Assim que nos vimos a imagem do que aconteceu na noite anterior tomou conta de mim, e a julgar pela reação dele, também tomou conta dele.
Me aproximei da garrafa de café vermelha, peguei uma xicara e me servi.
— Cadê a Jana!? perguntei me referindo a minha madrasta
— Foi no mercado aqui do lado
Sentei a mesa, peguei um pedaço de pão que estava dentro de um saco plástico, baixei a cabeça e continuei comendo. Ficamos em silêncio, ele tomando café,
lendo um jornal e eu comendo pão.
Até que ouvimos o barulho do portão de casa, barulho do chaveiro das chaves balançando.
Começo a escutar passos nas escadas, o barulho dos passos foi se aproximando, então eis Jandira surge na cozinha.
Ela chega com duas ou três sacolas, não me lembro direito, ela começou a guardar as compras, falando sem parar.
— O tomate tá um absurdo… o óleo então nem se fala…
Mas era um monólogo.
Porque eu e meu pai… continuávamos calados.
E claro… ela percebeu.
— O que vocês dois tem hein? — ela parou, olhando de um pro outro. — Estão tão calados… o que aconteceu?
Meu pai foi rápido.
— Nada mulher, você sabe que eu gosto de tomar meu café lendo jornal quieto no meu canto
— E você Jorgiana!?
— O que tem eu!?
— Ta calada porque!?
— Eu, é sono, só isso. Dormi mal de ontem pra hoje
— Foi culpa do seu pai né!?
Eu quase cuspi o café.
Meu pai travou por um segundo.
Eu senti.
Senti o olhar dele vindo na minha direção, rápido… desconfiado.
Como se perguntasse em silêncio:
“Você vai falar?”
Respirei fundo.
— Foi… fiquei com aquelas histórias na cabeça.
Jandira balançou a cabeça.
— Tá vendo, Jorge? Assustou a menina.
“Ela não imagina o quanto… e com o quê”, pensei.
Meu pai voltou pro jornal.
Mas agora… sem ler nada.
O domingo caminhava com a normalidade de sempre, almoçamos de frente da televisão assistindo o domingo legal.
Riamos com o quadro no “táxi do gugu”, nem lembro mais se chamava exatamente assim.
Na televisão, duas mulheres gritavam desesperadas enquanto uma pessoa vestida de gorila tentava entrar no carro.
Meu pai apontou pra tela, rindo.
— Eu aposto que vocês iam ficar assim.
Jandira cruzou os braços, fingindo indignação.
— Olha aí, pretinha… seu pai agora é o grande corajoso e a gente as medrosas…
Olhei pra ele, segurando o riso.
— Corajoso ele é mesmo…
Fiz uma pausa, como se estivesse pensando.
— Principalmente de madrugada… enfrenta cada coisa sem nem piscar.
Meu pai congelou por um segundo.
Eu vi.
Ele desviou o olhar rápido pra televisão, pegando o controle como se estivesse muito interessado no volume.
— É… vigilante tem que ser assim mesmo — respondeu, meio seco.
Jandira nem percebeu.
Meu pai lançou um olhar rápido na minha direção.
Aquele olhar.
Meio sério.
Meio implorando silêncio.
Eu apenas dei um gole no suco, fingindo normalidade.
Mas por dentro… eu estava me divertindo. Não imaginava que ele ia ficar tão nervoso com medo da minha madrasta saber que ele batia punheta de madrugada
para a garota do chuveiro.
Logo depois do quadro do táxi, entrou outro clássico, a banheira do gugu. Na televisão, o apresentador anunciava o quadro, e os participantes entravam.
“Hoje com… Gigi! — ele dizia.”
— Quem é essa? — Jandira perguntou.
— Acho que é modelo — respondi.
Na mesma hora, o gugu ficou procurando uma foto para mostrar, até que eventualmente ele mostrou uma página da revista, onde a loirinha estava com os
peitos à mostra.
Eram peitos pequenos, menos que o meu, mas bonitos.
Olhei rapidamente… depois virei pro meu pai, segurando o riso.
— Interessante esse programa, né pai?
Ele respondeu rápido, tentando parecer normal:
— Sim…
Fez uma pausa.
— Lembra aquele outro programa, né…
Jandira virou na hora.
— Que outro programa!?
Ele travou.
— Eu… não lembro o nome.
Eu abaixei a cabeça, mordendo o lábio pra não rir.
Jandira continuou, sem desconfiar de nada:
— Isso não é justo… mostra a revista da moça, mas não mostra a do rapaz.
— Verdade
Comecei a rir.
— Tem que ser justo mesmo!
Jandira entrou na onda.
— Claro! Se mostra de um lado, tem que mostrar do outro!
— Igualdade! — completei, rindo.
Nós duas começamos a rir juntas.
Alto.
Solto.
Enquanto isso…
Meu pai permanecia em silêncio.
Sério.
Olhando pra televisão…
De vez em quando, ele coçava o bigode.
Mudava de posição na cadeira.
Claramente desconfortável.
Eu olhei de lado pra ele… e ri mais ainda.
Faculdade, estágio, ônibus cheio, calor, cansaço.
Mas dentro de casa…
eu tinha um novo passatempo.
Provocar meu pai.
Discretamente, claro.
Só o suficiente pra ele entender.
E ninguém mais.
Na segunda-feira de manhã, enquanto ele me acordava como sempre, eu ainda de olhos fechados soltei:
— Vai trabalhar ou vai assistir… aquela programação
Silêncio.
Quando abri os olhos, ele estava me olhando.
Sério.
— Levanta logo — disse, seco.
Eu sorri.
a quarta, foi ainda melhor.
Eu estava arrumando umas coisas na sala quando resolvi limpar um armário antigo.
Um daqueles que a gente quase nunca mexia.
Abri.
Revistas velhas.
Jornais.
Papéis.
Até que encontrei.
Uma pilha… bem organizada.
Escondida no fundo.
Puxei devagar.
E vi a capa.
Reconheci na hora.
— Não acredito… — sussurrei.
Revistas.
Daquelas.
Folheei uma.
Depois outra.
Datas antigas.
Algumas mais recentes.
— Olha só você, pai — falei baixinho, rindo sozinha.
Naquela noite, esperei o momento certo.
— Pai…
— Oi?
— A gente precisa organizar aquele armário da sala.
Ele nem olhou.
— Depois a gente vê isso.
— Tem umas coisas lá… interessantes.
Agora ele olhou.
Direto.
— Que coisas?
Dei de ombros.
— Ah… umas leituras.
Ele travou.
Por um segundo.
— Não mexa nas minhas coisas — disse, tentando manter a calma.
Eu sorri.
— Relaxa… seu segredo tá seguro comigo.
Ele passou a mão no rosto.
— Você não tem jeito.
— Aprendi com o senhor.
O que eu não imaginava… era que o “castigo” pelas minhas brincadeiras já estava sendo preparado.
E veio no sábado à noite.
Jandira já tinha ido dormir.
Eu estava no quarto, deitada
Até que ouvi a voz dele na porta.
— Jorgiane… vem comigo na sala pra eu te mostrar uma coisa.
Levantei a cabeça, desconfiada.
— O que foi?
— Não é nada demais — ele respondeu, com um tom estranho… quase controlado demais.
Franzi a testa.
Mas fui.
Caminhei pelo corredor até a sala.
E quando entrei…
a televisão estava ligada.
No Sabadão.
A mesma cena da “gata molhada” do outro dia.
Parei no meio do caminho.
— Ué… o que foi?
Ele estava sentado na poltrona
almo.
Sério.
Diferente.
— Pelas piadinhas que você andou fazendo durante a semana… — ele começou — você vai ficar de “castigo” comigo.
Cruzei os braços.
— Castigo?
— Vai assistir o programa… e ler as revistas comigo.
Arregalei os olhos.
— O senhor não tá falando sério!?
— Estou sim. E muito.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Processando.
Depois soltei uma risada.
— É sério mesmo!!?
— Você quis brincar… agora aguenta.
Balancei a cabeça, ainda rindo.
— Eu não acredito nisso.
Ele apontou pro sofá.
— Senta.
— Não vou.
— Vai sim.
— Não vou nada!
Ele levantou uma sobrancelha.Ele realmente estava falando sério.
Depois, com toda a calma do mundo, puxou uma revista de baixo da mesa.
Colocou na minha frente.
— Pode começar.
Olhei pra revista.
Depois pra ele.
— Eu não vou ler isso.
— Vai sim.
— Não vou.
Ele cruzou os braços.
— Então fica só assistindo.
Olhei pra televisão.
Depois pra revista.
Depois pra ele.
E comecei a rir.
— Isso é muito absurdo.
— Foi você que começou.
Balancei a cabeça.
— Eu só fiz umas piadinhas!
— Pois agora aguenta as consequências.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
A música tocando.
A televisão iluminando a sala.
E aquela situação completamente surreal.
Peguei a revista.
Abri.
Fechei.
Abri de novo.
— Eu não sei nem onde olhar.
Ele riu.
— Olha normal.
— Normal!?
— É só uma revista.
Olhei pra ele, incrédula.
— Só uma revista…
— Só.
Respirei fundo.
— Tá bom… mas eu vou reclamar.
— Fique à vontade.
Comecei a folhear, ainda rindo.
— Meu Deus…
Ele olhava de lado, segurando o riso.
— Tá vendo como não é o fim do mundo?
— O senhor é muito sem vergonha.
— Eu sei.
Ele fez uma pausa, olhando pra televisão, como se pensasse se devia continuar.
— Mas só você pode saber disso.
Olhei pra ele, curiosa.
— Mas por que o senhor não pode contar pra Jandira?
Ele respirou fundo.
— Ela não entenderia… acha errado eu ter esse tipo de… momento sozinho.
Franzi a testa.
— Mas é estranho mesmo… o senhor tem ela.
Ele assentiu, sem negar.
— Sim… mas às vezes… nós homens precisamos disso.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Eu não consigo entender.
Ele apoiou os braços nas pernas, falando mais calmo agora.
— Nem tudo é tão simples quanto parece, Jorgiane.
Olhei pra ele, prestando atenção de verdade dessa vez.
— Como assim?
— Tem dias que eu quero esse momento só pra mim
Fiquei mexendo na ponta da revista, pensativa.
— Eu nunca pensei nisso — falei.
— Nem precisava pensar — ele respondeu.
— Mas agora tô pensando.
Ele riu de leve.
— Culpa sua… que foi mexer onde não devia.
— Ei! — protestei — eu não sabia!
— O senhor tem medo dela descobrir? — perguntei.
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Não é medo… é evitar problema desnecessário.
Assenti devagar.
— Entendi.
— Tem coisas que a gente guarda pra evitar complicação.
Olhei pra ele.
— Tipo isso?
— Tipo isso.
Baixei os olhos.
Aquela conversa tinha saído de um lugar totalmente inesperado… e ido pra outro completamente novo.
— Engraçado… — murmurei.
— O quê?
— Eu comecei a semana zoando o senhor…
— E terminou tendo uma aula — ele completou.
Ri.
— Uma aula bem estranha, inclusive.
Ele riu também.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Achei que a conversa tinha terminado ali.
Mas então ele falou, com um tom meio provocativo:
— Bom… agora vou continuar de onde você me interrompeu na outra noite.