Cidade pequena do interior, distante mais de cinco horas da capital, voltada principalmente para o agronegócio com uma população extremamente conservadora que fez do Santo Miguel Arcanjo uma atração turística religiosa, foi onde nasci e me criei numa família que vivia do comércio e não era adepta desse fanatismo religioso que imperava por todos os cantos da cidade. Me descobri gay após a puberdade e não escondi isso dos meus pais, embora temesse pela reação deles, especialmente do meu pai que era o tipo de homem habituado a ser o macho provedor.
Nesse aspecto posso me considerar um cara de sorte. Quando expus minha sexualidade, ainda cheio de dúvidas e com milhares de perguntas sem resposta, a reação dele foi inicialmente de perplexidade, mas depois, encarou a situação com bom senso sem deixar de me amar por conta disso.
- Prometo não comprometer a sua honra, papai! Eu ainda nem bem sei como é ser gay, mas acho que por me sentir atraído por garotos, devo mesmo ser gay. Não vou fazer disso uma bandeira para afrontar a sociedade. Quero ser um gay discreto, quem sabe um dia conhecer um carinha que me compreenda e me complete, para que possamos ser felizes juntos. – afirmei. – Você não precisa se explicar para ninguém, nem dar satisfação aos parentes se eles, por acaso, vierem a desconfiar que não sou tão homem quanto meus primos ou os outros garotos.
- Lucas, filhão, apenas seja você! Não viva um personagem só para agradar os outros. Você é único e ninguém deve te dizer como viver a vida do jeito que ela te foi presenteada. Você é um adolescente ajuizado, querido pelos colegas da escola, admirado por seus tios, elogiado pelos clientes que frequentam a loja e te conhecem desde pequeno. Sua mãe e eu temos orgulho do filho que temos, e vamos te amar sempre, estar aqui toda vez que precisar, e fazer o que estiver ao nosso alcance para te ver feliz. Lembre-se que ninguém vai viver sua vida por você, nem pagar suas contas, nem responder pelos seus atos. Portanto, apenas seja você, filhão! – aquilo colocou fim a minha angústia que vinha me tirando o sono há meses.
- Amo você, papaizão, mamãe! – exclamei emocionado quando os abracei.
Em pequenas cidades do interior as pessoas são mais toscas, avessas a novidades, preservadoras de hábitos e costumes antigos e tudo que fugir disso é visto como fruto de modernices que estão a colocar o mundo no caos. A moralidade é ditada por regras rígidas, especialmente em relação aos outros, embora seja maleável quando se trata de si mesmo ou dos desvios de personalidade de cada um. A religião, bem, essa nem se fale, é enfiada goela abaixo daqueles pouco instruídos, ou dos que a seguem cegamente guiados através de antolhos para que não saiam da direção que se lhes quer impor. Com o advento dessas novas religiões, pastores com índole mais discutível que a dos padres, cada vez mais querendo controlar a vida dos fiéis e os forçar a regras descabidas, fazendo-os acreditar que são melhores que as outras pessoas, que as podem julgar e as enquadrar em sua visão limitada.
Nós morávamos num bairro de classe média da cidade que ainda conservava aquele clima de interior com casas com jardins na frente e quintais nos fundos, ruas arborizadas onde as pessoas faziam a maioria de suas atividades caminhando a pé até os comércios que se concentravam nas avenidas arteriais da cidade. Eu caminhava meia dúzia de quarteirões para chegar à escola, e todos os dias passava em frente à casa do Seu Júlio e da Dona Mariana, um casal que tinha duas filhas e um filho, o Jonas, que já era homem feito embora, devido a sua excepcionalidade, parecesse um pré-adolescente. Durante o parto complicado, ele sofreu uma prolongada hipóxia neonatal desenvolvendo uma encefalopatia hipóxico-isquêmica que resultou num déficit neurológico e atraso mental.
O Jonas passava horas debruçado no muro baixo da casa observando os transeuntes e interagindo com eles à sua maneira peculiar. Ele era grande e desenvolvido fisicamente, um pouco acima do peso e com uma expressão facial que não deixava dúvidas de tratar-se de uma pessoa com a cognição comprometida. Isso, no entanto, não o impedia de ser bem-humorado e gostar do contato com estranhos, embora poucos conseguissem entender sua fala devido a apraxia, outra sequela da hipóxia prolongada. Eu ainda era um garotinho quando ele já estava na faixa dos vinte anos, e costumava ir até a casa dele para brincar com bolinhas de gude onde ele quase sempre rapelava todas as minhas bolinhas, jogar bafinho com figurinhas de times de futebol das quais ele tinha uma coleção invejável, ou vê-lo desenhar com traços ligeiros tudo que avistava ou que estava em sua mente conturbada; os desenhos tinham uma qualidade impressionante. Sua habilidade com as mãos parecia compensar tudo o mais que lhe faltava. Era uma amizade bizarra a nossa, tanta diferença de idade cronológica, porém com uma sinceridade e singeleza que jamais enxergou essas diferenças. Eu o cumprimentava e fazia alguma observação toda vez que ia ou voltava do colégio, muitas das vezes presenteando-o com algumas balas, chocolates ou qualquer guloseima que minha mãe enfiava na minha lancheira. Ele era particularmente fissurado nos meus cadernos, o que me fez presenteá-lo com um caderno de desenho e um estojo de lápis coloridos, com os quais ele passava horas fazendo desenhos que deixariam muitos artistas estarrecidos. À medida que eu crescia, me tornava mais ciente de suas limitações sem que isso interferisse na nossa amizade.
Eu estava conduzindo minha sexualidade com discrição e cuidado, no entanto, todo gay carrega em si uma natureza menos máscula que, uma hora ou outra, transparece em seus gestos, fala e atitudes, por mais que se queira evitá-las para não ficar exposto ao julgamento alheio. Porém, durante o ensino médio, essas características começaram a chamar a atenção daqueles garotos que se achavam mais homens do que eu, mais machos, mais comedores de bocetas, me enquadrando como veado por não me mostrar tão propenso a atuar da mesma maneira.
O pior é que esses mesmos garotos cresceram comigo, eram vizinhos, eram colegas de classe, eram filhos de pais que frequentavam o comércio dos meus pais e, de repente, passaram a me tratar como um alienígena, alguém que não estava seguindo os padrões estabelecidos. Eu era popular no colégio, não só pela loja do meu pai que todos da cidade conheciam, mas por ser um excelente aluno, me dar bem com todos, estar cercado de garotas e garotos. Só havia uma diferença, enquanto eles começavam a ver as garotas não mais apenas como uma amiga, mas como uma boceta potencialmente promissora, eu as tinha como parceiras nas quais não fazia a menor importância se tinham uma bunda bonita, coxas grossas, peitos grandes ou qualquer outro aspecto que deixasse a molecada de pau duro. E, olha que eles andavam obcecados com suas picas, seu tamanho e o quanto podiam impressionar as garotas fazendo-as se interessarem por eles. Prova disso eram as paredes das cabines dos banheiros do colégio que viviam melecadas de porra de tanto que se masturbavam.
Com o tempo alguns desses antigos colegas não só deixaram de falar comigo, como passaram a fazer bullying comigo, a tripudiarem sobre a minha bunda excessivamente proeminente e sensualmente carnuda, uma vez que ela lhes causava o mesmo tesão que as garotas. Como isso jamais podia ser admitido, era mais fácil me taxar de veado, me desprezar por estar provocando essas sensações em seu íntimo, fazendo de mim um bode expiatório para provar quão machos eles eram. Não dei muita importância quando se afastaram de mim, continuei sendo o mesmo cara amistoso com aqueles que não me viraram a cara, e isso foi demais para eles. Uma afronta que, mesmo não sendo intencional, eles não podiam admitir.
As brincadeiras foram se tornando cada vez mais cruéis, mais violentas, mais agressivas. Elas aconteciam geralmente no vestiário do ginásio de esportes antes ou após as aulas de educação física. Num episódio, cercado por quase meia dúzia de caras, me deixaram pelado e me enfiaram debaixo da ducha onde me bolinaram e tentaram enfiar suas picas no meu cu. A coisa só não aconteceu porque um garoto foi avisar o professor e a aparição dele fez o grupo debandar antes de consumar o estupro. A partir daí passei a ter medo deles, algo que nunca tinha sentido antes.
A direção da escola se mostrou omissa quando meu pai formalizou uma queixa contra eles. Uma vez por semana, nas três semanas seguintes, o diretor fez um discurso longo e desprovido de sentido sobre o sexo na adolescência, os perigos de uma gravidez indesejada, as chances de contrair doenças sexualmente transmissíveis e toda essa baboseira que justificasse uma resposta ao que fizeram comigo. Na tentativa de estupro ele não gastou sequer uma palavra, mas todos sabiam que aqueles discursos fora da grade pedagógica eram para tapar aquela falha em sua administração. Houve mais piadas e observações indecorosas durante seus sermões do que um aprendizado. Depois disso, as agressões ficaram piores e comecei a receber ameaças. Cheguei a pensar em mudar de colégio, mas os vestibulares estavam próximos e eu queria entrar na faculdade o quanto antes. No último dia letivo do ano, ao término das provas finais, fui encurralado num dos corredores e jogado para dentro de uma sala vazia por quatro brutamontes que me cobriram de porradas e chutes, antes de ser deixado ali com o nariz sangrando e o corpo coberto por hematomas.
Meus algozes eram sempre os mesmos. Os dois irmãos, João Pedro e José Carlos que moravam dois quarteirões abaixo da minha rua; o Alberto, filho do dono de uma assistência técnica para equipamentos de refrigeração, o caçula dos Medeiros, Flávio, um casal que tinha um quiosque de lanches e pasteis na praça central da cidade; e o Murilo, filho da Dona Lucila, uma divorciada que trabalhava numa loja de uma conhecida rede de magazines. Exceto o José Carlos que era dois anos mais velho, e estava numa classe mais adiantada que a minha, os demais eram meus colegas de turma. O quinteto compunha o terror do colégio. Se julgavam os gostosões por serem grandes e fortes usando isso para dar em cima das garotas e para subjugar aqueles com os quais implicavam por algum motivo fútil. Professores já estavam acostumados com a bagunça que aprontavam em sala e viviam os mandando para a diretoria, enquanto o próprio diretor não dava conta de controlar a baderna e os estragos que promoviam no colégio. Eu era, sem dúvida, a vítima predileta deles por terem concluído que eu só podia ser gay. Era bonito demais, andava com as roupas sempre alinhadas e combinando, estava sempre numa rodinha de garotas, era um pouco desengonçado nas atividades esportivas e andava com uns caras muito nerds para o gosto deles, e era dono de um bundão que mal cabia nas calças e que provocava um tesão alucinante em qualquer macho tarado por bundas.
Dessa vez a agressão virou caso de polícia. Meu pai deu queixa na delegacia da cidade e os envolvidos e seus pais tiveram que prestar depoimentos. Já não era mais uma simples briga entre estudantes, mas um crime cometido por agressores. Alguns dias depois, o muro da nossa casa e as portas da loja amanheceram pichadas – Aqui mora um veadinho, morte às bichas! – em letras garrafais.
Passei dias com as sequelas da agressão bem visíveis pelo rosto e corpo, os primeiros deles trancado em casa devido as dores. Parecia que eu tinha sido atropelado por um caminhão, cada movimento vinha acompanhado de um – Ai – pungente. Quando finalmente criei coragem para sair até a casa de uma amiga, e passei pela casa do Jonas ele ficou todo agitado ao me ver. Quando algo o perturbava ele ficava nessa agitação descoordenada e emitindo sons desarticulados. Ele apontava para os meus hematomas e machucados no rosto e braços grunhindo frases sem sentido.
- Fica calmo Jonas! Eu sei, não estou nada bonito, mas já passou, está passando! Logo estarei completamente curado! Não precisa ficar tão nervoso! – consolei-o quando ficou tão abalado com minha aparência que mal sabia o que fazer, gesticulando como se estivesse tendo uma convulsão. – Sim, eles bateram em mim! – respondi à pergunta que ele não conseguia articular, mas que mesmo assim eu compreendi. – Agora trate de se acalmar! Que tal me mostrar seu último desenho? Você fez um que eu sei, me mostre! – pedi, para desanuviar seu cérebro confuso.
Ele correu para dentro de casa e voltou com o caderno que eu lhe havia dado e que já estava todo amarrotado e com poucas folhas ainda em branco. Fiquei impressionado com os detalhes e a perfeição dos traços no desenho onde eu o estava abraçando em sua festa de aniversário ocorrida quatro dias antes de eu levar a surra. Não consegui conter as lágrimas que rolaram pelo meu rosto, que ele tocou com suavidade à sua maneira insegura e desengonçada.
Fiquei feliz ao me livrar deles quando entrei na faculdade no curso de Sistemas de Informação. O curso noturno me permitia ajudar na loja do meu pai durante o dia deixando mais tempo livre para a minha mãe. Ainda no primeiro ano, conheci o Sérgio que cursava o terceiro ano de Ciências da Computação e não era da cidade, residindo numa edícula que nossa vizinha alugava para estudantes. O Sérgio foi o primeiro cara por quem meus instintos de gay se abalaram, a ponto de um frenesi tomar conta de mim cada vez que o avistava. Ele era grande, forte, parrudo, tinha um expressivo e sensual rosto de macho viril, músculos por todo corpo e um pacotão voluptuoso entre as pernas. A mulherada suspirava por ele tanto quanto eu que passei a ter sonhos eróticos com ele e a sentir uma comichão no cuzinho toda vez que meus olhos focavam naquela coisa volumosa sob suas calças.
Como vizinhos, nos entrosamos assim que ele se mudou para a edícula. Foi ele inclusive quem me sugeriu o curso de Sistemas de Informação. Ele costumava tomar sol no gramado que separava a casa principal da edícula usando um short que o deixava tremendamente sexy. Ele me convidou algumas vezes para as festas que a turma dele promovia nas repúblicas e isso foi nos aproximando cada vez mais. Eu ficava intimidado diante dele, tinha receio de que se soubesse que eu era gay nossa amizade acabasse, mas ele parecia gostar do meu jeito tímido, de como eu ficava corado quando ele falava alguma besteira relacionada a sexo.
- Já te disseram que você fica mais lindo quando cora desse jeito? – perguntou-me certa vez. Meu silêncio e o rosto queimando o fizeram sorrir, pouco antes de tocar meu rosto com sua mão grande e pesada.
Notei que ele não queria avançar o sinal sem ter certeza de que eu aceitaria seu assédio, mas eu dava abertura. De tão discreto e desconfiado por ter sofrido bullying a adolescência toda, eu me mantinha reservado.
Meus pais eram sócios do Guaíra clube de campo onde eu costumava aproveitar das piscinas nas férias verão, o qual deixei de frequentar pelo João Pedro, o José Carlos e o Alberto também serem sócios e se aproveitarem dos nossos encontros para zoarem comigo. Fazia um sábado bonito e quente quando convidei o Sérgio para ir ao clube comigo. Ele topou na hora e não escondeu a satisfação de me ver de sunga cobrindo parcialmente minhas nádegas polpudas. Fiquei sem graça quando ele precisou ajeitar o pauzão dentro da dele, e fazer um comentário libidinoso.
- Duro vai ser domar essa pica com você desfilando na minha frente com esse rabão gostoso de fora.
- Deixa de ser besta! Não estou com o rabo de fora! Eu, hein! Vou voltar ao vestiário e colocar uma bermuda se isso te perturba tanto assim! – ameacei.
- Paro de falar com você se fizer isso! Que mal tem eu elogiar sua bunda? Você não pode ser ingênuo a ponto de não saber que tem um tesão de bunda e que isso deixa a gente de pau duro. – devolveu, numa cantada que atiçou meu corpo todo.
Quando me viram conversando animadamente com o Sérgio e se darem conta do quão macho ele era, os três se aproximaram de onde estávamos e começaram a proferir ofensas.
- Sabia que esse cara é um tremendo de um veadinho? Não é isso, Lucas? Conta para o seu namorado aí como a gente passava a mão na sua bunda durante as aulas de educação física e como você suspirava pelas nossas rolas. – inventou o Alberto, como sempre respaldado pelos comparsas, pois sozinho não teria coragem para tanto.
- Vá se ferrar, seu cretino! Eu nunca dei bola para nenhum de vocês! Vocês é que viviam me aporrinhando a ponto de terem que prestar esclarecimentos na delegacia.
- Não é bem isso que dizem por aí! O que rola de boca em boca é que você é chegado num cacete de macho! – interveio o José Carlos.
- Qual é a de vocês? Sumam daqui! – exclamou irritado o Sérgio.
- Qual é a tua perguntamos nós, cara? Você nem deveria estar aqui, isso é só para sócios! Ficou com ciúmes do veadinho, ficou? – provocou o Alberto.
O Sérgio levantou da espreguiçadeira e os três vieram para cima dele. Não foram mais que alguns golpes de judô e alguns socos para dois deles estarem se contorcendo no chão enquanto o terceiro havia ido parar dentro da piscina com o nariz sangrando. Fui dar queixa na administração e, com o testemunho das pessoas que assistiram à provocação, os três foram colocados para fora do clube com uma advertência e multa para os donos dos títulos.
- Você está bem? Não devia ter reagido, são um bando de babacas covardes que só provocam quando estão em maioria. – afirmei. – Deixa eu ver essa mão, vamos até a enfermaria colocar um curativo nisso. – sugeri, quando vi que a mão dele sangrava.
- Não vou permitir que te tratem assim na minha frente! Você já deve ter percebido o quanto gosto de você, Lucas. Não fosse a sua timidez, nós já estaríamos ficando. – eu mal acreditei no que estava ouvindo. Ele me queria, um cara lindo e gostoso estava a fim de mim.
- Também gosto muito de você! – devolvi, corando para variar, mas extraindo um sorriso sensual dele.
- O que você disse, não ouvi direito?
- Que eu .... tonto! Claro que ouviu, ouviu muito bem, por isso está aí todo cheio de si. – retruquei.
O Sergio me convidou a passar um feriadão na casa dos pais em Curitiba, sua cidade natal. Meu pai hesitou um pouco embora gostasse bastante dele por eu estar andando bem mais feliz e sorridente desde que começamos a andar juntos. Eu me sentia culpado pelos meus pais estarem tão preocupados com a minha segurança, depois de tudo que aconteceu. Eles meio que entravam em pânico cada vez que eu saia, nem que fosse até a esquina. Até chegaram a cogitar de nos mudarmos de cidade, o que seria injusto para com eles que tinham uma vida estabilizada e estavam cercados de parentes e amigos de longa data.
Enquanto dirigia, ele voltava constantemente o olhar na minha direção com um brilho lascivo que não deixava dúvida quanto as suas intenções, tão logo ficássemos a sós em seu quarto.
- Que foi, por que está me olhando com essa cara? – perguntei, apesar da já saber a resposta.
- Nada! Que cara? É a minha de sempre, a que você gosta de ficar alisando a barba. – respondeu, dando uma de inocente.
- Cara de tarado! Bem essa que está aí agora, junto com esse troço enorme e duro no meio das tuas coxas. – ele riu e pousou a mão sobre a minha perna.
- Para você ver como eu sofro quando fico perto de você sem poder te tocar, sem poder beijar esses lábios vermelhos e úmidos, sem poder .... – devolveu.
- Pode parar por aí, eu já sei onde está querendo chegar com essa conversinha.
- Se sabe, então me responda, vai me deixar fazer o que eu quiser quando te tiver em meus braços? Inclusive aquilo?
- Vou pensar no seu caso! – respondi, ciente de que me entregaria a ele assim que sentisse seus braços me envolvendo.
Os pais dele eram pessoas expansivas e divertidas, me receberam com visível afeição, provavelmente já sabendo das intenções do filho para comigo. Tanto que me alojaram no quarto dele, onde haviam colocado uma cama dupla em substituição a de solteiro. Fiquei vermelho feito um pimentão quando a mãe dele me levou até o quarto e mencionou a troca. Eles já sabiam que o Sergio ia me comer assim que ficássemos a sós.
Não deu outra. Ele alegou estar cansado da viagem e quis ir dormir algumas poucas horas depois do jantar. Pela disposição dele, ninguém acreditou em suas palavras, apenas lhe dirigiram um risinho complacente.
Eu saí do banheiro com a toalha enrolada na cintura e me deparei com ele recostado na cabeceira da cama, pernas abertas e bolinando com o pauzão à meia-bomba. Eu nunca o tinha visto por inteiro e, embora suspeitasse do tamanho, engoli em seco ao constatar seu dote cavalar.
- Vem cá, vem! Vem cuidar de mim! – pediu num tom de voz sensual onde sobrava safadeza.
- Minha nossa, Sergio! O que é isso? – a pergunta escapuliu do tão chocado que fiquei com o caralhão veiúdo, cabeçudo e grosso, e com o sacão peludo e o contorno das bolonas dentro dele.
- É minha caceta, oras! O que mais seria? E, como você pode ver, está pedindo suas carícias.
- Claro que eu sei o que é! Só não fazia ideia de que fosse .... desse tamanhão todo! – exclamei, fazendo rir.
- Gostou? Ficou assustado?
- Assustado? Por que eu haveria de ficar assustado? Que pergunta mais besta!
- Se não ficou assustado, vem cá dar um trato nele! Não vejo a hora de sentir sua boca mamando minha rola. – o safado nem tentava amenizar a situação e, para piorar, meu cuzinho estava num rebuliço só.
Aproximei-me da cama com cautela, mas assim que ele me alcançou, me puxou para cima dele e me beijou com uma intensidade e volúpia sem precedentes. Eu fui abrindo a boca devagar, deixando sua língua me penetrar, sentindo sua saliva escorrer enquanto lambia seus lábios. A toalha se foi quando despenquei em cima dele, a bundona lisinha e alva ficou ao alcance de suas mãos e foi amassada com tesão. Eu gemi com a boca colada na dele, nunca antes alguém havia pego minha bunda com tanta cobiça. Ele rolou comigo para o lado ficando sobre mim, o que me fez estremecer por estar sendo subjugado pelo corpão pesado dele e por sua força superior à minha. Eu sabia que não ia apanhar, mas foi impossível dissociar a pegada potente dele das vezes em que me colocaram nessa posição antes de me agredirem.
- Espera! Espera um pouco! Eu preciso ....
- O que foi? Não precisa ter medo, Lucas, não vou te machucar! Eu só te quero! Quero que seja meu, não receie, vou ser bem carinhoso, prometo! – asseverou, vendo o pavor estampado no meu rosto.
- Eu sei, é que ... é que ...
- Já te machucaram nessa posição, mas eu não vou fazer isso! Se quiser ficar por cima, tudo bem! Apenas se entregue, deixe eu te sentir todinho meu.
Ele rolou de volta e me levou consigo. Afaguei o rosto dele, o cobri de beijos, e encarei aquele olhar que me transmitia uma segurança ímpar.
- Te adoro, sabia! – exclamei
- Sabia! Eu também te adoro e te quero!
Fui descendo os beijos lentamente pelo peitoral e abdômen dele, ouvindo seu arfar ficando ligeiramente rouco e acelerado à medida que me aproximava do caralhão que se empinava dando pinotes curtos. Minhas narinas foram invadidas pelo cheiro almiscarado que emanava de sua virilha. Peguei na pica pela primeira vez e a sentir pulsando, as veias que a rodeavam ficando mais ingurgitadas e quentes. A cabeçorra estufada brilhava de tão melada com pré-gozo e eu a envolvi com os lábios procurando engolir o máximo que podia. Ela foi parar na minha garganta e eu comecei a chupar o néctar viscoso que ela soltava. O Sergio gemeu alto, retraiu as pernas e afundou os dedos nos meus cabelos, empurrando o pauzão na minha goela. Esqueci do mundo enquanto chupava aquela rola agitada, e não ouvi, ou prestei atenção quando ele me preveniu do gozo iminente. Só me dei conta do que dizia quando o primeiro jato de sêmen cremoso se misturou à minha saliva, delicioso, alcalino, amendoado. Engoli-o às presas quando o segundo encheu minha boca a ponto de um pouco escorrer pelo canto dos lábios. Ele grunhia e se contorcia esporrando forte em meio ao prazer.
- Isso Lucas, seu tesudinho, engole a porra do teu macho, engole! Tesão do caralho, você está mamando minha porra! – exclamava ele perdido no prazer.
Não desperdicei sequer uma gota daquele néctar leitoso, maravilhado por ter conseguido fazer ele gozar tanto. Ele coletou e enfiou nos meus lábios a porra que estava no meu queixo, e eu os lambi, encarando-o com um sorriso apaixonado.
Ele não conseguia parar de olhar para a minha bunda, ela o excitava desde a primeira vez que me viu, e ele nunca fez segredo disso. Já havia me dito algumas vezes que não conseguia controlar o tesão diante dela e nem as ereções meladas que o deixavam constrangido. Nunca tinha sentido isso antes, nem com garotas, nem com outros caras, e desde então não pensava noutra coisa que não meter a pica no meu cuzinho. Agora eu estava ali, ao alcance dele, sentindo o mesmo tesão arrebatador por seu falo suculento.
- Chegou a hora de eu comer seu rabo, seu rabudão! Vou meter nessa bunda até você gemer e me chamar de seu macho! – afirmou, amassando meus glúteos polpudos.
- Eu nunca dei, Sergio! Vai ser a primeira vez. Promete ser cuidadoso, promete? Dizem que dói muito dar o cu, e eu só fico imaginando esse pauzão enorme entrando em mim, não sei se aguento. – confessei temeroso.
- Dá mais tesão ainda saber que serei o primeiro, que está me entregando sua virgindade. Vou enfiar devagar para não te machucar tanto, prometo. – asseverou.
- Machucar? Vai me machucar? – questionei aflito, sentindo o dedo dele explorar minha fendinha estreita.
- Não vou mentir, você é muito apertado, meu pau é meio grossinho, vai doer e te machucar um pouco no começo, mas depois passa e você vai pedir mais, porque veadinhos como você que nasceram para dar prazer aos machos gostam de sentir uma rola atolada no cu. – devolveu, com o pauzão encorpando e endurecendo descaradamente.
- Mais uma razão para você ir devagar! Promete, Sergio? Promete ser cuidadoso?
- Você já está se tremendo todo, não precisa ter receio! Vai gostar quando eu estiver todo dentro de você! – garantiu. – Mas chega desse papo, estou explodindo de tanto tesão! Quero esse rabo! Deita de bruços e abre as pernas! – ordenou, num tom de voz grave e dominante que vinha usando comigo ultimamente toda vez que me queria submisso. Obedeci, não pela ordem em si, mas por não estar mais aguentando olhar para aquele caralhão duro que provocava um verdadeiro rebuliço nas minhas pregas anais.
Ele montou em mim, ficou sarrando o pauzão num vaivém libidinoso no meu reguinho profundo e liso. Gemi feito uma cadela no cio, o corpo quase convulsionando, o cu piscando e o tesão me fazendo perder o controle.
- Ai Sergio, mete no meu cu, mete macho! – balbuciei em êxtase.
- Quer pica no cu, quer veadinho? O rabão está te matando de tesão, está?
- Sim, está, acho que está, eu quero sentir você dentro de mim! – respondi, rebolando e empinando a bunda contra a virilha pentelhuda dele.
Ele me prendeu entre suas pernas, abraçou meu tórax, amassou os biquinhos dos meus mamilos e chupou a pele da minha nuca, enquanto eu gemia agitado pelo tesão. O pauzão duro escorregava no meu rego envolto pelos glúteos quentes. Ele arfava forte, excitado, pronto para me possui.
Sua mão larga tapou minha boca antes do grito aflorar quando a cabeçona distendeu minhas preguinhas e afundou no cuzinho virgem. Eu não esperava que a dor fosse tão intensa, e me agitei sob o peso dele.
- Já vai passar, Lucas! Abre o cuzinho para o teu macho, abre, tesudinho! O que tinha que rasgar já rasgou, estou dentro! – grunhiu ele extasiado, ao sentir meus esfíncteres apertados encapando sua rola grossa.
Eu havia perdido a coordenação motora ao sentir meu ânus rasgando em meio àquela dor pungente, como podia me abrir se nem ao menos consigo controlar os espasmos. Meu cuzinho travou com aquela coisa imensa pulsando dentro dele. Ele repetiu a ordem para que me abrisse, mas eu continuava paralisado e aflito. Então veio o beijo, de início suave, roçando meus lábios e ganhando força, a língua dele me penetrou e se entrelaçou com a minha. Os pelos do peitoral dele fazendo cócegas nas minhas costas, a virilha acoplada às minhas nádegas, o sussurrar licencioso dele me dizendo que eu era um tesão, que eu era tesudo e gostoso, que ia encher meu cuzinho de porra. Meus músculos tensos foram relaxando, o calor dele incendiando minha pele, os esfíncteres se abrindo e engolindo gradualmente o pauzão que ele ia enfiando para dentro de mim. Meus gemidos eram uma mistura de dor e prazer, um prazer sem igual, um prazer de entrega. Com o caralhão estreitamente encapado pelos meus esfíncteres, ele começou a bombar, ambos gemendo à medida que o prazer se intensificava.
- Puta rabão gostoso da porra, seu veadinho! Nunca fodi um rabo tão tesudo! Sente minha pica te arrombando, sente rabudinho do caralho! – ronronava ele, socando fundo em mim, o que fazia o sacão bater nas minhas nádegas abertas.
A cada estocada mais potente, eu tinha a sensação de que a qualquer instante a cabeçorra ia aflorar na minha boca, de tão empalado que me sentia. Uma contração forte e o gozo jorrou do meu pinto junto com um gritinho devasso de puro prazer.
- Ai Sergio, ai macho, meu cuzinho, macho! – balbuciei em êxtase, enquanto a porra jorrava. Nunca havia sentido tanto tesão, tanto prazer no cuzinho e no pinto a um só tempo.
Ele grunhiu rouco, me apertou com mais força em seus braços, se estremeceu todo, o caralhão inchou no meu rabo e ele urrou lambendo e mordiscando minha orelha quando começou a ejacular. Cada estocada vinha acompanhada de um jato tépido que escorria sobre a mucosa anal esfolada, penetrando fundo no cu arregaçado.
- Lucas, meu gayzinho fofo! Meu veadinho rabudo! Geme, geme e me chama de seu macho, geme veadinho! – sussurrava, gozando e desoprimindo os colhões abarrotados.
O suor do tórax dele escorria pelas minhas costas. Ele arfava pesado, mas não me soltava. As pulsações do cacetão iam arrefecendo aos poucos, depois de haverem esporrado tanto que o sêmen leitoso chegou a vazar escorrendo pelo meu rego. Ele esperou o caralhão murchar para o sacar numa puxada abrupta, que me fez soltar outro ganido aos distender as preguinhas rasgadas. Nunca me senti tão feliz. Quando ele rolou para o lado, respirando acelerado e soltando o corpão, eu me debrucei sobre ele, afaguei seu rosto, beijei-o tão intensa e carinhosamente na boca que se abria para receber meus lábios, eu tive a certeza de que era isso que eu queria para a minha vida, um homem que me amasse, que entrasse em mim e depositasse sua virilidade nas minhas entranhas, deixando meu corpo marcado com sua intrepidez.
Ao final do feriadão, na viagem de volta, meu ânus ardia e estava tão sensível que a cada passo eu sentia uma fisgada profunda, que me lembrava dos momentos maravilhosos em que o Sergio esteve dentro de mim. Ele não parava de pegar nas minhas coxas, virava para o meu lado e sorria fazendo declarações apaixonadas. Ao me deixar em casa, fez questão de falar com meus pais para informar que estávamos oficialmente assumindo nosso namoro. Eu sabia exatamente o que estava por trás dessa atitude. Foi seu jeito de comunicar que de agora em diante, ia comer meu rabo com o aval deles.
O primeiro namorado, a primeira transa com ele, a entrega da virgindade, os primeiros compartilhamentos com alguém fora da família são coisas que marcam e que nunca se esquece. Era isso que eu estava vivendo com o Sérgio, enquanto fazíamos planos para o futuro. Ao término da faculdade, que para ele aconteceria dentro de dois anos, ele voltaria para Curitiba onde procuraria um emprego e prepararia o campo para a minha vinda assim que eu terminasse a minha faculdade. Falávamos sobre isso depois das transas, abraçados na cama e trocando carícias. Eu não estava mais sonhando com um príncipe encantado, eu o tinha no meu colo cofiando delicadamente sua barba, ou estava com a cabeça deitada no peitoral largo dele ouvindo seu coração bater.
Ele voltou para Curitiba uma semana após a formatura, já com um emprego em vista, pois tinha enviado pelo menos duas dezenas de currículos. Durante essa semana ele fodeu meu cuzinho como se não houvesse amanhã. Eu mal juntava as pernas e já tinha que as abrir para levar mais vara no rabo tão tarado ele estava.
- Não sei se vou aguentar ficar longe de você. – afirmei, quando nos despedimos, ambos com os olhos marejados.
- Venho me encontrar com você todos os feriados e você pode vir à Curitiba toda vez que tiver um tempinho. Vamos dar um jeito de não fazer dessa distância um empecilho para o nosso amor. – disse ele, confiante de me ter em definitivo assim que eu terminasse a faculdade. – Só uma coisa me preocupa, você solto por aí com tantos gaviões voando à sua volta só esperando a chance de atacar, de meterem as picas nesse seu rabão tesudo.
- Isso nunca vai acontecer! Eu já tenho meu gavião, meu garanhão, meu touro, meu macho, e não pretendo trocá-lo por nenhum outro! – devolvi, num tom de voz manhoso enquanto deslizava as pontas dos dedos enfiados entre os botões da camisa, sobre os pelos de seu peito.
- Esses dedos e essa carinha safada estão me deixando de pau duro! Vou ter que foder seu cuzinho de novo, antes de pegar a estrada! – afirmou, com o tesão a lhe provocar outra ereção.
- Então entra logo nesse carro! Não devo ter mais nenhuma prega do cu inteira do tanto que você me enrabou nessa última semana. – devolvi, apertando o pauzão rijo dele.
- É assim que eu gosto! Ver seu cuzinho inchado, vermelho e encharcado com a minha porra, me dá a certeza que sou seu macho. – retrucou, me puxando para um beijo sensual. – Debruça no capô do carro, vai ser agora mesmo! – acrescentou, abrindo a calça, baixando o zíper e tirando o caralhão cabeçudo para fora.
- Ficou doido! Minha mãe está em casa e pode aparecer a qualquer momento. Quer que ela nos flagre com você montado no filho dela? – questionei, enquanto ele me dobrava sobre o capô do carro estacionado em nossa garagem.
- E você acha que ela já não está cansada de saber o que eu faço com o filhinho dela quando dormimos juntos? – indagou, enquanto pincelava o pauzão no meu rego procurando a rosquinha na qual se empurrou todo para dentro ao a sentir na cabeça estufada da pica.
Só me soltou depois de outra baita esporrada que chegou a vazar e escorrer pela minha coxa. Me beijou com sofreguidão, entrou no carro e partiu. Minhas pernas ainda tremiam, o cu ardendo e os olhos cheios de lágrimas quando o carro virou a esquina e desapareceu.
Nos encontrarmos com a frequência que havíamos imaginado não foi tão fácil assim. Os meses iam passando, a saudade cada dia maior, os papos em horários pré-determinados pelo Whatsapp já não supriam aquele vazio em nossos peitos. Ora era eu quem estava em provas, ora era ele compromissado com o trabalho que vinha exigindo muito dele, para provar que sua contratação havia valido à pena e que era um forte candidato às promoções. Contudo, apesar das dificuldades, o namoro continuou, a paixão parecia crescer com a ausência.
Foi então que aconteceu. Era uma noite de sexta-feira, eu voltava da faculdade e caminhava os últimos três quarteirões até chegar em casa quando, ao dobrar a esquina, me deparei com os cinco me esperando na calçada ao lado do carro com as portas abertas e o som alto tocando. Meu primeiro instinto foi dar meia volta e correr, mas dois deles bloquearam minha fuga.
- Aonde pensa que vai, bichinha? Não tenha pressa, vamos levar um papo! Faz tempo, não é? Você deve estar sentindo nossa falta! Conta aqui para a gente, sente saudades de nós, não sente, veadinho do caralho? – perguntou o Alberto, o filho do dono da assistência técnica, que havia se tornado um vagabundo do qual o pai estava cansado de tentar colocar nos trilhos.
- Cadê teu macho, ele te abandonou, foi? Quem é que está fodendo o seu cu agora? Saca só a minha rola, está durinha pronta para te foder, seu veado da porra! – exclamou o Murilo, filho da divorciada, sacolejando acintosamente o pauzão que tirou da calça.
Eu tentei driblar a passagem, mas era constantemente impedido até ser prensado contra o muro alto de uma casa que ficava sombreado pela copa de uma árvore. Devido ao horário, as pessoas estavam recolhidas dentro de suas casas e só esparsamente passava um carro. Eu estava tão apavorado que não sabia bem o que fazer, já que correr e fugir já não era mais uma opção. Gritei por socorro o mais forte que consegui. Levei uma bofetada tão potente que perdi o equilíbrio e tive que me amparar no muro.
- Se fizer isso de novo, seu veado escroto, acabamos com você aqui agora mesmo, entendeu? – ameaçou o José Carlos, irmão do João Pedro que eram praticamente meus vizinhos e tinham acompanhado todas as minhas idas e vindas com o Sérgio, cientes do que rolava entre nós.
- Vocês já tiveram que se explicar na polícia, se fizerem qualquer coisa comigo, vão responder por isso também. – ameacei, antes de levar outra bordoada estalada na cara do irmão dele.
- Está nos ameaçando, veado filho da puta? Você bem sabe no que deu seu pai ir à delegacia e fazer uma queixa contra nós. Não deu em nada! Levamos um esporro do delegado e foi só! E é por isso que estamos aqui, para acertar as contas, agora que seu namoradinho não está mais aqui para te socorrer. – disse ele, dando mais um tapa na minha cara.
- Sabemos que você é chegado numa rola de macho, e tem cinco aqui para foder seu cu, veado! Vamos arrombar seu rabo, pois bichinhas feito você gostam de andar com o cu arrombado. - disse o Flávio que, de uns tempos para cá, vinha ajudando o pai no quiosque da praça central da cidade.
Mal havia terminado de pronunciar a ameaça, partiu para cima de mim e, com a ajuda dos demais rasgaram minhas roupas as arrancando do meu corpo até eu estar completamente nu. No desespero comecei a chorar e implorar para não me machucarem e me deixarem ir embora. Risadas de escárnio foi a resposta que obtive.
- Tu vai dar esse rabo até a gente decidir quando te deixar ir embora, veado da porra! Será que você ainda não entendeu isso, puto do caralho?
De tão aterrorizado que eu estava, comecei a revidar as agressões, comecei a dar socos e chutes tentando impedir o estrupo coletivo. Enquanto se divertiam com a minha reação pífia, as rolas nas mãos fora das calças, iam me agarrando, batendo quando eram acertados por algum dos meus golpes e me contendo até o primeiro deles, o José Carlos, o mais bruto deles, conseguir me penetrar. Com a boca e o nariz cobertos por uma larga tira adesiva eu mal conseguia respirar, quanto mais gritar. Apesar disso, o grito abafado os ensandeceu. Meu olhar arregalado enquanto ele socava violentamente o pauzão no meu cu os encheu de tesão.
- Quieto, porra! Para de se agitar, você não vai conseguir fugir, caralho! – afirmou, dando um potente soco nas minhas costas para me subjugar.
O entra e sai da pica à seco e com meus esfíncteres travados pelo pavor, estava me dilacerando o rabo, enquanto os outros bolinavam meu corpo, mordiam nos meus mamilos quase arrancando os biquinhos, e esperavam sua vez de me violentar. Ouvi o urro dele quase ao mesmo tempo que senti o esperma dele entrando em mim. Findo o gozo, ele puxou o pauzão saciado para fora e exibiu meu cuzinho aberto e sangrando para os comparsas. O Murilo não perdeu tempo, era o que estava mais próximo e socou a verga rija dele num único golpe para dentro de mim. Apesar de já estar aberto, eu gritei quando as pregas se romperam desencadeando uma dor que repercutiu no fundo das minhas entranhas. Ele ficou grudado em mim por uns dez minutos antes de gozar, soltando um gemido rouco de satisfação.
- Esse veado é apertado para caralho! O macho dele deve ter uma piquinha, porque não conseguiu abrir esse cu! – disse, ao sacar a rola do meu cuzinho.
Veio então o João Pedro, que pelo que pude constatar num relance, era o que tinha a maior pica. Voltei a me debater na tentativa de impedir a penetração daquela coisa grossa e enorme, mas foi em vão. Ele me agarrou pela cintura, me puxou contra a virilha e entrou em mim empurrando o cacetão até suas bolas ficarem entaladas entre as bandas da bunda. Quase sem ar, eu gritei a plenos pulmões, o que de nada adiantou com o adesivo tapando minha boca. O João Pedro bombou com força, o caralhão socava meu púbis e me obrigava a ganir de tanta dor, o que só aumentava a tara dos que estavam presenciando o coito forçado. Senti que estava perdendo as forças, a humilhação crescia dentro de mim junto com uma raiva demoníaca. Porém, meu corpo já não reagia mais. Uma letargia se apossava dele e, não fosse eles estarem me segurando, teria desabado no chão. Percebendo que eu estava cada vez mais fraco, me dobraram sobre o capô do carro, sem interromper as estocadas no meu cuzinho, até eu ouvir o urro prazeroso dele se despejando em mim, até a porra vazar e escorrer pelas pernas.
Quando o Flávio me penetrou eu já estava tão abatido que apenas um estremecimento ligeiro reagiu à entrada do cacetão no meu rabo ensanguentado. Sob o incentivo e urras dos comparsas, ele me fodeu até gozar, misturando sua porra leitosa com a dos parceiros. O Alberto foi o último a se posicionar junto à minha bunda e então eu descobri o porquê. Ele foi o que mais baixou a calça e, o que estava duro feito uma barra de ferro no meio das pernas dele, era o maior caralhão que eu já tinha visto. Ele fez questão de o exibir aos parceiros de farra, se vangloriando do dote antes de o enfiar no meu cuzinho lanhado. Um espasmo forte fez meu corpo todo sacolejar quando aquilo entrou em mim arrebentando tudo que encontrava pela frente. Por uma fração de segundos tudo escureceu diante dos meus olhos e, quando eles voltaram a se abrir, ele já estava urrando e gozando fundo no meu rabo. Assim que me soltaram, o peso do meu corpo deslizou pelo capô até eu cair na calçada, completamente exaurido e sentindo minhas entranhas convulsionarem em meio a dor.
Por um instante me iludi achando que a tortura tinha acabado, já que todos tinham me fodido. Mas, não, ainda consegui ver no olhar deles o brilho de mais atrocidades. Me revolvendo no chão de tanta dor, vi o José Carlos se aproximando com uma daquelas clássicas garrafas vazia de Coca-Cola, e ele fazendo sinal para os comparsas me segurarem com as pernas abertas. Quando senti o vidro gelado na portinha do cu, soltei meu último grito inócuo e perdi os sentidos enquanto a garrafa era enfiada no meu rabo ferido.
Um senhorzinho que passeava com seu cachorro logo pela manhã me encontrou no terreno baldio ao lado da casa em frente a qual fui estuprado na noite anterior. Eu estava inconsciente, ele não sabia quem eu era, pois tinha se mudado há pouco para o bairro, e chamou a polícia achando que eu estava morto, por não reagir aos seus chamados e estar com a coxas cobertas de sangue coagulado, metade da garrafa entalada na bunda e o corpo e rosto cobertos de hematomas, além de um braço torcido numa posição incomum por estar fraturado.
Dali em diante foi uma cadeia de eventos, a chegada da polícia, a constatação de que eu ainda estava vivo, a chamada do SAMU, a aglomeração de curiosos, o reconhecimento de quem eu era pela dona Mariana, mãe do Jonas, que estava se dirigindo à padaria quando estavam me colocando na ambulância e, finalmente, a polícia batendo na porta de casa, onde meus pais já aflitos por eu não ter voltado da faculdade, comunicando a tragédia.
Acordei no hospital com uma luz forte ofuscando minha visão. Havia vultos não identificáveis ao redor. Meu corpo estava imerso num torpor, quando quis mexer os dedos e articular uma pergunta, ele não reagiu. Apenas sons que entravam pelo ouvido reverberavam no cérebro como se fossem marteladas.
- Doutor, o rapaz está despertando! – ouvi uma voz feminina dizer.
- Pode me ouvir, Lucas? Lucas, tente abrir os olhos! – disse uma voz masculina, antes de eu balbuciar algo que ninguém entendeu.
- Ele está bem, doutor? – tornou a voz feminina.
- Sim, está reagindo, mas ainda sob efeito dos sedativos. – respondeu a voz masculina. – Lucas, faça um esforço e abra os olhos! – eu abri, e a luz entrou como uma flecha nos meus olhos, e eu comecei a me agitar, achando que ia continuar apanhando e levando socos enquanto alguém enfiava alguma coisa no meu cu. – Calma rapaz, você está no hospital, está seguro aqui! Se continuar se agitando vou precisar mandar aplicar outro sedativo. – eu só queria estar no controle do meu corpo e das minhas ações, então obedeci.
A voz feminina era de uma enfermeira baixinha que segurava minha mão. Do lado oposto do leito havia um homem na faixa dos quarenta e tantos anos, me encarando com aquele olhar que todo médico faz ao examinar um paciente. À medida que me habituava ao ambiente, ouvindo bipes e sons de respiradores, percebi que estava numa UTI.
- Onde estou? – perguntei, só para confirmar, pois tinha receio de já não estar mais vivo.
- No hospital! – respondeu a voz feminina.
- Sabe me dizer em que dia estamos? Como se chamam seus pais? Sente alguma dor? – perguntou a voz masculina. – Parece que você recebeu muitos chutes na cabeça, teve uma concussão. Também passou por duas cirurgias, não estranhe se estiver sentindo algum desconforto. – emendou.
- Os pais e o delegado ainda estão na sala de espera, aguardando sua liberação. – disse a voz feminina.
- Vou dar mais um tempo para ele ficar mais desperto. Não quero que se agite. – disse a voz masculina.
Aos poucos, comecei a tomar ciência do meu corpo. As sensações vinham lentamente, primeiro o respirar, os batimentos cardíacos, os braços, um com um peso estranho o outro com tubos espetados nele, o tórax que doía a cada inspirada, as pernas que ainda pareciam não estar bem conectadas com o restante, a cabeça latejando, e as entranhas tomadas por cólicas que pareciam estar diretamente ligadas à dor que vinha do ânus. De repente, as cenas de algumas horas atrás me vieram à mente, explicando o porquê de eu estar ali naquelas condições, mal sentindo meu corpo. O choro veio sem que eu o pudesse segurar.
- Está sentindo alguma coisa, Lucas? É dor? Vou pedir para o doutor te examinar novamente. – disse a voz feminina, soltando da minha mão, o que me deu uma sensação de abandono excruciante.
- Não! Pega na minha mão, não me abandone! – balbuciei, sentindo os lábios pesados e secos.
- Ninguém vai te abandonar! Fique tranquilo! Estamos aqui para te ajudar! Tudo vai ficar bem! – devolveu ela.
Eu sempre desconfiei quando alguém afirma que tudo vai ficar bem, pois geralmente a situação é muito crítica e a desgraça está prestes a acontecer. No entanto, nela eu acreditei.
- Como estão os parâmetros vitais? – o médico voltou a se posicionar ao lado do leito, ergueu minhas pálpebras e olhou fundo nos meus olhos.
- Estão todos normais, doutor!
- Então pode deixar os pais entrarem! Quinze minutos, no máximo, e cuide para que ele não fique agitado.
Voltei a chorar assim que vi a aflição estampada no rosto da minha mãe e a desolação no do meu pai. Eles se inclinaram sobre mim e me beijaram a testa, tocando com cuidado em mim como se tivessem medo de quebrar um cristal frágil.
- Desculpa! Desculpa, eu não queria fazer vocês passarem por isso! – consegui sussurrar em meio ao choro.
- Você não tem do que se desculpar, filhão! Nada disso é culpa sua! Entenda que não é sua culpa! – disse meu pai, enquanto minha mãe nem conseguia articular as palavras do tanto que chorava afagando meu rosto deformado pelos socos que levei.
Os quinze minutos dados pelo médico me pareceram apenas segundos. Voltei a ficar sozinho, agora ainda mais agoniado por ver meus pais arrasados e sofrendo por minha causa. Não sei quanto tempo se passou quando o delegado foi autorizado a entrar.
- Seja breve! Se ele começar a se exaltar, vou pedir que o deixe em paz. – disse o médico ao homem que me encarava com um misto de espanto e pena.
Ele permaneceu calado por alguns minutos, apenas me examinando depois que o médico se foi. Era um homem parrudo, grande, de rosto sereno que estava precisando ser barbeado, embora fosse muito sexy. O olhar dele era astuto e parecia estar antenado em tudo a sua volta. Era jovem, trinta e poucos anos, eu diria. Os cabelos curtos castanhos contrastavam com a cor esmeralda dos olhos. A boca e o queixo anguloso tinham algo de sensual, quase libidinoso. Quando o sorriso se formou nela, eu instintivamente devolvi outro, tímido e desconfiado.
- Olá Lucas, como você está, sente-se melhor? Será que posso te fazer algumas perguntas? – começou, atento à minha expressão facial. Acenei positivamente com a cabeça, pois minha boca estava seca e a garganta arranhando. – Sou delegado, me chamo Victor! Já tomei o depoimento da testemunha que te encontrou e dos teus pais, além de algumas pessoas próximas do local onde você foi encontrado desfalecido. Mas, também preciso ouvir o que você tem a relatar, é importante que me conte em detalhes tudo o que aconteceu, confirme quem foram os agressores, apesar de eu já ter determinado a busca e prisão deles. Foi um estupro, não foi? – eu comecei a chorar e não tive coragem de olhar para ele, tamanha a vergonha e humilhação que estava sentindo. Acenei novamente com a cabeça, o que me pareceu aumentar sua comiseração por mim, e o fez deitar sua mão grande e quente sobre a minha.
Nomeei cada um dos meus algozes, relatando o mais pormenorizadamente que me lembrava tudo o que aconteceu naquela noite até eu perder os sentidos. Quando ele se foi eu estava exausto e cai no sono.
O dia seguinte começou com a visita do Sérgio que largou tudo em Curitiba assim que soube da agressão. Ele se penitenciou por não estar comigo, por não ter me protegido, por se sentir impotente diante da situação consumada. Ameaçou acertar as contas com cada um dos desgraçados que me violou, e não o fez da boca para fora, pelo que vim a saber depois. Quando ele foi embora, entraram o Seu Júlio, a dona Mariana e o Jonas que, ao me ver, quase se jogou em cima de mim para me abraçar, tendo que ser contido pelo pai. Ele voltou a ter uma crise quando viu o quanto eu estava machucado, e precisou ser retirado da UTI após receber um sedativo prescrito pelo plantonista. Algumas horas depois, vieram meus pais, dessa vez puderam ficar mais tempo, mas não falamos sobre o assunto, a dor ainda era forte demais para se conversar sobre o acontecido. Estava entardecendo como eu podia constatar pela janela na lateral do leito, já não se via mais o sol, e o céu tinha um tom alaranjado tendendo à escuridão, quando o delegado se aproximou.
- Você de novo? Eu já contei tudo! – exclamei irritado com a presença dele bisbilhotando meu infortúnio.
- Preciso de mais alguns detalhes, vou ser rápido, prometo! – retrucou sem se alterar, o que me fez sentir culpado por ter sido tão agressivo. – Os rapazes que você nomeou e que também foram citados por seus pais e vizinhos, como sendo os agressores, têm todos um álibi que os afasta da cena dos acontecimentos. Você tem certeza que foram mesmo eles que te agrediram? – a pergunta voltou a me enfurecer. Se eu tinha certeza? Claro que tenho certeza, eles fazem isso há anos! A princípio, nem quis responder, mas ele estava esperando minha resposta.
- Claro que tenho! Foram eles! – respondi, firme e seguro, mas irritado com a pergunta.
- Como você explicaria o fato de eles todos terem um álibi?
- Não sei! Como eu saberia? Não é você o delegado? Não é você quem deve investigar quem está falando a verdade?
- Não se zangue comigo! Estou apenas cumprindo meu papel, que é levantar a verdade dos fatos. – respondeu ele, não se abalando com as minhas perguntas grosseiras. – Eu estou aqui para te ajudar, confie em mim!
- Tenho lá as minhas dúvidas! – exclamei de pronto. – É capaz que eu acabe sendo o culpado e não a vítima do acontecido. Foi assim num episódio anterior, o delegado ouviu a queixa registrada pelo meu pai, ouviu os agressores e não deu em nada. Eles continuaram soltos e voltaram a cometer um crime pior que o anterior. Por que eu deveria confiar que dessa vez será diferente? - indaguei revoltado.
- Porque eu estou te garantindo que, se tiverem sido realmente eles, não ficarão impunes. – asseverou.
- Se tiverem sido realmente eles! Só pode ser piada. Posso te pedir um grande, não, um enorme favor? Me deixe em paz! Se você não acredita no que eu disse, não adianta vir aqui e me encher de perguntas. Eu já sei que eles vão sair ilesos dessa história. – afirmei, me virando de lado e lhe dando a costas.
- Sei que está desconfiado, Lucas, mas eu estou me empenhando em solucionar o caso e levar os culpados à justiça! Fique bem, torço pela sua recuperação, pode acreditar. – disse antes de partir.
No dia seguinte fui transferido para um quarto, pois a recuperação estava transcorrendo bem, embora eu ainda estivesse precisando de curativos especializados no ânus, o que justificava a minha permanência no hospital por mais alguns dias.
Foram meus pais que trouxeram a notícia de que o Alberto, o filho do dono da assistência técnica em refrigeração, havia sido encontrado morto, eletrocutado, nos fundos da oficina, possivelmente ao tocar num fio energizado quando estava sozinho fazendo um reparo num equipamento enquanto o pai visitava um cliente. Ele estava estirado no chão, sem vida, ainda preso ao cabo eletrificado, com parte das mãos queimadas pela descarga elétrica.
O horário das visitas já havia se encerrado quando o delegado abriu a porta do quarto e entrou, vindo diretamente a mim.
- Outra vez? O que quer agora? Me culpar pela morte daquele sujeito? – desatei a perguntar. Ele apenas sorriu, e que sorriso, daqueles que te deixam sem ação, que aquecem a alma, e colocou uma caixa de chocolates na minha mão.
- Está melhor? – perguntou, ignorando minha descortesia. Me intimidei ante aqueles olhos, e só acenei com a cabeça. – Então já está sabendo que um dos rapazes que você afirma ter participado do .... – ele interrompeu a fala, receoso de pronunciar a palavra para não me magoar.
- Do estupro! Pode falar, não precisa me poupar da palavra, pois ela não significa nada diante do que fizeram comigo. – retruquei. Aliás, quanto mais você a mencionar, talvez se convença do que eu afirmei.
- Eu acredito em você, Lucas, pode estar certo! Nunca duvidei do que me contou! – garantiu. Dei de ombros. – Você não gosta de mim, não é? Mas, estou aqui para te ajudar! – acrescentou.
- Não vejo como pode me ajudar! Já aconteceu! Seu antecessor disse a mesma coisa, e veja no que deu. – devolvi.
- Falando nisso, eu levantei o BO que seu pai registrou na época e todos os fatos envolvidos e, é para isso que estou aqui, para que você me relate o mais fielmente possível tudo o que aconteceu naquela ocasião.
- Isso é uma tortura, sabia? É isso que quer fazer comigo, me torturar até eu fingir que nada disso aconteceu? – perguntei enfurecido.
- A última coisa que eu faria com alguém tão sensível, lindo e sempre zangado como você, seria te torturar! Você pode não acreditar, mas te ver nesse estado é uma tortura para mim! – disse ele, me deixando sem ação. – Então, vai me contar como foi, ou vai continuar bravo comigo? – nem eu mesmo sabia porque estava bravo com ele. Seria aquela postura firme, aquele rosto másculo, aquele corpão onde daria para a gente se perder no prazer?
Ele me ouviu, e depois passou quase duas horas conversando comigo sobre outros assuntos, até ser alertado por uma enfermeira para me deixar descansar.
- Volto amanhã! Só para te ver, prometo! – disse, antes de fechar a porta e me deixar lembrando daqueles olhos enfeitiçantes, e do toque quente de sua mão.
Ele cumpriu a promessa, não tocou no assunto do estupro, apenas quis saber da minha vida, dos meus hobbies, dos meus gostos, dos meus planos para o futuro. Dessa vez havia trazido flores, um ramalhete pequeno de astromélias e gérberas brancas. Ao partir, me deu um beijo na testa, fazendo meu cuzinho reagir com uma fisgada forte. Até soltei um gemidinho, pois ainda não estava cicatrizado.
- Victor! – chamei, antes de ele cruzar a porta. – Conseguiu prendê-los? – perguntei, o que fez o semblante dele se fechar.
- Os álibis deles me impedem de tomar essa decisão! Estou convicto que sejam falsos e combinados entre eles, mas não posso passar por cima deles. Continuo os chamando para novos interrogatórios, uma hora vão se contradizer, e é aí que os pego! É questão de paciência e novas diligências. – afirmou. Percebi que ele gostou de eu o ter chamado pelo nome.
- Obrigado, Victor!
- Até amanhã, Lucas! – então ele ia voltar, e eu já me sentia ansioso.
Foram meus pais que me contaram que o Sérgio tinha arrebentado as caras dos irmãos, José Carlos e João Pedro durante uma briga ao confrontá-los. De posse de um taco de beisebol, ele por pouco não dá cabo da vida dos dois. A mãe deles chamou a polícia quando percebeu que eles não tinham nenhuma chance contra ele. Meus pais sugeriram que ele entrasse no carro e voltasse para Curitiba para não se ver envolvido num inquérito policial, e assim ele o fez, a contragosto, mas fez.
O Victor entrou no quarto quando meus pais ainda estava comigo. Notei o desapontamento dele por não me encontrar sozinho, mas ele disfarçou bem.
- Vou precisar tomar um novo depoimento do senhor, pode vir à delegacia mais tarde? – disse, dirigindo-se ao meu pai.
- Pensei ter esclarecido tudo da última vez! – respondeu meu pai.
- Diante dos novos fatos, o espancamento dos dois irmãos e a morte do rapaz Alberto, tenho que lhe fazer algumas perguntas. – afirmou o Victor, como se quisesse ligar meu pai aos acontecimentos.
- Só falta você acusar meu pai dessas barbaridades! – exclamei, quando ele deixou o profissionalismo se sobrepor à gentileza do dia anterior.
- Estou fazendo o meu trabalho, Lucas! Vai se zangar comigo, outra vez? – perguntou, me dirigindo aquele olhar que me fazia sentir um arrepio.
- Não! – respondi. Ele sorriu e se despediu. Eu quase podia jurar que ele gostaria de continuar ali, conversando comigo a sós.
- Melhoras! Tchau! – não teve beijo na testa, nem sua mão aconchegando a minha, e eu me perguntei por que isso se tornou tão importante de repente. Afinal ele era um estranho, estava ali a trabalho, nada além disso.
Pude voltar para casa no dia seguinte. Não havia mais necessidade dos curativos anais, embora meu cuzinho ainda estivesse muito sensível, permanecendo assim por quase uma semana. Os inchaços do rosto e do corpo onde recebi socos e chutes estavam sumindo, apenas os enormes hematomas que tingiam a pele num degrade de tons violáceos ainda estavam bem demarcados.
Diariamente recebia visitas dos colegas da faculdade. Ao mesmo tempo que tinha vontade de voltar às aulas, tinha medo de sair à rua, de me deparar com algum deles e de levar outra surra, pois essa era a diversão dos homofóbicos, bater num gay até quase o matar. Quando decidi voltar às aulas, para não ficar muito defasado, contei com a carona do meu pai e de alguns colegas.
Completado exatamente um mês da agressão, veio a notícia de que o Flávio, filho dos Medeiros, donos do quiosque na praça central, foi encontrado sem vida com o rosto imerso num tacho de óleo fervente. O quiosque abria no começo da noite servindo lanches, pastéis e outros salgados e bebidas para quem circulava por lá após o trabalho a caminho de casa. Naquele dia o quiosque não abriu no horário habitual e os clientes aglomerados diante dele estranharam o inusitado em plena sexta-feira, um dia geralmente muito concorrido. Ao notarem que as luzes internas estavam acesas, mas que ninguém respondia, resolveram chamar a polícia. O corpo estava debruçado sobre a fritadeira industrial ligada, escorado por uma banqueta que o impedia de cair no chão, e o rosto fritava no óleo quente. Houve gritos de terror e um enorme estardalhaço quando a parte superior do quiosque foi aberta e as pessoas puderam ver parte do cadáver fritando.
Senti um calafrio quando me contaram, porém não consegui sentir nada em relação ao Flávio. Era como se tivesse uma pedra de gelo no peito e não um coração.
- Ainda não sabem quem foi! – disse meu pai quando me contou. – Aposto que amanhã cedo o delegado vem bater à nossa porta, querendo fazer mais perguntas. – comentou.
Não deu outra. O Victor apareceu mal o dia tinha clareado. Eu ainda estava de pijama tomando café com meus pais quando ele surgiu.
- Você por acaso sabe se ele tinha algum desafeto? – perguntou, se arrependendo logo em seguida da pergunta.
- Além de mim, você quer dizer!
- Não me interprete mal, Lucas. Preciso saber se esses caras aprontavam com mais pessoas, se há alguém interessado em dar um fim neles. É o segundo num curto espaço de tempo após a sua agressão que aparece morto. Esse caso está tomando dimensões estranhas. – disse ele.
- Só posso te dizer que não fui eu! Nem tenho forças para isso, como pode constatar. – devolvi.
- Eu sei que não foi você! Mas pode ser alguém próximo a você que esteja se vingando, entende.
- Se eu soubesse, acha que deveria te contar? Alguém resolveu começar a fazer justiça e eu, sinceramente, não posso culpar quem quer que esteja fazendo isso. – afirmei.
- Assassinato é crime, Lucas! Não pode ficar impune! – retrucou ele
- Então deveriam ter me matado, teriam sido enquadrados como criminosos e não ficariam impunes, é isso que está dizendo. Mas, como continuou aqui, vivo e correndo o risco de uma nova agressão, eles continuam soltos por aí, se divertindo e apavorando suas vítimas.
- Não diga isso, Lucas! Está sendo injusto com meu esforço em solucionar o caso. – retrucou
- Desculpe, não sei mais o que estou falando! Mas, entenda a minha raiva, Victor, eu não a superei e nem sei se um dia vou conseguir.
- Fico feliz em ver que está melhorando e que voltou às aulas! Não vejo a hora de te ver completamente recuperado! – exclamou.
- Obrigado! Não deixe de me visitar quando tiver um tempinho! – escapou antes de eu me dar conta do inconveniente desse pedido. Ele sorriu e assentiu.
Que um vingador tinha tomado minhas dores já ninguém duvidava mais, quando o Murilo, filho da divorciada, foi encontrado pendurado pelo pescoço numa das vigas da varanda dos fundos da casa onde moravam. Os gritos desesperados da mãe reverberaram pela vizinhança quando o encontrou balançando a mais de meio metro do chão, com os olhos arregalados e o rosto ingurgitado pelo sangue estagnado. Os peritos constataram que a morte havia ocorrido antes de o pendurarem na viga, e demoraram um pouco para localizar o pênis decepado dentro de um vaso de plantas próximo.
Não se falava noutra coisa na cidade. Nem mesmo os mais velhos se lembravam de acontecimentos tão escabrosos na pacata cidadezinha. O medo tomou conta das pessoas, havia um serial killer solto pelas ruas. A polícia foi pressionada, o prefeito recebia exigências, os políticos opositores o acusavam de negligência administrativa, o caos estava em cada esquina.
Os irmãos João Pedro e José Carlos não saíam de casa, tinham a certeza que seriam os próximos. Com a conivência da família, tentaram fugir da cidade, mesmo tendo sido proibidos pelo juiz enquanto meu caso não estivesse totalmente esclarecido e as culpas imputadas aos agressores. Foram interceptados pela polícia rodoviária pouco depois de Andirá, antes cruzarem a divisa do Estado, e levados à delegacia. Imploraram para aguardarem o término das investigações presos na cadeia da cidade, onde não seriam alcançados pelo vingador, mas o pedido foi sumariamente rejeitado.
- Estão querendo salvar as picas, não é, seus delinquentes vagabundos? – questionou o Victor, quando os teve a sua frente.
- Vão matar nossos filhos, o senhor precisa tomar uma providência! – ameaçou o pai deles.
- Que providências o senhor tomou quando seus filhos estavam agredindo os colegas de escola, causando tumulto pela cidade e estuprado outros rapazes? – questionou, desafiadoramente.
- Eles são maiores de idade, já não ouvem o que a gente diz! Mas nem por isso devo permitir que sejam mortos. – retrucou o pai.
- Estamos trabalhando, é tudo que posso lhe dizer! – devolveu o Victor num tom de voz seco, segundo meu pai que presenciou a chegada dos irmãos à delegacia e estava com o Victor, pois havia sido requisitado novamente a prestar depoimento, visto que estavam suspeitando dele nesses assassinatos. No entanto, não conseguiam provar nada, uma vez que ele ou estava na loja cercado de testemunhas que podiam atestar que não se ausentara de lá, ou estava em casa e os horários prováveis dos crimes não coincidiam.
Os dois se mantiveram praticamente reclusos dentro de casa. O perambular pela cidade durante as madrugadas com outros comparsas arrumando confusão terminaram. Era o pavor de estarem com as cabeças e as rolas sentenciadas que os mantinha forçosamente em casa. Iam para a faculdade escoltados pelo pai que, suspeitava-se andava armado para todos os cantos. Contudo, continuavam livres como se nada tivesse acontecido, uma vez que os braços da justiça não conseguiram alcançá-los, tão engenhosamente havia sido construído o álibi falso que os protegia.
Transcorreu quase um ano desde que me violentaram. Retomei minha rotina passados alguns meses uma vez que minha vida não podia parar. Nesse período sentia muita falta do Sérgio, do calor de seus braços me envolvendo, de seus beijos libidinosos toda vez que ficava com o cacetão tão duro que parecia uma rocha, de deitar a cabeça sobre seu peitoral maciço de onde vinha uma quentura que levava para longe tudo o que me atormentava. A distância estava nos afastando lentamente, aliada aos compromissos que o impediam de vir me visitar, bem como os mesmos que não me permitiam ir a Curitiba na frequência que desejávamos. De comum acordo, decidimos terminar o relacionamento apesar de ainda estarmos apaixonados um pelo outro. Foi mais um golpe que precisei superar. Deixamos a cargo do destino um eventual retorno, mantendo uma amizade e contato por Whatsapp.
O Victor já não tinha mais justificativa para as constantes aparições em nossa casa, e ficou claro que eu era o motivo de suas visitas, o que ele tentou esconder o quanto pode. Meus pais se afeiçoaram a ele, o que lhe deu coragem para me abordar certa vez em que me convidou para um encontro.
- Sei que houve um tempo no qual você não foi com a minha cara devido as investigações que meu trabalho exigia. Acontece que eu me encantei com você desde o primeiro instante em que te vi. Havia algo na maneira como você olhava para mim que me fazia questionar tudo o que estava sentindo dentro de mim. Sempre achei que ia me casar e constituir uma família nos moldes tradicionais, mas à medida que ia convivendo com você, percebi que te desejava mais do que tudo que já desejei na vida. Eu queria te proteger, queria ser o centro da sua atenção, queria ser o cara a te fazer feliz. – discursou ele, um tanto nervoso e desajeitado.
- Nossa! Por essa eu não esperava! – exclamei.
- Estou te incomodando ou está se sentindo ofendido com o que eu disse?
- Não! Estou é surpreso, só isso! E lisonjeado também, para ser bem sincero.
- Então, posso continuar? - perguntou, através de um sorriso mais confiante, e continuando mesmo sem a minha resposta. – Acho que estou me apaixonando por você, essa é a verdade. Não consigo mais guardar isso aqui dentro. Preciso saber se ainda está muito zangado comigo, se ainda está com raiva por eu ter interrogado seu pai.
- Eu te achei um chato no começo, devo admitir. Porém, isso foi mudando aos poucos, a cada nova visita sua eu não via mais aquele delegado empenhado em solucionar o meu caso, mas um cara que preenche todos os requisitos dos meus sonhos, um cara que eu gostaria de conhecer melhor e talvez compartilhar uma vida inteira com ele. – devolvi, deixando o coração falar.
- É sério? Você me curte? Você me acha tudo isso? – desatou a questionar eufórico. – Cacete, nem acredito que isso está acontecendo! Eu e você, ... a gente, ... nós .... juntos, namorando, eu beijando esses lábios sedutores! – exclamava alegre. – E aquele seu namorado de Curitiba?
- Terminamos! – respondi, o que o fez abrir um sorriso. – A distância, os compromissos e, acho até tudo o que aconteceu comigo, esfriou a relação. Resolvemos que seria melhor cada um seguir seu caminho. – revelei.
Quando me deixou na porta de casa, o Victor me trouxe para junto dele numa pegada forte, daquelas que machos determinados e dominadores tem para se apossar do que querem. Assim que senti o calor que o corpão dele emanava, e o toque sutil de seus lábios nos meus, me entreguei sem reservas ou receios. Ele foi se empolgando tanto durante os beijos nos quais sua língua vasculhava freneticamente minha boca que uma ereção cavalar se formou dentro da calça. Quando a vi, entrei em pânico. A simples suposição de algo entrando novamente no meu cuzinho me apavorava. Instintivamente me retrai e afastei, o que ele percebeu, ficando inseguro se tinha avançado rápido demais.
- Desculpe, acho que ainda não estou pronto! – exclamei
- Fui muito afoito, sou eu quem precisa se desculpar. É que estou há meses sonhando com o momento de você ser meu que me precipitei. – desculpou-se.
Toquei o rosto dele com suavidade e carinho, cofiei delicadamente aquela barba que ele não fazia com a devida regularidade por pura preguiça, mas que o deixava incrivelmente sexy. Por uns segundos cogitei afagar aquela coisa comprida e rija que havia se avolumado dentro da calça, mas me contive receando as consequências se o deixasse excitado demais.
Em casa, já não se discutia mais sobre as visitas dele. Minha mãe o convidava para os almoços de domingo, meu pai e ele torciam lado a lado no sofá pelo time de futebol do qual gostavam. Ele me pegando pelos cantos nuns amassos lascivos, mal me deixando respirar com sua boca colada à minha, já haviam se tornado corriqueiros. No fundo eu sabia que meus pais estavam satisfeitos com aquele relacionamento ganhando força, pois tudo que queriam era a minha felicidade que, ao que tudo indicava, também era o objetivo primordial do Victor. Eu sabia que ele queria me pegar de jeito, que quase não dava conta de controlar as ereções quando me tinha em seus braços, que não via a hora de meter o cacetão no meu cuzinho, porém isso ainda me apavorava e esse dia ia sendo adiado apesar de eu saber que estava a lhe cobrar um esforço e uma abdicação quase cruel para um homem fogoso como ele. Eu procurava recompensá-lo com carícias, afagos e sexo oral até o levar ao gozo, o qual eu engolia até a última gota sob o olhar extasiado e radiante dele.
A passagem do tempo foi recobrando a confiança do José Carlos e do João Pedro de que tinham escapado ilesos. O inquérito aberto contra eles estava parado e tudo apontava que não daria em nada. No entanto, meu justiceiro não tinha se dado por satisfeito após eliminar o Alberto, o Murilo e o Flávio e, ninguém além dele, sabia que a coisa não podia acabar assim.
A mãe dos dois precisou ser levada a um hospício dias depois de passar internada sob sedativos no hospital da cidade, após regressar com o esposo para casa e encontrar o João Pedro sentado no sofá da sala em frente a televisão ligada com um talo profundo, quase cirúrgico, que contornava seu pescoço deixando praticamente só a pele segurando a cabeça decepada sobre os ombros, e do qual borbulhava uma cascata de sangue escuro. E, de se deparar com o José Carlos, após ela e o marido chamarem insistentemente por ele, deitado no chão do box do banheiro debaixo do chuveiro correndo com, nada mais nada menos, do que mais de uma dúzia de perfurações espalhadas pelo corpo, e por onde se extinguiu todo sangue que tinha no corpo. A faca larga da cozinha ainda estava espetada profundamente numa das perfurações, sendo lavada pela água que despencava do chuveiro. O levantamento inicial dos peritos concluiu que foi a mesma faca que cortou a garganta do irmão, sem lhe dar chance de gritar ao ser surpreendido pelo golpe que o atingiu por uma das laterais do pescoço cortando a artéria carótida e a veia jugular antes de ele se dar conta do que estava acontecendo, e de deslizar até o lado oposto, causando idêntico estrago fatal.
A cidade voltou a se agitar, a comoção tomou conta das pessoas novamente e ninguém punha fé na segurança. Filhos eram mantidos em casa durante a noite, bares e pontos de encontro da galera jovem fechavam mais cedo por falta de clientes. Talvez eu tenha sido o único a respirar aliviado. Não restava mais nenhum dos cinco que me violentaram vivo. Eu só tinha o que comemorar, por mais cruel que isso pudesse parecer.
Eu já não saia mais de casa com aquela sensação de estar sendo vigiado, de ter alguém no meu encalço, de sentir o coração quase sair pela boca a cada sombra que via. É uma sensação maravilhosa a qual só se dá valor depois de ter sofrido o que eu sofri na mão daqueles cinco.
Até o Jonas gostou de voltar a me ver passando na calçada em frente de casa enquanto observava o movimento, pois nos últimos tempos eu geralmente só lhe acenava de dentro do carro. Retomamos as nossas conversas, aquelas que apenas ele e eu compreendíamos, uma vez que só pessoas muito próximas dele entendiam o que sua fala truncada queria dizer.
Numa manhã de sábado em que me dirigia à loja do meu pai para dar uma força por um dos empregados haver faltado, encontrei-o como sempre em seu posto favorito, ao lado da pilastra que sustentava o portão baixo, debruçado sobre a cerca de madeira. Ele já abriu o sorriso de longe, ficando ligeiramente agitado como sempre acontecia quando era tomado por algum sentimento. A dona Mariana estava com ele, podando umas roseiras, e puxou conversa comigo quando parei ao lado deles. Enquanto ela montava um ramalhete para que eu o entregasse à minha mãe, o Jonas me puxou para dentro da casa querendo me mostrar mais um de seus brinquedos que ele entalhava caprichosamente em pedaços de madeira. Eu o segui até o quarto, sendo praticamente puxado por ele. Tratava-se de um peixe bem detalhado, coisa de artesão habilidoso, já que ele andava obcecado por peixes, desde que viu um filme na televisão onde o protagonista apareceu pescando e se divertindo com o resultado.
O Jonas era metódico, me fez sentar na beira da cama, colocou a escultura nas minhas mãos com o mesmo cuidado como se o peixe estivesse vivo, balbuciou emocionado como chegara aquele resultado e me pedia para rever todos os outros brinquedos que eu já conhecia, tirando-os de uma caixa e discursando sobre cada um deles. Eu o ouvia atento, o que ele gostava e o fazia se sentir importante e querido. Até me deparar com um chaveiro no formato de um dinossauro sobre a mesinha de cabeceira. Senti um arrepio gelado passando pelo corpo. Eu conhecia aquele chaveiro, já o tinha visto algumas vezes, preso ao cinto do José Carlos, quando ele e os comparsas me davam uma prensa. Num primeiro instante fiquei em choque, sem saber como perguntar ao Jonas a origem daquele objeto. De tão fixo que meu olhar estava no chaveiro, ele notou tanto meu espanto quanto a minha expressão preocupada. Ele largou o que estava me mostrando e enfiou rapidamente o chaveiro no bolso, sussurrando frases sem sentido e agitando os braços desengonçadamente.
- Olha para mim Jonas! Para, para de se agitar e olha para mim! Eu sou seu amigo, não sou? – perguntei, encarando-o com doçura até ele confirmar, balbuciando um sim. – Você sabe que eu gosto muito de você, não sabe? – continuei. – Foi você quem fez o chaveiro que guardou no bolso? – perguntei, tentando encontrar uma maneira de não ser tão direto, o que podia deixá-lo tão nervoso a ponto de ter uma crise.
- An-an! ... Hm-hm! ... Hm-hm! – balbuciou, passando agitadamente as mãos nos cabelos e rosto.
- Jonas, calma! Calma, olha para mim, Jonas! Sou eu, o Lu ... o seu amigo Lu, está vendo! – exclamei, tocando de leve em seus braços, pois ele ficava agitado quando era tocado. – Se não foi você quem fez o chaveiro, onde o conseguiu, foi presente de alguém? – continuei.
- Preente, preente Hm-hm! – respondeu, negando.
- Se não foi presente, como ele chegou nas suas mãos? Pode falar, eu vou guardar segredo! Sabe o que é segredo, não sabe? Já te expliquei o que é segredo uma vez, lembra? E o que você me contar vai ser o nosso segredo. Um segredo só do Jonas e do Lu!
- Gred, gred ... Jonas gred! Lu gred! – devolveu.
- Sim, Jonas e Lu tem um segredo! Um segredo só nosso, está bem? – ele assentiu com a cabeça. – Mostra para o Lu o chaveiro, mostra Jonas!
Minhas mãos tremiam quando ele o depositou na palma da mão. Não podia haver dois chaveiros tão bizarros assim, só podia ser o chaveiro do José Carlos e isso estava me mortificando.
- Zec ... Zec ... machuca Lu ... machuca! – exclamou confessando. Eu o abracei mesmo ele tentando se livrar dos meus braços.
- Obrigado Jonas! Obrigado, meu querido amigo! Meu anjo! Você é meu anjo, sabia? – afirmei entre lagrimas.
- Lu não chora, hm-hm chora! – devolveu, tentando secar minhas lágrimas, no exato instante em que a mãe entrou no quarto e presenciou a cena.
- Seu filho não é só especial dona Mariana, é um anjo! Um anjo que foi posto em nossas vidas. – disse a ela, que não estava entendendo nada do que via. Ela apenas concordou.
- Jonas e Lu tem segredo! – exclamei sorrindo, ao me voltar para ele antes de me despedir.
Passei dias com isso martelando minha cabeça. Jamais revelaria o segredo que jurei guardar, mesmo o Jonas não sabendo exatamente o que isso significa. De certa forma, ele compreendeu tudo pelo que passei. O fato de ser uma pessoa especial não o impediu de tomar uma decisão, de fazer o que já parecia nunca acontecer, a justiça ser feita. Com a atitude dele descobri que somos incapazes de decifrar a mente de alguém como o Jonas, de saber até que ponto e o quanto seu cérebro processa o que acontece à sua volta. Minha dívida para com ele não tinha tamanho, jamais poderia ser paga.
O Victor aguardava pacientemente o momento de me possuir por inteiro, chegava a ser cômico ver como ele lidava com as ereções cada vez mais constantes, só de olhar para a minha bunda.
- O rapaz anda subindo pelas paredes, creio que chegou a hora de darmos um toque no Lucas. Será que ele não percebe o sufoco do rapaz?
- Que sufoco eu não percebo? – perguntei ao meu pai quando ouvi o final da conversa que estava tendo com a minha mãe. Os dois se entreolharam.
- Não é de hoje que o Victor vem demonstrando o quanto gosta de você, Lucas. Talvez você devesse se atentar um pouco mais aos sinais que ele vem mostrando. – disse minha mãe, com a diplomacia que lhe era peculiar.
- Quando você fala em sinais, está se referindo ao pintão que endurece nas calças dele ao mais singelo toque que lhe dou, é isso, não é? – indaguei
- É exatamente disso que estamos falando, filhão! – respondeu meu pai. – Se você realmente gosta dele, deixe isso bem claro para ele, decida se quer dar um passo adiante nesse relacionamento. Faz mais de um ano que você terminou a faculdade, está evoluindo na empresa que criou, não o faça esperar mais tempo. Ele é um bom rapaz, merece que o faça feliz. – sugeriu meu pai, indubitavelmente um fá confesso do Victor.
- Um bom rapaz, chega a ser hilário! Ele é um baita de um homem e, convenhamos, lindo e charmoso. – retruquei. – Em outras palavras, estão me expulsando de casa da maneira mais gentil e sutil possível! – afirmei, fazendo-os rir. – Concordo com vocês, vou pedir ele em casamento hoje mesmo, se você, mãe, fizer um jantarzinho caprichado para celebrar o pedido, e o convidar como quem não quer nada.
Foi a primeira vez que vi o Victor perder o domínio da situação. Ele simplesmente emudeceu, ficou me encarando sem entender nada, quando me ajoelhei na frente dele e perguntei se queria ser meu marido. Ele olhou para os meus pais, para mim, engoliu em seco e me puxou para junto de si, do jeitão meio abrutalhado dele e me beijou como se estivesse protagonizando uma paixão de filme.
- Isso é um sim? – perguntei, quando ele finalmente me deixou respirar.
- Sim! É claro que sim, meu maluquinho, tesudo! – exclamou . – Ops! Desculpem, mas o Lucas me deixa maluco! – emendou ligeiro, ao ver o olhar estarrecido da minha mãe.
- Estamos cientes disso! – exclamou meu pai, o que o deixou ligeiramente inibido por saber que ele estava se referindo ao pauzão que já não controlava mais.
Ele dormiu em casa naquele dia. Não fora a primeira vez, mas ele soube que seria a primeira que eu ia me entregar aos seus desejos ansiados. Confesso que me estremeci todo quando o encontrei pelado me esperando encostado na cabeceira da cama com as pernas grossas e peludas bem abertas e o caralhão taurino à meia bomba babando de tão excitado. Desde o estupro eu tinha esse receio. Achava que meu cuzinho nunca mais seria desejado por um homem, que ele seria incapaz de proporcionar prazer a um macho, que, ao sentir a primeira dor da penetração, me voltariam à memória os momentos de agonia quando o tive dilacerado pela barbárie dos meus algozes. Porém, a maneira como ele olhava para mim, nu diante dele, com o corpo que ele tanto desejava ao alcance de suas mãos, meu receio sumiu.
- Vem cá, vem, meu tesudinho! Vem cuidar do seu homem! Vem cuidar disso aqui! – exclamou, apontando para o cacetão duro feito um obelisco.
Eu já conhecia cada centímetro daquele mastro grosso e cabeçudo, pois o havia mamado inúmeras vezes me deliciando com o néctar que ele jorrava. Só que agora aquela coisa enorme queria entrar no meu rabo e, passar pelos esfíncteres reconstruídos do meu cuzinho não seria nada fácil e muito menos indolor. Eu tinha sido prevenido pelo proctologista que a cicatrização da cirurgia deixaria as pregas menos elásticas, mais hipertrofiadas.
- Me promete que vai ser paciente, Victor! Que vai parar se eu estiver sentindo muita dor! Que ... – ele se lançou na minha direção e me puxou para a cama por cima dele, num beijo tão intenso que até me esqueci dos medos.
- Eu te amo, Lucas! Você vai reaprender a satisfazer um homem, o seu homem, o seu macho! Tenho certeza de que quando me sentir dentro você, nunca mais vai ter receio de se entregar. – disse ele, acariciando o contorno do meu rosto.
Ele me fez mamar o caralhão para que eu sentisse seu cheiro e afastasse os medos dos meus pensamentos, me concentrando apenas nele e no que ele tinha a me oferecer. Mamei pouco, pois ele pressentia que ia gozar e tirava a pica da minha boca. Virou-me de bruços, calçando meu ventre um com travesseiro para que minha bunda ficasse mais empinada. Abriu-a com as duas mãos, e ficou admirando o reguinho liso onde o botãozinho rosado estava profundamente alojado e piscando de tesão. Enfiou a cara entre as bandas carnudas e quentes e lambeu as preguinhas excitadas. Eu gemi alto ao constatar que não perdi a sensibilidade delas ao sentir sua língua úmida cutucar a fendinha rugosa.
- Ai Victor! Ai ....
- Delícia de cu da porra, Lucas! Fala que ele é todo meu, fala! – murmurou ele, ora me lambendo, ora enfiando um dedo na portinha que se travava ao redor dele.
Ele estava há uns dez minutos brincando com meu cuzinho, me deixando com tanto tesão que eu supliquei para ser penetrado. Ele pegou o frasco de lubrificante, despejou um tanto no meu rego e lambuzou bem o pauzão com o qual espalhou o lubrificante sobre a minha rosquinha, empurrando-o para dentro junto com o líquido viscoso e frio. Eu gani quando a cabeçorra saltou para dentro do meu cuzinho me arregaçando. A dor me fez querer escapulir debaixo dele, mas ele me conteve, puxou meu rosto em sua direção e me beijou até ela diminuir.
- Devagar, Victor, devagar! Meu cu está doendo! Esse pauzão é grande demais, não cabe no meu rabo! – exclamei, tremendo como se apossado de uma febre terçã.
- Cade sim, meu tesudinho! Se abre para o seu macho! Abre o cu para a minha pica, bundudo gostoso!
Fui me agarrando a tudo que estava ao meu alcance. A cada estocada cuidadosa o cacetão afundava no meu rabo me abrindo todo e me preenchendo. A dor diminuiu bastante quando ele terminou de atolar o caralhão até o talo no meu cuzinho. Ficou apenas o pulsar vigoroso da caceta travada pela minha musculatura anal. O Victor arfava junto ao meu ouvido, mordiscava minha orelha, a pele da minha nuca, beijava meus ombros e apertava meus mamilos, ao iniciar lentamente o vaivém das bombadas. Pensei que minhas entranhas iam explodir de prazer. Tudo dentro de mim convulsionava, o entra e sai do pauzão me arrombando esfolava a mucosa anal que começava a arder. Os suspiros roucos dele, a gana extravasando em seus gemidos guturais, a pegada viril com a qual me tinha a seu dispor constituíam um prazer que jamais pensei voltar a sentir.
- Ai Victor, meu macho! Me fode! Fode meu cuzinho, macho! – gemia eu com o corpo se contorcendo de prazer.
- Esse rabo é meu, tesudinho! Vou te foder, vou fazer de você a minha fêmea! Vou encher teu rabo de porra, rabudo do caralho! – grunhia ele, bombando feito um touro perdido na luxúria.
Ele puxou o cacetão para fora do meu cu, me virou de costas e jogou minhas pernas sobre seus ombros. Eu podia ver o brilho lascivo em seu olhar, a cobiça com a qual olhava para o buraco aberto que sua rola grossa havia deixado no centro das minhas pregas rompidas. Senti um tesão imensurável, meu corpo clamava pelo dele. Estendi os braços em sua direção e ele se inclinou para se encaixar neles, depois de apontar a glande estufada na minha fendinha aberta. O cacetão mergulhou no meu rabo ao mesmo tempo que ele se inclinava sobre mim ficando ao alcance das carícias das minhas mãos. Gemi sensualmente durante todo tempo que ele levou para meter todo pauzão no meu cu, agarrando-me aos seus bíceps e ombros espadaúdos. Ele me beijou e começou a movimentar o cacetão num vaivém cadenciado. Meus músculos anais encapavam a caceta voluntariosa com paixão e uma quentura que vinha do tesão de sentir meu macho me possuindo.
Minha pelve foi se retesando aos poucos, as estocadas no meu púbis espalhavam uma dor aguda junto com um prazer sem igual.
- Vou gozar! Ai meu cu, macho! Eu vou gozar! – gemi, antes de sentir os jatos saindo do meu pinto.
Ele se agarrou com mais força ao meu tronco, os impulsos truncados e a respiração entrecortada indicavam o gozo iminente. O urro ecoou pelo quarto assinalando a consumação de um prazer sem fim. Ele esporrou meu cuzinho até o sêmen leitoso começar a vazar. Eu não cabia em mim de tanta felicidade, ao constatar que todos aqueles meus medos eram infundados, que eu ainda podia dar muito prazer a um macho e sentir o mesmo com uma caceta socada no meu rabão guloso.
Quando veio transferido para a cidade, o Victor havia comprado uma casa não muito distante da dos meus pais. Ela precisava ser modernizada, embora estivesse em boas condições de conservação. Foi para lá que me mudei depois de o cartório de registro civil da cidade oficializar a primeira união homoafetiva. Não pedi por isso, mas o Victor tinha uma obsessão por deixar tudo registrado e sacramentado.
Íamos muitas vezes a pé visitar meus pais aos domingos. Eu sempre parava para conversar com o Jonas quando ele estava em seu lugar preferido vendo o movimento da rua. O Victor conseguiu um jeito de também se comunicar com ele, o que o deixava agitado, mas visivelmente feliz. Ele parecia entender a dimensão do que eu e o Victor sentíamos um pelo outro. Antes de entrar na casa dos meus pais dávamos um último aceno na direção dele, e víamos seus braços se agitando no ar.
- Nunca vai me contar, não é? – perguntou-me o Victor numa dessas ocasiões. Eu imediatamente soube ao que se referia.
- Prometi segredo! – respondi displicente.
- Até de mim?
- Há quanto tempo sabe? – perguntei, sem responder a dele.
- Alguns meses depois do assassinato dos irmãos! – respondeu.
- Te agradeço do fundo do coração por não ter feito nada! Sei como você é meticuloso com seu trabalho e faço ideia do quanto te custou transgredir as regras. – afirmei. – O importante é que a justiça foi feita mesmo que de forma contestável.
- O que eu poderia ter feito, colocar uma criatura com um coração desse tamanho numa prisão? Que justiça seria essa? – indagou.
- Me orgulho de ter um marido como você! Faz meu amor ficar cada vez mais infindável! – afirmei. – Quando um homem na sua posição sabe que nem sempre o sistema faz justiça, e ele o faz por meios indiretos, pulando por cima das regras, para fazer com que ela prevaleça a qualquer custo, percebo que nem tudo está perdido. Se todos com o seu poder se permitissem burlar as regras de vez em quando, ao invés de as seguirem cegamente achando que estão fazendo justiça quando na verdade estão colocando criminosos irrecuperáveis de volta às ruas como estamos cansados de ver, o mundo e, principalmente esse país seria um lugar melhor para se viver.
- Me parece que o Jonas tem isso dentro de si instintivamente. A seu modo, ele fez valer o código de Hamurabi, a lei de Talião, embora não faça a menor ideia do que isso significa. Não me parece justo que alguém assim seja condenado por fazer justiça. – retrucou ele. Beijei-o intensa e apaixonadamente, por ser meu cúmplice nesse segredo. – O que seria de mim se aqueles sujeitos tivessem conseguido tirar sua vida? Eu certamente não seria esse homem você torna mais feliz a cada dia que passamos juntos.
- Ah esses pombinhos recém casados! Que tanto cochicham, como se o mundo a sua volta não existisse! – exclamou minha mãe quando nos encontrou à porta.
Foi outro domingo relaxante. Meu pai e o do Victor trocando dicas para fazer o melhor churrasco diante da churrasqueira enquanto bebiam cerveja. Minha mãe e a dele na cozinha terminando os acompanhamentos como se fossem amigas de longa data e, o Victor e eu tomando sol numa das espreguiçadeiras do jardim, trocando beijos enquanto ele tentava disfarçadamente enfiar a mão dentro do meu short para bolinar minhas nádegas e vasculhar meu buraquinho onde dali a algumas horas ia meter seu caralhão esporrador. A felicidade não precisa mais do que isso, pessoas que nos amam e que amamos à nossa volta, acreditando que o futuro sempre tem algo de bom nos esperando, mesmo quando experiências ruins nos levem a achar que tudo está perdido.



