O Caribe parecia irreal.
Mesmo depois de tudo que vivi, de todas as viagens e excessos da minha vida… nada tinha me preparado para aquela ilha.
A água era de um azul quase absurdo. Transparente. O tipo de cor que faz você pensar que alguém aumentou a saturação do mundo.
Livia observava tudo pela janela do barco que fazia a travessia até o resort.
Os cabelos cacheados balançavam com o vento quente enquanto ela mantinha os olhos fixos no horizonte.
Eu observava ela discretamente.
Ainda parecia estranho pensar que estávamos ali daquele jeito.
Pai e filha fingindo ser um casal.
Quando o barco finalmente atracou no píer privado do resort, senti meu coração acelerar.
Um funcionário elegante nos recebeu imediatamente.
— Mister and Miss Gonzales, welcome to Elysium Eden Resort.
Livia olhou rapidamente para mim tentando segurar o riso.
Eu apertei discretamente a mão dela.
Precisávamos parecer naturais.
Subimos juntos pela passarela de madeira cercada por palmeiras gigantes até a recepção principal.
O lugar parecia um templo tropical de luxo.
Madeira clara.
Fontes de água.
Música ambiente suave.
O cheiro doce de flores e maresia misturados no ar.
A recepcionista sorriu para nós.
— Welcome, couple Gonzales. ( Bem vindo, casal Gonzales)
Livia apertou minha mão com mais força.
Acho que o nervosismo finalmente estava começando a bater nela também.
A mulher começou a explicar as regras do resort num inglês impecável enquanto entregava pulseiras douradas de acesso.
— Minimum stay is three nights. (A estadia mínima é de três noites.)
Assenti.
— Check-in starts at 3 PM and check-out is at noon. (O check-in começa às 15h e o check-out é ao meio-dia)
Livia escutava tudo em silêncio.
— Public displays of affection are restricted to designated areas only: playroom, nude pool and hot tub zones. (Demonstrações públicas de afeto são restritas a
áreas designadas: sala de jogos, piscina de nudismo e áreas com banheira de hidromassagem.)
Vi Livia prender o riso.
Continuei sério.
— Free Wi-Fi is available in common areas. (O acesso Wi-Fi gratuito está disponível nas áreas comuns.)
A mulher continuou:
— Cancellation policy requires seventy-two hour notice. (A política de cancelamento exige aviso prévio de setenta e duas horas.)
Ela então apontou para um pequeno folheto elegante.
— Dress code is mandatory in restaurants, gym, sports courts and wine bar areas.(O código de vestimenta é obrigatório em restaurantes, academia, quadras
esportivas e áreas de bares de vinho.)
Livia cochichou perto do meu ouvido:
— Pelo menos alguma roupa ainda existe nesse lugar.
Segurei a risada.
A recepcionista continuou:
— Mobile phones are prohibited in intimate zones of the resort for guest privacy.(O uso de telefones celulares é proibido em áreas reservadas do resort para
garantir a privacidade dos hóspedes)
Assenti novamente.
Mais regras vieram.
Consentimento obrigatório.
Respeito absoluto aos hóspedes.
Fotografias proibidas.
Sigilo sobre identidades.
Tudo parecia extremamente organizado.
Quase clínico.
No fim, a recepcionista sorriu novamente.
— We hope you enjoy paradise together. (Esperamos que vocês desfrutem do paraíso juntos)
Livia ficou vermelha.
Pegamos as chaves da suíte e seguimos acompanhados por um funcionário até nossa acomodação.
No caminho, vimos partes da ilha.
Casais caminhando de mãos dadas.
Piscinas enormes cercadas por coqueiros.
Música vindo de áreas mais distantes.
Risos.
Corpos bronzeados.
Luxo.
Desejo.
Liberdade.
Era um mundo completamente separado da realidade.
Nossa suíte ficava perto da parte mais tranquila da ilha.
Quando a porta abriu, Livia soltou um “uau” involuntário.
Cama gigantesca.
Varanda privada com vista para o mar.
Hidromassagem interna.
Frutas exóticas e champanhe esperando numa mesa.
Fiquei olhando aquilo tudo tentando acreditar que realmente estava ali.
Livia colocou as malas no chão e me olhou.
— Isso é muito surreal.
— Bastante.
Ela caminhou até a varanda.
O vento do mar entrou forte no quarto.
Fui até ela.
Por alguns segundos apenas observamos o oceano.
Depois ela falou:
— Vamos nos aventurar?
Olhei para ela.
— Claro.
E foi exatamente isso que fizemos.
No primeiro dia decidimos explorar apenas o lado mais conservador do resort.
Sem áreas íntimas.
Sem festas.
Sem nudez.
Só tentando entender onde estávamos.
Pegamos um passeio de barco ao redor da ilha.
O mar parecia infinito.
Depois andamos de jetski.
Livia ria alto enquanto acelerava na água como uma criança.
Aquilo me fez esquecer da doença por alguns minutos.
Esquecer do tumor.
Do tempo acabando.
Mais tarde almoçamos num restaurante à beira-mar.
Lagosta grelhada.
Frutas desconhecidas.
Bebidas tropicais absurdamente caras.
Livia experimentou um prato apimentado local e quase morreu tossindo.
Eu ri tanto que senti lágrimas nos olhos.
Passeamos por jardins tropicais.
Bebemos vinho olhando o pôr do sol.
Caminhamos descalços pela areia.
Tiramos algumas fotos
E aos poucos fomos relaxando.
Nos acostumando.
Quando a noite caiu, voltamos para a suíte cansados.
Livia sentou na cama tirando as sandálias.
— Até agora parece só um resort de luxo estranho.
Ri.
— Você ainda não viu metade.
Ela me olhou.
Silêncio.
O ar-condicionado soprava frio no quarto.
Lá fora o som do mar preenchia a noite.
Então eu falei:
— Acho que amanhã vou dar um passo mais ousado.
Ela ficou alguns segundos pensando.
— O que o senhor vai fazer !?
— Vou visitar a parte da praia que é liberado andar pelado
Ela ficou calada, então continuei
— Filha, você não precisa ir comigo, o mais importante foi eu conseguir ta aqui dentro.
— Quer saber de uma coisa? Estamos aqui, não estamos? não faz sentido eu vim como você e ficar presa em uma parte da ilha
Olhei para minha filha.
— Olha, tem certeza?
— Tenho, vou aproveitar tudo que pude ao lado do senhor
— Combinado então. Amanhã a gente vê o que tem pra gente curtir
