Naquela mesma tarde, João apareceu na casa de Antônio levando uma caixa de ferramentas.
— Vim consertar a porta do galinheiro.
Antônio sorriu.
— Você inventa serviço onde não existe.
— Talvez.
Os dois trabalharam lado a lado até o fim da tarde.
Quando terminaram, sentaram-se na cerca de madeira olhando o sol desaparecer atrás dos coqueiros.
— Você respondeu à carta? — perguntou João.
— Respondi.
João baixou a cabeça.
Era a confirmação de que a despedida estava cada vez mais próxima.
Depois de um longo silêncio, Antônio falou:
— Sabe do que vou sentir mais falta?
João sorriu de leve.
— Da roça?
— Também.
Fez uma pausa.
— Mas vou sentir falta de alguém que nunca imaginei que pudesse amar.
João fechou os olhos.
Por um momento, desejou esquecer o mundo inteiro e apenas dizer o que sentia.
Mas lembrou-se de Helena.
Lembrou-se das crianças.
E guardou as palavras para si.
Na sexta-feira, chegou a resposta de Salvador.
Havia trabalho.
Havia uma casa simples.
E havia esperança de um recomeço.
Miguel correu pela casa, curioso.
— Pai... então nós vamos?
Antônio olhou para os dois filhos.
Depois olhou pela janela, na direção da casa dos compadres.
Respirou profundamente.
— Vamos.
A notícia se espalhou rapidamente.
Os vizinhos organizaram um pequeno jantar de despedida para a semana seguinte.
Todos queriam ajudar o viúvo e seus filhos.
Todos acreditavam que Antônio estava partindo apenas em busca de uma vida melhor.
Apenas três pessoas conheciam a verdade.
Na noite anterior ao jantar, Helena chamou Antônio para conversar.
Encontraram-se na varanda de sua casa, enquanto João permanecia no quintal, dando espaço aos dois.
Helena entregou-lhe uma pequena caixa de madeira.
— O que é isso?
— Abra quando chegar em Salvador.
Antônio segurou a caixa com cuidado.
— Não precisava...
Ela sorriu.
— Precisava, sim.
Você me deu dois afilhados que fizeram minha casa parecer um lar.
Deixe que eu lhe dê uma lembrança.
Os olhos de Antônio se encheram de lágrimas.
— Nunca vou esquecer tudo o que fez por nós.
Helena respirou fundo.
— Prometa apenas uma coisa.
— Qual?
— Cuide de você.
Cuide dos meninos.
E... cuide dele, mesmo que seja apenas em suas lembranças.
Antônio não conseguiu responder.
Apenas abaixou a cabeça.
Naquele momento, João apareceu na porta.
Os três ficaram em silêncio.
Pela primeira vez, não havia culpa entre eles.
Havia apenas uma tristeza compartilhada.
Uma tristeza que unia aquelas três vidas de um jeito que ninguém na pequena cidade jamais conseguiria compreender.
E, enquanto a noite caía sobre o interior da Bahia, cada um deles sabia que a despedida já havia começado, muito antes de a carroça deixar a cidade.