A cidade ainda cheirava a mar, poeira, óleo diesel e sonhos suspensos. Os muros descascados do bairro de Kinaxixi exibiam cartazes rasgados com palavras de independência, e, no porto, navios enferrujados aguardavam destinos incertos. Era uma noite quente, abafada, com o vento do Mussulo empurrando um murmúrio úmido sobre a cidade.
Henrique, jovem enfermeiro angolano, caminhava pelas ruas estreitas onde lâmpadas amareladas tremiam como se também temessem o futuro. A guerra já não trovejava na mesma frequência, mas a paz ainda não sabia pronunciar o próprio nome. Ele vinha da extensão do Hospital Maria Pia, os ombros cansados e o coração aceso por tudo o que via: feridos, esperançados, órfãos, revolucionários e amantes clandestinos.
No pátio de uma antiga casa colonial transformada em alojamento, ele avistou Amália, professora primária, recém-chegada de Malanje. Ela estava sentada no parapeito, o rosto voltado para o mar, e o lenço vermelho que prendia seus cabelos negros se movia lentamente, como bandeira íntima. Seus olhos tinham brilho de rio profundo, e sua postura — ereta, silenciosa, intensa — parecia desafiar tudo o que o tempo tentava destruir.
— Ainda acordada a esta hora? — perguntou Henrique, com voz baixa.
— Dormir? Com o país prestes a nascer? — ela respondeu, sorrindo de lado. — E você?
— Mesmo motivo. Ou talvez outro… mais bonito.
Os dois sorriram com cumplicidade. Um relâmpago distante iluminou o céu, sem trovão — apenas um risco, como aviso.
Amália se levantou, aproximou-se devagar, e o ar entre eles pareceu ganhar temperatura própria. Ele sentiu o cheiro da pele dela: mistura de sabão azul, suor leve e perfume de flor selvagem. Ela, por sua vez, percebeu nos olhos dele uma doçura rara naquela época em que muitos homens falavam mais de armas do que de afetos.
— Você também tem medo? — ela perguntou.
— Tenho. Mas não do futuro… tenho medo de não vivê-lo por inteiro.
O silêncio seguinte não era vazio; era um convite. Ela tocou o rosto dele com as pontas dos dedos, percorrendo devagar a linha da mandíbula. O toque era suave, mas carregado de desejo guardado. Ele segurou a mão dela com delicadeza, como se fosse cristal, e beijou lentamente seu pulso, sentindo o pulso dela acelerar — vida pulsando, país pulsando.
Caminharam juntos até o interior do alojamento. A luz da lamparina criava sombras dançantes nas paredes descoloridas. Lá dentro, nada era luxuoso: cama simples, paredes frias, cortinas curtas, mosquiteiro fino e uma pequena janela por onde entrava o som distante das ondas da Baía de Luanda. Mas naquele espaço, a intimidade parecia palácio.
Amália desfêz o lenço dos cabelos, e os fios escorreram pelas costas. Henrique aproximou-se com calma, roçando o nariz no pescoço dela, sentindo o sal leve da pele e a respiração que alternava entre firme e sussurrada. Os corpos se encostaram como quem reconhece o que sempre procurou — sem pressa, sem medo, sem hierarquias.
Beijaram-se com entrega crescente, primeiro suave, depois profunda, como quem bebe água após longa seca. As mãos exploravam, mas nunca exigiam; os suspiros vinham sem vergonha; a pele queimava, não pela guerra, mas pela vida. Quando se deitaram, foi como se o mundo lá fora esperasse — e naquela cama simples, o tempo se curvou.
Naquela noite, o erotismo não foi fuga, nem culpa: foi território de esperança, onde dois corpos africanos encontraram não apenas prazer, mas reparação íntima, futuro possível e a certeza de que Angola também nasceria dentro deles.
Quando o dia começou a clarear, com o cheiro de gengibre, carvão e mar, Amália sussurrou:
— O país vai nascer hoje ou amanhã, mas nós… já nascemos esta noite.
Henrique sorriu, e pela primeira vez em meses, não temeu nada.

