Ela permaneceu me olhando em silêncio na varanda.
O vento balançava os cachos escuros do cabelo dela enquanto a luz amarelada da área externa iluminava parcialmente seu rosto.
— Que tipo de coisas? — perguntou.
Respirei fundo.
Olhei para o vinho na minha taça antes de responder.
— O lugar não é… comum.
Ela soltou uma pequena risada.
— Pai, o senhor literalmente chamou de resort hedonista. Eu imaginei que não fosse um retiro espiritual.
Acabei rindo também.
— Justo.
Fiquei alguns segundos organizando as palavras.
— O resort fica numa ilha privada no Caribe. Bem isolada. Luxuosa. Daquelas que parecem saídas de filme.
Ela escutava em silêncio.
— Tem festas temáticas… bem apimentadas.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Apimentadas quanto?
— Bastante.Bom, pelo menos foi o que eu li
Ela soltou um “meu Deus” baixo enquanto eu continuava.
— Tem piscinas abertas vinte e quatro horas… bosques com trilhas privadas… spa… quadras esportivas… cinco restaurantes…
— Até aí parece um resort normal.
Balancei a cabeça devagar.
— Também existem áreas naturistas.
Ela piscou algumas vezes.
— Naturistas tipo…
— Pessoas sem roupa.
Ela tampou o rosto por um instante, rindo incrédula.
— Pai…
— Você perguntou.
Continuei antes que ela desistisse da ideia.
— Tem areas reservados para hóspedes mais discretos… outros para quem gosta de experiências mais… livres.
Ela me encarava agora completamente sem reação.
— E existe um playroom.
— Um quê?
Cocei a barba por um instante, sem saber exatamente como explicar aquilo para a própria filha.
— Um espaço… adulto.
Ela arregalou os olhos.
— Ah meu Deus.
Eu ri.
— Estou tentando ser honesto com você.
Ela ficou em silêncio alguns segundos.
O barulho dos grilos preenchia a noite ao redor da varanda.
Então ela respirou fundo.
— Só isso?
Franzi a testa.
— Como assim “só isso”?
Ela deu de ombros.
— Achei que o senhor fosse revelar algo pior.
Fiquei olhando para ela sem acreditar.
— Livia… você entendeu o tipo de lugar que estou descrevendo?
— Entendi.
— E ainda quer ir?
Ela me olhou diretamente nos olhos.
— Se isso realmente significa algo pro senhor… eu vou.
Minha garganta apertou.A frase me atingiu como um soco silencioso.
Desviei o olhar por um instante.
Nunca imaginei ouvir uma demonstração de amor daquela forma.
Fiquei alguns segundos quieto antes de pegar o celular no bolso.
— Então… acho melhor eu fazer a reserva antes que você mude de ideia.
Ela riu.
Abri o site do resort.
As fotos pareciam irreais.
Mar azul cristalino.
Piscinas iluminadas.
Casais sorrindo sob tochas tropicais.
O nome do lugar brilhava elegante na tela.
Elysium Eden Resort.
Olhei o relógio no canto do celular.
Liguei rapidamente.
Depois de alguns segundos uma mulher atendeu com uma voz suave em inglês.
Passei quase vinte minutos resolvendo detalhes.
Datas.
Suíte.
Pacote premium.
Regras do resort.
Quando desliguei, fiquei olhando para o celular por um instante.
Livia cruzou os braços.
— Então?
Olhei para ela.
Ainda parecia absurdo dizer aquilo em voz alta.
— Está feito.
Ela sorriu nervosa.
— Sério?
Assenti devagar.
— Reserva feita no nome do casal Gonzales.
Ela soltou uma gargalhada incrédula.
Eu comecei a rir junto.
E pela primeira vez desde o diagnóstico… senti algo parecido com animação.
Mais tarde naquela noite, já dentro da casa, sentamos na sala com uma garrafa de uísque entre nós.
A luz baixa deixava o ambiente aconchegante.
Livia estava enrolada num cobertor fino no sofá enquanto eu ocupava a poltrona antiga perto da janela.
Ela me olhou por cima do copo.
— O senhor já viveu muita coisa, né?
Soltei uma risada baixa.
— Mais do que devia.
— Conta uma aventura sua.
Balancei a cabeça.
— Você vai perder o respeito pelo seu pai.
— Acho que depois dessa história do resort isso já ficou impossível.
Ri alto.
Então comecei a contar.
Falei de viagens.
Mulheres.
Cassinos no Uruguai. Minha primeira viagem para fora do pais onde conheci uma cantora argentina com quem quase fugi
"dessa mulher eu nunca soube e o que houve que voces não ficaram juntos?"
— Ela era muito intensa, se é que me entende
Livia riu
Contei de quando fui expulso de uma festa depois que bebi absinto
"E é muito forte!!?" ela perguntou
— Muito
Falei das cavalgadas bêbadas durante madrugadas no interior do Mato Grosso.
Amores rápidos.
Loucuras como ficar com a mulher casada
Erros.
Livia escutava tudo em silêncio.
Às vezes ria de alguma coisa engraçada que eu falava no meio das historias
Às vezes arregalava os olhos com as minhas loucuras
Mas em alguns momentos percebi algo diferente nela.
Tristeza.
Ela me observava como quem tenta guardar cada detalhe de alguém antes que seja tarde demais.
Minha voz.
Minhas risadas.
Minhas histórias.
Como se estivesse tentando memorizar o pai antes que ele desaparecesse.
Quando o relógio passou das duas da madrugada, ela já estava quieta.
Emocionada.
Olhei para ela.
— O que foi?
Ela desviou os olhos rapidamente.
— Nada.
Mas eu sabia.
Ela tinha medo.
O mesmo medo que eu também tinha.
O silêncio tomou conta da sala por alguns segundos.
Então ela levantou, veio até mim, sentou no meu colo e beijou minha testa.Como fazia quando era pequena. Depois me deu um abraço forte, seus braços
envolveram meu pescoço e o cheiro do cabelo dela trouxe um aroma refrescante.
— Oh meu amor, obrigado por esse abraço.
— Não quero perder o senhor
— Você nunca vai me perder meu amor, eu vou sempre ta com você, ouviu!!?
Ela balançou a cabeça e respondeu com “sim” com a voz falhando. Imediatamente ao perceber aquilo a emoção bateu forte em mim.
As lágrimas desceram com facilidade, ela percebeu e começou a enxugá-las com as mãos.
— Ai pai, não chora que eu não aguento
— Quem começou foi você uai!!
— rsrs o senhor tem razão. Me desculpa
— Não precisa se desculpar.
— Ta, eu vou indo dormir. Boa noite, pai.
Olhei para ela demorando um pouco mais do que o normal.
— Boa noite, filha.
E enquanto isso eu observava Livia subir subir as escadas, seu quadril se mexia de um lado para o outro, seus glúteos volumosos pareciam ganhar vida mesmo
escondidos dentro daquela roupa.
percebi que talvez aquela viagem não fosse apenas sobre frivolidades.
Talvez fosse nossa despedida.
Continua...

