— Hoje tem material didático.
— Meu Deus… você fez apostila?
— Respeita. — Ela levantou a folha. — Isso aqui é um roteiro.
— Eu não acredito nisso.
— Acredita sim. — Ela entrou e fechou a porta. — Hoje você vai aprender a usar brecha.
— Brecha?
— Brecha. Oportunidade. Gancho. A pessoa fala uma coisa, você usa aquilo pra criar conexão. Não é cantada pronta, é inteligência.
Eu suspirei.
— Tá bom… vamos passar vergonha.
— Situação número um. Eu sou enfermeira, plantão puxado. Eu falo:
“Hoje o hospital tava um caos, saí morta.”
Ela cruzou os braços, esperando.
— E aí?
Pensei.
— Você devia descansar.
Ela fechou os olhos.
— Isso é conselho de tia no WhatsApp.
— Mas é educado!
— Educado não é interessante! — disse ela. — Usa a brecha!
— Que brecha?
— “Caos”. “Morta”. “Plantão”. — ela apontava no ar. — Você pode brincar com isso.
Ela fez o exemplo:
— “Então vou ter que competir com o hospital pela sua atenção?”
Ela olhou pra ele, satisfeita.
— Tá vendo? Leve. Engraçado. Não invasivo.
Fui tentar de novo.
— Então… você precisa de um médico ou de mim?
Silêncio.
Ela ficou olhando pra mim
— Isso foi horrível.
— Por quê?!
— Soou convencido. E meio… estranho.
— Mas você falou de hospital!
— Sim, mas você entrou como salvador da pátria! — disse ela. — Você ainda não ganhou esse lugar na conversa.
Passei a mão no rosto.
— Próxima.
Ela olhou pro papel.
— Situação dois. Eu digo:
“Gosto de tomar café depois do plantão pra sobreviver.”
Ela ergueu a sobrancelha.
— Brecha clara.
Eu respirei fundo.
— Eu posso dizer… que conheço um lugar bom.
— Melhorou! — disse ela. — Continua.
— A gente podia ir qualquer dia.
Ela apontou.
— Tá vendo? Natural. Você conectou com o que eu falei.
Sorri
— Tou pegando o jeito
— Calma que ainda não acabou.
Ela fez uma pausa dramática.
— Agora você resolveu ser ousado.
— Ousado como?
— Aquela ousadia masculina burra que vocês aprendem sabe Deus onde.
— Eu não
— Vai. Finge que você quer impressionar.
Pensei por dois segundos e fale:
— Então… café é bom, mas acho que sua companhia é melhor.
Ela piscou.
— Hm.
— Foi ruim?
— Não foi péssimo — admitiu. — Mas depende do tom.
Ela cruzou os braços.
— Agora fala como você realmente falaria.
Ele respirou, meio nervoso.
— Então… café é bom… mas acho que você é mais interessante que qualquer bebida.
Ela fez cara de análise.
— Melhor. Mas ainda tá com medo.
— Porque eu tenho medo!
Ela suspirou.
— filho cantada não é agressão. É ritmo. É leitura. Você só pode subir o tom quando já existe clima.
— E como eu sei?
— Se ela responde no mesmo tom. Se brinca de volta. Se não corta.
Ela se inclinou pra frente.
— Agora vamos pro erro clássico.
— Que erro?
— A cantada grosseira masculina.
— Eu não faço isso!
— Faz sim. Ou pensa.
— Vai. Fala uma.
— Não.
— Fala.
— Eu não vou
— FILHO!!
respirei fundo, derrotado.
— Tá…
“Depois desse plantão eu podia te ajudar a relaxar. Daquele jeito gostoso”
Silêncio absoluto.
Ela ficou me encarando
— Você falaria isso?
— Não assim! — Mas tipo… algo nessa linha.
Ela balançou a cabeça devagar.
— Isso aí, filho, só funciona quando já existe intimidade. Quando a pessoa já demonstrou interesse claro.
— Mas os caras falam isso direto!
— E metade leva fora. — respondeu ela. — Você não quer ser metade.
Fiquei quieto.
— Cantada mais direta — continuou ela — tem momento certo. Não é no começo. É quando já tem risada, já tem troca, já tem olhar diferente.
Ela cruzou os braços.
— Às vezes eu fico com pressa.
— Eu sei.
— Porque parece que todo mundo já sabe fazer isso. E eu não.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Ninguém sabe no começo — disse ela. — Só que uns erram escondido e outros erram achando que tão arrasando.
Ela deu um leve sorriso.
— Você pelo menos tá tentando aprender.
— Então… eu não posso ser mais direto nunca?
— Pode. — respondeu ela. — Mas direto não é grosseiro. É confiante. Tem diferença.
Ela levantou, já cansada.
— Resumo da aula três:
Usa a brecha.
Escuta a resposta.
E só sobe o nível quando tiver sinal verde.
— E se eu não perceber o sinal?
Ela respirou fundo
— Você vai saber, confie em mim
— Mãe…
— Fala.
— Obrigado por tentar.
Ela deu de ombros.
— Eu também tô aprendendo.
— Mas eu acho que não consigo. Não desse jeito
— Desse jeito!?
— É,no fim eu não consigo agir da maneira que tenho que agir, porque como eu posso dizer...você é você, entende!!?
— Já entendi..Não precisa dizer nada. Vou pensar em uma solução pra isso. Enquanto isso tenta praticar com alguém
— Com quem!?
— Sei lá, talvez a garota da internet, ai é com você. Não posso fazer tudo por você
Ela saiu do quarto, fiquei acompanhando com o olhar a silhueta do corpo dela. Mais precisamente sua bunda por qual tinha um fascínio tremendo. Ela se virou repentinamente fechando a porta e nossos olhares se encontraram, ela deu um leve sorriso de canto de boca e eu respondi com um sorriso assustado.
Será se ela notou algo?