Só a gente.
A casa ficava diferente nesses dias. Mais leve. Mais barulhenta. Mais viva.
— Hoje ninguém faz nada — meu pai decretava, jogando o corpo na sua velha poltrona. Que de tanto ele sentar nela, já tinha o formato do corpo dele
— Ninguém nada — Jandira corrigia — porque almoço não se faz sozinho.
— Eu disse nada pesado.
— Então venha descascar cebola.
— Aí já é exploração.
Eu ria, sentada no sofá.
— Vocês dois não mudam.
— Ainda bem — Jandira dizia.
O dia passava entre pequenas tarefas, comida simples e conversa jogada fora.
Histórias do trabalho.
— A mulher lá onde eu trabalho tem três geladeiras — Jandira contava.
— Três? Pra quê? — eu perguntava.
— Uma pra comida, uma pra bebida… e outra só pra “organização”.
Meu pai soltava uma risada.
— Eu mal tenho espaço pra uma.
— Pois é.
— Um dia eu ainda vou abrir a geladeira e não vai ter só água e esperança.
Eu gargalhava.
— Também não é pra tanto né pai
— Do jeito que as coisas estão..sei não
À noite, o ritual continuava.
Televisão ligada.
Volume alto.
Então meu pai começou com uma das coisas que ele mais gostava de fazer: contar histórias.
E não eram histórias qualquer.
Eram histórias de espiritos
— Rapaz… vocês não sabem o que aconteceu lá no prédio essa semana — ele disse, tomando um gole de cerveja.
Eu já senti um arrepio.
— Ih… lá vem — falei, me encolhendo no sofá. Eu morria de medo, mas também era muito curiosa
Jandira olhou pra ele, meio desconfiada.
— Jorge, não começa…
— Não, escuta — ele insistiu. — Tinha um andar lá… que ninguém queria subir de madrugada.
— Por quê? — perguntei, já arrependida.
Ele fez um silêncio dramático.
— Porque a luz acendia sozinha.
Eu arregalei os olhos.
— Ah, para!
— Tô falando sério.
— Isso é problema na fiação — Jandira disse, tentando parecer calma.
— Também pensei isso… até ver a porta do elevador abrir… sem ninguém apertar.
— paaai — eu já estava puxando as pernas pro sofá.
Ele continuava, completamente sério.
— E quando abriu… não tinha ninguém.
Engoli seco.
— Pai… para com isso.
— Vocês têm medo demais.
— Com razão! — respondi.
Ele riu.
— Ainda tem mais.
— Não tem não!
— Tem sim.
E lá vinha outra história.
— Um colega meu disse que viu uma mulher de branco no estacionamento…
— Chega! — falei, tampando os ouvidos.
Jandira já estava abraçada com uma almofada.
— Eu não vou conseguir dormir hoje.
— Vocês são muito impressionáveis — ele dizia, rindo.
Mas continuava contando.
E quanto mais ele falava… mais eu ficava nervosa.
Meu coração acelerado.
Imaginando tudo.
Vendo coisa onde não tinha.
Eu tentava prestar atenção no programa de tv, mas não conseguia
— Eu vou dormir — falei, levantando.
— Já? — ele perguntou.
— Antes que eu tenha um ataque.
Jandira levantou também.
— Eu vou junto.
— Duas medrosas — ele disse, rindo.
— Boa noite — respondi, já andando rápido pro quarto.
Deitei.
Apaguei a luz.
E me arrependi na mesma hora.
A escuridão parecia maior.
Mais pesada.
Qualquer barulho parecia estranho.
O vento na janela.
O ventilador girando.
Até o silêncio fazia barulho.
Fechei os olhos.
Tentei dormir.
Mas as histórias não saíam da minha cabeça.
A mulher de branco.
O elevador abrindo sozinho.
A luz acendendo…
— Ai, meu Deus… — murmurei, virando pro outro lado.
Puxei o lençol até o pescoço.
Como se aquilo fosse me proteger de alguma coisa.
Não sei quanto tempo passou.
Minutos?
Horas?
Parecia uma eternidade.
Até que eu desisti.
— Não dá.
Liguei a luz do quarto e fiquei sentada na cama. Peguei um caderninho onde eu fazia minhas anotações de estudo, tentando ocupar minha mente com alguma. coisa.
Até que conseguir um certo sucesso. Então resolvi ia até a cozinha beliscar alguma cosia para comer
Levantei devagar, tentando não fazer barulho.
Abri a porta do quarto.
O corredor estava escuro.
Caminhei rápido.
Quase correndo.
Quando me aproximei da sala… ouvi a televisão.
E a música.
“Você virou saudade…”
Parei por um segundo.
Reconheci na hora. Era do Só Pra Contrariar.
Segui em direção à sala.
Sem saber que… ia encontrar uma cena completamente inesperada.
E entrei.
De uma vez.
Foi quando eu vi. Meu pai sentado na sua poltrona, corpo inclinado para trás. Na tela uma mulher de cabelos escuros e olhos ardentes dançava ao som da musica. Ela não vestia nada na parte de cima, os peitos dela eram grandes e redondos
Olhei de novo para meu pai que estava com a mão… a mão segurando o seu pau. O movimento era furtivo. O cotovelo se flexionava com uma regularidade mecânica, um ritmo próprio que nada tinha com a música da TV.
os olhos meio fechados, a expressão um misto de concentração e prazer
Quando ele abriu os olhos e me viu ele reagiu como se tivesse sido picado por uma corrente elétrica. O corpo se ergueu de um salto, a mão retraindo-se com uma velocidade quase cômica, como se tentasse esconder não apenas a ação, mas a própria existência da mão.
Ele puxou o shorts de dormir, que estava no chão, ainda entre as pernas e vestiu-se. Os olhos, agora completamente abertos e alertas, encontraram os meus. A vergonha neles era tão pura, tão humana, que por um segundo eu quase senti pena.
— Filha !!? o que você ta fazendo aqui!!? A voz dele estava rouca, diferente. “Eu… você…”
— Eu não conseguia dormir por causa das historias que o senhor contou, acabei levantando. Fiquei com fome e ia na cozinha comer algo
— Entendi
Então ficou um silêncio estranho na sala. Silêncio que me refiro era entre nós, porque a tv continuava ligada com a mulher dançando semi nua.
— Pois então, vou pra cozinha, licença
Sai da sala toda sem jeito. Fiquei alguns minutos lá sentada comendo biscoito. Foi então que escutei ele desligar a televisão.
Aquele dia me marcou muuuuuito, foi a primeira vez que vi meu pai de um jeito diferente. Nunca me passou pela cabeça que meu pai batinha punheta nas madrugadas. A visão que eu tinha dele até aquele momento era de um homem quase "santo". Hoje quando me pego pensando nisso, me acho tão boba, mas enfim a gente constrioi imagens das pessoas que nem sempre condiz com a realidade.
Voltei pro quarto e agora o que me impedia de dormir não eram mais as historias que meu pai tinha contato, mas sim a imagem dele sentado, de olhos fechados, respiração ofegante com seu pau na mão.


