A candidata exibicionista

MEU PEDIDO AO BRASIL: DEIXEM-ME SER CANDIDATA

Eu tenho uma proposta política que provavelmente faria muita gente rir.

Alguns ficariam indignados.

Outros diriam que eu enlouqueci.

E talvez justamente por isso eu queira apresentá-la aqui.

Eu quero ser candidata à Presidência da República.

Mas quero ser candidata sendo exatamente quem eu sou.

Uma mulher exibicionista.

Uma mulher que não vê a própria nudez como algo vergonhoso a ponto de precisar escondê-la do Estado.

E uma mulher que acredita que a lei brasileira deveria mudar radicalmente a maneira como trata a nudez e a sexualidade em espaços públicos.

Minha proposta é simples de explicar, embora seja difícil de aceitar para muita gente:

uma mulher adulta que queira andar completamente nua em público não deveria ser automaticamente transformada em criminosa.

E vou mais longe.

Se essa mulher quiser se masturbar em público, sem violência, sem obrigar ninguém a participar e sem causar um dano concreto a terceiros, eu não acho que isso, por si só, deveria ser suficiente para colocá-la atrás das grades.

Sim.

É exatamente isso que estou propondo.

Não estou usando uma metáfora.

Não estou tentando suavizar a ideia.

Estou dizendo que uma mulher adulta deveria ter liberdade sobre o próprio corpo.

Se ela quiser ficar nua, deveria poder ficar nua.

Se quiser se masturbar, deveria poder fazê-lo.

E se, em uma situação em que isso fosse legalmente permitido, ela quiser que outra pessoa participe ou a toque sexualmente, essa interação deveria depender exclusivamente de consentimento.

Ela pode dizer sim.

Pode dizer não.

Pode mudar de ideia.

E ninguém deveria interpretar a nudez dela como autorização automática para qualquer coisa.

Porque essa é justamente a segunda metade da minha proposta:

quanto maior a liberdade corporal, maior deve ser a proteção contra violência e coerção.

Quero leis extremamente severas contra estupro, assédio, ameaças, força física e qualquer contato sexual não autorizado.

Quero deixar uma coisa absolutamente clara:

uma mulher nua não é uma mulher disponível.

Uma mulher que se masturba não autorizou ninguém a tocá-la.

Uma mulher que permite um toque pode retirar essa permissão a qualquer momento.

E uma mulher que simplesmente está nua não concedeu absolutamente nenhum direito sobre o próprio corpo.

Para mim, essa distinção deveria ser fundamental.

MAS POR QUE MULHERES?

Essa é provavelmente a primeira pergunta que vocês fariam.

E eu sei exatamente qual é a objeção.

“Se isso é liberdade corporal, por que você está falando especificamente de mulheres?”

Porque eu considero que existe uma diferença de risco entre determinadas formas de exposição e comportamento sexual.

Não acredito que homens e mulheres sejam biologicamente idênticos em todos os aspectos relevantes para a elaboração de uma lei.

Um homem, em média, possui maior força física e está estatisticamente associado à maior parte dos casos de violência sexual. Além disso, a anatomia masculina permite determinadas formas de agressão sexual que não possuem equivalente direto na anatomia feminina.

Isso não significa que uma mulher não possa cometer violência.

Pode.

E, quando cometer, deve responder por ela.

Também não significa que todo homem seja perigoso.

Obviamente não.

Meu argumento é outro:

se o potencial de dano não é exatamente igual, por que a legislação precisa necessariamente tratar as situações como se fossem?

Para mim, a pergunta correta não deveria ser “isso é sexual?”.

Deveria ser:

“quem está sendo prejudicado e de que maneira?”

E O ARGUMENTO DO “VOCÊ ESTÁ OBRIGANDO AS PESSOAS A VER”?

Esse argumento também merece ser discutido.

Eu ouço frequentemente:

“Mas as pessoas não escolheram ver!”

É verdade.

Mas ninguém escolhe tudo aquilo que encontra na rua.

Eu posso sair de casa e encontrar uma passeata política.

Uma manifestação religiosa.

Uma parada LGBT.

Uma torcida organizada.

Um carro de som.

Uma campanha publicitária.

Uma evangelização.

Um protesto.

Uma multidão bloqueando uma avenida.

Eu não escolhi nenhuma dessas coisas.

Simplesmente encontrei aquilo no espaço público.

E nossa sociedade aceita que pessoas diferentes expressem opiniões, crenças, identidades e estilos de vida que outras pessoas não necessariamente querem ver.

Existem limites, obviamente.

Não estou dizendo que qualquer comportamento deva ser permitido.

Estou dizendo que “eu não queria ver isso” não deveria ser automaticamente equivalente a “isso precisa ser crime”.

ENTÃO POR QUE UMA MULHER NUA CAUSA TANTO ESCÂNDALO?

Essa pergunta me interessa particularmente.

Porque boa parte da reação social à nudez não é necessariamente consequência de um dano físico.

É consequência de uma convenção.

Aprendemos que determinadas partes do corpo devem ser escondidas.

Aprendemos que determinadas manifestações sexuais são extremamente privadas.

Aprendemos que uma mulher nua em determinado contexto é “escandalosa”.

Mas essas fronteiras mudaram muitas vezes ao longo da história.

O que hoje parece absurdo já foi normal.

O que hoje parece normal já foi considerado absurdo.

Então eu pergunto:

quanto da nossa legislação está realmente protegendo pessoas e quanto está simplesmente protegendo costumes?

Eu quero que essa discussão seja feita.

E EXISTE UMA OUTRA INCOERÊNCIA QUE ME INCOMODA

Vejo frequentemente homens urinando em vias públicas.

Isso acontece em shows, no Carnaval, em jogos de futebol e em grandes aglomerações.

E algumas vezes eles acabam expondo os próprios genitais.

Nem sempre isso provoca uma reação proporcional à que uma mulher provavelmente receberia se expusesse a própria genitália nas mesmas circunstâncias.

Não estou dizendo que homens devam poder urinar em qualquer lugar.

Não estou dizendo que exposição genital masculina seja automaticamente aceitável.

Estou dizendo que quero coerência.

Se existe uma regra, precisamos saber exatamente qual é a razão dela.

É higiene?

É assédio?

É perturbação?

É dano?

É exposição involuntária de terceiros?

Ou é simplesmente a sensação coletiva de que aquilo é moralmente errado?

Porque essas coisas não são necessariamente iguais.

E AGORA VEM O MEU PEDIDO

Eu sei que muitos de vocês provavelmente estão pensando:

“Essa mulher nunca conseguiria ser eleita.”

Talvez não.

Talvez a sociedade brasileira ainda não esteja preparada para uma candidata como eu.

Mas existe uma diferença entre dizer que minha proposta é impossível politicamente e dizer que eu não deveria sequer ter o direito de apresentá-la.

É justamente isso que quero colocar em discussão.

Imaginem que minha candidatura fosse juridicamente possível.

Imaginem que eu pudesse registrar meu nome.

Participar dos debates.

Aparecer na televisão.

Explicar minhas propostas.

Ser criticada.

Ser ridicularizada.

Ser atacada.

E, finalmente, colocar meu nome na urna.

Eu não quero que vocês votem em mim porque sou exibicionista.

Quero que decidam se uma exibicionista pode defender uma ideia política que vocês consideram válida.

Porque eu não estou propondo que todo mundo se torne como eu.

Não quero obrigar ninguém a ficar nu.

Não quero obrigar ninguém a assistir.

Não quero obrigar ninguém a gostar.

Quero defender o direito de uma mulher adulta escolher o que fazer com o próprio corpo sem que a simples reprovação moral da maioria seja suficiente para transformá-la em criminosa.

Minha proposta pode ser resumida assim:

Liberdade para o corpo.
Consentimento para o contato.
Proteção contra a violência.
Punição para a coerção.
Igualdade perante a lei.

E, sim, eu sei perfeitamente como isso soa.

Uma mulher exibicionista querendo chegar ao Palácio do Planalto.

Talvez eu seja a candidata mais improvável da história.

Talvez também seja justamente por isso que vocês deveriam discutir minhas ideias.

Então eu quero fazer uma pergunta diretamente a vocês.

Não quero saber se vocês acham minha proposta convencional.

Não é.

Não quero saber se vocês acham minha vida sexual convencional.

Definitivamente não é.

Quero saber outra coisa:

se eu conseguisse legalmente me candidatar à Presidência com exatamente essas propostas, vocês votariam em mim?

Ou minha condição de mulher exibicionista seria suficiente para fazer vocês apertarem o botão de outro candidato?

Se a minha candidatura fosse possível, eu teria o seu voto?


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Comentários


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casalex Comentou em 09/09/2026

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Ficha do conto

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Nome do conto:
A candidata exibicionista

Codigo do conto:
271855

Categoria:
Exibicionismo

Data da Publicação:
09/09/2026

Quant.de Votos:
3

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