Por alguns segundos fiquei olhando o teto branco da suíte tentando lembrar onde estava.
Então ouvi o mar.
E lembrei.
Elysium Eden.
A ilha.
O resort.
Livia ainda dormia na outra ponta da cama gigantesca, enrolada parcialmente no lençol fino. Os cabelos pretos cacheados espalhados pelo travesseiro.Ela vestia um babydoll cinza com detalhes em rosa. Sua bunda grande transbordava pelo short
Levantei devagar para não acordá-la.
Fui até a varanda.
O céu começava a ganhar tons alaranjados enquanto o vento quente do Caribe passava pela minha pele.
Respirei fundo.
Talvez fosse a proximidade da morte.
Talvez fosse aquele lugar.
Mas tudo parecia mais intenso.
Mais vivo.
Quando Livia acordou, tomamos café da manhã num restaurante aberto perto da praia.
Frutas tropicais.
Café forte.
Pães doces.
Ela parecia mais relaxada do que nos últimos meses.
Mais leve.
Depois de algum tempo em silêncio, eu apoiei os cotovelos na mesa.
— Então…
ela olhou para mim.
— Então o que?
— Você vai mesmo vim comigo!? Não quero pressionar você a nada
Ela assentiu lentamente.
— Não está e se a ideia daqui é liberdade… acho que preciso parar de pensar tanto.
Fiquei observando minha filha por alguns segundos. Ela parecia decidida mesmo
Terminamos o café e seguimos andando pela ilha.
Decidimos experimentar algumas atividades do resort antes de ir para a parte de ficar sem roupas
O lugar oferecia experiências para casais durante o dia inteiro e resolvemos usufruir dessas coisas
Livia pegou a programação digital e começou a ler.
— “Oficina de aconselhamento para casais.” — ela falou. — Isso parece ser algo tranquilo, vamos!!?
— Vamos!! respondi
Foi assim que acabamos numa sala circular cheia de sofás baixos e iluminação suave.
Havia outros casais ali.
Jovens.
Velhos.
Casais do mesmo sexo.
Pessoas completamente diferentes entre si.
No centro da sala, uma terapeuta sorridente começou a conduzir a atividade.
— Relationships are built on vulnerability. ( Os relacionamentos se constroem sobre a vulnerabilidade)
Livia me lançou um olhar discreto.
A mulher continuou falando sobre confiança, comunicação e intimidade emocional.
Depois vieram perguntas.
“Qual é o maior medo do seu parceiro?”
“O que faz ele se sentir amado?”
“O que vocês nunca tiveram coragem de dizer um ao outro?”
A terapeuta passava de casal em casal. Pedia que os casais se olhassem nos olhos no momento da pergunta. Quando chegou a nossa vez ela pediu que Livia fizesse a primeira pergunta e ela fez:
— Qual é o seu maior medo?
— De morrer
Ela engoliu seco.
— Mas não da morte em si.
Levantei os olhos para ela.
— Tenho medo de deixar você sozinha.
Os olhos verdes dela ficaram marejados imediatamente. A terapeuta ao lado parecia feliz com o desempenho da gente
Ela desviou o rosto por um instante.
Quando voltou a olhar para mim, perguntou:
— E você acha que eu tenho medo de quê?
Sorri triste.
— De me perder!?
Ela assentiu lentamente.
Nenhum de nós conseguiu falar por alguns segundos.
A terapeuta caminhava pela sala orientando os casais enquanto uma música suave tocava ao fundo. Até que chegou a vez da segunda pergunta
Novamente Livia iniciou
— O que faz você se sentir amado?
Aquela era uma pergunta difícil, o que um homem que aprendeu a ficar só responderia? Depois de pensar muito, falei
— Quando você me ajudou a realizar meu sonho
Ela riu e eu devolvi a pergunta, então ela respondeu dizendo que se sentia amada por eu ser atencioso, carinhoso, cuidadoso e por sempre estar presente nos momentos mais difíceis da vida dela
Novamente a terapeuta demonstrou satisfeita com o nosso desempenho.
Por fim, veio a terceira e última rodada de perguntas, novamente Livia iniciando
— O que o senh...digo você nunca teve coragem de dizer pra mim?
— Que você não fica bem de oculos de grau
— Nossa, e você dizia que eu ficava linda, quanta falsidade pa... amor
— E você o que nunca teve coragem de dizer?
— Hum..que você é um péssimo cozinheiro
Fiquei indignado.
— Isso é mentira.
— Pa… digo amor… você quase incendiou a cozinha tentando fazer bacalhau uma vez.
Riamos sem parar. Depois da oficina veio outra atividade.
“Exercícios práticos para aprofundamento de conexão.”
Mas havia algo misterioso por trás daquilo.
A especialista responsável pela atividade era uma mulher baixa de cabelos grisalhos presos num coque elegante.
Ela falava com uma calma quase hipnótica.
Explicou que aquela prática envolvia técnicas somáticas e tântricas profundas.
— Algumas pessoas podem experimentar tremores… pulsação involuntária… movimentos espontâneos do corpo…
Ela caminhava lentamente entre os casais enquanto falava.
— Algumas reações serão sutis. Outras mais intensas.
Livia me lançou um olhar desconfiado.
Eu apenas dei de ombros.
Depois de um pequeno “minicurso” sobre respiração, presença e condução corporal, a especialista anunciou:
— Agora vocês estão aptos para praticar um no outro.
Senti meu coração acelerar um pouco.
Livia se aproximou lentamente até ficar na minha frente.
A orientação era simples.
Eu deveria segurar as mãos dela.
Ela precisava relaxar.
Fechar os olhos.
Permitir que o corpo soltasse tensões acumuladas.
Livia respirou fundo antes de fechar os olhos.
Segurei as mãos dela cuidadosamente.
As mãos dela estavam quentes.
A especialista se aproximou discretamente e começou a sussurrar instruções no meu ouvido.
Frases curtas.
Mantras.
Palavras sobre entrega, confiança e respiração.
Repeti baixinho para Livia
— Respira…
— Solta…
— Permite…
Os minutos começaram a passar lentamente.
No início nada aconteceu.
Livia permanecia parada.
Mas então percebi pequenos tremores nos dedos dela..
Sutis.
Quase imperceptíveis.
Continuei guiando a respiração dela.
A especialista observava tudo atentamente.
— Muito bem… — ela sussurrou para mim.
Os tremores começaram a aumentar.
Os ombros dela estremeceram levemente.
Depois os braços.
Livia soltou o ar de forma trêmula.
Como se algo preso dentro dela estivesse finalmente começando a sair.
Continuei segurando as mãos dela.
— Está tudo bem — falei baixinho.
Os tremores ficaram mais intensos.
O corpo dela começou a reagir espontaneamente.
Pequenos movimentos involuntários.
Respirações profundas.
Como se anos de tensão emocional estivessem sendo arrancados dela aos poucos.
O corpo dela passou a tremer com mais intensidade.
Os movimentos começaram sutis, mas logo ganharam força suficiente para fazer Livia inclinar o corpo para trás.
Instintivamente segurei firme as mãos dela.
Ela arqueou levemente as costas até encostar o corpo no meu peito.
O pescoço dela tombou para trás enquanto a respiração saía descompassada.
Olhei imediatamente para a instrutora, assustado.
— Não interrompa — ela disse em voz baixa e calma.
Engoli seco.
Livia continuava tremendo.
Os olhos fechados.
O rosto contraído.
Continuei segurando ela.
A instrutora se aproximou um pouco mais e falou em voz baixa no meu ouvido:
— Diga coisas afetivas. Memórias felizes. Situações românticas que tragam segurança emocional.
Olhei para ela completamente perdido.
Românticas?
Mas que coisas eu poderia dizer?
Eu e Livia não éramos um casal de verdade.
O nervosismo tomou conta de mim.
Então comecei a improvisar.
Inventar.
Puxando referências aleatórias da memória.
— Lembra, meu amor… daquele nosso primeiro beijo…?
A frase saiu hesitante.
Por algum motivo lembrei de uma cena antiga da novela América. O casal na chuva. A intensidade exagerada típica das novelas.
A instrutora assentiu discretamente com a cabeça, como se eu estivesse indo no caminho certo.
Olhei para Livia.
O corpo dela ainda tremia… mas menos.
Então continuei.
— Dos nossos lábios se encontrando lentamente
Livia soltou um leve gemido: "aaaah"
— Enquanto eu envolvia seu corpo num abraço
A respiração dela começou a desacelerar.
Os tremores diminuíram ainda mais.
Senti o corpo dela relaxando contra o meu peito.
Então continuei, agora entrando completamente na fantasia improvisada.
— Então você me abraçou de volta
A instrutora sorria discretamente observando tudo.
Livia soltou o ar lentamente.
E então…
parou completamente de tremer.
O corpo dela relaxou de vez.
Ela permaneceu apoiada em mim por alguns segundos antes de abrir os olhos devagar.
Os olhos verdes estavam úmidos.
Mas calmos.
Muito calmos.
Olhou para mim ainda encostada no meu peito.
Então perguntei baixinho:
— Você tá bem?
Ela sorriu.
Um sorriso sereno.
Quase iluminado.
— Eu nunca me senti tão bem antes…
A frase me atingiu profundamente.
A instrutora parecia satisfeita.
— Excelente conexão emocional — comentou.
Mas eu quase não ouvi.
Porque naquele momento eu só conseguia olhar para Livia.
Para a paz no rosto dela.
Para a maneira como ela continuava próxima de mim.
Como se realmente tivesse encontrado segurança ali.
Ela ainda segurava minhas mãos.
E parecia que ela não queria me soltar e para ser sincero eu também não.
pareceu natural demais continuar daquele jeito.
Depois daquela atividades decidimos enfim ir ao ambiente naturista
Continua..
