Foi aí que resolvi agir. Comprei um celular moderno, desses que não travam, e mandei entregar direto pra ele, no interior. Tempo depois, ele me ligou, rindo e dizendo que não sabia nem por onde abrir o aparelho.
Naquela noite, em casa, deitada no sofá, de jeans e camisa branca aberta nos primeiros botões, aproveitei que Jorge estava ocupado no quarto e comecei a ensinar meu pai a mexer no celular. A videochamada foi um caos no começo: câmera torta, teto aparecendo, ele reclamando dos botões. Mas quando finalmente consegui ver o rosto dele direito — cabelo grisalho bagunçado, óculos tortos, sorriso aberto — foi como um abraço à distância. senti que tinha feito a coisa certa.
A conversa fluiu com naturalidade. Rimos, testamos filtros, ele desligava a câmera sem querer, eu gargalhava. Um riso que eu já não dava mais em casa. Quando Jorge apareceu perguntando do que eu ria, disfarcei, dizendo que era só meu pai aprendendo a usar o celular.
Naquela noite, ficamos horas conectados. Não era mais só saudade da voz. Agora tinha olhar, sorriso, presença.
E aquilo acabou despertando em mim, em nós uma certa ansiedade, era um momento que eu esperava o dia inteiro, para vê-lo. Eu, sentada no sofá, camisa aberta, cabelo preso de qualquer jeito, eu ligava e lá estava ele, ajustando a câmera, sorrindo como quem também esperou por aquilo.
A gente falava das coisas simples: eu reclamava do trânsito, do trabalho, das brigas com Jorge; ele contava da feira, do quintal, da cadeira na calçada. Era cuidado disfarçado de conversa comum.
Às vezes, o tom mudava. Ele comentava que passou pelo quarto e sentiu como se eu ainda estivesse ali. Eu confessava que, às vezes, sentia o cheiro da casa dele na minha roupa. A gente ria pra disfarçar, mas entendia o peso daquilo.
Passamos a criar códigos quando queríamos falar da noite de amor que nós tivemos.
— Pai, lembra daquela “noite da conversa longa”?
— Como esquecer? — ele suspirou.
Pequenas frases que escondiam lembranças que não precisavam ser ditas em voz alta. Nem todas as ligações eram longas. Às vezes, eu só ligava pra ouvir a voz dele. Outras vezes, ficávamos quase uma hora entre risos e silêncios que diziam mais do que palavras.
Naquela mesma semana os ânimos entre eu e meu marido esquentaram. No trabalho, tudo virou tensão. Eu e Jorge brigávamos por decisões, por controle, por coisas que antes não eram problema, eu tinha que resolver aquela situação entre nós, não tinha como prolongar muito mais tempo ou então eu iria explodir.
Enquanto isso à noite, exausta, eu largava tudo, soltava o cabelo, tirava a maquiagem e ligava pro meu pai. A voz dele continuava sendo meu alívio.
Falávamos do dia, como sempre. Mas naquela noite, o silêncio demorou mais. Então eu falei
— Sabe… às vezes bate aquela saudade da nossa “conversa longa”.
— Eu também sinto minha Carolina
— E como é que o senhor convive com isso? perguntei
— Vivo ouvindo música, minha filha. Flávio José… sabe? “Pedaço de Mal Caminho”, “A Casa da Saudade”… parece que foram escritas pra gente. É nelas que eu encontro o que não posso falar em voz alta.
— Eita painho, eu substituí a sua solidão pela saudade… será que fiz bem?
— Fez sim. É melhor viver de saudade do que morrer de solidão.
Na hora eu rir, um sorriso que misturava dor e ternura. De repente passos ecoaram atrás de mim. Jorge vinha da cozinha com um copo d’água
Quando Jorge apareceu, mudei o tom na hora. Meu pai entendeu sem que eu precisasse explicar. Depois que o silêncio voltou, ele disse que eu vivia num campo minado.
Eu respondi que ia resolver as coisas, mas que ele vivia em mim — e que isso, por enquanto, me bastava.
A ligação terminou mais tarde do que deveria, com ambos trocando recomendações quase banais:
— Não esqueça de tomar o remédio da pressão. Eu dizia
— Não fique virando noite no trabalho. Ele falava
Mas dentro da rotina de “cuidados inocentes”, as entrelinhas gritavam. A gente não sentia falta apenas da companhia um do outro, mas do toque, do cheiro, da presença física um do outro.