Dois corpos em frequência na Atlântica de 2125

O século XXII havia dissolvido as antigas palavras que tentavam capturar o amor.
As pessoas já não se apresentavam com definições — eram apenas seres que se reconheciam nos outros, como se as almas se tocassem antes mesmo dos corpos.

Lauro morava em Aurora, uma metrópole suspensa sobre o Vale do Paraíba, onde os prédios respiravam luz e a chuva era colhida para alimentar jardins verticais.
Marcela vivia em Serena, na orla de um litoral que um dia fora o norte de São Paulo, onde o mar e as cidades haviam se reconciliado após séculos de descuido humano.

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Encontraram-se no Rio de Janeiro, agora chamada de Atlântica, durante o festival das Luzes Harmônicas — um evento em que os oceanos eram iluminados por drones bioluminescentes e a cidade se tornava uma constelação viva refletida nas águas da baía.

Não havia intenções. Apenas um olhar que se demorou tempo suficiente para que o universo decidisse por eles.

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Lauro — de voz calma, gestos lentos e olhar que parecia entender o que ficava por trás das palavras — viera de uma vida de afetos profundos.
Amara três homens na juventude, depois casara-se com um homem trans com quem tivera dois filhos biológicos — agora adolescentes curiosos e luminosos, que viviam com o pai em Aurora.
O divórcio não fora uma ferida, mas uma metamorfose: cada um seguira seu fluxo, sem culpa, sem culpa possível numa era em que o amor não se mediava mais por posse.

Marcela — de cabelos curtos e sorriso que parecia feito de vento — tinha vivido amores com mulheres, amores longos e curtos, ternos e intensos.
Jamais se entregara a um homem, mas não por princípio: apenas porque o caminho da vida nunca a levara nessa direção.
Até aquele verão.

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Conheceram-se numa tarde dourada, durante uma oficina de música ancestral no bairro reconstituído de Santa Teresa.
Falavam de som, de frequência, de como cada corpo vibrava em uma nota única.
Quando seus dedos se tocaram pela primeira vez, o silêncio entre eles soou como o início de uma melodia.

A cidade, lá fora, parecia respirar com eles.
Os bondes levitavam em trilhos magnéticos, as paredes mudavam de cor conforme o humor das pessoas, e o ar tinha cheiro de frutas e maresia.

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Naquela noite, caminharam até o mirante da antiga Lapa.
A lua refletia-se sobre os arcos reconstruídos, e o vento trazia ecos de canções vindas dos terraços suspensos.
Não havia pressa.
Quando se beijaram, foi como se o tempo tivesse esquecido de correr.

O toque foi delicado, sem destino e sem invasão.
Não havia “primeira vez” — apenas uma continuidade de vidas que pareciam se reencontrar.
Ele jamais havia se conectado com a alma de uma mulher; ela nunca se deitou com um homem.
Mas naquela época essas palavras já não serviam para explicar o que acontecia entre dois seres.
Acariciando-se mutuamente os dois gozaram numa deliciosa masturbação.

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Na manhã seguinte, os dois estavam deitados lado a lado, observando a luz filtrada pelas cortinas de energia translúcida do quarto de hotel.
Nada precisou ser dito.
O corpo de um e o olhar do outro se completavam como formas que o tempo moldara para caberem juntas.
Não havia estranhamento, só descoberta — como se cada gesto fosse uma antiga lembrança que voltava à pele.

Durante os dias seguintes, viveram o que chamavam de “férias do real”:
mergulharam nas águas claras de Niterói, flutuaram em jardins suspensos na Serra do Mar, dividiram silêncios em cafés de Copacabana onde as mesas reagiam à emoção dos clientes, e comemoraram a chegada de 2126 no Corcovado.
Suas noites foram maravilhosas feitas com ternura e muito prazer, sem precisarem da penetração, prática que havia se tornado incomum naquela época.
Cada instante era uma variação da mesma sinfonia: o reencontro entre o humano e o livre.

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Quando chegou o momento de Lauro e Marcela voltarem às suas cidades, o céu sobre Atlântica estava lilás.
Ela segurou sua mão — um gesto simples, mas cheio de sentido.

— A gente se vê — disse, sorrindo.
— A gente se sente — ele respondeu.

E, assim, partiram — não como quem se despede, mas como quem continua uma história que já não precisa de explicação.

No século XXII, ninguém perguntava “quem ama quem”.
Só se perguntava como se ama — e, naquele verão, eles haviam encontrado a resposta:
o amor é aquilo que acontece quando a alma reconhece no outro o espelho do seu próprio movimento.

Foto 1 do Conto erotico: Dois corpos em frequência na Atlântica de 2125


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Comentários


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pelotoque Comentou em 09/11/2025

Obrigado pela leitura. Tomara que seja esse o cenário no futuro, ou algo semelhantemente libertário.

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engmen Comentou em 09/11/2025

Nesse fabuloso ficcional futuro utópico, as sensações, sentimentos e clareza deixam sua poética e encantadora mensagem. Conto magistral!




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Ficha do conto

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pelotoque

Nome do conto:
Dois corpos em frequência na Atlântica de 2125

Codigo do conto:
246754

Categoria:
Bissexual

Data da Publicação:
08/11/2025

Quant.de Votos:
3

Quant.de Fotos:
1