Ela já foi dizendo: " Se quiser comer a comida ta no fogão"
Fui lá na cozinha,preparei meu prato e voltei pra sala com o prato na mão. Fiquei sentado no sofá comendo assistindo novela com ela.
A TV estava ligada na Globo. Passava Terra e Paixão.Um casal se aproxima demais. Olhares longos. Música subindo. Beijo intenso.
— menino… essa novela tá cada vez mais indecente
Eu ao lado, ria sem graça. Olhava pra TV. Depois olhava pro prato.
Então sem pensar direito falei:
— Mãe…
— Fala, mas fala rápido que agora é a parte importante.Ela respondeu sem nem olhar pra mim
Então perguntei
Como é que eu chego nisso aí?
— Nisso aí como? No beijo ou no…
(faz um gesto estranho com a mão)
…resto? Disse ela
— No resto.Eu disse
— Nunca pensei que essa conversa fosse acontecer assim.Nem hoje.Nem com a novela ligada.
— Esquece, mãe. Foi mal. Eu não devia
— Não, não.Agora já abriu a porta, não tem como fingir que não ouvi.
— O que exatamente você quer saber?
Fiquei olhando pro nada:
— Tudo. E nada.Eu nunca consigo chegar nessa fase.Nunca.Aí eu fico pensando se tem algo errado comigo.Se eu sou feio demais.Ou magro demais.Ou só… sem graça.
— filho, eu sou boa pra falar de boleto, de vida difícil, de palavrão…mas isso aqui…não é meu território.
— Percebi.
— Mas uma coisa eu sei: você não é feio.
— Você é minha mãe. É claro que vai dizer isso
— Pois é.Você tem um ponto. Ela riu
— Olha… na novela parece fácil porque ninguém gagueja, ninguém sua, ninguém fica sem saber onde colocar a mão.
— Eu não sei nem onde colocar a palavra.
Minha mãe ri, depois fica séria
— Filho… coragem não é igual nessas histórias.Não vem com música.Nem com certeza.
— Então como vem?
Minha mãe abre a boca. Fecha. Respira. Franze a testa.
— Aí que tá.Eu… não sei explicar direito.
— Todo mundo fala como se fosse óbvio.
— Não é óbvio.É só que ninguém admite que também não sabe.
Ela passa a mão no rosto, claramente incomodada.
— Você conversa.Você tenta.e....…em algum momento acontece. É assim que as coisas são
— E se não acontecer?
— Então não aconteceu ainda?? É isso!?
— Não… — eu disse, quase num sussurro. — Ainda sou virgem.
Minha mãe piscou algumas vezes. Abriu a boca, fechou. Passou a mão na perna, como se estivesse limpando algo invisível.
— O que foi!? A senhora não acredita!?
— Não, não é isso...humm... Certo.
— Olha… — começou, e parou de novo. — Isso não é… um problema.
— Claro que é mãe. Todos da minha faixa etária já fizeram.
— Você não está atrasado — insistiu, sem muita convicção. — Cada um tem seu tempo.
— Todo mundo fala isso — Mas ninguém explica o que fazer enquanto o tempo não chega.
— Filho… eu queria saber te explicar melhor. Queria mesmo te mostrar o caminho, mas eu talvez não saiba ou não estava esperando por isso
Ficou aquele silêncio entre a gente. A conversa não tinha terminado. Apenas tinha sido interrompida.
Me levantei e fui dormir. Quando foi de manhã entrei na cozinha ainda meio sonolento. Camiseta velha, cabelo desgrenhado, cara de quem passou a noite pensando demais.
— Bom dia — eu disse
— Bom dia! — respondeu minha mãe
Ela colocou um prato na minha frente com vos mexidos. Torrada. Café.
— Dormiu bem? — perguntou
— Mais ou menos. Eu disse
— Pensou em… coisas? — perguntou ela, rápido demais.
Eu congelei.
— Que coisas?
Acho que ela percebeu o erro tarde demais.
— Coisas da vida! — corrigiu, rindo alto. — Faculdade, futuro, essas… coisas.
Ela tentou desconversar mas eu entendi o que ela estava querendo dizer.
— Maaaeee
—Ai desculpa filho. É que eu ainda tou com a nossa conversa de ontem na cabeça. Tou me sentindo em débito com você
— Não, tá tudo bem mãe, pode ficar tranquila
— você já pensou em aplicativos!?
Eu levantei os olhos devagar.
— Aplicativo de quê?
— De… conhecer pessoas. — Ela fez aspas no ar, nervosa. — De conversar. De… interagir.
— Você tá falando de aplicativo de namoro?
— Não, imagina! — respondeu rápido demais. — Quer dizer… sim. Mas não só isso. É… socialização moderna.
Larguei a xícara..
— Mãe.
— O quê? Eu tô sendo moderna! Atualizada! Inclusiva!
— A senhora já usou um aplicativo desses?
— Eu não disse que usei — rebateu ela, ofendida. — Eu disse que sei que existe.
— Por que a senhora tá falando disso agora?
— Porque… — fez um gesto amplo com a mão — …o mundo tá cheio de oportunidades!
— Olha, eu só acho que você precisa… se soltar mais.
— Se soltar como?
— Sei lá! — explodiu. — Conversar! Sair! Beijar na boca!
Silêncio absoluto.
— Mãe… — disse, com a voz falhando. — Dá pra você parar?
Me levantei
— Eu vou pro quarto.
— filhoo…
— Depois a gente conversa
Sair rápido demais
No quarto, fechei a porta me jogando na cama.
Pensei nos amores platônicos da faculdade. Na garota da segunda fileira. Em como nunca teria coragem de puxar assunto. Em como a simples ideia de “se soltar” parecia impossível.
Peguei o notebook.Não porque achava que daria certo.Mas porque não abrir parecia pior.
Criei um perfil, foi uma experiência diferente
“Descreva você em poucas palavras.”
Fiquei uns cinco minutos olhando para a porra da tela.
Escrevia e Apagava “sou tranquilo”.
Escrevia e Apagava “gosto de filmes”.
Escrevia e Apagava “sou legal depois que você me conhece”.
No fim, escrevi qualquer coisa.
Passou uns bons dias, quando finalmente apareceu uma notificação de mensagem, meu coração disparou como se estivesse cometendo um crime.
Então eu li. Reli. Digitei Apague. Digitei de novo.
— Calma… — sussurrei para mim mesmo. — É só uma conversa.
Fui tentando desenrolar do meu jeito.. O tempo foi passando e sentia que as coisas não iam andando muito.
Até que ela deixou de falar comigo por bastante tempo.Nesse meio tempo,abri mais uma aba no navegador, coloquei no site porno e comecei a bater uma.
Lá estava eu novamente na frente da porra de um computador batendo punheta, com um desejo fudido de saber o gosto de comer uma boceta.
Quando as coisas estavam ficando interessantes, escuto duas batidinhas na porta do meu quarto
— Filho? Filho!?
Silêncio.Torcendo pra ela ir embora.
— A gente precisa conversar — disse ela. — Mas dessa vez…(pausa)…eu prometo tentar não piorar.
— Droga mãe,cortou o barato
Fechei o notebook devagar.
— Só um minuto mãe, gritei enquanto me ajeitava e esperava meu pau baixar um pouco mais.
Fui até a porta, abri e ela entrou.
— Eu ouvi sua conversa.
Eu arregalei os olhos.
— Você o quê?!
— Calma! — disse ela, levantando as mãos. — Não por querer. Foi por acaso. Tava passando e ouvi.
Meu Deus…se ela ouviu isso, será se ela ouve meus vídeos porno!?
— Filho, olha pra mim. — Ela esperou.
Aquilo ali não foi uma conversa. Foi horrível
— Eu tava nervoso!
— Eu sei. Mas você parecia alguém pedindo permissão pra existir.
Silêncio.
— Tá bom — eu disse, derrotado. — O que eu fiz de errado?
Minha mãe respirou fundo.
— Tudo — respondeu rápido demais. — Quer dizer… quase tudo.
Ela se levantou de repente.
— Vamos fazer assim. Aula prática.
— Aula prática de quê?
— De conversa! De charme! De… sei lá, disso tudo!
— Mãe, isso já tá errado, não vai funcionar
— Eu vou ser a garota.
O mundo parou.
— Não — eu disse , instantaneamente. — Não. Não mesmo.
— Relaxa! — respondeu . — É só simulação. Eu sou atriz agora.
— Você não é atriz! Falei rindo
— Eu assisto novela há quarenta anos, Rogério. Isso conta como pós-graduação.
- Desde que a senhora nasceu!!?
- Hahaha seu engraçadinho, foi modo de falar.
Ela pigarreou, mudou o tom de voz para algo artificialmente doce e cruzou as pernas.
— Oi — disse, exagerada. — Tudo bem? Eu vi seu perfil e achei você interessante.
Olhei em volta, procurando uma saída invisível.
— Mãe, por favor—
— Responde! — sussurrou ela, agressiva. — Vai!
— Oi… — disse, travado. — Tudo bem… e você?
— Tá vendo? — ela interrompeu, voltando ao normal. — Péssimo começo.
— EU DISSE OI!
— Mas disse como quem pede desculpa por respirar.
Ela voltou ao personagem.
— Então, o que você gosta de fazer?
Pensei demais.
— Eu gosto de… coisas simples.
— Não — interrompeu. — Isso é resposta de
entrevista de emprego.
— Mas é verdade!
— Verdade sem charme é só informação, Rogério.
Ela cruzou os braços.Ja vi que vinha bronca. Sempre vinha quando ela me chamava pelo nome
— Você precisa provocar curiosidade.
— Como?
— Sei lá! — respondeu ela, irritada. — Diz alguma coisa interessante!
— Eu não sou interessante!
— Tá vendo? — ela apontou pra mim. — Esse é o problema!
Ela respirou fundo, perdeu o personagem de vez.
— Filho, você não conversa, você se explica.
— Porque eu não sei o que elas querem!
— Ninguém sabe! — explodiu. — Nem elas!
Silêncio constrangedor.
Ela passou a mão no cabelo, exausta.
— Ok… talvez eu não seja a melhor professora.
— Talvez? — falei brincando
— Mas uma coisa é clara — disse ela, sentando de novo. — Você não precisa impressionar. Só precisa parar de pedir desculpa por não ser outra pessoa.
Fiquei quieto.
— E você — continuou ela — precisa aprender a ouvir. A não preencher todo silêncio com nervosismo.
— O silêncio me assusta.
— Pois é — respondeu
Ela levantou de novo.
— Aula encerrada.
Ela foi até a porta, parou antes de sair.
— Mas amanhã… — acrescentou, sem olhar pra mim — Amanhã a gente tenta de novo. Com menos trauma.
E saiu.
Fiquei sentado, encarando a parede. Não sabia o que pensar sobre aquilo...
Continua...