Meu pai estava dormindo no sofá.
Ou tentando.
Desde a briga, ele não tirava os tênis dos pés antes de deitar. Funcionário público aposentado, trinta anos trabalhando na prefeitura, acostumado a rotina, papelada, horário fixo. Sempre foi um homem organizado. Metódico.
Agora andava pela casa como se estivesse de plantão.
Era estranho ver aquele homem de 1,80, ombros largos ainda firmes apesar da idade, cabelos grisalhos e bigode grosso sempre bem aparado, rondando meu apartamento como se fosse um vigia.
E eu era o motivo.
Eu estava no quarto, luz apagada, celular Nokia em cima da mesa de cabeceira.
Ele tocou às 23h47.se me recordo bem.
O toque polifônico parecia mais alto do que realmente era. Meu coração disparou como se o aparelho estivesse gritando.
Eu deixei tocar três vezes antes de atender.
— Alô.
Silêncio do outro lado.
Mas eu sabia que ele estava ali.
— Eu sei que seu pai tá aí — a voz dele veio baixa, controlada demais.
Eu fechei os olhos.
— Iago, não liga mais.
— Você vai mesmo me descartar assim?
A palavra ficou ecoando na minha cabeça. Descartar. Como se fosse eu a agressora.
— Não é isso.
— Então o que é? Seu pai te encheu a cabeça?
Eu olhei para a porta do quarto, imaginando se ele poderia estar ali fora. Ridículo. Mas o medo não é racional.
— Eu não vou voltar.
Do outro lado, uma respiração pesada.
— Você tem certeza do que está fazendo?
Não era pergunta. Era aviso.
Eu me levantei e fui até a janela. Abri a cortina só o suficiente para espiar a rua. O poste em frente ao prédio piscava levemente. Um carro branco estava estacionado do outro lado.
Eu não lembrava de ter visto aquele carro antes.
— Eu tenho.
Minha voz não saiu firme como eu queria.
— Eu só quero conversar. Sem seu pai. Só nós dois.
A ideia de encontrar Iago sozinha fez meu estômago embrulhar.
— Não.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você acha que eu sou um monstro?
Eu não respondi.
— Alessandra… você sabe como eu fico quando você me provoca.
A frase veio suave. Quase carinhosa.
Eu senti a pele do braço formigar onde ainda havia o hematoma.
— Eu não provoco ninguém.
— Você sabe que eu te amo.
A palavra amor, naquela hora, soava como ameaça.
O carro branco lá fora ligou o farol por um segundo, depois apagou.
Meu coração começou a bater nos ouvidos.
— Iago, acabou. Você entendeu? ACABOU!!!
Ele riu. Não foi alto. Foi curto.
— Ninguém acaba comigo assim.
Eu ouvi o rangido do sofá na sala. Meu pai estava acordado.
— Eu não vou te receber, ta ouvindo!!? — eu disse, mesmo sem saber se ele estava ali por perto
Ele ficou em silêncio, em seguida a ligação caiu. Escuto duas batidinhas na porta, era meu pai perguntando se eu estava bem. Provavelmente ele tinha ouvido o
telefone tocar. Eu disse que sim e tentei voltar a dormir.
Com muito custo, conseguir cochilar um pouco. Na madrugada, fui ao banheiro fazer xixi e trocar de roupa. O calor de Guarujá estava insuportável naquela noite ou talvez fosse meu medo me fazendo transpirar mais do que o normal.
Tirei a calça cinza de pijama ficando só de calcinha e sutiã branco diante do espelho e vi as marcas nas coxas.
Duas manchas arroxeadas, uma já desbotando, outra recente.
Eu tinha aprendido a não olhar por muito tempo. Quando voltei do meu estado de distração olhei em volta e me dei conta que não tinha levado meu shortinho que eu tinha planejado vestir no lugar da calça.
Então resolvi voltar para o quarto e me trocar por lá mesmo ou então dormir do jeito que eu estava mesmo. Peguei um roupão que eu costuma deixar no banheiro, vesti ele, mas sem amarra-lo.
Quando saí do banheiro, meu pai estava no corredor.
Ele parou.
Seus olhos desceram involuntariamente para minhas pernas.
O silêncio foi diferente.
— Alessandra…minha filha
Não era pergunta. Era constatação.
Eu senti o chão escapar. Ele se aproximou devagar, encostou a mão na minha coxa com olhar de incredulidade
— Desde quando essas c0oisas estão acontecendo meinha filha?
Não consegui responder de imediato.
Ele fechou os olhos por um segundo longo demais.
— Por que você não me contou antes?
Fomo até o sofá, eu sentei na beira e ele do lado.
— Porque eu tinha medo. Medo do que ele faria se soubesse que eu falei. Ele dizia que ninguém ia acreditar. Que você ia piorar tudo.
Meu pai respirou fundo. A mão grande passou pelo bigode num gesto automático.
— Foi ele que ligou a pouco!?
Eu não respondi com palavras.
Mas o silêncio respondeu. Meu pai passou o braço pesado pelos meus ombros, me puxando para perto num abraço forte.O peito dele pressionou meus seios.
Podia sentir a temperatura do corpo dele, era quente e tenho certeza que ele sentiu o meu tão quente quanto o dele.
Ele começou a falar no meu ouvido: "pai ta aqui, não vai deixar nada de ruim acontecer com você ta bom!!?". Ao ouvir aquilo
meus olhos encheram de agua, apertei as costas dele com mais força, quase que cravando minhas unhas nas na pele dele.
— Eu sei pai!! obrigada por ta aqui comigo. Me desculpe por ser uma filha que lhe tras problema
Ele se afastou só o suficiente para me olhar no rosto.
— Não diga isso, minha filha. Você não me trouxe problema. Olhe… eu também fui enganado. Achei que ele era um bom rapaz.
— Eu também achei — eu murmurei.
Ficamos alguns segundos em silêncio, escutando o ventilador girar.
— Sabe o que é pior? — ele continuou. — Eu tenho experiência. Já vi muita coisa nessa vida.E mesmo assim… não consegui identificar nada de errado no Iago.
A voz dele não tinha raiva. Tinha frustração.
— Ele parecia normal, pai.
— Parecia — ele concordou. — Às vezes as pessoas não mostram quem são de uma vez. Às vezes nem elas sabem.
Eu encostei a cabeça no ombro largo dele. Senti o cheiro familiar de sabonete simples e roupa lavada. Cheiro de casa.
— Eu fiquei com medo do senhor não acreditar em mim — confessei.
Ele respirou fundo.
— Eu posso falhar em muita coisa, minha filha. Mas em acreditar em você, não.
As palavras dele veio acompanhada de um leve carinho na minha cabeça. Os dedos dele entranhavam pelos meus cabelos. Então abruptamente ele muda de assunto
— Lembra daquela viagem pra Ubatuba? — perguntou de repente.
Eu ergui o rosto, surpresa.
— Qual delas?
— Aquela que você tinha uns quinze anos. Sua mãe inventou que a gente precisava “fortalecer os laços familiares”.
Um sorriso involuntário escapou de mim.
— Eu fiquei o tempo todo reclamando, eu tava um porre naquele dia
— E sua mãe dizendo que aquilo era bênção, não castigo. Sinal que você tava com saúde kk
O nome dela pairou entre nós. Minha mãe se foi em 2000, mas às vezes parecia que ainda estava na cozinha, reclamando do sal na comida.
— Ela ia saber lidar melhor com isso do que eu — meu pai murmurou.
— Não fala assim.
— É verdade. Sua mãe tinha um radar diferente para as pessoas.
Ele ficou olhando para o nada por alguns segundos, depois voltou a sorrir.
— Lembra quando ela te deixou um mês sem sair por causa das notas ruins no segundo ano?
Eu gemi.
— Pai, não lembra disso agora.
— Claro que lembro! Você trancada em casa, emburrada. E eu tentando bancar o "pai firme".
— Firme nada. Ainda bem que o senhor me deixou sair escondido quando ela foi trabalhar.
Ele abriu um sorriso largo, quase juvenil.
— Só uma vez.
— Três. Ele respondeu
Ele fingiu indignação.
— Não exagera.
A lembrança arrancou de mim uma risada que eu não dava havia dias. Talvez semanas.
— Eu achei que ela ia descobrir.
— Descobriu — ele confessou.
Eu arregalei os olhos.
— Descobriu?!
— Claro. Sua mãe sempre sabia. Só fingiu que não viu porque achava que eu precisava aprender também. Ela sabia que você tirava o que queria de mim
Eu comecei a sorrir, um sorriso involuntário. Ele me olhou e disse:
— É esse sorriso ai..
— O que tem ele!?
— Que me desarma. Que faz com que eu faça tudo por você
— E olha que eu nem tou falando com aquele jeitinho, com a voz mansa e dengosa rsrsrs
— Ai você acaba de vez comigo
Nós dois sorrimos. Depois um silêncio
— O senhor sente muita falta dela pai!!?
— Muito, sonho com ela quase todos os dias.
— Que lindo pai. Sempre achei perfeito o amor de vocês e sonhei que teria o mesmo
— Minha filha, tire da sua cabeça que todo relacionamento é perfeito, isso não existe.
— Como assim!?
— Eu e sua mãe também tínhamos nossos problemas, discussões, desentendimentos, mas sabíamos contornas essas situações com dialogo e muito companheirismo, afinal foi quase uma vida inteira.
— Pois eu quase não tenho lembranças de vocês discutindo.
— É que a gente tentava não fazer isso na sua frente
— Entendi, mas de todo modo vocês eram meu espelho, nunca imaginei que arrumaria um crápula da pior espécie.
— Você é jovem, tem o que 20,21 anos?
— 23 pai, o senhor não sabe minha idade!!?
— Claro que sei, estava só testando
— Sei...
— A questão é que você é nova, tem muito o que viver e haverá de encontrar um homem bom pra você
— Tomara pai, tomara!!
Meu pai continuou falando de outras coisas: do dia em que eu caí da bicicleta na praia e voltei chorando, jurando que nunca mais pisaria na areia; da vez em que fizemos churrasco improvisado no quintal e queimamos metade da carne; das festas juninas da escola.
Ele deitou no sofá e eu por cima dele. Ficamos acordados até o céu começar a clarear sobre os prédios baixos de Guarujá. O som das primeiras motos indo trabalhar substituiu o silêncio da madrugada.
Eu acabei adormecendo com a cabeça no peito dele com a certeza que com o meu pai ali, o medo não fazia morada.
